A visita ia de mal a pior.
Vanessa sentou ao lado da filha adormecida com o coração apertado. Parecia que Marcus já formara uma opinião a seu respeito. Não iria nem lhe dar uma oportunidade, e a perspectiva de ficar sozinha com ele até Gabriel voltar a fazia estremecer.
Agora percebia que desafiar o príncipe tão abertamente não fora sua melhor ideia. Ela era uma pessoa de fortes convicções, porém em geral conseguia se conter. Entretanto, o olhar irônico que Marcus lhe lançava e sua enorme arrogância a faziam perder as estribeiras, e antes que tivesse tempo de pensar sua boca já dizia palavras agressivas.
Fitou o príncipe de soslaio, porém ele continuava concentrado no celular. Era um homem muito lindo. Pena que sua personalidade carecesse de beleza.
Ouça o que está dizendo para você mesma.
Ela deu uma sacudidela nos próprios pensamentos. Estaria tirando conclusões apressadas? E, assim agindo, não demonstrava ser igual a Marcus?
Sim, ele estava procedendo como um grosseiro, mas, se seu pai fosse desposar uma mulher muito mais jovem e que ela nunca conhecera, iria agir da mesma forma, refletiu. E caso seu pai fosse um rei bilionário sua desconfiança seria ainda maior. Sem dúvida, Marcus se preocupava com o pai, e Vanessa não podia esquecer que perdera a mãe oito meses antes.
Pensando assim sentiu-se melhor.
Porém... e se Marcus antipatizasse tanto com ela a ponto de tentar interferir em seu relacionamento com Gabriel? Será que estava disposta a passar o resto da vida se sentindo uma intrusa em sua própria casa? Ou jamais se sentiria em casa ali?
Estaria cometendo mais um de seus grandes erros?
Com o cérebro fervendo, Vanessa respirou fundo e tentou relaxar. Nem mesmo sabia ainda se desejava se casar com Gabriel. Afinal, não era esse o objetivo de sua viagem? Ainda estava em tempo de voltar para casa se as coisas não dessem certo. Seis semanas representavam um período muito longo. E muita coisa poderia acontecer. No momento, tentaria não se preocupar e aproveitar a estada em Varieo.
Uma sensação de paz a invadiu enquanto olhava pela janela da limusine e via o charmoso vilarejo de Bocas onde lojas, butiques e restaurantes se alinhavam em ruas de pedras repletas de turistas. Enquanto subiam a escarpa que levava ao palácio pôde ver a distância a praia cheia de gente, os iates e um navio de turismo atracado nas docas.
Lera que a estação de veraneio ia de abril a novembro, e nos outros meses os turistas se dirigiam às montanhas onde praticavam os esportes de inverno. Segundo informara Gabriel, grande parte da economia de Varieo era gerada pelo turismo.
Os portões se abriram de par em par e o palácio surgiu, deixando Vanessa boquiaberta. Parecia um sonho com sua arquitetura romana, fontes, gramados verdejantes e jardins luxuriantes.
Sem dúvida as coisas começavam a melhorar.
Virou-se para Marcus que parecia impaciente para descer da limusine e se ver livre dela.
— Seu lar é maravilhoso.
Ele a fitou com desdém.
— E esperava outra coisa?
Ela engoliu em seco.
— O que quis dizer foi que as fotos que vi do palácio não lhe fazem justiça. Estar aqui em pessoa é emocionante.
— Posso imaginar — retrucou ele sem conseguir esconder o sarcasmo.
Aliás, nem tentara esconder. Sem dúvida não pretendia dar descanso à Vanessa, que suspirou quando a limusine se deteve diante dos degraus de mármore da entrada com altas colunas brancas.
O edifício era maior que a Casa Branca, porém muito menor que o Palácio de Buckingham.
Marcus desceu, deixando que o motorista ajudasse Vanessa a fazer o mesmo. Ela segurou Mia ainda adormecida e penetrou no vestíbulo circular decorado em tons de bege com assoalho de mármore. Um gigantesco candelabro de cristal pendia do centro, suas peças brilhando como diamantes sob os raios do sol que entravam pelas janelas tão altas que alcançavam o teto. Uma escadaria dupla com corrimão de ferro batido se estendia à direita e à esquerda conduzindo ao segundo andar. Entre os dois lances surgia uma mesa grande de mármore entalhado com um arranjo de flores exóticas cujo aroma enchia o ar. A impressão era uma mistura de tradicional e moderno com muita sofisticação.
E foi só nesse momento, enquanto admirava o cenário em volta, que a realidade a atingiu em cheio. Esse palácio fantástico poderia se transformar em seu lar. Mia cresceria ali, teria do bom e do melhor, e, o mais importante, teria um homem que a aceitaria como filha. Parecia um sonho.
Desejou externar sua admiração a Marcus, porém calou-se. Temia ouvir mais um comentário irônico.
Vários empregados se enfileiravam à entrada e Marcus fez as apresentações. Célia, a governanta-chefe, era alta e severa usando um uniforme cinza e o cabelo prateado preso em um coque. Suas três ajudantes vestiam-se do mesmo modo, apesar de serem mais jovens. Nenhuma usava maquiagem ou jóias, e todas possuíam a mesma expressão distante nos rostos.
Vanessa sorriu e inclinou a cabeça para elas.
— Esta é Camille — comunicou Célia em inglês, indicando a mais nova das ajudantes. — Ela será sua criada particular durante sua estada.
Durante sua estada? Será que já estavam antecipando sua volta para os Estados Unidos?
— Muito prazer, Camille — sussurrou Vanessa sorrindo e oferecendo a mão.
Um pouco nervosa, a jovem estendeu a mão também baixando os olhos e murmurando com um forte sotaque:
— Senhora.
O mordomo, George, usava fraque e colarinho alto. Era magro como um caniço, vergado, e parecia ter quase cem anos... se é que já não tinha. Possuía dois subordinados trajados da mesma maneira, ambos jovens e com ar esperto, e os demais empregados eram um cozinheiro e uma confeiteira vestidos de branco, e tão gordinhos que deviam apreciar bastante os quitutes que faziam.
Marcus se voltou para George e apontou para a bagagem trazida pelo motorista. Em silêncio os dois ajudantes correram para pegá-la.
Uma senhora de meia-idade e elegante se adiantou e se apresentou como Tabitha, secretária particular do rei.
— Se precisar de alguma coisa, não faça cerimônia — esclareceu a Vanessa em um inglês perfeito, mas com um ar neutro. Apontou para a moça ao seu lado que usava um uniforme parecido com a das criadas. — Esta é Karin, a babá. Ela tomará conta de sua filha.
Vanessa não gostou muito da ideia de uma estranha cuidando de Mia, todavia tinha certeza de que Gabriel jamais escolheria alguém que não fosse de total confiança.
— Muito prazer em conhecê-la — murmurou para Karin.
— Senhora. — A garota inclinou a cabeça com educação.
— Por favor, me chame de Vanessa. Nunca fui adepta de formalidades. Todos podem me chamar pelo meu nome.
Não houve reação por parte da equipe. Nem um sorriso. Seriam sempre tão distantes ou apenas não simpatizavam com ela? Teriam decidido, como Marcus fizera, que não era digna de confiança?
Isso iria tornar o ambiente ruim, e Vanessa precisaria se esforçar para provar o contrário a seu respeito.
Marcus a fitou, dizendo:
— Vou levá-la aos seus aposentos.
Sem esperar resposta subiu a escadaria da esquerda e tão depressa que Vanessa precisou correr para acompanhá-lo.
Ao contrário do saguão onde a cor predominante era o bege, o segundo andar ostentava tons quentes de vermelho, laranja e púrpura, que não agradavam Vanessa, o resultado porém, era elegante sem ser espalhafatoso.
Marcus a conduziu por um vestíbulo acarpetado, e Vanessa brincou com certa ironia:
— Os empregados são sempre tão alegres e sorridentes?
— Além de servi-la terão de rir o tempo todo? — retrucou ele com azedume.
Sim, ainda mais com uma visitante de quem não gostavam, refletiu Vanessa.
Ao final de um corredor viraram à direita e ele abriu a primeira porta. Gabriel revelara à Vanessa que ficaria hospedada na maior suíte de hóspedes, mas ela não imaginara que seria tão grande. A suíte presidencial do hotel onde trabalhava parecia insignificante diante dessa.
Era tudo muito espaçoso com o teto alto e janelas enormes. A cor principal ali era o amarelo.
Havia uma saleta acolhedora junto a uma lareira. Também uma alcova que servia de sala de jantar, além de uma escrivaninha ladeada por estantes repletas de livros encadernados.
— É lindo! — exclamou ela. — Adoro amarelo.
— O dormitório fica ali — informou Marcus indicando a porta ao final da suíte.
Ela cruzou o carpete fofo e abriu a porta do quarto. Havia ali uma cama luxuosa com colunas, outra lareira e um aparelho de televisão com tela plana. Entretanto, Vanessa não viu o berço que Gabriel prometera.
Continuava carregando a filha adormecida, e o peso começava a cansá-la, então arriou Mia com cuidado no centro da cama e colocou uma série de almofadas em volta no caso de a criança acordar. Antes de voltar para a sala deu uma olhada no closet imenso onde viu suas malas. O banheiro também possuía todo o conforto moderno.
Foi encontrar Marcus à porta, os braços cruzados sobre o peito e com ar impaciente.
— Não há um berço para Mia — anunciou ela. — Gabriel me assegurou que colocaria um ao lado de minha cama.
— O quarto de bebê fica no final do corredor — informou ele meio chateado.
— Então espero que haja também uma babá eletrônica. Como poderei ouvi-la se acordar no meio da noite? — Embora Mia costumasse dormir bem, Vanessa ainda trocava sua fralda de madrugada.
Marcus pareceu confuso.
— Isso é trabalho para a babá — resmungou.
Para Vanessa a babá serviria apenas para olhar a menina de vez em quando, não em tempo integral. Já passava tantas horas longe de Mia, e essa viagem seria também para aproximá-la da menina.
— O quarto da babá é anexo ao da criança — explicou Marcus cada vez mais aborrecido.