Capítulo 2

— Henrique… — Ela começou, mas o homenzinho careca e atarracado que descia as escadas olhava para ela com um rosto que denotava nada mais do que descontentamento.

— Não, senhorita, eu quero meu dinheiro. Agora! — Ele disse. Danika não lhe pagou na semana passada, nem na semana anterior. Por mais que ganhasse boas gorjetas no restaurante, ela acabava gastando o dinheiro com algo muito mais importante. 

— Olha, minha avó ficou doente e eu tive que…

— Não tente isso comigo, doçura. Meu coração não vai derreter — Ele disse, então, se aproximou dela e a olhou de cima a baixo — A menos que você tenha mudado de ideia e decidido me pagar de outro jeito. 

Danika entortou a boca, com nojo. Era incrível como ultimamente ela só encontrava aquele tipo de homem na vida dela! 

— Não…

O sorriso dele desapareceu e foi substituído por uma carranca.

— Você me paga amanhã logo cedo, ou você está fora.

Ele passou por ela e quase esbarrou em seu ombro.

Sem um pingo de energia, Danika subiu as escadas até seu apartamento e só quando pegou a bolsa para colocar sobre a mesa é que percebeu que o envelope que o estranho lhe deu ainda estava em suas mãos. Ela olhou para a lata de lixo e jogou aqueles papéis lá.

Depois de ir ao banheiro e descobrir que não havia água, ela foi para a cama e sentiu que sua vida não poderia ficar pior do que aquilo. Pensando nisso, ela acabou caindo no sono e, claro, teve pesadelos.

Pela manhã, ela saiu bem cedo de casa. Henrique já havia mandado uma mensagem para ela, mas Danika não teve coragem de abrir e ler. Ele provavelmente estava pedindo o dinheiro do aluguel. Ela tinha que pegar o dinheiro do restaurante antes de ir falar com Henrique ou estaria ferrada.

Chegando ao restaurante, ela entrou pela porta dos fundos e viu Moira. Na noite anterior ela não teve tempo de conversar com a mulher, mas agora poderia pelo menos trocar algumas palavras.

— Meu Deus, Dan! — Moira disse e jogou os braços em volta do pescoço de Danika. Então, ela a segurou pelos ombros e olhou para a ruiva — O que aquele imbecil fez com você? E Dupont demitiu você? Que idiota!

— Estou bem. Eu só preciso receber meu pagamento e pronto.

— Mas... como você vai sobreviver, meu bem?

Moira era uma garota linda, com olhos azuis brilhantes e cabelos pretos. Naquele momento, ela estava claramente preocupada. Desde que Danika chegou naquela cidade e conseguiu o emprego, Moira a a tomou como irmã e cuidou dela, ajudando sempre que Danika precisava.

— Eu vou sobreviver, como sempre. Não se preocupe.

— Se precisar de alguma coisa, me ligue e não desapareça, ok? Nós somos mais do que amigas. 

— Pode deixar — Danika prometeu e foi atrás de Dupont.

Ela recebeu o pagamento, tentou encontrar outro emprego, mas, curiosamente, ninguém quis contratá-la!

“Eu não consigo acreditar! Sempre fui boa funcionária e agora, só porque dei um soco mais do que merecido naquele idiota do Igor Sololov, eu sou rejeitada? Mas ele mereceu!”, ela choramingou internamente e decidiu voltar para casa. Danika teria que pagar Henrique e no dia seguinte procurar novamente por emprego. Porém, ela não foi rápida o suficiente, porque quando chegou no prédio, parte de suas coisas já estavam do lado de fora. 

— Mas o que…? — Ela exclamou e tentou parar um dos homens, que estava carregando seus travesseiros.

— Desculpe, senhorita. Estamos apenas seguindo ordens — O homem de pele escura disse e continuou andando. Danika sabia que ele estava dizendo a verdade e não podia culpá-los.

— Onde está Henrique?

— Não sei… talvez lá dentro.

Ela entrou no prédio, contendo as lágrimas. O homem estava em seu escritório, contando dinheiro. Quando ela entrou na saleta, ele ergueu os olhos e sorriu.

— Olá, gatinha.

— Não vem com essa, Henrique! — Ela tirou o dinheiro da bolsa e colocou-o sobre a mesa. — Aqui! Agora, eu quero as minhas coisas dentro do apartamento! 

Ele pegou o dinheiro, contou e sorriu para ela. Então, ele fez um beicinho de pura falsidade.

— Desculpe, gatinha, não vai dar. O apartamento já está alugado.

— O quê? — Danika perguntou, incrédula — Mas eu acabei de pagar você!

— Outra pessoa me pagou o ano inteiro. Não dava pra recusar — Ele se inclinou e cheirou as notas de dólar.

Danika estava prestes a desmaiar.

— Tudo bem, então me devolva meu dinheiro.

Ele franziu a testa e olhou de forma desdenhosa para ela.

— O seu dinheiro? — Ele perguntou — Eu não tenho o seu dinheiro.

— Acabei de colocar nesta mesa, você o pegou. Agora, devolva!

— Não, gatinha, esse dinheiro era meu. Você me devia e acabou de me pagar. Com juros. 

— Mas…

— Não é problema meu! Dê o fora!  A menos que você tenha decidido usar essa sua boquinha para me agradar, pode ir se ferrar!

Danika saiu do prédio, sentou-se na escadaria e começou a chorar.

O telefone dela começou a tocar e quando viu o nome da mãe na tela, ela enxugou as lágrimas, limpou a garganta e atendeu a ligação.

— Oi, mãe!

— Oi, meu amor! — A voz de Thalia soou do outro lado da linha. A mulher fungou e Danika franziu a testa ao ouvir isso.

— Você esteve chorando? O que aconteceu? Aconteceu alguma coisa com a vovó Olene? — Danika podia sentir que algo estava errado.

— Danika, querida, sinto muito por pedir isso de você novamente. Sua avó… Precisamos de mais dinheiro. Os remédios dela acabaram — Disse Thalia — Lamento que sejamos um fardo para você. Eu quem deveria estar te ajudando… —Thalia começou a chorar novamente.

Danika foi abandonada pelo pai quando era tão jovem que nem conseguia se lembrar do rosto dele. Desde então, sua mãe e sua avó fizeram de tudo para criá-la, até o dia em que a idosa adoeceu e Thalia teve que pedir demissão para cuidar de Olena. Mas... Por que Thalia e não Danika? Simples, porque desde que Danika disse “não” para um homem, que por acaso era filho de uma das famílias mais ricas daquela cidade, ela não conseguiu encontrar emprego, nem sua mãe. Restou a Danika procurar um longe dali. 

Elas conversaram um pouco mais e quando a ligação terminou, Danika suspirou. E agora como ela ajudaria a avó? Ela tinha perdido todo o seu dinheiro para o Henrique e não tinha emprego, nem nada. Então, ela viu a lata de lixo. Primeiro, ela não deu muita importância, mas se lembrou de uma coisa... O envelope!

Capítulo 3

*DUAS HORAS ANTES*

Hernan estava de péssimo humor. Péssimo. Depois de receber a notícia de que a candidata perfeita se recusou a ser sua barriga de aluguel, ele não conseguiu se concentrar na importante reunião que teve pela manhã.

Por que ela não podia simplesmente aceitar o maldito acordo? Ele não iria fazê-la morar com ele. Ele nem mesmo iria tocá-la, por mais que tivesse que admitir, a mulher era linda!  Hernan só precisava que ela sentasse em uma cadeira, dentro de um consultório médico, e recebesse seu esperma, artificialmente. Não era tão difícil. Nem doloroso.

— Senhor, talvez ela ainda mude de ideia — disse Kyson em voz baixa, tentando tranquilizar o chefe. Hernan olhou para ele e Kyson quase chorou.

— Ah, mas ela vai mudar de ideia. Certifique-se disso! — Hernan soltou o ar, seu rosto era uma pura carranca e seu tom, mais gelado que um iceberg. Kyson olhou confuso para Hernan, que o encarou de volta — O que você ainda está fazendo aí?

— O senhor quer que eu... que eu dê um jeito, é isso, senhor? — Kyson questionou e Hernan concordou com a cabeça — O senhor quer que eu prepare uma armadilha, não é mesmo?

— Sim, Kyson, algum problema com isso? — Hernán perguntou, já sem muita paciência.

Hernan Allaband era um homem que tinha uma força de vontade muito grande. Quando ele queria algo, fazia o que podia para consegui-lo. Porém, não era de jogar sujo. E isso deixou Kyson confuso. 

— Mas senhor, há muitas outras garotas por aí. E tenho certeza que eles estarão dispostas a…”

— Ela é a candidata perfeita! — Hernan disse um pouco mais alto do que normalmente o faria — Kyson, esperei, pesquisei e finalmente a encontrei. O fato de ela não gostar do que propus, de ter reagido como uma fera pronta para dar o bote, só me fez ter ainda mais certeza de que ela é a escolha certa. E eu não quero um filho com uma interesseira qualquer! 

— Mas…

— Não vou perder minha posição, Kyson. Sou o CEO deste Grupo e não vou sair daqui para que aquele maldito Xandros possa tomar meu lugar. Ele, não! — A raiva na voz de Hernan foi um aviso para Kyson de que seria melhor fazer a garota aceitar o acordo.

— Sim, senhor, cuidarei disso. Com licença.

Hernan poderia conseguir outra mulher já que usaria inseminação artificial e nenhuma delas precisaria dormir com ele. Não, ele não era um homem feio, mas estava numa cadeira de rodas devido a um acidente. Essa foi inclusive a razão pela qual sua noiva o deixou para ficar com... com seu meio-irmão, Xandros!

Lazlo Allaband era o fundador e ex-CEO da empresa. Ele trabalhou duro e uma coisa que sempre valorizou foi a família. Para ele, um homem que não consegue cuidar da própria família, não consegue cuidar de uma empresa. Seu filho, Brennon, não tinha muita inclinação para esses assuntos, não só de família, mas também de negócios. Quando Hernan, o filho mais velho, teve idade suficiente para aprender sobre os negócios da família, Lazlo não perdeu tempo. Sendo filho de uma mulher que não era a Sra. Allaband, Hernan teve que trabalhar duro para mostrar a todos o seu valor. E ele o fez.

Aos 28 anos, ele era um grande CEO, mas tinha um defeito: não tinha família própria. E, por mais que Lazlo o amasse, ele não podia fechar os olhos para esse fato. Foi por isso que ele deu um prazo a Hernan e esse prazo estava se aproximando do fim a cada segundo. Quando Hernan viu Danika, depois de meses tentando encontrar uma candidata, ele sabia que ela era diferente.

Kyson saiu do escritório e foi para o seu próprio. Ele ligou para muitas empresas, proibindo-as de contratar Danika. Cruel? Sim, mas necessário. Mais tarde naquele dia, ele então recebeu uma mensagem e sorriu. Seu chefe era um baita de um sortudo! Sentado em sua cadeira, Kyson discou o número da pessoa que acabara de informá-lo sobre a situação de Danika. 

— Sim… fique com o apartamento. Pague por um ano inteirinho! 

Não demorou muito até que seu telefone tocasse. Ao ler o nome do identificador de chamadas, ele sorriu, mas manteve a calma.

— Kyson Banks falando — Ele respondeu, como se não soubesse quem era — Ah, senhorita Sinclair!

— Hmm, Sr. Banks, gostaria de fazer algumas perguntas sobre este documento que você me deu.

— Claro, responderei tudo com prazer! E esse documento é um acordo pré-nupcial.

Depois de ouvir todas as dúvidas dela e responder a cada uma delas, ele desligou e voltou para a sala de Hernan, com uma expressão cheia de satisfação. Bateu apenas uma vez e ouviu a voz de Hernan permitindo sua entrada.

— O que foi agora, Kyson? — Hernan perguntou sem sequer levantar a cabeça e continuou assinando os papéis. Quando Kyson permaneceu em silêncio, Hernan largou a caneta e olhou para cima, vendo um sorriso no rosto de Kyson. Logo, ele também sorriu — Ela...?

— Sim senhor! Vou chamar sua noiva agora mesmo. Parabéns! Ela só pediu uma coisa… — Kyson sabia o quanto Hernan odiava ser questionado ou contrariado, por isso, o pedido de Danika deixou o assistente nervoso. 

“Vamos pensar positivo aqui!”, ele disse a si mesmo.

Hernan sugou o ar por entre os dentes. Ele ofereceu a Danika uma grande quantia em dinheiro. Um milhão e meio, para alguém que não tinha nada e precisava desesperadamente de dinheiro, era mais que suficiente. Já irritado, ele suspirou.

— O que ela pediu? — perguntou Hernan, esperando ouvir quanto mais dinheiro a mulher queria para deixá-lo usar o útero dela.

— Ela quer ver a criança depois do “divórcio”. Nas palavras dela, é injusto fazer com que a criança cresça sentindo-se abandonada por um dos pais. Seria traumatizante.

Hernan levou alguns momentos para refletir. Ele podia ver que Danika era uma boa pessoa, caso contrário ele nunca pediria seus serviços como barriga de aluguel. Mas, mesmo assim, ele não acreditava que ela iria querer manter contato com a criança por muito tempo. Ele sorriu, pois o que ela estava pedindo não era absurdo de forma alguma. Ele estabeleceria algumas regras e isso seria um problema a menos em sua vida.

— Então, Kyson, leve-a ao apartamento que te pedi para preparar especialmente para ela!

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