Luzia
- Vittorio não resistiu!
Sophie
- Não, não... Isso não pode ser verdade, ele estava do meu lado! - Minhas palavras saem sufocadas, e sinto o mundo desabar sobre mim.
Narração
Minha mãe se aproxima e me envolve em um abraço apertado, tentando me consolar. O calor familiar dela deveria me acalmar, mas o vazio que sinto é imenso, e nenhuma palavra parece suficiente para preencher o buraco que a morte de Vittorio deixou.
Luzia
- Você precisa ser forte pelas crianças, Sophie. Elas vão precisar de você agora mais do que nunca.
Sophie
- E quem vai ser forte por mim? - Sinto minha voz tremer, como se cada palavra pesasse toneladas, carregada de desespero e solidão.
Luzia
- Oh, meu bem... - Ela faz uma pausa, seus olhos brilham de tristeza, mas ela se mantém firme. - Você não faz ideia do quanto isso dói em mim também. Perder um genro que amava como um filho...
Sophie
- Eu só tinha ele, mãe... e ele só tinha a mim. Como vou fazer agora? - As palavras mal conseguem sair. A ideia de enfrentar o futuro sem Vittorio me parece impossível, um pesadelo do qual não consigo acordar.
Luzia
- Nós vamos dar um jeito, filha. Mas você precisa reagir, por eles. Seus filhos precisam de você agora mais do que nunca.
Sophie
- Você tem razão... - Tento respirar fundo, mas o ar parece não entrar. - Me dê alguns minutos.
Narração
Enxugo as lágrimas com a manga da blusa, tentando me recompor. Minha mãe me olha com compreensão, acenando com a cabeça, e sai do quarto em silêncio, me deixando sozinha com minha dor.
Sophie
- Minha mãe está certa... - sussurro, sentindo o peso das palavras sobre mim. - Preciso ser forte... Meus filhos precisam de mim.
Sophie
- Mas como vou fazer isso? Eu não trabalho... A herança de Vittorio vai demorar para ser liberada. Como vou sustentar as crianças? - Me sinto sufocada. O peso da responsabilidade, a ausência dele, tudo parece me esmagar de uma vez só.
Narração
Minha mente vagueia, perdida em pensamentos sobre como as coisas chegaram a esse ponto. De repente, a porta se abre e Luna e Benício entram no quarto, interrompendo minha espiral de pensamentos.
Luna
- Mamãe!
Narração
Meu coração se aperta ainda mais. Não posso deixar que eles vejam minha dor. Coloco o melhor sorriso que consigo forçar no rosto.
Sophie
- Oi, meus amores... Vem aqui, a mamãe quer dar muitos beijos.
Narração
As crianças correm até mim e pulam na cama, enchendo-me de abraços e beijos. Tento por um instante acreditar que tudo está bem, que nada mudou, mas a verdade é como um soco no estômago.
Benício
- Mamãe, você está bem?
Sophie
- Estou, sim, meu amor. Logo vamos para casa.
Sophie
- E o papai? - Luna me pergunta com aqueles olhos grandes, cheios de inocência, sem entender o que está acontecendo.
Narração
Sinto meu corpo travar. Não sei como responder. Olho para minha mãe, que me observa da porta, esperando que eu diga alguma coisa. O ar parece faltar, e por um segundo acho que vou desmoronar.
Sophie
- Seu papai? Lembra quando contávamos as estrelas no céu?
Benício
- Sim, mamãe.
Sophie
- Então... - Respiro fundo, tentando manter a calma. - Seu papai virou uma linda estrelinha agora.
Luna
- Mas ele foi embora sem a gente?
Narração
Minha garganta se fecha. Tento segurar o choro, mas as lágrimas ameaçam escapar. Não posso fraquejar.
Sophie
- Sim, meu amor, ele foi embora... Mas sempre que você sentir saudades, basta olhar para o céu. A estrela mais brilhante será ele, cuidando de nós.
Luna
- E como vai ser sem o papai agora?
Sophie
- Nós vamos seguir em frente, como ele gostaria. - Sinto uma mistura de tristeza e esperança enquanto digo isso, como se tentar acreditar nas minhas próprias palavras pudesse de alguma forma torná-las verdadeiras.
Luzia
- Fiquem lá em casa por um tempo, Sophie. Vai ser melhor para todos.
Sophie
- Não, mãe... Eu preciso ficar aqui e organizar tudo. - Faço uma pausa, tentando encontrar forças. - Chegou a hora da Dra. Sophie entrar em ação.
Narração
Como advogada, sei que preciso lidar com toda a parte burocrática, apesar de a dor parecer me paralisar. Eu preciso reagir. Preciso cuidar das crianças, da casa, do futuro.
Narração
O dia do funeral chega e, com ele, uma onda de realidade se instala sobre mim. As crianças estão cabisbaixas, segurando minhas mãos, e eu já chorei até sentir que não havia mais lágrimas em mim. A casa está cheia de amigos e familiares, mas nada parece aliviar o peso da perda.
Sophie
- Alguns amigos da faculdade vieram... - murmuro, observando rostos conhecidos. - Não entendo como isso tudo aconteceu tão rápido.
Narração
Antes que eu consiga me perder nos pensamentos novamente, uma batida suave na porta me tira do transe. Jessica, minha amiga de longa data, aparece.
Jessica
- Está pronta?
Sophie
- Só um minuto, já vou descer. - Tento respirar fundo, mas tudo dentro de mim parece pesado demais para se mover.
Jessica
- Jack acabou de chegar. - Ela me observa com cautela, sabendo o que esse reencontro pode significar.
Sophie
- Jack? Ele veio? - Minha mente automaticamente volta para o passado. Eu e Jack... Faz tanto tempo.
Jessica
- Achei melhor te preparar para esse encontro.
Narração
Jessica dá um leve aceno e se afasta. Tento me recompor, ajustando o vestido, respirando fundo. Preciso parecer forte, mesmo quando tudo dentro de mim está desmoronando.
Sophie
- Jack veio... Depois de tudo, ele realmente veio. - A memória dos dias com Jack me invade. Eu estava com ele quando conheci Vittorio. Jack foi um bom namorado, mas nunca foi o amor da minha vida.
Narração
Desço as escadas, me sentindo observada por todos na sala. Minha mãe é a primeira a se aproximar.
Luzia
- Querida? - A preocupação está clara em seu rosto.
Sophie
- Estou bem. Vamos acabar logo com isso.
Narração
Em seguida, minha meia-irmã, Ester, se aproxima.
Ester
- Irmãzinha... Meus pêsames.
Sophie
- Obrigada.
Narração
Ela me abraça, de maneira breve e formal, com um tapinha nas costas que me parece frio. Há tanto entre nós que nunca foi dito.
Ester
- Papai não pôde vir, ele...
Sophie
- É melhor assim. Eu teria que expulsá-lo.
Narração
Jessica, percebendo a tensão, tenta aliviar o clima com seu jeito animado.
Jessica
- Agora é a vez da melhor amiga. Vem cá, minha linda.
Narração
Ela me puxa para um abraço caloroso. Me permito um sorriso, mas logo ouço alguém pigarrear atrás de mim. Viro-me e vejo Jack.
Jack
- Sophie... Meus pêsames.
Sophie
- Jack... - Tento manter a compostura. - Obrigada.
Jack
- Posso te dar um abraço?
Sophie
- Claro.
Narração
O abraço dele é firme, mas carrega memórias que eu achava ter deixado para trás. Jack foi importante, mas nunca foi o que Vittorio foi para mim.
Jack
- Sabe, Sophie, é difícil admitir, mas Vittorio era um homem bom. Acho que é por isso que eu o odiava.
Narração
Benício, ao ouvir isso, reage imediatamente, chutando a canela de Jack.
Jack
- Ai! Garoto!
Sophie
- Benício?
Benício
- Ninguém fala mal do meu pai!
Sophie
- Meu amor, ele não falou mal. Ele estava elogiando seu pai.
Benício
- Mas ele disse que odiava o papai!
Jack
- Está tudo bem, Sophie. Desculpa, garotão.
Narração
Benício ainda olha para Jack com raiva, mas obedece a mim, mesmo sem querer.
Sophie
- Benício... peça desculpas.
Benício
- Desculpa.
Luzia
- Ótimo. Vamos logo, já está na hora.
Narração
O velório e o enterro são insuportavelmente dolorosos. Me ajoelho diante do túmulo de Vittorio, as crianças ao meu lado, e sinto que meu coração está se partindo em mil pedaços.
Sophie
- Por que, meu amor? Por que isso aconteceu? Estávamos tão felizes...
Narração
As lágrimas finalmente caem livres, e me permito dizer adeus. Seguro um punhado de terra nas mãos e o deixo cair sobre o caixão. Vittorio agora é parte do universo, como as estrelas que prometi às crianças que representariam ele. Cada grão de terra que esfarela entre meus dedos me lembra de que ele se foi, que sua presença agora é apenas memória e saudade.
Fico ali ajoelhada, segurando a terra, enquanto as lágrimas finalmente caem livres. As crianças, sem compreender completamente, estão perto de mim, olhando para baixo. Sinto o vento passar levemente por nós, como se fosse um último sussurro de Vittorio. É difícil acreditar que nunca mais ouvirei sua voz, seu riso. Nunca mais o sentirei ao meu lado.
Depois de alguns minutos, sinto uma presença ao meu lado. Levanto o olhar e vejo Jack, que não disse uma palavra durante o funeral, mas agora está ali, em pé, ao lado do túmulo de Vittorio.
Sophie
- Jack... O que você faz aqui? O funeral já acabou, todos já foram embora.
Jack
- Precisamos conversar, Sophie.
Sophie
Aqui, agora?
Jack
Tem uma lanchonete aqui em frente.
Sophie
Vamos então...
Sophie
Jack, o que você quer comigo?
Jack
Primeiro, deixa eu te pagar um lanche. Aposto que não comeu nada, Sophie.
Sophie
Você me chamou para conversar ou para comer?
Jack
Nossa... não precisa me responder assim.
Sophie
Você quer que eu te responda como?
Sophie
Acabei de perder o meu marido, tenho dois filhos para sustentar e você desperdiçando o meu tempo.
Jack
É exatamente por isso que quero conversar...
Jack
Estou me mudando para cá, quero estar perto de você nesse momento. Quero te ajudar no que for preciso.
Sophie
Eu agradeço, mas não precisa. Eu me viro sozinha.
Narração
Jack pega na sua mão e acaricia por cima da mesa.
Jack
Eu sei que você é forte e consegue se virar, mas é bom ter um amigo por perto.
Sophie
Se você quiser ficar perto, não vou te impedir, mas é somente como amigo.
Jack
Eu sei. Você acabou de perder seu marido; seria muita canalhice da minha parte.
Sophie
Se já disse tudo, tenho que ir. Preciso pegar as crianças com a Jessica.
Jack
Manda um abraço para ela.
Sophie
Você sabe que ela te odeia, né?
Jack
Pelo menos te fiz sorrir.
Narração
Mesmo Jack sendo gentil, as palavras dele fazem você se sentir culpada. Culpa por estar sorrindo nesse momento de tanta dor.
Sophie
Adeus, Jack, e boa sorte na mudança.
Jack
Sophie, Sophie... você mal sabe o que te espera.
Narração
Sophie volta para casa, onde Jessica e sua mãe estão.
Cheguei.
Jessica
Grr... o que Jack queria? Eu vi ele se aproximando quando estávamos vindo embora.
Sophie
Nada demais, ele vai voltar a morar no bairro. Onde estão as crianças?
Luzia
No quarto, querida.
Narração
Você sobe até o quarto para ver seus filhos, que estão brincando.
Benicio
Mamãe!
Sophie
Oie, meus amores, como vocês estão?
Luna
Sinto falta do papai.
Sophie
Eu também sinto...
Sophie
Mas, vocês lembram que o papai gostava de ver a gente sorrindo e brincando? Vamos continuar sendo assim.
Benicio
Sim, mamãe, pelo papai.
Narração
Alguns dias depois...
Narração
Depois do funeral e alguns dias de luto, você decide visitar sua mãe.
Sophie
Vou vestir algo confortável...
Narração
Você escolhe uma blusa leve de algodão em tom pastel e uma calça jeans escura que valoriza sua silhueta. Para completar, um par de sapatilhas confortáveis que te permitem caminhar com facilidade. Ao olhar no espelho, você se sente um pouco mais confiante, mesmo que a tristeza ainda te acompanhe.
Narração
Ao chegar na casa de sua mãe, ela lhe puxa para uma conversa agradável no final da tarde, tomando um delicioso chá.
Luzia
Como as crianças estão lidando com tudo isso?
Sophie
Até que estão lidando bem. Vão voltar às aulas amanhã.
Luzia
E você?
Sophie
Não sei se vou conseguir superar. Tudo me faz lembrar dele.
Sophie
As coisas estão ficando complicadas. Estou tentando agilizar a papelada do testamento.
Sophie
Mas até hoje não saiu nada. Preciso voltar a trabalhar.
Luzia
É uma ótima ideia. Nunca entendi você ter largado sua carreira.
Sophie
Eu já disse que minha prioridade era os meus filhos. Não queria deixar eles com babá ou em escola; eu queria cuidar deles.
Luzia
Eu priorizei minhas filhas e onde eu acabei?
Sophie
É diferente, mamãe. O traste do seu marido não se compara ao Vittorio.
Sophie
Vittorio me deu todo apoio e nunca nos deixou faltar nada. Ele nunca me proibiu de trabalhar; foi uma decisão minha.
Luzia
Você não foi inteligente. A pior coisa que tem é depender de homem.
Sophie
É? Porque você não se ouve então... e vai trabalhar?
Luzia
Quem vai dar emprego para uma velha? Eu só não quero que você termine como eu.
Sophie
Eu vou voltar a trabalhar, não se preocupe.
Sophie
Apesar de não ter muito o que colocar no currículo.
Sophie
Além de ser formada com honras e ter trabalhado em um escritório de advocacia por pouco tempo.
Ester
Eu ouvi que você precisa de emprego?
Narração
Sua meia-irmã beija sua mãe e senta ao lado dela.
Ester
Onde eu trabalho tem uma vaga. Posso tentar algo para você.
Sophie
Você faria isso por mim? Nossa... muito obrigado.
Ester
Vou ligar para o Mariano.
Narração
Sua irmã sai para fazer a ligação.
Luzia
Ela fala desse Mariano há dias.
Sophie
Quem sabe ela não sossega de vez.
Luzia
Seu pai gostou dele. Mariano é o CEO da empresa. Você sabe como seu pai tem tendência a gostar de gente que tem dinheiro.
Sophie
Ele não é meu pai!
Luzia
Foi ele que te criou. Você deveria ser pelo menos agradecida e em troca tentar se dar bem com ele.
Sophie
Desculpa, mamãe, eu te amo muito, mas o seu marido não presta. Não me pedi algo impossível.
Luzia
Essa vai ser minha maior tristeza: meu marido e minha filha não se dão bem.
Narração
Antes mesmo de responder, Ester retorna com um sorriso triunfal.
Ester
Consegui! Mariano aceitou! Você pode ir fazer a entrevista amanhã mesmo.
Luzia
As coisas estão começando a dar certo. Tenho certeza que vai conseguir o emprego.
Sophie
Eu espero. Então amanhã eu vou procurar por quem?
Ester
Ah, sim, procura a Olivia do RH.
Sophie
Obrigada, maninha.
Narração
Você corre e abraça Ester.
Ester
Calma, vamos comemorar depois que você conseguir o emprego.
Luzia
Ela vai conseguir.
Ester
Mudando de assunto... Sabe do Jack?
Sophie
Não, por que?
Ester
Por nada. Encontrei com Jessica hoje. Ela me disse que ele vai voltar.
Sophie
Vai sim, mas não tive mais contato com ele desde o funeral.
Sophie
Bom... o papo está bom, mas é melhor eu ir. Tenho que arrumar uma roupa para a entrevista.
Ester
Eu sei que está correndo, para não encontrar com o meu pai.
Sophie
Inclua isso na lista também.
Narração
Você levanta rindo da situação e vai pegar as crianças.
Sophie
Benicio, Luna? Vamos...
Narração
Quando está pronta para sair, seu padrasto abre a porta.
Antenor
Olha só quem está aqui?