Capa do Romance Um contrato de amor

Um contrato de amor

8.2 / 10.0
Determinada a proteger a guarda de sua irmã, Letícia, Luna aceita uma proposta inusitada de seu influente chefe, Dante Navarro: um matrimônio de conveniência. O acordo deveria ser puramente estratégico e sem emoções, mas a convivência transforma a farsa. Entre gestos cotidianos e o carinho da pequena Letícia, o vínculo contratual evolui para um sentimento genuíno. O que era apenas uma encenação para a sociedade torna-se a descoberta de uma família real.

Um contrato de amor Capítulo 1

O envelope branco sobre a mesa parecia um bicho de sete cabeças.

Era desses com selo oficial, papel grosso demais, com aquele brasão dourado do Tribunal de Justiça estampado no canto superior - elegante, mas cruel. Não precisava abrir para saber que ali dentro vinha dor.

Mas eu abri.

"Notificação: prazo de 30 dias para comprovar condições legais e emocionais para manter a guarda da menor Letícia Oliveira, sob pena de transferência temporária para abrigo assistencial."

A leitura foi automática. Meus olhos passavam pelas palavras, mas o cérebro travava, como se negasse entender. Na terceira vez, a verdade me atravessou de vez: estavam querendo tirar minha irmã de mim.

Soltei o papel como se tivesse queimado meus dedos. Talvez tivesse. Meus olhos começaram a arder, mas as lágrimas ainda não vinham. Ficavam represadas, como tudo o que tenho sentido desde que o mundo virou do avesso.

Respirei fundo. A cozinha estava silenciosa, iluminada pela luz morna da manhã que entrava pelas persianas meio tortas. O som da chaleira ainda assobiava no fogão, me lembrando que eu tinha café para terminar de fazer, almoço para pensar, uma menina de oito anos para acordar.

Letícia. Minha Leti.

Minha irmã, minha pequena. Dormia no quarto ao lado, encolhida na cama que comprei com o dinheiro do primeiro salário. Ela era só os olhinhos fechados e os cabelos embaraçados no travesseiro rosa, abraçada ao coelho de pelúcia que já perdeu um dos olhos.

Acordá-la seria como acender a luz da casa. Ela era riso, era brilho, era tudo que restou depois que nossos pais foram embora cedo demais.

Lembrei do dia em que prometi a mim mesma que a criaria sozinha, com o pouco que tinha e o muito que sentia. A promessa ainda era a mesma. Mas agora, não parecia ser o bastante.

- Não vão te levar - sussurrei para mim mesma, como um mantra. - Eu não vou deixar.

As lágrimas finalmente vieram, quentes, silenciosas. Caiam no café recém-passado, enquanto minhas mãos tentavam derramar leite sem tremer.

Eu precisava de ajuda. Mas de quem?

Sozinha, meu salário mal cobria o aluguel, a comida e o cursinho de reforço da Leti. E mesmo trabalhando duro, nunca parecia ser suficiente. Para a justiça, estabilidade vinha com sobrenomes importantes, casas grandes e alianças no dedo. E eu não tinha nada disso.

**

O relógio piscava 7h42 quando consegui vestir minha roupa de trabalho. Jeans escuro, blusa bege e o cabelo preso de qualquer jeito. Ainda parecendo alguém prestes a desabar.

Acordei Leti com um beijo na testa. Ela abriu os olhos devagar, com aquele sorrisinho torto que me desarmava. Se levantou, me abraçou pela cintura, e murmurou:

- Hoje tem bolo de cenoura na merenda.

Sorri, mesmo com o coração em frangalhos.

A levei até a escola e prometi buscá-la no horário, como sempre fazia. Depois, peguei o metrô cheio com o estômago embrulhado e a alma esmagada.

O prédio da Navarro Empreendimentos era o oposto da minha vida: alto, imponente, frio e brilhante. Entrar lá todos os dias era como vestir uma máscara. A assistente eficiente, organizada e sempre pontual. O caos que eu era por dentro não tinha espaço ali.

O saguão era de mármore bege, com espelhos estrategicamente posicionados, onde todos pareciam mais ricos e mais bem-sucedidos do que realmente eram. Eu odiava esses espelhos.

Enquanto esperava o elevador, meus olhos ainda ardiam. Mas eu precisava parecer bem. Fingir era uma arte que eu vinha aperfeiçoando desde os quinze anos.

Mas naquela manhã, o universo resolveu brincar.

Ao virar o corredor do 23º andar, dei de cara com ele. O homem que parecia ter saído de uma propaganda de ternos caros e olhar glacial.

Dante Navarro.

CEO da empresa. Meu chefe. O tipo de homem que podia silenciar uma sala inteira com uma única olhada. Alto, imponente, com um terno escuro feito sob medida, sapatos que brilhavam mais do que meu futuro e cabelos escuros penteados com precisão milimétrica para trás. Nada em Dante era por acaso. Nem o silêncio.

Ele estava parado ao lado da máquina de café, como se o tempo se curvasse à sua volta. Segurava uma xícara branca, observando o café subir como se analisasse a densidade do universo.

Meu primeiro instinto foi passar direto. Ele raramente falava com os assistentes, a menos que fosse necessário. Mas, naquele dia, ele ergueu o olhar e me viu.

Me viu de verdade. E eu congelei.

- Você está pálida - disse, com a voz baixa e firme. Não era preocupação. Era constatação.

- Só uma manhã difícil, senhor - murmurei, desviando o olhar.

Mas ele não voltou ao café. Continuou me encarando, olhos castanho-escuros como aço morno, avaliando algo em mim como se fosse uma planilha fora do padrão.

- Quer conversar sobre isso?

Foi tão direto, tão fora do protocolo, que quase ri. Ele parecia mais incomodado por ter perguntado do que genuinamente interessado.

- Não é necessário - tentei escapar, mas minha voz saiu trêmula demais.

Ele ergueu uma sobrancelha, um gesto sutil, mas cheio de julgamento. O típico Dante: sempre analisando tudo como se fosse um risco de investimento.

- Está tudo bem com a criança? - ele perguntou.

Travei. Eu já havia mencionado Leti uma vez ou outra. Ele lembrava?

Engoli em seco.

- Não. Não está.

O silêncio se instalou entre nós. Quente, pesado, incômodo.

Ele não disse mais nada. Apenas estendeu a xícara na minha direção.

- Café? - perguntou, como se fosse uma trégua.

Aceitei. Pela primeira vez em muito tempo, deixei que alguém - mesmo que fosse Dante Navarro - percebesse que eu estava caindo.

Mal sabia eu que esse seria o início de uma mentira.

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