E então tudo acabou. O encantamento quebrou. A música parou.
— Muito bem pessoal! — Helga batia palmas animadas e todos gritaram empolgados junto com ela. — Foi ótimo para um primeiro ensaio!
Olhei pra Joshua que também me encarava, ele sorriu e eu sorri também.
— Os ensaios serão todas as sextas depois das aulas, se o Bayern não tiver nenhum jogo nesse dia! — ela brincou e todo mundo riu. — Se despeçam de seus parceiros e voltem pra suas salas.
— Tchau. — falei timidamente pra ele que estendeu a mão. Aceitei e senti um calor maravilhoso em mim. O mesmo que senti minutos atrás quando valsava em seus braços.
Dei as costas e comecei a caminhar.
— Lara não se esqueça de dar o recado para Eve.
Assenti para a professora e continuei caminhando.
— Lara! — ouvi Joshua gritar meu nome e virei com o coração acelerado. Todo mundo tinha parado pra olhar pra gente.
Ele vinha quase correndo até mim.
— Seu celular! — disse ofegante me entregando, eu tinha até esquecido.
— Obrigada. — sorri pegando e nossas mãos se tocaram de novo trazendo a mesma sensação.
Virei às costas e saí dali o mais rápido possível sentindo meu rosto queimando de vergonha!
Minha mente tava desordenada enquanto eu caminhava pelos corredores da escola. Senti alguém puxar meu braço e me prensar na parede.
Prendi a respiração no susto enquanto Sophie me encarava raivosa.
— Você vai desistir de ser par do Joshua!
— Por que?! — perguntei a empurrando de volta.
— Não é obvio lesada?! Eu que vou dançar com o Joshua!
Olhei pra cara daquela criatura mesquinha e insignificante.
— Não vou desistir. Caso você não lembre, foi a Helga que colocou ele como meu par.
Sophie se aproximou tentando me intimidar de cima dos seus quase um metro e oitenta.
— Não pense que porque seu pai é bilionário, você é especial Lara. Você é uma garota ridícula e sem sal. Os meninos riem de você.
Doeu ouvir aquilo, mas eu tive que fingir que não era nada.
— Você adora humilhar as pessoas pra se sentir melhor não é?
— Eu digo apenas a verdade Larinha. — ela pegou uma mecha do meu cabelo e enrolou nos dedos. — Pode dançar com o Joshua, no final da noite é comigo que ele vai ficar.
Sophie se afastou rindo e eu engoli a vontade de chorar. Odiava me sentir assim, uma inútil!
Voltei pra sala pra pegar minhas coisas, já tinha acabado as aulas por hoje.
O motorista estava me esperando na frente do colégio como sempre.
— Vai pra casa da Eve, por favor. — pedi e ele me olhou pelo retrovisor.
— Sua mãe disse para levá-la pra casa senhorita.
— Minha prima está doente e eu quero visitá-la. Não se preocupe que eu vou avisá-la.
O rapaz assentiu e se concentrou na direção. Tirei os sapatos de salto que já estavam me incomodado e as meias três quartos também. Procurei embaixo do banco do carro e achei as sapatilhas que eu já tinha deixado lá para situações como essa. Tirei a camisa social branca ficando somente com a camiseta que eu usava por baixo e fiz um coque frouxo no meu cabelo. Peguei o celular para avisar minha mãe.
MAMÃE EU ESTOU INDO PRA CASA DA EVE VER COMO ELA ESTÁ. BEIJOS.
Alguns minutos depois, o carro parou em frente à grande mansão que não era tão longe da minha. Nós morávamos em uma região privilegiada da cidade, luxos que o dinheiro proporciona.
Peguei a mochila e desci.
Eve e eu somos amigas desde que eu me entendo por gente. Nossos pais são primos e nossas mães, amigas de infância. Ela nasceu e foi criada no Brasil, mas isso não impediu nossas mães de nos aproximar. Sempre passávamos as férias uma com a outra aqui na Alemanha ou lá no Brasil.
Toquei a campainha e a empregada abriu pra mim. Agradeci sorrindo e entrei.
A primeira coisa que vi foi Eve jogada no sofá vestindo seu pijama de unicórnio, que eu tenho um igual por sinal e assistindo Netflix.
— Isso que é estar doente? — perguntei jogando a mochila em qualquer lugar e ela olhou pra mim.
— Minha biluxa! — a doida pulou por cima do sofá e veio me abraçar.
— Você não tava doente? — perguntei rindo.
— Você veio me ver, já melhorei.
Olhei pra cara dela, Eve era impossível!
— Conta tudo! — me arrastou pro sofá. — Eu mandei mensagem, mas você não respondeu!
— Eu vi as quase quinhentas mensagens que você mandou.
— E por que não respondeu safada? — perguntou tacando uma almofada em mim.
— Porque eu queria falar pessoalmente. — respondi rindo e desviando dos seus golpes.
— Quem são nossos pares?! Conta Lara! Conta caralho!
— Se você deixar, eu falo. — falei super calma e ela tentava sossegar.
— Anda logo Lara! Fala! Eu vou ter um treco!
— Eu vou dançar com o Joshua Berger.
Eve arregalou os olhos e soltou sua típica risada escandalosa.
— Num creio!
— Pois creia. E ainda te conto mais, a Sophie queria dançar com ele.
Dessa vez, a retardada pulou em cima do sofá e berrou a plenos pulmões.
— CHUPA SOPHIE! BEM FEITO! CHUPA SUA PUTA ENCUBADA!
— Eve para sua doida!
— Caralho eu queria ta lá pra ver isso!
— Calma que tem mais.
— Mais? — ela arregalou os olhos pra mim e sentou de novo.
Agora vem a melhor parte! Eu sabia que ela achava o Javier Rodríguez uma delícia.
— Heidi queria dançar com o Javier Rodríguez.
— Vixi! Você falou queria é porque ficou querendo, quem vai dançar com ele?
— Ele não foi.
— Sério?
— Sim e a Helga mandou um recado pra você.
— O que aquela velha mal comida quer?
— Você e o Javier foram os únicos que faltaram.
Deixei a insinuação no ar esperando que ela entendesse. Então seus olhos arregalaram e o queixo caiu.
— Não prima... não me diz que...
— Você vai dançar com o Javier Rodríguez.
Ao contrário do que eu esperava, ela não pulou e nem gritou, ficou parada me olhando.
— Eve? — chamei preocupada.
Mas aí ela soltou um grito daqueles. Tapei os ouvidos para não ficar surda.
— E EU ACHANDO QUE NÃO PODIA FICAR MELHOR! PUTA QUE PARIU!
— Eve você vai dançar com o cara e não dar pra ele.
— Quem te disse que não? — um sorriso safado brotou em seus lábios. — Priminha do meu core, você acha mesmo que eu vou perder essa chance de ouro? Não mesmo! Escreve o que eu tô dizendo Lara, Javier Rodríguez vai ser meu na noite da formatura, ou até antes disso.
Eu invejava um pouquinho essa liberdade que a Eve tinha de fazer o que dava na telha. Eu sou o oposto disso. Sou tímida e tremo na base só de pensar em contato físico com alguém. Já beijei um menino uma vez, mas foi um completo desastre. O controle que meu pai tem sobre mim e sobre a minha vida não ajuda muito.
A doida me empurrou e olhei pra ela que ria.
— O que foi? — perguntei rindo também.
— Você aí no mundo da lua. — eu tinha mania de fazer isso. — Perguntei como foi o primeiro ensaio com o Joshua.
— Foi bem. — falei tentando disfarçar meu nervosismo.
— Tem certeza? — Eve era uma águia quando se tratava disso.
— Tenho sim.
— Lara Mantovani Schmitz, eu te conheço desde sempre gata e sei quando tu ta mentindo. Anda, fala logo.
Não dava pra esconder nada dela.
— Foi... diferente. Sei lá.
— Diferente como?
— Eu senti uma coisa diferente em mim quando ficamos próximos. Um calor, uma coisa assim.
Eve arregalou os olhos e riu.
— O que foi? — perguntei a encarando.
— Isso vai ser ótimo!
— Ainda não entendi. — cruzei os braços fechando a cara.
— Calma meu neném, me deixa explicar. Você disse que quando o Joshua chegou perto, você sentiu um calor tomar conta de você, certo?
— Sim.
— Isso quer dizer que ele mexe com você, com seu lado feminino, te deixa excitada.
Olhei pra Eve horrorizada.
— É química Lara e não tem como fugir disso.
— Não! De jeito nenhum! — levantei nervosa sentindo o coração acelerar.
— Prima não tem como fugir disso, seu corpo sempre vai reagir a ele.
Lembrei-me de quando dançamos juntos, de como foi ótimo ficar entre os braços dele.
— Esse olhar aí já diz tudo.
— Não Eve, você ta enganada, foi só a emoção do momento, sei lá!
— Não tente se enganar, não vai ajudar em nada.
— E o que eu vou fazer?! — perguntei já quase entrando em desespero.
— Prima fica calma, você não vai fazer nada. Deixa acontecer naturalmente e se for pra ser, vai ser.
Inspirei devagar pra me acalmar.
— E tem o lado dele também, tem que ver como ele se sente.
— Eu sei como ele se sente. Aonde que um cara daqueles, lindo e um jogador famoso vai se interessar por uma garota como eu?! — apontei pra mim mesma tentando fazê-la entender o obvio.
— Lara já chega. Primeiro eu preciso ver ele, ver como se comporta quando ta com você e aí sim eu posso falar algo, e outra, só se ele for cego pra não gostar de você. Prima você é linda, tem uma beleza exótica, você atrai um monte de meninos e só você não percebe isso.
O comentário de Sophie sobre minha aparência veio a minha mente, mas eu achei melhor ficar quieta, Eve já não gosta dela e se souber disso, vai querer surrá-la. Ao invés de falar nisso, eu sorri pra ela.
— Sempre querendo bancar o cupido comigo, mas foge quando o assunto é você né dona Eve.
— Eu tô bem assim dona Lara, já falei. Agora me conta com quem o Noah vai dançar?
Noah era um carinha da escola com quem ela ficava de vez em quando.
Sempre quando o assunto era ela, Eve dava um jeito de fugir. Eu sabia que ela tinha sido muito machucada por um cara lá no Brasil, mas ela evitava falar disso e eu respeitava seu silêncio, pelo que tia Melissa tinha dito, a coisa foi feia. Minha prima quase entrou em depressão.
Ela tem esse jeito meio torto de viver, mas eu sei que é só um disfarce. Tenho quase certeza que ela chora sozinha trancada no quarto à noite.
— Eu não sei o nome das jogadoras do Bayern. — respondi sua pergunta dando de ombros.
— Se informa Lara.
— Pra que? Não vai me ajudar em nada.
— Mas do Joshua você sabia né? — senti a malícia em sua voz e rolei os olhos.
— Vai começar.
— Na verdade, eu já comecei. Eu vou fazer esse lance ir pra frente, ou não me chamo Evelyn Christina Bonucci Schmitz.
— Que lance? Deixa de ser doida Eve.
Antes de ela falar algo, um grito no andar de cima chamou a nossa atenção.
— EVELYN CHRISTNA BONUCCI SCHMITZ! — tia Melissa gritou e olhamos uma pra cara da outra.
Ela só chamava a Eve assim quando tava muito puta!
— O que você fez? — perguntei pulando do sofá e ela me acompanhou.
— Eu não fiz nada... — assenti aliviada. — Recentemente.
Encarei Eve que deu de ombros.
— EVELYN SUA FILHA DA MÃE!
Tia Melissa desceu a escada soltando fogo pelas ventas.
— Oi mamãe querida.
— Eu vou te matar Evelyn!
— Mãe eu tô doente!
As duas começaram a correr em volta do sofá, Eve na frente e tia Melissa atrás tentando pegá-la.
— Você ta doente pra ir pra escola, mas não pra aprontar! Eu vou te dar uma surra que você nunca mais vai esquecer! Vem cá sua cretina!
— Calma mãe!
Tomei a frente da minha tia raivosa impedindo-a de passar. Eve deve ter feito uma merda bem grande porque eu nunca vi a tia tão pistola assim!
— O que ela fez?
— Sai da minha frente Lara!
— Calma tia! — gritei também a soltando e ela fuzilou Eve com o olhar. — O que foi?
— Você ta fumando maconha escondido Evelyn?!
A tia mostrou o pacotinho e encarei Eve de boca aberta.
— Isso não é meu.
— E como isso foi parar no bolso da sua jaqueta sua infeliz?! — elas rodaram o sofá mais uma vez.
— Eu provei mãe, mas não gostei.
— VOCÊ FUMOU EVELYN?!
— Foi só um baseado, mas eu não gostei, o cheiro é horrível e me deixou meio grogue.
Tia Melissa grunhiu de raiva e correu atrás dela de novo. Eu só observava segurando o riso, se meu pai vir essa cena, ele me proibi de vir aqui.
— Não sei pra que esse escândalo, você já fumou também quando tinha a minha idade.
Olhei pra tia Melissa surpresa.
— E a sua mãe também.
— Que?! — perguntei ainda mais surpresa encarando Eve.
— Tia Laura também fumou maconha, pergunta pra ela pra você ver.
— Cala essa boca Eve!
Não aguentei e comecei a rir, gargalhando mesmo. Eve também riu e tia Melissa não teve alternativa a não ser rir com a gente.
— Eu não sei o que faço com você Eve! — comentou tentando controlar o riso.
— Você me ama mamãe querida! — minha prima louca abraçou e beijou a mãe que a empurrou de leve. — Mãe eu tô doente!
— Dessa vez passa, mas se eu te pegar usando maconha, ou algum outro tipo de droga, eu te enfio em um internato Eve! Ta avisada.
Olhei pra cara da louca que deu de ombros rindo. Essa não tem noção de nada mesmo.