Ares
A vi acenar com convicção e se encolher, arrancando os saltos altos, ganhando um minuto inteiro de minha atenção enquanto a observava o fazer. Voltei a olhar para longe, vigiando nosso esconderijo. Uma bala perdida chicoteou a parede oposta, me fazendo em um susto puxar a garota contra meu peito mais uma vez e me encolher completamente quase a esmagando contra mim.
Em um impulso, me levantei, minha mão alcançou a dela cruzando nossos dedos com força. E só soube que minhas mãos estavam tão suadas, quando encontrei os dedos frios dela em minha pele. A puxei em passos ágeis, nos mantendo nas sombras.
Eu podia sentir meu coração acelerado contra meu peito, e minha respiração pesada e densa. Não tinha medo de enfrentar a situação, não tinha medo do caos, porque ele fazia parte do meu cotidiano. Mas sempre a adrenalina subia por minhas veias, me fazia sentir vontade de descarregar minha arma, de ver o sangue de quem tirava minha paz, se fazer em poças nas calçadas e deixa-los apodrecer ali, sem descanso ou dignidade como a maioria das pessoas que recebem pelo menos um enterro e uma oração por sua alma.
Hallie
Senti meus pés protestarem contra o chão imundo com alguns pedregulhos que pisei cegamente, me fazendo praguejar baixinho e dar pequenos pulinhos de dor.
Bati meu rosto abruptamente nas costas largas daquele homem quando ele parou sem mais ou menos. Praguejo inaudível, e ergo meus olhos para os dele, quando me olhou por cima do ombro largo. Ele me observou de soslaio, tão sério que me estremeceu da cabeça aos pés.
— Direita ou esquerda?_ ele perguntou ríspido, em uma ordem pedindo por uma resposta imediata que meu cérebro demorou processar.
Levou alguns instantes encarando aquele bonito rosto, com meu coração saindo pela boca e com a sensação estranha em meu estômago que a qualquer momento eu iria apenas me curvar e vomitar até as tripas por mero caos da situação.
— Direita! _ anunciei em um fio de voz e ele acenou em positiva, virando a direita no beco e me puxando junto com firmeza, sempre me mantendo bem próximo. Quando me afastava um pouco, sua mão entrelaçada a minha, a puxava em uma ordem imediata, cheia de propriedade.
Em paradas pequenas, buscando não sermos vistos ou pegos por uma bala perdida. O som do confronto ainda era alto o bastante para fazer meu estômago embrulhar. Mas foi o som das sirenes da polícia que fizeram o homem a minha frente ficar rígido como uma barra de ferro, e suas mãos quentes e suadas começarem a ficar frias. Ele abruptamente começou a me empurrar desesperado escadaria de emergência a cima.
Assustei com o impulso, antes da irritação começar a subir para minha cabeça.
— Para de me empurrar!_ praguejo corando com força, e dentes apertados, com as mãos dele em meu traseiro, me empurrando para cima com uma pressa avassaladora.
— Eu passo em cima de você, garota! _ ele avisou autoritário. E bufei subindo os degraus com agilidade. Abri a janela com dificuldade, que deixou um rangido na ar, me fazendo assistir o rosto daquele homem ficar pálido, como se seu coração estivesse a ponto de saltar pela boca.
Ares
Se alguém nos ouvisse ou nos achasse, não estaria no melhor lugar para atirar, e nem o melhor para se mover livremente para fugir. Eu seria um alvo fácil para meu inimigo.
A garota passou a perna para dentro com cuidado, tão lenta que me deixou angustiado pela sua demora, e antes que percebesse a empurrei sem delicadeza para dentro. O estrondo dentro da casa me foi ignorado enquanto eu atravessava pela janela aberta para dentro do apartamento.
Ela se ergueu resmungando, massageando o quadril provavelmente dolorido, com feições nada doces.
— Eu te salvo, e é assim que você me trata?_ rosnou olhando furiosa para mim, enquanto eu fechava a janela e conferia se estava devidamente trancada.
— Quem salvou a vida de quem? Se não fosse por mim...
— Se não fosse por mim, você estaria lá fora no meio daquele tiroteio sem ter onde para fugir! Eu salvei sua bunda, seu canalha! Seja um pouco mais gentil! _ quase gritou apontando para fora e me lanço sobre ela, desesperado, a cobrindo a boca. O cômodo estava completamente escuro, mas ainda podia ver o brilho de raiva nos olhos escuros da moça.
— Fale baixo!_ rosnei entre os dentes autoritário_ Ou você quer que quem está fazendo essa bagunça la fora venha atrás de nós?
A cretina mordeu a palma de minha mão, me fazendo quase esbofete-la em dor e praguejei me afastando, enquanto balançava a mão no ar, buscando me livrar da dor em minha palma. Olhando cheio de desgosto para ela que, tateando o ar se afastou, me perguntei mentalmente onde estava a garota chorona que encontrei no beco, ja que essa parecia mais confiante do que minutos atrás.
A luz de um abajur foi acesa. A claridade fraca e amarelada banhou o cômodo. Olhei para a morena engatinhando sobre a cama de solteiro, reparando melhor em sua figura. Ela usava um vestido preto canelado seus cabelos castanhos escuros ondulados levemente desalinhados graças a situação caótica. Na luz fraca do apartamento minúsculo, eu podia jurar que ela era bonita o bastante para não combinar nem um pouco com aquele cômodo abafado.
Rolei seus olhos ao redor, não havia paredes separado a cozinha do quarto. Havia um banheiro quase ao lado da cama e mais nada. Era tão pequeno, que ela tinha poucos móveis. A cama de solteiro ficava ao lado do armário de roupas, também muito estreito. Onde eu estava, quase parado ao lado da janela, havia um carpete redondo.
O apartamento fazia um "L". Na entrada, ao lado direito da porta, havia uma geladeira, e na esquerda a máquina de lavar e um armário de cozinha embutido na parede, a pia logo a baixo dele. E apesar de ser tão pequeno, era bem organizado, e cheira bem, o cheiro dela que tinha sentido antes, estava mais forte por todo o cômodo.
Ela saiu da cama, indo para perto da janela, onde afastou a cortina e olhou sorrateira para fora. Estendi a mão, puxando de volta a cortina, a repreendendo com um único olhar duro e sobrancelhas apertada.
— Saia da janela! É perigoso!
Hallie
Subi meus olhos de um jeito estóico para ele, reparando melhor na figura bonita daquele homem que ja tinha visto tantas vezes, e que finalmente havia me lembrando, um cliente assíduo da cafeteria. Os cabelos pretos e lisos, o maxilar forte e másculo, ombros largos. A camiseta preta de mangas longas e gola alta estava justa, coberta por um sobretudo da mesma cor, deixava visível a marcação dos músculos de seu peitoral.
Resolvi obedecer ao seu aviso, e me afastei da janela,indo para a cozinha. Abri o armário pegando um copo e só então notei minhas mãos tremendo tão intensamente graças a adrenalina pulsante da situação, de um jeito que nunca tinha as visto tremer antes. Eu mal podia acreditar que sai viva dali sem um tiro em meu traseiro.
Ares
Observei o momento em que ela assistiu sua própria tremura com tanto interesse, diferente de mim que, minhas mãos não tremiam graças ao costume. Afastei sorrateiro e brevemente a cortina, conferindo se tudo estava certo e voltei a fecha-la.
Deixei meu corpo deslizar pela parede e esfreguei a mão em meu rosto, um pouco aliviado, mas também extremamente irritado com tudo isso. Olhei para arma em minha outra mão sem interesse antes de subir meu olhar para o copo estendido em minha direção. O rótulo ainda estava pregado no vidro, indicando que era antes um recipiente de molho de tomate. Em toda minha vida, ninguém nunca teve a ousadia de o servir água em um copo tão...
Mas aceitei vendo a água tremendo enquanto ela ainda segurava o recipiente. Entretanto em comparação, a água se aquietou ao ter o copo por completo em minha mão. A virei em grandes goles, fortes o bastantes para ecoar o som. Preferia algo forte como whisky puro, ia me dar coragem o bastante para voltar lá fora e descarregar minha pistola.
A garota sentou ao meu lado, amuada, abraçando as próprias pernas e deixando o queixo apoiar nos joelhos.
— Não vou ser ingênua de achar que você era só mais uma pessoa como eu que foi pega no meio da coisa toda...- ela resmungou, olhando de soslaio para a pistola em minhas mãos.
— Seria muito burra se acreditasse..._ sorri ladino, esticando as pernas, olhando para meus próprios sapatos antes de encara-la com as sobrancelhas apertadas. _ Obrigado! _ estendi o copo e ela o recebeu nas mãos, e o deixou ao lado de seu corpo.
— Um copo de água não se nega a ninguém. _ riu rouca, negando tranquila.
— Também por ela. Mas me referia por salvar minha vida.
Ela ergueu seu rosto cético para mim, olhando diretamente para os meus olhos. Eu sabia que a conhecia, eu realmente tenho essa impressão. Mas de onde? Quando?
— Eu deveria dizer que apenas fiz o meu dever, mas tenho a sensação que ajudei um bandido!
— Não sou um bandido! Sou um gangster! _ bufei, batendo o cabo de minha pistola contra meu peito.
— Soa igual para mim._ ela arqueou a sobrancelha debochada e estreitei os olhos em afronta. _ então você é da máfia... E eu pensando que você era um príncipe encantado...bom, isso foi até você abrir a boca e soltar um palavrão. Um não! Dois!
Gargalhei alto a pegando de surpresa, e cobri minha própria boca, quase em um tapa, me lembrando que precisava falar baixo.
— Acho que estou bem longe de ser um príncipe encantado, não é?_ balançei a arma com um sorriso sarcástico, e apertei as sobrancelhas antes de provoca-la. _ E quem tenta se proteger de um tiro com uma bolsa?
— Na hora do desespero, tudo vale! _ ela torceu a cara para o outro lado de um jeito orgulhoso e rancoroso.
— Você tinha razão quanto a não ter um bichinho de estimação. Seu apartamento é tão pequeno que vocês teriam que lutar por espaço...
— Não reclame do meu espaço, sr. Bandido! Você está aqui agora, não é? E se cabe nós dois aqui, cabe um gato... Mas não é por isso que eu não tenho um bichinho. Queria, mas não posso.
— Espero que um dia possa o ter independente de seus motivos. Eu tenho um gato... _ dei de ombros,me lembrando de meu bichinho enquanto rolava meus ao redor. _ Onde a senhorita estava a essa hora da noite? Voltando sozinha para casa tão tarde...
— Um encontro fracassado. _ Ela arqueou a sobrancelha, parecendo incomodada ao ter que relembrar os fatos da noite. Remexeu desenquieta, antes de soltar um suspiro pesado e longo. Seu corpo estava tenso e seus ombros pesados como se um elefante estivesse sobre ela.
— Pela sua cara, realmente foi um fracasso... Mas que pena para ele, você estava linda.
E estava, eu deveria admitir isso!
Ela riu nervosamente, olhos arregalados balançando a cabeça em negativa como se isso tivesse a traumatizado profundamente.
— É! Eu dei o meu melhor...uma pena que o filho da mãe esqueceu de voltar no tempo uns... Quarenta anos. Velho descarado..._ roeu as unhas, parecendo conter a raiva.
Pisquei cético, até compreender o motivo da raiva, e ronquei cobrindo a boca novamente, ela bufou cruzando os braços abaixo dos seios emburrada.
— O lado ruim dos encontros as cegas... Então que bom para você que não deu certo, não é? Ah menos que ...
A assisti ter um calafrio, e também tive um ao imagina-la beijando um velho e a dentadura dele ficando dentro de sua boca.
— Vou deixar relacionamentos com a terceira idade para quem realmente tem o intuito de achar um velho a beira da morte...
Riu balançando a cabeça em negativa. Arqueio a sobrancelha ao notar que nem mesmo percebi quando o som dos tiros cessaram. Ela também percebendo, se levantou, afastando brevemente a cortina e me encostei em seu corpo, contra suas costas dela, olhando para além da janela também.
— Parece que eles foram embora..._ ela sussurrou temerosa, seus olhos vigilantes vasculharam cada canto escuro ao redor.
— Ainda estão por aí... Provavelmente irão vigiar as saídas, esperando por um deslize meu.
— O que você fez senhor bandido para sua cabeça ser tão requisitada no inferno?
Ri rouco, com meu peito balançando contra as costas dela, a fazendo olhar por cima do ombro para mim.
— Eu já disse, sou um gangster! _ murmuro rouco. _ A máfia rival é uma dor em minhas bolas... Escute, não saia hoje a noite! Você nunca me viu, nunca falou comigo! Absolutamente, esse momento, nunca existiu...
Ela me acompanhou com os olhos enquanto me afastava e tentava abrir a janela sem fazer barulho.
— O que está fazendo?
— Indo embora! Não posso sair pela porta da frente. Isso a colocaria em grandes perigos!
— Você não disse que eles devem estar vigiando as saídas? Sair agora não é um grande erro?
— Provavelmente. Mas duvido que você queira ser envolvida nos problemas de um mafioso. _ suspiro forte antes de a encarar dentro dos olhos quando ela segurou em meu braço abruptamente.
— Está louco? Se você sair eles vão matar você! Eu não quero a minha consciência pesada por ter permitido que fizesse essa estupidez?
— E o que a senhorita acompanhante de de idosos, sugere? Quer que eu passe a noite aqui? Até porque eles ainda vão estar vigiando amanhã... Então eu teria que ficar uma semana...
O silêncio caiu entre nós, enquanto encarava fixadamente o bonito e delicado rosto dela. Aquela maquiagem que ressaltava sua beleza e ainda mais o castanho de seus olhos. Ela tinha uma boca tão bem desenhada, que eu sabia que mulheres da minha família matariam, para um cirurgião plástico dar a elas algo assim.
— Vamos! Saia da janela! Se alguém te ver aqui, provavelmente voltarão para me matar! E se alguém te ver saindo? Não, não, não... Eu sinto muito, mas pela minha própria segurança, eu lhe proíbo de sair desse apartamento essa noite!
Levei a mão ao peito ofendido. Ninguém me dava ordens! Eu que era o chefe, não aquela criatura bonitinha me encarando cheia de convicção. Ela parecia fofa, mas pelo olhar sério, eu temia que ela botasse a cabeça para fora e gritasse: " ele está bem aqui! "
— Não me faça gritar...antes entregar você do que acontecer algo comigo por sua causa!
— Que cretina... _ Resmunguei a olhando baixo a cima com rancor_ Me deixasse sozinho no beco, então! Você era mais adorável momentos atrás!
— Eu estava com medo, sozinha, e com um homem apontando uma arma na minha cabeça!
Ergui minha pistola colocando contra a testa dela, tão rente que a vi engolir em seco, dando um passo para atrás.
— Boa viagem! Espero que sobreviva... Juro que se te ver novamente na rua, nem mesmo vou reconhece-lo... _ ela disse de maneira adorável, abrindo ainda mais a janela e apontando freneticamente para que eu saísse logo.
Bufo, abaixando minha arma. Fechando a janela e puxando a cortina de volta a seu devido lugar cobrindo qualquer visão que poderiam ter lá de fora.
— E onde pensa que vou dormir? Sua cama é minúscula! Não sou um cachorro para dormir no tapete...
Ela se virou desnorteada, olhando ao redor do quarto e ergueu um indicador no ar, parecendo se lembrar de algo precioso. Eu queria ver que tipo de mágica ela faria agora para resolver isso.
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Boa leitura!
❤️
— Estou surpreso com a sua capacidade de resolver problemas..._ comento baixinho, segurando a borda do cobertor que vinha até meus ombros.
Encarando o teto do quarto cético, enquanto o apartamento estava banhando em escuridão, não conseguia dormir. Com meus hábitos noturnos, isso tinha se tornado um pouco difícil de fazer. E a preocupação se em algum momento invadiria por aquela porta também não ajudava muito.
Milagrosamente aquela garota tinha tirado um colchonete de cima do próprio colchão. Talvez ela o usasse para deixar a cama mais macia...
Tombo a cabeça olhando em direção a porta do apartamento, onde fiquei averiguando se ninguém estava se movendo lá fora, nas sombras, a minha procura. Quando ergui a cabeça para olhar para garota sobre a cama, a encontrei encolhida em um lençol fino. Ela dormia tão pesadamente, parecendo tão relaxada que isso me intrigou. Talvez fosse eu a pessoa estranha que não conseguia dormir fora da segurança de meus homens armados ao redor da mansão.
Me sentei, esfregando o rosto e continuei a encarando cético. A noite estava fria, e mesmo assim ela me deu o cobertor mais grosso para dormir com apenas um lençol. Sorrateiro, me levantei, levando para perto dela o cobertor. Puxei devagar o lençol, a descobrindo, e solto uma risada nasal ao vê-la de meias, uma camiseta branca e um short preto. Os cabelos escuros longos esparramados pelo travesseiro me fez sorrir ladino. Ela era uma garota muito bonita, e ficava fofa quando estava dormindo tão serena. Mas devo admitir que também é corajosa por passar por uma situação tão intensa em uma única noite, e conseguir dormir como se nada a abalasse.
A cobri com cuidado com o cobertor, ajustando-o acima de seus ombros,e ergui meus olhos, encarando seu rosto através da leve escuridão dentro do cômodo. Ela tinha traços tão bonitos, tão atraentes, mas parecia tão cansada. Tirei uma mecha de seu cabelo que caia sobre sua bochecha, tomando cuidado para não acorda-la com o toque suave da ponta de meus dedos em seu rosto. De onde eu a conhecia? Parecia que a resposta estava na ponta da língua, mas não sairia de primeira.
Me afasto devagar, levando o lençol comigo. Eu podia ser da máfia, podia ser conhecido pela tirania, mas ainda sabia ser grato a boa hospitalidade. Aquela garota, querendo ou não, tinha me salvado aquela noite. Eu poderia ter tentado sair daquele caos sozinho e provavelmente teria tomado um tiro, mas nunca imaginei que até o meio da madrugada estaria deitado sobre um colchonete fino, olhando para um apartamento pequeno de mais para duas pessoas.
A memória da garota chorando desesperada, abraçando a própria bolsa com tanto desespero, contando o "fracasso" de seu dia, me fez sentir estranho. Ela parecia uma garota boa, alguém que merecia uma boa vida, não chorar desesperada escorada a um contêiner de lixo implorando pela própria vida.
Por um momento temi que minha presença viesse apenas trazer ainda mais infortúnio para ela. Se eles apenas desconfiassem que ela tinha alguma ligação comigo, provavelmente tal garota ia se machucar. Se machucar de verdade...
Sem perceber minhas sobrancelhas se apertarem com a imagem em minha cabeça de seu belo rosto ferido, banhado em sangue. Tal imagem fez meu estômago embrulhar, como a muito tempo não senti isso. Pena e receio por alguém...
Me prometeu no silêncio daquela madrugada, que quando saísse daquele apartamento, que nunca mais cruzaria a mesma rua que ela, pelo seu próprio bem.
Enfiei a mão de baixo do travesseiro, puxando minha pistola para fora e a olhando firme em minhas mãos. Não havia nem mesmo um único ruído no ar enquanto eu encarava a arma tão sério. Eu os faria pagar por essa noite!
***
Acordo tombando a cabeça, abrindo com dificuldade os olhos e tentando me lembrar onde estava, enquanto me sentava e rolava meus olhos pelo apartamento.
O encontrei completamente vazio. Havia cheiro de shampoo no ar e um perfume delicado. A claridade da manhã invadindo, ultrapassando a cortina branca.
Me levanto coçando a cabeça e sentindo minhas costas protestarem pela noite no colchonete fino. Eu podia jurar que aquela tinha sido a primeira vez que dormi praticamente contra o chão. Esfreguei o rosto e fui tirado de meus pensamentos com a vibração do meu telefone de baixo do travesseiro. Afastei o objeto, olhando para o nome na tela e o peguei rapidamente, o atendendo de imediato.
— Estou bem!_ anuncio antes de qualquer coisa.
— Onde você se meteu que não consegui te encontrar? Ja estava pensando que estava morto!_ Kalel rosnou de um jeito irritado, me fazendo afastar o telefone do ouvido e torcer a cara por um momento, enquanto ouvia de longe seu sermão. Quando ele acabou, ficando em silêncio, parecendo esperar por uma resposta, voltei o objeto a orelha e suspirei pesadamente _ Não ouviu nem uma única palavra, não é, seu cretino miserável?
— É uma longa história Kalel... _ disse sério, parando ao lado da janela, olhando por uma brecha na cortina para fora com atenção.
— Diga onde está, e eu vou te buscar!
— Se fizer isso vai colocar mais do que sua vida em perigo. Acredite se quiser, encontrei uma garota no beco ontem a noite, e ela me escondeu no apartamento dela.
O silêncio de Kalel do outro lado me fez olhar para a tela, conferindo se ele não tinha simplesmente desligado em minha cara. Voltei ao ouvido continuando a extensão do silêncio.
— O benefício da ajuda, não é qualquer um que merece, Ares! Ela pode entregar você... Pode ser uma armadilha!
— Vou ficar atento! _ olho em direção a porta antes de voltar meus olhos para s brecha na janela. _ Se ela for confiável vou ficar escondido até eles saírem da região. Tenho certeza que ainda estão por ai...
— Entre em contato se precisar de ajuda para incendiar esse lugar.
— Valeu, irmão. _ desligo, abaixando o telefone e sorrindo torto para o objeto.
As vezes meu irmão mais novo era mais responsável e preocupado do que eu.
Hallie
Caminho pela calçada indo para casa, e rolo meus olhos ao redor atenta. Parecia que o caos de ontem a noite simplesmente nunca aconteceu. Talvez a vizinha ja estivesse acostumada com a região instável e seus negócios. Eu ainda preferia na primeira oportunidade trocar de apartamento.
Observo cada rosto presente, alguns conhecidos que gritaram um bom dia da janela, como dona Marta que sacudia seu tapete na varanda,com seus bobs na cabeça. Joffrey, estava sentado na escada da entrada de seu velho prédio, me acompanhando com os olhos, assim como toda sua pequena gangue de delinquentes.
— Bom dia, Joy!_ acenei e ele acenou de volta com firmeza e voltando a olhar para fora.
Apesar de ser um pouco perigoso aqui, as pessoas se cuidavam, eram cordiais, e até protetores. Joffrey por exemplo, não deixava que ninguém da região fosse assaltado dentro do seu território. E eu ficava agradecida por meu prédio estar dentro de seu limite, e ele nunca ter pedido nada de volta.
Apertei o pacote de papel pardo em minha mão quando virando uma esquina alguém olhou de soslaio para mim, como se pudesse ler minha alma.
— Lie!_ Joy, carinhosamente como a vizinhança o chamava, me abordou ainda sentando do degrau, me virei de lado para encara-lo direito. _ Você chegou tarde ontem...
— Estava em um encontro!_ anúncio o dando um sorriso fraco. Eu não queria me lembrar daquela noite fracassada. _ Não foi muito bom... Na verdade, foi um desastre!_ dei de ombros e Joy acenou.
Olhei de soslaio para o desconhecido passando do outro lado da rua, suas roupas eram pretas, e sapatos sociais. Me aproximei e Joy sorriu, me usando de escudo para observar melhor o intruso em seu território.
— Você sabe que metade dos homens do bairro fariam qualquer coisa por um encontro com você.
— Bom, foi só um encontro... E eu não quero decepcionar quem me conhece.
— Você é uma boa garota, Lie. _ ele acenou para mim, me olhando sério. _ Se quiser posso dar um jeito em quem te decepcionou.
— Oh não! Ele ja está com um pé na cova!_ acenei, balançando a mão no ar, rindo envergonhada. Coçei a bochecha e suspirei pesadamente quando Joy e sua pequena gangue arquearam a sobrancelha todos juntos de um jeito intrigante, que parecia até combinado a sincronia. _ Por favor não conte a ninguém... Ele era um velho.
Joy ficou atonito como se não esperasse por isso e alisei meu rosto mais uma vez.
— Então você gosta de homens mais velhos...
— Oh não! Não!_ fiz uma careta estremecendo toda. _ É uma longa história!
Percebi que sua atenção não estava mais em mim, e olhei de soslaio para o intruso que caminhava pela vizinhança.
— Você deveria ir para casa, Lie. _ ele susssurrou rouco e acenei em positiva. Me despedi com um toca aqui com os outros e me afastei, voltando a caminhar em direção para casa.
Senhor George, que estava na varanda de sua casa acenou com seu jornal para mim, e balancei meus dedos em um olá fofinho. Eu tenho certeza que ele seria um double perfeito do Denzel Washington... Um double com dor nas costas e o menisco do joelho rompido. Ri baixinho, me deixando respirar profundamente o ar da manhã. Aquelas manhãs que eram sempre iguais, senhor George na varanda lendo seu jornal, Joy na entrada de seu prédio com sua gangue, dona Marta com seus bobs no cabelo, os filho da Suzan brincando na rua. Não era que a vizinhança era ruim, era apenas eu querendo um pouco de mudança na minha vida monótona.
E não foi o que eu pedi, quando ontem a noite abriguei um desconhecido armado dentro da minha casa. Bom, não tão desconhecido assim. Coçei a cabeça desconcertada, me lembrando dos inícios de manhãs na cafeteria.
~Memória on ~
A sineta tocou, me tirando dos meus pensamentos enquanto polia a vidraça com visão para a rua, me fazendo encarar o homem que tinha acabado de entrar.
Ele me olhou de volta, enfiando suas mãos no bolso da calça social enquanto a luz do sol atravessava a vidraça e aquecia suavemente meu rosto. Era um início de manhã bonito e sereno. Ele bocejou,erguendo o indicador no ar, me pedindo sempre por um momento.
— Um café expresso extra forte?
Era sempre o mesmo pedido. Ele acenou e enxuguei as mãos no avental, indo para de trás do balcão e preparando o café enquanto ele ficava parado, sentado em uma das cadeiras de um jeito desleixado, olhando através da vidraça ainda com a limpeza pela metade, sem o menor interesse visível em seu rosto.
Eu colocava seu copo em cima do balcão e me virava para voltar ao trabalho. Ele sempre deixava o dinheiro em cima do balcão na quantia certa, e ia embora sem dizer mais nada, e eu voltava a esfregar a vidraça, procurando por manchas.
~ memória off ~
Apertei o pacote em minhas mãos, enquanto me perguntei mentalmente quando parei de me lembrar do rosto das pessoas, ou simplesmente parei de prestar atenção nelas. O dia na cafeteria é bastante agitado, sempre entram e saem diversos rostos, mas eu nunca tinha parado para pensar em um em especial.
E aqueles olhos castanhos escuros desinteressados na paisagem além da janela, pareciam muito diferentes do homem que olhava atentamente para além da minha janela. Ele tinha algo que exalava de si, um tipo de autoridade, intensidade e... bom humor...
Soltei uma risada nasal baixa. Bom humor... Pareciam dois homens completamente diferentes, o que me aparecia na cafeteria era monótono e sen interesse, o da noite passada era intenso e risonho. Talvez ele seja uma dessas pessoas com hábitos noturnos. Mas não muda o fato que ele é um bandido. Bandido não! Gangster! Me corrigi mentalmente debochada e sorri torto.
Subi as escadas, conferindo se não tinha sido seguida. Será que ele já tinha ido embora? Provavelmente... Estagnei no degrau, ficando imóvel por um segundo. Qual era o nome dele?
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Boa leitura!
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