Capítulo 2

Thomas

Devo dizer que ando cansado de tudo isso. Quer dizer, eu gostaria de ter uma vida normal. Ou pelo menos um dia comum como uma pessoa normal. Sem excesso de empregados o tempo todo me rodeando. Sem tamanhas responsabilidades e sem tantas cobranças. Respirar ar puro sem pressa para começar. Era assim que eu me sentia com a Rebecca. Ela sabia me fazer sorrir, me dava a liberdade de me livrar das minhas armaduras e de mostrar quem realmente sou por dentro e por fora. Dentro de quatro paredes era mais fácil sorrir e sentir a leveza de não ter que carregar o mundo em minhas costas.

— Chegamos, Senhor! — Alfred avisa, interrompendo os meus pensamentos e mostrando-me que estou longe de viver o meu grande sonho.

Vossa graça isso!

Vossa graça aquilo!

Como Collin Hill consegue conviver com isso?

— Olha você, aí! — E falando no Barão… — Como vai, sua graça?

Reviro os olhos para esse seu cumprimento.

— Ah vamos, pare com isso, Collin! Não estamos dentro do castelo e não tem ninguém aqui que nos obrigue a usar os nossos títulos! — retruco com nítido mal humor para o meu amigo de infância, que rir da minha rabugice.

O fato é que tanto o Barão de Luxemburgo quanto o Duque de Birmingham nunca almejaram carregar tais títulos. Entretanto, o fim dos nossos pais nos obrigou a aceitá-los com todas as suas pompas, regras e responsabilidades.

— Soube que você vai se casar — comento à medida que entramos no palácio para uma conferência com alguns ministros. — E com uma brasileira? — Não escondo a minha surpresa.

— Você quer dizer com a mulher da minha vida? — Ele retruca. — Sim!

— Cale-se! — ordeno baixo e cauteloso. — Temo que a morte não goste de casais estupidamente apaixonados e felizes. — Collin me lança um olhar torto.

— Do que você está falando, homem?

— Não consegue ver? — retruco. — Primeiro foram os nossos pais. Depois, a minha mulher e filho.

— Não está realmente acreditando nisso, não é? — Ele retruca de volta.

— E por que não? — Faço um gesto de desdém com os ombros. Em resposta, Collin Hill respira fundo, parando de andar no mesmo instante e isso me faz parar também.

— Como você está, meu amigo? — O Barão procura saber, dessa vez demonstrando a sua preocupação e no ato, ele segura nos meus ombros. Em resposta, apenas puxo uma respiração alta e cansada.

— O meu mundo se acabou, Collin — confesso com um lamento. — Como você acha que eu estou? — sussurro com amargor. — Não existe mais a sua alegria dentro daquela casa e nem o seu brilho…

— Você precisa superar isso, Thomas — aconselha-me.

Como se eu não tivesse tentado fazer isso! Resmungo mentalmente rolo os olhos em frustração.

— Superar? — Arqueio as sobrancelhas de forma irônica. — É o que todos me dizem para fazer todos os dias e o tempo todo. Você precisa superar, Thomas. Precisa se casar outra vez e constituir uma nova família. Mas que droga, acha que não estou tentando?!

— Ok, eu sei que é difícil. Eu sofri muito quando perdi os meus pais e quando tive que encarar a minha realidade logo em seguida. E eu sofri ainda mais quando por um instante pensei que havia perdida a Ellen de vez. E todas as minhas esperanças se esvaíram, escaparam por entre os meus dedos sem que eu pudesse evitar.

Engulo em seco.

— Então, me diga, como conseguiu? Como saiu desse maldito inferno? — ranjo os dentes, lançando lhe um olhar cheio de esperança. Contudo, meu amigo apenas me olha nos olhos por alguns segundos.

— Eu lutei. Lutei com todas as minhas forças. E você precisa fazer o mesmo, Thomas.

Solto uma respiração alta.

— Estou cansado de tanto lutar, Collin — confesso com um lamento.

— Venha para o meu casamento, Thomas. — Penso em protestar, mas ele continua. — E leve as suas irmãs.

— A Violet, Lydia e Sophie ainda são muito crianças para participar desses eventos. Mas acredito de que a Josephine e a Abigail vão gostar de ir. — Ele abre mais um sorriso.

— Perfeito! Leve-as então.

— Mas eu não prometo ficar muito tempo, Collin. — Deixo bem claro.

— Tudo bem. Só apareça lá e venha usufruir um pouco da minha felicidade. Quem sabe isso te dê forças para lutar?

— Quem sabe?

Capítulo 3

Judith

— Boa noite, linda dama! — Uma voz firme e forte, porém, galanteadora diz atraindo a minha atenção para o homem extremamente alto e… eu devo dizer que ele é muito, muito bonito, embora a sua face séria demais e rígida demais me deixe um tanto curiosa. — Será que a Senhorita aceita dançar comigo?

Céus, ele é um duque. Eu sei por que as pessoas ao meu redor não param de murmurar sobre ele desde que entrou nesse salão de festas. E ele está me convidando para dançar em plena festa de casamento dos meus melhores amigos. Penso em dizer que não, porém, me vejo segurando a sua mão estendida e logo sou guiada por para o centro da pista de dança, onde alguns casais já se aventuravam. Eu não faço ideia, mas sinto que de alguma forma esse pedido em algum momento mudará completamente o meu destino. E o fato de dizer sim para esse lindo e elegante estranho cavalheiro me deixou incomodada. Contudo, ao sentir a sua pegada forte na base da minha coluna, unindo o meu corpo ao seu me fez sentir estranha também.

— A propósito, eu me chamo Thomas Elliot de Birmingham Terceiro. — Ele diz quando começa a nos embalar.

Tive que segurar o riso. Devo dizer que os ingleses são mesmo pessoas muito formais e que eles levam muito a sério esse negócio de títulos e tudo mais. Thomas Elliot de Birmingham Terceiro?

Eu tenho uma pergunta. Devo chamá-lo pelo primeiro, pelo segundo ou pelo seu terceiro nome? Um apelido ajudaria também.

— E você é?

Oh, com tantos pensamentos preenchendo a minha mente me esqueci de me apresentar.

— O meu nome é Judith Evans. Apenas Judith Evans. Mas pode me chamar de Judy.

— Soube que você é brasileira, Senhorita Evans. — Thomas ignora completamente o meu pedido e o seu tom seco me diz que ele não procura intimidades. Mesmo que elas estejam apenas no nome de uma mulher.

Rolo os olhos internamente.

É ridículo, mas é aceitável. A final, contra uma tradição milenar não existe dobras, certo?

— Eu sou — respondo-lhe no mesmo tom.

— E deixou a sua família para seguir o Barão de Luxemburgo em uma terra tão distante do seu lar? Você, não sente falta deles? — Pressiono os lábios porque não quero falar sobre o meu passado com esse estranho. Com certeza isso não está nos meus planos. Contudo, ainda assim, me pego falando um pouco sobre ele.

— Eu não tenho uma família, Senhor Birmingham. — Thomas arqueia as sobrancelhas, parece não gostar da forma como usei o seu sobrenome.

Bufo mentalmente.

— Todos temos uma família, Senhorita Evans. — Ele grunhe ainda com essa sua maldita secura. Irritada, paro de dançar.

— Não eu. Agora, se me der licença… — Penso em me afastar e deixá-lo sozinho no meio da pista. Contudo, ele segura na minha mão e me puxa de volta para os seus braços.

— Não ouse me deixar sozinho aqui, Senhorita Evans. Isso não é educado, não quando a dança ainda não terminou.

Rude, frio e autoritário.

— Essa dança já terminou para mim, Senhor Birmingham! — rebato grosseiramente, assim como ele foi rude comigo. Entretanto, tento me afastar outra vez, porém, Thomas pressiona ainda mais os seus dedos na minha coluna, colando-me ainda mais ao seu corpo e irritada, olho dentro dos seus olhos.

— Ok, já compreendi que não gosta de falar sobre o seu passado. E eu respeito isso.

— Respeita? — rebato irônica.

— Eu também tenho um passado, Senhorita Evans. E não gosto que mexam nele.

— Ótimo, Senhor Birmingham! — rosno, me afastando outra vez no exato momento que a música se acaba. — Passar bem, Senhor Birmingham!

— É, vossa graça! — Ele exige, mas não lhe dou atenção e saio imediatamente do salão.

Idiota! Retruco mentalmente, afastando-me do barulho da festa e saio à procura do silêncio do jardim. Em segundos encostando-me em uma mureta de arbustos para apreciar a quietude do mar que rodeia essa ilha, banhando pela luz do luar.

Rio mesmo sem vontade. Juro que pensei que respirar novos ares me ajudaria e que eu teria a chance de me tornar outra pessoa longe do meu passado.

— Você é tão tola, Judy! — ralho baixinho, incomodada com os meus pensamentos e decido encerrar essa noite.

***

Algumas semanas…

— Darly, preciso dos contratos dos novos editores. E preciso da lista de escritores para uma visita formal — peço, colocando a cabeça rapidamente para fora da brecha da porta do meu escritório e a fito com a cara enfiada dentro de um arquivo volumoso demais. Um possível lançamento para a filial da editora aqui em Londres.

Um dos primeiros da Publishing Hill LTDA.

— Está tudo pronto, Senhorita Evans. De que horas o Senhor Hill chega? — Ela pergunta, me entregando algumas pastas pesadas que tem a logo da empresa e mesmo com as mãos cheias, dou um jeito de olhar o meu relógio no meu pulso.

— Em duas horas.

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