Alguns dias depois
- Vai dar certo, Alice. Eu juro. - disse Sophia, sua voz baixa, firme, cheia da confiança de quem sempre teve o mundo aos pés. - Consegui os documentos, os trajetos alternativos, os bloqueios de rastreamento. Eles podem até tentar te seguir, mas não vão conseguir.
Olhei para ela, ainda dividida entre a esperança e o medo. Sophia era filha de um magnata da tecnologia. Rica, genial e absurdamente leal. Se havia alguém no mundo capaz de burlar qualquer rede de vigilância, era ela.
- Mesmo assim, e se eles... e se o Paolo desconfiar? Se fizer algo contra minha mãe?
- Ele não vai. Nem ele, nem seu pai. - respondeu, com um brilho sombrio nos olhos. - A sua mãe é o ponto fraco deles. A mesma arma que eles usam para te controlar... você também pode usar contra eles. Se fizerem algo contra ela, você pode desaparecer do mapa. E isso não seria vantajoso para nenhum dos dois. Nem para os Caruso. Nem para os Ravelli.
Engoli em seco, sentindo a adrenalina se espalhar lenta, mas implacavelmente pelo meu peito. Pela primeira vez, eu tinha uma brecha. Um sopro de chance. Um ano. Apenas um ano. Talvez fosse loucura. Mas era uma loucura que, se eu tivesse coragem suficiente, poderia me devolver a mim mesma.
- Você sabe que meu pai te ajudaria, se você deixasse... - murmurou minha amiga, a voz cautelosa, como quem pisa sobre cacos de vidro.
- Eu sei - respondi baixo, sem conseguir encará-la -, mas não seria justo. Você sabe que não se trata apenas de pagar pelo tratamento.
Ela assentiu, com um sorriso fraco, quase triste. Ambas sabíamos o que havia por trás dos sorrisos impecáveis da família Caruso. A imagem pública era cristalina, irrepreensível. Mas no subsolo de toda aquela sofisticação havia um odor de medo. Corrupção. Máfia. Poder que se impunha em silêncio. Meu pai, por mais cruel que fosse, também os temia. E isso dizia muito.
- Eu lamento tanto, Alice. Isso tudo é... é desumano. Se denunciássemos, talvez...
- Não - cortei suavemente. - Não vamos nos iludir. Sabemos que eles têm proteção por todos os lados. Advogados, políticos, empresários. Ninguém se volta contra eles e continua respirando livremente. Vamos focar no que ainda me resta. Talvez... talvez um milagre aconteça. Não é isso que dizem por aí?
Sorri. Uma mentira polida. Uma esperança inventada para não desabar.
Ela sorriu de volta. Era o que sempre fazia: me incentivava a agarrar aquele último respiro de liberdade com todas as forças, a lutar por mim - mesmo quando eu mesma já havia me esquecido de como fazer isso.
- E então... para onde vamos? - perguntou, agora com aquele brilho cúmplice nos olhos, como se só de mudar de assunto, tudo pudesse ser diferente.
- Grécia - respondi com a voz mais firme do que esperava. - Primeiro Atenas. Depois as ilhas.
O som daquelas palavras fez meu coração acelerar. Tentei imaginar nós duas caminhando de vestidos leves, os pés descalços tocando a areia quente, os cabelos ao vento, livres. Era quase poético. Quase irreal.
Era um risco absurdo. Confiar no plano da minha amiga, aceitar a migalha que minha família e a família de Paolo haviam me concedido... era cruel. Humilhante. Uma migalha embrulhada em ouro. Mas eu aceitei. Pela minha mãe. Por mim. Pela promessa que fiz a ela diante de um leito silencioso e frio.
Aceitei a loucura.
Porque viver um ano livre era melhor do que morrer lentamente presa para sempre.
Luciano Moretti
Dois Meses Antes do Encontro
A música alta batia como um tambor dentro da minha cabeça. O cheiro de álcool, perfume caro e suor se misturava ao ambiente saturado daquela boate lotada em Milão. O mesmo cenário, as mesmas luzes pulsantes, os mesmos rostos... mulheres belas demais, vazias demais, sorrindo para mim como se estivessem prestes a ganhar um prêmio.
Estava cansado. Fisicamente, emocionalmente. De tudo.
Afundei ainda mais no sofá de couro da área VIP, com um copo de uísque na mão e o olhar perdido. Três mulheres falavam ao mesmo tempo ao meu redor, mas eu não conseguia registrar uma única palavra do que diziam. Estavam ali por interesse, status ou prazer, mas nenhuma delas... nenhuma me tocava.
- Você parece em outro planeta. - A voz de Aiden cortou minha dispersão. Ele, como sempre, sorria com aquele ar debochado. Estava sentado ao meu lado, relaxado, com um copo idêntico ao meu na mão.
- Estou. - Dei um gole longo. - Acho que atingi meu limite.
- De bebida?
- De tudo. - Respirei fundo. - Essas festas. Essa gente. A rotina. Meu pai está fechando um acordo com a família de Verena para um casamento arranjado. Verena, Aiden. Aquela mulher é tudo o que eu nunca quis.
Aiden arqueou a sobrancelha, mas não parecia surpreso.
- Verena Bellini? Aquela princesinha mimada?
- A própria. Meu pai acha que seria uma união estratégica brilhante. Mas só de pensar nisso... - Bebi o resto do copo de uma vez.
- Então some daqui. Vai pra longe. Meu irmão mais velho, Ares, está morando na Grécia. Ele tem uma rede de hotéis de luxo espalhados pelas ilhas e pode te hospedar. Ou te arruma alguma casa perto da praia, onde ninguém te enche o saco.
Ele disse como se não conhecesse o seu irmão que era meu amigo assim como ele.
- Grécia...
Fiquei pensativo por um instante. O mar. O silêncio. A distância. A ideia não era tão ruim. Pelo contrário. Era tudo o que eu precisava.
- Falarei com o Ares depois.
Aiden assentiu e voltou a beber, mas algo no bar chamou minha atenção. Um homem. Seu rosto me era familiar.
- Me dá licença. - Levantei-me e caminhei até ele.
Ele estava acompanhado de uma mulher que conversava com o barman, mas ao me ver, seus olhos se estreitaram.
- Gabriel? - perguntei, parando em frente a ele. - Você está bem?
Gabriel me olhou por um segundo em silêncio antes de responder:
- Estou, Luciano. E você?
- Bem... Quer dizer, não exatamente. Preciso saber de Mia. Tem alguma notícia?
Ele desviou o olhar por um instante.
- Mia ainda está na clínica. Se recusa a receber visitas.
- Mas você a viu? Ela está bem? Por favor, Gabriel... diga a ela que eu preciso vê-la. Que me deixe entrar, nem que seja por um minuto. Eu tentei. Liguei, insisti... mas meu nome está na lista de visitas não autorizadas.
Gabriel suspirou pesado, parecendo ponderar sobre suas próximas palavras disse:
- Você precisa seguir em frente, Luciano. Mia fez escolhas... e foram essas escolhas que a levaram até onde está. Sei que você se importa, mas talvez ela não queira ser salva. Às vezes, as pessoas se afogam por vontade própria. Então, meu amigo... deixe onde está.
As palavras dele cortaram mais do que deveriam. O remorso ardeu em mim como um veneno silencioso, corroendo tudo o que eu tentei enterrar.
Assenti, com o maxilar tenso e o coração mais ainda.
- Se você a vir... - minha voz falhou por um segundo. - Diga que eu realmente sinto muito. Que... que eu gostaria de vê-la. Só isso.
Gabriel apenas assentiu, com a expressão dura de quem já havia desistido antes de mim.
Nos despedimos com um aperto de mão breve, contido, carregado de tudo que não foi dito. Voltei até Aiden e me joguei no sofá como quem carrega peso demais para continuar fingindo leveza.
- E então? - perguntou meu amigo.
- Ligarei para o Ares. Estou indo para a Grécia.
Isabelle Alice Ravelli
Li a frase mais uma vez e sorri, enquanto o sal do mar tocava meus lábios através da brisa e a taça de vinho descansava entre meus dedos. Sentada em um pequeno bar com vista para o mar Egeu, ainda custava a acreditar que havíamos conseguido.
Eu e Sophie - agora Helia - embarcamos com os documentos falsos que ela conseguira através dos contatos obscuros do pai. Poderíamos ter sido barradas. Presas. Deportadas. Mas nada disso importava agora. Eu era Belle Romano, italiana, vinte e cinco anos - embora minha identidade real dissesse dezenove. Exagerado, sim. Arriscado, sem dúvidas. Mas desde o momento em que aterrissamos em solo grego, eu não fazia outra coisa além de sorrir.
- Vamos lá, Belle. Temos uma vista absurda na nossa frente e você continua agarrada a esse caderno como se fosse um cofre. - Sophie provocou, cruzando as pernas com elegância. Sua voz brincalhona contrastava com o novo nome que escolheu: Helia. Um nome solar. Grego. Perfeito para ela.
Mas ela não falava da paisagem marinha, nem da arquitetura pintada de branco às minhas costas. Referia-se aos dois homens sentados a poucos metros de nós, em outra mesa. Italianos, claramente. Não pertenciam àquele lugar - não no modo como usavam roupas caras com desleixo calculado, nem na forma de olhar, direta e magnética.
Eram bonitos. Muito. Mas eu sequer me detive em seus rostos. Minha atenção estava em algo muito mais precioso: o papel dobrado que repousava sobre meu colo, já amarelado pelo tempo e dobrado com cuidado.
"Quando chegar em casa, embaixo da gaveta da biblioteca, existe um fundo falso. Lá encontrará tudo o que desejei... e o que vivi de belo em minha vida, filha minha."
As últimas palavras com algum sentido que minha mãe me disse antes de mergulhar no coma. Naquele dia, achei que fosse delírio de febre. Mas encontrei o fundo falso. E dentro dele, o caderno.
Desde então, aquele diário se tornou minha relíquia. Cada página, uma memória que não era minha, mas que eu queria viver com a alma.
E ali estava eu. Sentada exatamente no café onde ela havia estado, anos antes.
Ela fizera um cruzeiro e passou alguns dias na Grécia. Segundo o diário, conheceu aqui o que parecia ter sido o verdadeiro amor da vida dela, antes do casamento com meu pai.
Prometi a mim mesma que reviveria cada momento descrito. Cada lugar. Cada cor. Cada emoção. Era o mínimo que eu poderia fazer por ela. Por nós.
No canto da capa do diário, escondido sob uma anotação gasta, encontrei a frase que nunca mais saiu da minha mente:
"Se um dia eu tiver uma filha, quero que ela venha aqui."
Logo acima, uma polaroid antiga: uma jovem de olhos doces sorria com o mar ao fundo. Minha mãe. Com pouco mais de idade do que eu tinha agora.
Fechei o diário com cuidado, como quem guarda um pedaço de alma entre as páginas.
- Eu vou conservar este caderno comigo, Helia - disse, rindo, ainda me acostumando com o nome novo dela, e com o meu também.
Ela apenas sorriu, não disse nada. Mas eu sabia que ela entendia - que enxergava além da minha fuga. Aquela viagem não era apenas uma forma de escapar. Era um reencontro silencioso com tudo o que me foi negado desde que nasci.
- Estou brincando - disse ela, rindo. - Mas você deveria ter olhado para os dois bonitões que estavam ali...
Desviei o olhar em direção à mesa que agora estava vazia. O garçom recolhia as taças de vinho, deixando para trás apenas vestígios de uma presença que não cheguei a observar.
- Não estou aqui para isso. - Suspirei. - Minha vida já está complicada demais.
Quis lembrar à minha amiga que mesmo na rebeldia havia um limite. Estar ali, sob uma identidade falsa, era uma afronta suficiente. Me envolver com alguém - com qualquer um - seria cruzar uma linha que nem mesmo eu estava preparada para pisar.
- De verdade, Belle... - ela disse, quase num sussurro. - Você merece viver algo de verdade. Uma experiência real antes de ter que marchar até o altar com aquele demônio.
Lancei-lhe um olhar de censura, mas logo cedi a uma risada abafada. Era impossível não rir da forma escandalosamente sincera de Helia.
- Estou bem assim. Não seria justo com ninguém, nem comigo.
- Não estou falando de amor, querida - retrucou ela, com aquele brilho travesso nos olhos. - Estou falando de sexo. De se permitir. Uma noite, e nada mais. Porque vamos ser sinceras... não seria justo que sua primeira experiência fosse com aquele idiota.
Meu rosto pegou fogo na hora, e eu a belisquei levemente no braço, puxando-o com firmeza.
- Shhh! - repreendi. - Isso não precisa ser anunciado à toda a Grécia!
Ela levou a mão à boca, entre risos.
- Desculpe, me exaltei... mas ele não merece isso de você. Ao menos isso. Sua mãe viveu. Pelo pouco que me contou do diário... ela se permitiu. E não se arrependeu.
As palavras dela ecoaram dentro de mim como se abrissem uma porta. Talvez ela estivesse certa. Mamãe fora livre - ao menos por um breve instante. Fugira do conservadorismo sufocante dos meus avós. Não tinha um noivo à sua espera, mas sonhava em entrar na universidade, e foi impedida. Então embarcou sozinha num cruzeiro rumo ao sul da Europa. Ousada. Indomável.
E mesmo sendo descoberta ao retornar e forçada a se casar, ela viveu algo só dela. Algo que, agora, tentava me deixar como herança.
Era absurdo que décadas depois eu estivesse destinada ao mesmo tipo de prisão. O tempo havia mudado, mas na alta burguesia o que contava continuava sendo o mesmo: aparência, conexões, cifras.
Suspirei, longa e profundamente, sentindo o peso de tudo.
Talvez... talvez se divertir um pouco não fosse um pecado.
Não quando eu já estava cometendo tantos outros apenas por tentar viver.
Luciano Moretti
Ares serviu mais vinho, o líquido escorrendo da garrafa escura como se aquele bar na beira do penhasco fosse o centro do universo. Estávamos ali havia pouco mais de uma hora, em silêncio por alguns minutos agora, apenas assistindo o sol afundar no mar com uma lentidão quase poética.
- Você precisa se soltar, fratello - disse ele, finalmente quebrando o silêncio. - A Itália está te comendo vivo. Verena? A sua "noiva estratégica"? Não me faça rir.
Sorri sem vontade, girando a taça entre os dedos.
- Achei que esse papo era sobre vinho e descanso, não sobre acordos de casamento.
- Justamente. É por isso que você está aqui. Pra esquecer.
Dei um gole longo e deixei o vinho arder um pouco na garganta antes de engolir. O vento trazia o cheiro salgado do mar, misturado com lavanda e jasmim vindo dos jardins que cercavam o lugar.
Ares continuava falando sobre as festas que organizava, os jantares secretos com champanhe e corpos bronzeados dançando até o amanhecer. Eu ouvia com meio ouvido, apenas deixando a atmosfera me entorpecer.
Foi quando a vi.
Sentada algumas mesas adiante, ao lado de uma amiga. Não era o tipo de mulher que tentava ser notada. Ela vestia um vestido leve e claro, os cabelos pretos em um corte channel que emoldurava o rosto delicado. Não havia maquiagem marcante, não havia ostentação. Apenas uma presença silenciosa e quase elegante demais para aquele lugar. Havia algo nela... algo que eu não conseguia explicar. Mas o mais curioso era: ela não olhou pra mim. Nenhuma vez.
Ares falava sobre mulheres e festas. Eu, por um instante, não consegui ouvir mais nada. Porque ela estava ali. E não me viu.
Desviei o olhar. Era só uma mulher bonita. E ali, naquela ilha, havia muitas. Prova disso foi o bilhete que o garçom trouxe, vindo da mesa ao lado.
Duas mulheres. Uma loira e uma ruiva, rindo abertamente e acenando com taças nas mãos. O bilhete vinha com dois números de telefone e o número de um quarto.
Ares riu alto.
- Isso é só o começo, Luciano. Espere até o jantar em casa hoje. Se você não sair daqui renovado, eu desisto de você.
Sorri, fingindo leveza. Levei a taça de volta aos lábios e bebi, deixando o vinho encobrir a inquietação que não sabia nomear.
Olhei mais uma vez para a mulher de cabelos escuros. Ela ria de algo que a amiga disse, com os olhos semicerrados e um brilho leve no rosto. Não era pra mim. Nunca fora.
Virei o rosto de volta para Ares.
- Vamos nessa, então. Me mostre a tal festa.
Nos levantamos com passos despreocupados. Eu precisava de uma distração, de algo que me arrancasse, ainda que por algumas horas, dos pensamentos que insistiam em me acompanhar. Aquela noite, eu só queria esquecer.
Isabelle Alice Ravelli
Sentei na beira da cama, o caderno da minha mãe fechado sobre o colo e o telefone descartável em mãos. Era um número internacional, sem registro, sem rastreio. Sophie tinha sido cuidadosa com cada detalhe. Ainda assim, meu coração batia com a força de um tambor de guerra.
Disquei o primeiro número.
- Finalmente - foi a primeira coisa que ouvi do outro lado da linha, a voz do meu pai carregada de frustração. - Você perdeu o juízo, Alice? Seu noivo, com toda a generosidade do mundo, te concede um ano sabático e você simplesmente desaparece?
- Eu não desapareci. Estou cumprindo o que me cabe. - Minha voz saiu firme, apesar do frio na barriga. - A data do noivado saiu em todos os tabloides. A festa da alta sociedade está marcada. O espetáculo foi montado. Isso deve bastar... até eu voltar.
Houve um silêncio breve, seco. Depois, ele retomou o tom de sempre: afiado, pragmático.
- E sua mãe? Já pensou nas consequências? O tratamento dela não se paga sozinho.
Fechei os olhos, o aperto no peito quase me vencendo.
- Como você consegue ser tão cruel? Ela é sua esposa.
Ele riu. Um som curto e sem alma.
- Trata-se de negócios, Alice. Foi sempre sobre isso. O luxo que você sempre teve, os privilégios... vêm desses acordos. É assim que a fortuna da nossa família continua crescendo.
- E é com essa fortuna que você comprou sua consciência?
- Eu comprei estabilidade. Algo que você ainda não aprendeu a valorizar.
Suspirei, amarga.
- Se algo acontecer com a mamãe nesse tempo, eu serei informada. E se ela sofrer por negligência... nunca mais volto.
- Você não ousaria.
- Tente a sorte. - Desliguei antes que ele pudesse responder.
Minha mão tremia, mas o silêncio seguinte trouxe uma dose de poder que eu desconhecia sentir.
Respirei fundo e disquei o segundo número.
Paolo atendeu no segundo toque.
- Belle. Que surpresa - disse ele com aquele tom calmo, quase sarcástico. - Espero que esteja sendo inteligente o bastante para se manter longe de encrencas. Porque minha generosidade tem limites. Se você manchar meu nome...
- Não se preocupe - interrompi, fria. - Estou bem. E pretendo continuar assim.
- Ótimo. Ligue novamente em duas semanas. Quero saber onde está, e o que está fazendo. E Alice... - ele fez uma pausa, a voz mais baixa - ...não me decepcione. Você sabe que eu não costumo repetir advertências.
- Boa noite, Paolo.
Desliguei sem esperar resposta. Fiquei imóvel por alguns instantes, sentindo o sangue pulsar forte nos ouvidos. Meus dedos ainda tremiam.
Mas no meio daquela tensão, uma pequena fagulha queimava dentro de mim. Uma noite. Um só passo fora da coleira. Uma vitória mínima... mas era minha. E eu pretendia comemorá-la.
Isabelle Alice Ravelli
O restaurante era um terraço encantador de frente para o mar, com mesas bem postas entre colunas brancas e pinheiros altos que deixavam passar a luz suave do entardecer. O céu dourado refletia nas taças de vinho e, pela primeira vez em semanas, eu via Sophie rir de verdade.
- Então você viu a cara dele quando você recusou o champanhe? - perguntei, entre risadas.
Ela deu de ombros, empurrando os cabelos dourados para trás.
- Ele precisava entender que charme barato não me impressiona. - Pausou, levando a taça aos lábios. - Já me impressionaram demais antes... e olha onde fui parar.
O riso dela murchou, e eu soube que estávamos entrando em terreno delicado.
- Ainda pensa nele? - perguntei com cautela.
Ela olhou para o mar por um instante, os olhos perdendo o brilho.
- Todos os dias. - A voz saiu baixa. - Mas pensar não muda o fato de que ele nunca me escolherá. Eu era um segredo conveniente, Belle. E já cansei disso. Essa história de "sou muito mais velho que você", "não posso trair a confiança do seu pai"... tudo desculpa. Se ele quisesse, ele enfrentaria o mundo. Mas não quer. E eu não vou mais rastejar por alguém que não tem coragem de me amar por inteiro.
Meu coração apertou por ela. Conhecia bem essa dor - a de amar no silêncio, no limite, na escuridão dos bastidores de uma vida que nunca será sua.
- Você tem certeza? - perguntei com ternura. - Talvez uma ligação, só para...
- Não. - Ela foi firme, mas havia tristeza nos olhos. - Preciso aprender a viver com a saudade. E transformar em força o que ainda dói.
Abracei sua mão sobre a mesa, apertando com carinho.
- Então vamos começar essa transformação agora.
Chamei o garçom, um homem de meia-idade com olhar simpático, e perguntei:
- Conhece alguma festa animada hoje à noite? Algo que duas mulheres lindíssimas e um pouco desesperadas por diversão possam aproveitar?
Ele sorriu com cumplicidade e puxou discretamente um cartão do bolso do avental.
- Tem uma festa esta noite. Particular, mas aberta ao público certo. Casa branca à beira-mar, não muito longe daqui. Gente bonita, música alta e bons drinks. Vocês vão gostar.
Sophie arqueou as sobrancelhas, surpresa.
- Acha mesmo que devemos?
- Sophie... - sorri, levantando a taça. - Chega de drama. Hoje a gente vai dançar até esquecer o nome dos nossos problemas.
Ela riu alto, finalmente. Brindamos, e quando o sol mergulhou no mar como ouro líquido, nós duas já estávamos de pé, prontas para viver.
Aquela noite não seria sobre lamentos. Seria sobre ocupar o próprio espaço, respirar fundo e dar um passo fora da prisão invisível que nos cercava. Não sabíamos o que viria - mas sabíamos o que não queríamos mais carregar. E isso já era o bastante para nos lançar ao desconhecido com os olhos bem abertos.