Capítulo 2

Liam

Acordei disposto a encontrar uma esposa. Se a condição para que eu assuma a Laser Inc. e a minha fortuna é essa, é exatamente isso o que farei. Porém, após uma noite mal dormida, em que perdi horas rolando na cama pensando sobre esse assunto, decidi que meu pai terá uma grande surpresa quando descobrir o que eu pretendo fazer.

Ele estabeleceu que eu deveria me casar, porém, ele não especificou com quem. Eu pretendo encontrar uma esposa completamente oposta ao que ele acredita ser a pessoa que eu vou escolher para me casar. 

Decidido a seguir meu próprio caminho e fazer uma escolha que desafiasse as expectativas de meu pai, eu me pus a buscar uma esposa que fosse completamente diferente do que ele imaginava. Alguém que não se encaixava no estereótipo de uma mulher fútil da alta sociedade paulistana.

Mas onde eu poderia encontrar alguém assim? Eu não tenho a menor ideia. Talvez eu deva sair, conhecer lugares diferentes dos quais eu costumo frequentar. Estava pensando sobre isso quando a minha secretária entrou na minha sala após uma rápida batida na porta.

Marta é uma mulher na casa dos cinquenta anos, eficiente, porém nada prática. Não tenho paciência alguma com ela. Porém, notei que ela parecia triste naquela manhã. Aquela era a segunda vez que ela vinha à minha sala e ficava em silêncio absoluto, algo bastante incomum para Marta.

— Algum problema? — Perguntei com irritação, enquanto assinava alguns documentos que ela colocou sobre a minha mesa.

— Não. 

— E por que você está com essa cara de velório? — Eu sei, sou um idiota.

— Não há nada, senhor Ricci.

Marta saiu após eu concluir todos os documentos sem nada dizer e assim foi durante todo o dia. Ela se resumia sempre ao estritamente necessário e eu me perguntava o que será que tinha acontecido com ela. 

Quando chegou o fim do expediente, eu passei pela sua mesa em direção ao elevador, pois as portas ficam frente a frente, mas diferente do que acontece todos os dias quando estou saindo do escritório, Marta não me cumprimentou nem desejou “um ótimo descanso” como ela faz todas as vezes.

Ao chegar do trabalho me deparei novamente com a mesma cena da noite anterior, mas desta vez eu simplesmente me recolhi ao meu quarto. Não estou com paciência para Frederico e Julian juntos.

Porém, não consegui escapar de Frederico na manhã seguinte, o que contribuiu para me deixar com muita raiva, principalmente quando recebi uma mensagem do Caíque me provocando sobre cuidar bem da empresa dele.

Ou seja, mais copos jogados contra a parede e uma bela bagunça na minha sala para limpar. Quando liguei para Marta, ela me surpreendeu ao dizer:

— Já solicitei a limpeza para a sua sala.

Ela encerrou a ligação após isso e me deixou mais intrigado com o seu comportamento incomum. Alguns minutos depois, entrou um jovem usando um macacão igual ao da garota que sempre vinha limpar a minha sala, mas não foi esse fato que chamou a minha atenção.

— Onde está a garota? — Perguntei de maneira brusca.

— Desculpe, senhor Ricci. Eu não sei sobre qual garota o senhor está falando. 

Percebi que não estava sendo claro e corrigi.

— Onde está a garota da limpeza, responsável por limpar a minha sala?

— O senhor a demitiu ontem, senhor Ricci.

A explicação do rapaz foi clara, porém eu levei alguns segundos para assimilar as suas palavras. A recordação da cena do dia anterior no meu escritório voltou a minha mente e me senti um babaca, mesmo que a garota realmente tenha se excedido ao dizer o que disse a mim.

Perceber que eu havia demitido a garota da limpeza por causa de um comentário inofensivo, mesmo que deslocado, fez com que eu sentisse um peso de culpa em meu peito. Eu havia agido de forma impulsiva e arrogante, deixando minha raiva controlar minhas ações.

Aquelas palavras inocentes, "você já pensou em procurar ajuda?", ecoavam em minha mente. Naquele momento, eu havia interpretado como um insulto, uma afronta à minha superioridade. No entanto, agora, eu me senti compelido a fazer algo para corrigir meu erro. 

Percebi que o rapaz ainda estava me encarando, provavelmente aguardava por mais alguma pergunta, então eu apenas fiz um gesto com a mão, para que ele continuasse a sua tarefa e liguei para a minha secretária, solicitando a sua presença em minha sala, após o término da limpeza.

— Gostaria que você solicitasse ao RH para que entre em contato com a garota da limpeza e a recontrate — Eu falei enquanto digitava algumas informações em meu computador, então um minuto se passou até eu perceber que Marta ficou em silêncio absoluto sobre a minha ordem — Marta? — perguntei, um pouco impaciente.

— Desculpe, senhor Ricci, mas confesso que estou surpresa com a sua decisão. Claro, vou imediatamente entrar em contato com o RH e providenciar a recontratação da funcionária da limpeza. Ela estará de volta ao trabalho o mais rápido possível.

Fiquei satisfeito ao ouvir a resposta de Marta. Eu precisava corrigir a injustiça que havia cometido e oferecer uma oportunidade para a garota da limpeza, demonstrando que eu era capaz de reconhecer meus erros e agir de forma justa. Ou seja, eu não preciso de ajuda, como ela sugeriu erroneamente.

— A propósito, o nome dela é Cecília — Marta disse, já segurando a maçaneta da porta.

— Não entendi.

— A garota da limpeza que o senhor demitiu — Marta explicou — Ela chama-se Cecília.

— Isso realmente não importa. Apenas faça o que eu mandei.

Antes do final do expediente Marta voltou à minha sala e informou que o RH não estava conseguindo contato com a garota da limpeza, ou seja, não foi possível ainda a recontratação. Marta permaneceu mais alguns segundos diante da minha mesa, como se estivesse à espera de algo, mas eu apenas a dispensei e logo ela se retirou da minha sala. 

Eu tentei consertar a situação, agora, está fora das minhas mãos.

Contudo, por algum estranho motivo, aquele assunto não saiu da minha cabeça por toda a noite, tirando o meu sono. Dessa vez eu nem mesmo lembrei da condição absurda que o meu pai impôs para que eu possa continuar à frente da empresa. Todos os meus pensamentos estavam em Cecília, um nome muito belo para uma garota tão sem graça, mas o meu corpo responde de maneira idiota em todas as vezes que eu lembro da sua voz doce e meiga.

Capítulo 3

Cecília

Olhei em torno do cômodo minúsculo, a tristeza me invadindo mais uma vez. As paredes estavam úmidas e como estava chovendo muito naquela noite, temi pela minha segurança, pois parece que o teto pode cair a qualquer momento. Voltei a orar por uma ajuda divina.

Não havia muito a fazer além disso, afinal. Não estava conseguindo me concentrar na leitura de nenhum dos livros que eu trouxe na mudança, o que é absolutamente normal, considerando-se a minha situação atual.

Fui demitida do meu emprego e quando cheguei em casa e contei para a minha família, o meu padrasto me mandou embora de casa no mesmo instante. Lembrei das palavras de Jean e o meu peito doeu uma vez mais.

— Se não pode contribuir com as despesas de casa, também não vai ficar debaixo do meu teto — Ele disse com extrema frieza — Não posso sustentar mais uma boca. Já me basta ter que sustentar a sua mãe e os seus irmãos.

Eu poderia ter dito que os meus irmãos são filhos dele e que a minha mãe é a sua esposa, mas na situação atual, preferi tentar conversar com ele, explicar que não tinha nenhum lugar para onde eu pudesse ir, mas Jean sequer me ouviu. Saiu gritando e batendo a porta, após dizer que não queria me encontrar dentro da sua casa quando retornasse do trabalho na manhã seguinte.

A minha mãe, como sempre, não interferiu. Continuou assistindo TV como se nada estivesse acontecendo do seu lado. Os meus irmãos eram ainda muito pequenos para entenderem qualquer coisa. Jennifer tem apenas cinco anos; Jefferson sete e eu os amo loucamente, mas nada pude fazer após Jean ter me expulsado de sua casa.

Aproveitei que o dia ainda estava claro, eram dezessete horas ainda, e fui procurar alguma pensão onde eu pudesse alugar um quarto com o valor menor possível. No momento disponho de quase nenhum dinheiro, mas fui informada no RH da Laser Inc. que no dia seguinte pela manhã eu poderia ir assinar a minha rescisão e receber os valores pendentes. Porém, considerando-se que estava trabalhando na empresa há menos de seis meses, o valor não será grande coisa. 

Tudo o que consegui foi um quarto úmido, cheio de infiltração e muito quente, sem janela alguma. Ainda assim, considerei muita sorte e com o dinheiro da Laser Inc. que recebi naquela manhã, foi possível pagar três meses de aluguel, como a dona da pensão exigia.

 Alguém bateu à porta do meu quarto, o que me deixou bastante surpresa e temerosa. 

— Oi, gatinha — Disse um homem muito musculoso e com o corpo coberto por tatuagens.

— Sim? — Optei por falar de maneira seca.

Não tenho a menor ideia do que ele pode querer, afinal, só o tinha visto uma única vez antes, quando me reuni aos outros inquilinos para o jantar daquela noite. Eu nem mesmo cheguei a trocar qualquer palavra com ele! 

— O que acha de pegar um cineminha hoje? — Ele me surpreendeu ao convidar — Tem uns filmes bem legais em cartaz.

— Obrigada, mas eu não posso aceitar — Falei com a máxima cordialidade.

— E por que não? — Ele insistiu.

Eu o encarei surpresa com a pergunta e por alguns segundos tentei encontrar uma resposta que não o deixasse ofendido. Eu odiava magoar as pessoas.

—  Estou muito cansada hoje.

— Então, amanhã? 

— Amanhã eu já tenho compromisso.

— Marcamos para sexta-feira à noite, então — Dessa vez não foi uma pergunta.

— Eu não acho uma boa ideia — Eu não sabia mais o que dizer — Estou com alguns problemas, sem a menor vontade de sair. Você entende… Qual o seu nome mesmo?

— Você pode me chamar de Bobby. É assim que todos me chamam aqui no nosso pedaço.

Aquela informação me pegou de surpresa e a forma de falar dele também. Agora mais do que nunca eu senti a necessidade de não aborrecer o senhor Bobby.

— Talvez em um outro momento, então, Bobby.

— Vou cobrar, hein! 

Sorri sem graça e aguardei ele caminhar pelo longo corredor para só então fechar a minha porta, usando-a depois como apoio para o meu corpo ao me encostar nela. 

— Mais um problema? — Perguntei ao cosmos. 

Claro, ele não me respondeu.

Acordei cedo no dia seguinte e depois de um café da manhã bem insignificante, apenas um pão com manteiga e uma xícara de café preto, que descobri ser o que a dona da pensão serve todos os dias pela manhã, eu saí à procura de emprego. Tenho experiência como faxineira e isso tem que servir de alguma coisa. 

Odiei Liam Ricci com todas as minhas forças ao retornar a noite após andar durante horas e não conseguir nada. Tudo bem que eu fui uma grande intrometida ao sugerir que ele deveria procurar ajuda, mas ele também não precisava me demitir apenas por esse motivo. 

Pensando melhor, eu deveria me odiar também. Liam era conhecido por sua arrogância e seu temperamento explosivo. Ele caminhava pelos corredores da empresa com passos firmes e olhar severo, sempre pronto para repreender qualquer pessoa que ousasse cruzar seu caminho. Sua postura intimidadora era suficiente para fazer até mesmo os funcionários mais experientes tremerem de medo. Eu não deveria ter me metido com ele.

Cheguei em frente a pensão decadente onde estou morando e suspirei resignada ao ver que haviam alguns homens parados bem no meio do caminho, em frente a porta de entrada. Eram ao menos cinco e eles pareciam bem intimidadores com suas expressões rudes e aspecto perigoso.

— Olha, gatinha nova na área — Um deles disse ao notar a minha aproximação.

— Hum, é uma delícia essa gatinha — Disse um outro, me deixando nervosa.

Fiquei indecisa sobre seguir em direção a entrada ou dar meia volta e fingir que não pretendia entrar na pensão ainda. Porém, logo uma voz conhecida me trouxe um pouco mais de tranquilidade.

— Deixem a gatinha quieta — Bobby avisou com voz firme — Pode passar, meu bem. Eu te protejo desse bando de urubus.

Eu aceitei a intervenção de Bobby e passei pelo grupo, meu corpo tenso pela inquietação e medo daqueles homens, mas cansado demais para recusar a oferta generosa de Bobby. 

— Obrigada, Bobby — Falei de maneira quase inaudível e entrei na pensão.

A pensão estava silenciosa e mal iluminada, com um cheiro característico de mofo impregnado no ar. Caminhei pelo corredor estreito até chegar ao meu quarto modesto. Era pequeno e simples, mas era o meu refúgio naquele momento difícil da minha vida.

Deitei-me na cama, refletindo sobre as circunstâncias que me levaram até ali. Era doloroso admitir, mas eu estou me sentindo perdida e desamparada. Enquanto repassava em minha mente os acontecimentos do dia, lembrei mais uma vez do arrogante Liam e senti um misto de raiva e um outro sentimento que não consegui definir naquele momento e sonhei com ele quando enfim consegui conciliar o sono.

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