O escritório de Bento Cavalcanti ficava na cobertura do hotel, um espaço que parecia ter sido projetado para intimidar qualquer mortal. Paredes de vidro do chão ao teto ofereciam uma visão panorâmica de Gramado, que àquela hora da tarde já começava a acender suas luzes de Natal. Por dentro, o ambiente era o oposto da cidade: minimalista, em tons de cinza chumbo, couro preto e aço escovado. Não havia uma única guirlanda, nenhuma árvore, apenas o silêncio cortante de quem não tinha tempo para sentimentalismos.
Clarice estava parada diante da imensa mesa de carvalho negro. Ela ainda vestia seu macacão jeans, mas tinha tentado limpar o glitter do rosto com um lenço umedecido - sem muito sucesso, já que agora parecia que uma galáxia inteira brilhava em suas bochechas.
Bento não olhou para ela de imediato. Ele estava concentrado em alguns documentos, uma caneta-tinteiro de ouro deslizando com precisão pelo papel. O silêncio se estendeu deliberadamente. Era uma tática de poder, Clarice sabia disso. Ele queria que ela se sentisse pequena, deslocada.
- Pode se sentar, senhorita Luz - ele disse finalmente, sem erguer os olhos.
- Prefiro ficar em pé, Sr. Cavalcanti. A última vez que aceitei seu apoio, quase causei um desastre na recepção - ela rebateu, com a voz firme, embora suas mãos estivessem escondidas nos bolsos para ocultar o leve tremor.
Bento finalmente levantou a cabeça. O olhar azul a atravessou como uma lâmina de gelo. Ele se recostou na cadeira de couro, observando-a com uma curiosidade nada discreta. Clarice era o caos personificado em seu mundo de ordem. E, por algum motivo que ele se recusava a admitir, o caos era fascinante.
- Estive analisando seu contrato - Bento começou, fechando a pasta. - O seu trabalho é... aceitável. Mas sua conduta profissional deixa a desejar. Você desafiou o proprietário do estabelecimento na frente dos funcionários e dos hóspedes.
- Eu não o desafiei. Eu apenas apontei que o senhor estava sendo desnecessariamente rude com o espírito da época - ela sorriu de lado, um sorriso desafiador. - E, tecnicamente, eu salvei a estrela do topo. Se ela quebrasse, o senhor teria um prejuízo de três mil reais em cristal tcheco.
Bento arqueou uma sobrancelha. Ele gostava de pessoas que sabiam o valor das coisas.
- Você é rápida com os números. E pelo que pesquisei, também está desesperada por eles.
O sorriso de Clarice vacilou. A menção ao desespero atingiu um nervo exposto. Ela precisava do cachê daquele hotel para pagar a cirurgia de catarata da avó e as dívidas acumuladas do pequeno ateliê de decoração que mantinha nos fundos de casa.
- Minha vida financeira não é da sua conta, Sr. Cavalcanti.
- Torna-se minha conta quando pretendo fazer uma proposta que vai além de pendurar bolas de vidro em árvores - ele se levantou. Bento era alto, e quando caminhava em direção a ela, parecia ocupar todo o oxigênio da sala. Ele parou a poucos centímetros dela, circulando-a como um predador. - Eu tenho um problema. Um conselho de administração composto por homens arcaicos que acreditam que um CEO solteiro e "implacável demais" não passa confiança para os acionistas conservadores.
Clarice franziu a testa, acompanhando o movimento dele com os olhos.
- E o que eu tenho a ver com seus problemas de imagem?
- Eles querem um homem de família. Alguém que tenha raízes, que mostre estabilidade emocional. O Natal é a data máxima dessa encenação. Em dez dias, haverá o Baile de Máscaras do Grand Cavalcanti. É o evento do ano. Preciso chegar lá com uma noiva.
Clarice soltou uma gargalhada genuína, o som ecoando pelo escritório estéril.
- O senhor quer contratar uma noiva? Está assistindo muitos filmes de comédia romântica, Sr. Cavalcanti.
- Eu não assisto filmes. Eu resolvo problemas - ele parou na frente dela, a expressão mortalmente séria. - Quero que você interprete esse papel. Você tem o que falta em mim: essa... vivacidade irritante, essa aparência de quem realmente gosta de pessoas e de feriados. Você é bonita, sabe falar e, claramente, não tem medo de mim.
Clarice cruzou os braços sobre o peito, sentindo o calor que emanava do corpo dele. Estar perto de Bento era como estar perto de uma lareira acesa: perigoso se você chegasse perto demais, mas irresistivelmente atraente no frio.
- E por que eu aceitaria algo tão absurdo?
- Por duzentos mil reais - ele disparou.
O ar sumiu dos pulmões de Clarice. Com esse dinheiro, ela não apenas operaria a avó, como compraria a pequena loja que sempre sonhou em abrir no centro de Gramado.
- Duzentos mil? - ela sussurrou.
- Cinquenta por cento agora, cinquenta por cento na manhã de Natal, quando o contrato terminar. Você morará aqui, na suíte presidencial adjacente à minha. Terá roupas novas, joias, e terá que frequentar todos os jantares e eventos ao meu lado. E o mais importante: terá que convencer a todos, especialmente à minha mãe e ao conselho, de que estamos perdidamente apaixonados.
Clarice sentiu um frio na espinha que não tinha nada a ver com o clima de Gramado.
- Apaixonados? Como eu vou convencer alguém de que amo um homem que tem um iceberg no lugar do coração?
Bento deu um passo ainda mais próximo. Ele inclinou o rosto, a respiração quente atingindo a orelha de Clarice, fazendo os pelos do braço dela se arrepiarem instantaneamente.
- Você é uma artista, Clarice. Invente uma história. Ou melhor... use o que sentiu quando eu te segurei nos braços hoje cedo. Aquele choque elétrico? As pessoas chamam isso de química. Só precisamos fingir que ela é intencional.
Clarice engoliu em seco. O cheiro dele a estava deixando tonta novamente. Era uma mistura de poder e um desejo latente que ela não conseguia ignorar. Ela olhou para os lábios dele, bem desenhados e firmes, e por um segundo, imaginou como seria ser beijada por aquele homem. Seria como gelo ou como fogo?
- Existem regras? - ela perguntou, a voz saindo mais rouca do que pretendia.
- Várias. A primeira: nada de intimidade real diante de câmeras, apenas o necessário para a farsa. Toques sutis, olhares, mãos na cintura. Segunda: você nunca, sob hipótese alguma, admite que isso é um negócio. Terceira... - ele fez uma pausa, os olhos descendo para a boca dela. - Você terá que lidar com o fato de que, para o mundo, você é minha.
Clarice sentiu o desafio no tom dele. Era um jogo de xadrez, e Bento achava que já tinha dado o xeque-mate. Mas ele não conhecia a força de uma mulher que já tinha enfrentado tempestades reais para manter o sorriso no rosto.
- Eu aceito - ela disse, estendendo a mão. - Mas com uma condição.
Bento apertou a mão dela. A pele dele era quente e a pressão era firme, enviando uma descarga elétrica que percorreu o braço de Clarice até o centro do seu peito.
- Qual?
- O senhor vai ter que montar uma árvore de Natal comigo. Com as próprias mãos. Sem secretários, sem gerentes. Só o senhor, eu e o espírito natalino que o senhor tanto despreza.
Bento soltou um suspiro impaciente, mas não soltou a mão dela. Pelo contrário, puxou-a um pouco mais para perto, reduzindo o espaço pessoal a quase nada.
- Você é uma negociadora difícil, Clarice Luz.
- O senhor ainda não viu nada, Sr. Cavalcanti.
Aquele aperto de mão selou o destino dos dois. Pelas próximas duas semanas, o homem mais poderoso da hotelaria brasileira e a decoradora sonhadora viveriam uma mentira que, a cada segundo de proximidade, parecia se tornar a verdade mais perigosa de suas vidas.
Bento a observou sair da sala. O balançar dos quadris dela no macacão jeans era um convite ao pecado que ele não tinha planejado aceitar. Ele caminhou até a janela e tocou os próprios lábios. O Natal, que ele sempre considerou uma perda de tempo, acabara de se tornar a estação mais interessante do ano.
A manhã seguinte em Gramado nasceu sob uma neblina espessa, uma cortina branca que envolvia os pinheiros e transformava a cidade em um cenário de conto de fadas melancólico. Para Clarice, porém, o despertar foi tudo menos bucólico. Às seis da manhã, a campainha de seu pequeno apartamento nos fundos do ateliê tocou com uma insistência autoritária.
Ao abrir a porta, ainda de pijama de algodão e cabelos desalinhados, ela não encontrou o carteiro. Encontrou Bento Cavalcanti.
Ele estava impecável, mesmo sob o frio da madrugada. Usava um sobretudo de lã italiana sobre um terno preto, as mãos enluvadas cruzadas atrás das costas. O olhar dele percorreu Clarice com uma lentidão deliberada, desde os pés descalços até o rosto sonolento. A intensidade daquele escrutínio fez a pele dela formigar sob o pijama fino.
- Você está atrasada - ele disse, sem um "bom dia". A voz dele era um trovão baixo na quietude da rua.
- Atrasada? Bento, são seis da manhã! O contrato nem começou direito - ela protestou, tentando ajeitar o cabelo.
Bento deu um passo à frente, forçando Clarice a recuar para dentro do próprio apartamento. Ele entrou, fechando a porta atrás de si. O espaço, que antes parecia acolhedor com suas cores vivas e cheiro de tinta, subitamente pareceu minúsculo diante da presença dele. Ele dominava o ambiente apenas por existir.
- O contrato começou no momento em que selamos o acordo. A partir de agora, seu tempo me pertence. - Ele caminhou até uma mesa cheia de croquis e tocou um dos desenhos com a ponta dos dedos. - Você tem trinta minutos para arrumar uma mala com o essencial. O restante será providenciado.
- Eu não recebo ordens assim na minha própria casa - Clarice tentou manter a postura, mas a proximidade dele era perturbadora. Bento exalava um perfume de couro e frio que parecia nublar o raciocínio dela.
Ele se virou, caminhando em direção a ela com uma calma predatória. Parou tão perto que Clarice precisou inclinar a cabeça para trás para encará-lo. Bento levou a mão ao rosto dela, mas não foi um carinho; ele segurou o queixo dela com firmeza, forçando-a a sustentar o olhar azul e implacável.
- Escute bem, Clarice. Eu não pago duzentos mil reais para ser questionado. Eu pago pela perfeição. E para o conselho e minha família, você não será a garota do glitter. Você será a mulher de Bento Cavalcanti. Isso exige disciplina. Agora... mova-se.
O polegar dele roçou o lábio inferior dela, uma pressão mínima, mas carregada de uma promessa silenciosa de posse que fez o ventre de Clarice contrair. Ela sentiu raiva, sim, mas sentiu algo muito mais perigoso: um desejo avassalador de ver até onde aquela dominação chegaria.
- Vinte e nove minutos - ele murmurou, soltando-a e olhando para o relógio de pulso de luxo.
Duas horas depois, eles estavam no setor mais exclusivo de uma Maison de luxo em Gramado, fechada apenas para o CEO. Clarice sentia-se um peixe fora d'água. Enquanto consultoras de estilo traziam vestidos que custavam mais do que o seu carro, Bento estava sentado em uma poltrona de veludo, um copo de uísque puro na mão, observando-a como um diretor avaliando sua atriz principal.
- O vermelho - ordenou Bento, apontando para um vestido de seda com um decote profundo nas costas.
- É muito chamativo - Clarice tentou argumentar.
- É o meu tom favorito. E você fica magnífica de vermelho, Clarice. Realça o fogo que você tenta esconder sob esse jeito de menina boazinha. Vá.
No provador, Clarice lutava com o zíper lateral quando a cortina foi levemente afastada. Bento entrou no cubículo estreito. O espelho refletiu a imagem dos dois: ela, seminua, com a seda vermelha escorregando pelos ombros; ele, a personificação do controle.
- O que está fazendo? - ela sussurrou, o coração batendo na base da garganta.
- Você está demorando. Deixe-me ajudar.
Ele se posicionou atrás dela. As mãos grandes e quentes tocaram a pele nua das costas de Clarice, subindo lentamente até o fecho. O toque de Bento era deliberadamente lento, provocante. Ele não tinha pressa. Cada centímetro que o zíper subia, os dedos dele roçavam a coluna dela, provocando arrepios que Clarice não conseguia esconder.
Bento inclinou-se, os lábios roçando o pescoço dela, logo abaixo da orelha.
- Você está tremendo, Clarice. É medo ou expectativa?
- É frio - ela mentiu, a voz saindo falha.
Bento soltou uma risada baixa, um som sombrio e sensual que vibrou contra a pele dela.
- Mentira. Seus olhos estão dilatados. Sua respiração está curta. Você gosta da tensão tanto quanto eu. Mas lembre-se: eu ditei as regras. Eu controlo o ritmo.
Ele terminou de fechar o vestido e, em vez de se afastar, espalmou as mãos na cintura dela, puxando o corpo de Clarice contra o seu. A rigidez do terno dele contrastava com a fluidez da seda e a maciez das curvas dela. Pelo espelho, ele a obrigou a olhar para si mesma.
- Veja o que eu vejo - ele ordenou. - Uma mulher que pode ter o mundo aos seus pés, se souber a quem pertencer.
O clima estava saturado de um desejo não dito. Clarice sentia o calor de Bento, a força de seu corpo contra o dela, e a vontade de se virar e beijá-lo até que aquela máscara de controle se partisse era quase insuportável. Mas Bento era um mestre na arte da antecipação. Ele a soltou abruptamente, deixando um vazio frio onde antes havia fogo.
- Este vestido. E mais dez desses. Vamos, temos um almoço com a minha mãe no hotel. E ela não é tão fácil de convencer quanto um vendedor de roupas.
O almoço aconteceu na varanda privativa da suíte de Bento. Dona Eleonora Cavalcanti era a versão feminina de Bento: elegante, perspicaz e com olhos que pareciam ler a alma.
Durante a refeição, Bento desempenhou o papel de noivo apaixonado com uma precisão assustadora. Ele mantinha a mão sobre a de Clarice, polegar acariciando os nós de seus dedos de uma forma que parecia natural para quem via, mas que era uma tortura sensorial para ela.
- E como vocês se conheceram? - Eleonora perguntou, tomando um gole de vinho.
- Foi na montagem da árvore, mamãe - Bento mentiu com uma naturalidade desconcertante. - Clarice quase caiu nos meus braços. Literalmente. No momento em que a segurei, soube que não poderia deixá-la ir. Ela tem uma luz que falta neste hotel... e em mim.
Ele olhou para Clarice com tanta intensidade, um brilho de desejo tão real nos olhos azuis, que por um segundo ela acreditou. O coração dela disparou. Bento se inclinou e depositou um beijo casto, porém possessivo, no topo da cabeça dela.
- Ela é... única - Bento completou, a voz carregada de um subtexto que só Clarice entendeu. Ele não estava falando da "luz" dela; estava falando do desafio que ela representava.
Quando Eleonora finalmente se retirou, satisfeita com a farsa, Clarice soltou o ar que nem sabia que estava prendendo.
- Você é um ator excelente, Bento. Quase me convenceu.
Bento serviu-se de mais um pouco de vinho, sua expressão voltando à frieza habitual, embora houvesse algo diferente no modo como ele a olhava agora.
- Não foi tudo atuação, Clarice. A parte sobre não querer deixá-la ir... - ele deu um passo em direção a ela, encurralando-a contra o parapeito da varanda. O vento frio de Gramado soprava, mas entre eles o ar fervia. - Eu não gosto de perder o que é meu. E, pelo tempo deste contrato, você é minha. Entendeu?
Ele segurou o rosto dela com uma das mãos, o polegar pressionando o centro de seu lábio inferior, forçando-a a abrir a boca levemente. O olhar dele desceu para os lábios dela com uma fome que ele não tentou mais esconder.
- Entendeu, Clarice? - ele repetiu, a voz rouca e exigente.
- Sim - ela sussurrou, entregando-se àquela autoridade que a consumia.
Bento não a beijou. Ele apenas sorriu, um sorriso sombrio de quem sabia que tinha o controle total, e se afastou.
- Ótimo. Vá se preparar. À noite, teremos a nossa primeira "aula" de como agir em público. E eu espero que você seja uma aluna muito... aplicada.
Clarice ficou sozinha na varanda, o sabor do poder dele ainda pairando no ar. Ela sabia que estava brincando com fogo, e que Bento Cavalcanti não era apenas o CEO de um império. Ele era o homem que, em menos de vinte e quatro horas, tinha transformado o seu Natal em uma dança perigosa entre a mentira e o desejo mais cru que ela já sentira.