*Essan*
Eu viajei para conhecer um clube que eu desejava adquirir. Minha família não possuía negócios naquela região, o que para mim era muito conveniente: adquirir um clube de sexo sem precisar esconder essa propriedade do meu pai. A cada dia estava mais difícil lidar com a chantagem dos meus irmãos e, caso meu pai constatasse que eu lidava com “casa de prazeres” — como ele costuma se referir a estes locais — eu seria deserdado.
Após um descanso, criticando cada defeito daquela suíte de hotel, tomei uma ducha. Verifiquei se o desenho da minha barba permanecia irretocável; sequei os fios de meu cabelo, maldizendo as entradas que começavam a aparecer em minha testa. Quando alguém bateu à porta, amarrei uma toalha na cintura. Abri e me deparei com Charlize, minha advogada. Ela me olhou, aproveitando a paisagem.
— O que foi, velha? Teu marido não dá mais conta?
Ela era uma senhora bonita e refinada; e, apesar da brincadeira, a sombra de sua aposentadoria me assombrava, afinal eu não saberia em quem confiar. Ela trabalhava comigo há nove anos e eu a considerava uma mãe, com quem tinha intimidade para piadas daquelas.
Charlize adentrou no meu quarto, vangloriando-se:
— Senhor M., um pirralho como o senhor também não serviria nem como entrada! O que me interessa aqui é: o senhor vai assinar os papéis da compra? Ei-los aqui!
— Revisarei amanhã! Hoje quero ir lá; ver o público; sentir a experiência. Tenho que ver se vale à pena. O preço que estão pedindo é absurdo e precisaremos negociar!
— Eu deveria desencorajá-lo. Não é de bom tom o senhor ser visto transando em lugares de trabalho.
— Não vou transar com ninguém, velha! A não ser que a senhora queira...
Ela sorriu, arrumando os cabelos platinados atrás da orelha.
— Também não vá se apaixonar. Sabemos o que acontece...
— Muito menos! Vou tomar meu uísque, dou uma olhada no ambiente e volto! Agora para de ser rabugenta, que não foi à toa que vim morar há mais de dez mil quilômetros da minha mãe!
— Tudo bem, meu bebê malcriado! — Ela apertou minha bochecha. — Agora se vista, não queremos o senhor resfriado! — Ela deixou o quarto de cabeça erguida, assim como entrou.
Fiquei indeciso se usava roupa casual ou terno. Decidi pelo segundo, afinal não queria me envolver com os clientes. Tomei uma dose de uísque para aquecer e desci para a garagem do hotel, onde um motorista e um segurança me esperavam.
Após jantar num restaurante oriental, seguimos para o clube. Chegamos a um prédio de três andares, todo fechado, de aspecto escuro. Quem passasse por aquela rua, sequer imaginaria o que rolava ali dentro, visto que nenhum som ou luz fugia por aquelas grossas paredes. Aproximei-me da entrada e um segurança me barrou:
— Só associados.
Meu segurança se pôs entre a gente, enquanto eu pegava o cartão que me daria passagem. Entreguei-o a meu segurança, que sentenciou:
— Teu próprio chefe presenteou o Senhor Essan M. com isto. Acho que é o suficiente para você!
— Senhor M.! Não me disseram que o senhor viria hoje. Esteja à vontade.
Ele me deu passagem e eu pedi aos meus empregados que me aguardassem ali fora, pois eu não pretendia demorar-me muito. Ao entrar, fui recebido pela batida forte da música. Me vi num corredor onde algumas pessoas conversavam. Eu sabia que o clube era dividido em áreas, que iam desde pista de dança e bar, até quartos onde acontecia sexo grupal. Porém, apesar de gostar de sexo, meu propósito era averiguar as instalações. Fui caminhando pelo clube, esbarrando em algumas pessoas e uma moça mais afoita me agarrou pelos braços, me beijando. Correspondi por uns segundos, tirando sua mão delicadamente do meu braço logo em seguida.
Acabei descobrindo algumas falhas de segurança e necessidades de pequenas reformas, as quais me seriam úteis na hora de barganhar o preço. Aproveitei que ainda era cedo e o bar não estava cheio para dar uma conferida no serviço de bebidas. Sentei-me junto ao balcão e pedi o uísque mais caro. De onde eu estava, dava para ver uma área de sofás, onde pessoas transavam; eu voltava meu olhar ao bartender, quando o mais inesperado aconteceu: ouvi, a meu lado, uma voz feminina, com o sotaque do meu povo.
∞∞∞
*Sammy*
O bar não estava cheio, portanto não foi difícil notar a presença de um homem em particular. Apesar do terno ocidental, ele carregava as características do Oriente Médio: a cor da pele, as sobrancelhas grossas, o formato do rosto, a barba cheia e bem-feita, cílios longos e os olhos como se tivessem sido delineados perfeitamente. Meu coração pulou um batimento e não foi paixão à primeira vista; era medo. Respirei e pensei “foda-se”, reconhecer-me como alguém de nossa tradição não significava que ele saberia quem eu era. Aproximei-me, decidida.
— Irv — me dirigi ao bartender —, me faz aquela mistura forte e docinha que eu amo?
O bartender sorriu, erguendo a mão, me pedindo para esperar. Criei coragem e olhei para o lado — o misterioso homem me analisava. Ficamos nos encarando por uns segundos até que ele abaixou a vista para pôr o copo vazio no balcão. Também me voltei à direção de Irv, fazendo cara de pidona, para que ele me atendesse logo.
— Não esperava ouvir nosso sotaque por aqui. Não sei se fico encantado ou aterrorizado. Entretanto estou bem curioso.
Eu gelei. O sotaque dele era forte, embora falasse inglês perfeitamente. Não respondi logo, tanto porque não sabia o que dizer quanto por Irv estar com minha bebida e eu aproveitei para lamber o excesso de chocolate, que ele fazia questão de colocar. Se até então eu estava em pé, fui me sentando, no intuito de parecer calma, apesar do meu coração estar acelerado. Bebi um pouco mais e isso me deu tempo para formular:
— Não sei por que o fato de eu estar aqui te aterrorizaria! Mas também fico curiosa: por que um homem como você estaria aqui, ao invés de estar na cama de uma de suas esposas?
Ele sorriu, se servindo de uísque.
— Ainda não tive a infelicidade de casar-me.
— Ó, então ambos estamos fugindo de nossas mães casamenteiras o quanto pudermos? Isso merece um brinde!
Brindamos e eu sorri, meio esquecendo do quão perigoso seria continuar ali. Tomei mais dois goles generosos e, como ele não falou mais, decidi que era hora de voltar para minhas amigas. Levantei-me, todavia suas palavras não me deixaram ir.
— Pensei que estavas tão curiosa quanto eu...
— Pensei que homens de nosso povo não esperavam pela mulher tomar a iniciativa...
Era o que ele desejava ouvir para tocar na minha cintura. Ele levantou-se um do banco — o suficiente para levar os lábios deles aos meus. E quando nossas bocas se encontraram, nos entregamos de vez àquele momento. Ao pararmos o beijo, ele olhou em volta e encontrou um sofá mais reservado vazio e nos encaminhamos para lá. Sentamo-nos e retomamos aquele beijo bom, de homem experiente e de mãos muito afoitas: com a direita ele me puxava e logo a desceu da minha cintura para a minha bunda; com a outra, ele foi passeando do meu joelho até a minha coxa, puxando-a, muito decidido a deixá-la por cima da sua. Ali, eu já sabia que não haveria mais volta e, cá para nós, não sou mulher de ficar esperando as coisas acontecerem, então o puxei contra meu corpo também, amassando meus peitos nele e desabotoando a sua camisa.
Em pouco tempo, meu vestido subiu para minha cintura e as mãos dele apertavam minhas nádegas, enquanto seus lábios beijavam meu pescoço. Eu apalpei seu sexo sob a calça, para perceber o quão valeria à pena. Fui abrindo a sua braguilha e passando minha mão naquele pênis que surgia ali, segurando gostoso e com firmeza. Fiz um carinho, todavia logo estiquei meu braço para pegar uma camisinha na minha bolsa. Cuspi em minha mão, continuando a masturbá-lo para colocar o preservativo. Agora só restava me sentar de frente para ele, de maneira bem confortável. Minha calcinha minúscula não atrapalhou e fui o sentindo dentro de mim.
De início, fiz movimentos lentos e circulares, ao passar que ele pôs aquela sua mão grande em minha nuca, posicionando minha cabeça para que meu pescoço ficasse ali, servido aos beijos dele. O meu prazer foi aumentando e o cavalguei ali, naquele sofá, com outros sofás ao redor, com pessoas fazendo o mesmo que a gente, mas, por um momento, eu senti como se estivéssemos a sós. Gozamos juntos, enquanto nossos lábios se beijavam e nossas línguas estavam numa dança, quase uma luta. E ainda ficamos assim um tempo, até que a sensação de orgasmo foi passando e nossos corações voltaram ao ritmo normal. Saí de seu colo, pondo meu vestido no lugar, enquanto ele guardava seus "pertences" e fechava o zíper.
— Adeus! — me despedi, afinal eu nunca mais o veria.
Voltei para as minhas amigas, me deparei com Nanda transando com outro cara. Sentei-me próximo para descansar um pouco, até que ela gozou e veio deitar-se no meu colo.
— E cadê Ryan?
— Ele ficou puto ao te ver aos beijos com um homem de terno no bar e foi embora!
— Menos mal, se ele não sabia como funciona um clube de sexo, era melhor nem ter vindo! — Encostei os meus lábios nos de Nanda de maneira doce e calma.
— Achou que ia fugir de mim logo hoje?
Levantei a cabeça e vejo Thales à minha frente, me estendendo uma garrafinha de água. Aceitei, abrindo a tampa e bebendo. Era bem verdade que eu ainda não estava satisfeita, contudo a pergunta era: seria tão bom quanto tinha sido com o desconhecido? Depois de repousar a garrafa de água na mesinha ao lado do sofá, fiz um gesto para Nanda tirar a cabeça do meu colo e ela se virou, deitando-se para o outro lado, recostando-se ao braço do móvel. Levantei um pouco meus quadris, tirando a calcinha e jogando em direção a Thales, que pegou, cheirou e me sorriu. Dei uma olhada para o lado e vi Lara sendo fodida, de quatro, por um dos amigos de Thales. É, ela não se importaria que eu abrisse minhas pernas e dissesse para seu namorado:
— Vem, pode ser que a última vez que transamos seja hoje!
*Essan*
"O que acabou de acontecer?", me perguntei, enquanto a via dar as costas para mim e ir embora, como se nada demais tivesse acontecido. Nesses anos todos que moro na América, eu até cruzei com muitos de nossa tradição que são menos radicais, entretanto o sotaque dela era muito específico. Ela só podia ter vindo da mesma região que eu! Quem era ela? Deu-me uma vontade de segui-la, porém eu já havia falhado no primeiro ponto prometido a Charlize: havia transado no local de trabalho. Se eu a seguisse, abriria terreno para me envolver e tudo que eu não precisava naquele momento era ser cativado por uma mulher com quem transei num clube.
Voltei para o hotel. Tirei minha camisa e a levei às narinas: ela havia deixado seu perfume doce misturado a suor em minha roupa. Eu gostei daquele aroma e senti meu membro atiçar-se só com a lembrança de suas ancas subindo e descendo em meu colo. Eu não ia conseguir dormir, então peguei meu notebook para revisar os documentos da compra do clube, redigindo os novos pontos que decidi serem justos após minha visita.
Dormi pouquíssimas horas, o que me fez acordar de péssimo humor. Pedi café da manhã no quarto e só quando desci para me dirigir ao escritório, onde haveria a negociação de compra, deparei-me com Charlize.
— Sem “bom dia, velha!”? Tenho o pressentimento de que hoje será um longo dia...
Não respondi e entrei no carro antes dela. Não ter tudo sob controle me tirava o pouco de paciência; e não saber nada sobre aquela mulher me deixava impotente. Olhava pela janela, sem fixar meus olhos em nada, contudo Charlize decidiu não me deixar quieto.
— Essan — ela era uma das poucas pessoas a me chamar assim, pelo meu primeiro nome —, se aconteceu algo, eu preciso saber...
— Aconteceu! — disparei, como se estivesse jogando as palavras na cara dela. — Encontrei uma mulher do meu povo! Do meu povo, Charlize! Transamos...
— Recomponha-se! O senhor parece transtornado por conta de uma noite de sexo? Ah, não, eu conheço essa cara. Não foi apenas sexo, não é?
— Não estou apaixonado, se é isto que você está insinuando! Estou intrigado! Você sabe como as mulheres de nossa tradição são educadas e vigiadas! O que uma estava fazendo num clube de sexo?
— Talvez a família dela more fora do teu país há anos! Talvez não sigam tão à risca...
— Impossível! — a cortei. — O sotaque dela era muito forte! Ela não nasceu aqui, nem mesmo veio criança... Eu preciso...
— O senhor não precisa nada — agora ela quem me cortou, pondo a mão por cima da minha —, a não ser se focar nas negociações que estão por vir!
Apesar da sua ousadia de me interromper, ela estava certa. Então direcionei nossa conversa ao que havia experimentado no clube e os pontos que podíamos usar na negociação.
∞∞∞
*Sammy*
Era um fim de tarde frio, naquele começo de outono. Eu olhava aviões decolando, sempre ficava um pouco tensa antes de embarcar.
— Ai, amiga, que mundo louco! — Nanda puxou a conversa.
— O quê?
— Você passar quatro anos morando aqui e, no último dia, se deparar com um homem que deve ter vindo da mesma região que você! E ainda mais naquelas condições... — ela não completou a frase, dando uma gargalhada, levando sua cabeça para trás. Ela sempre era muito espontânea.
— Ah, nem estou pensando nisso! Estou pensando se meus livros e meus computadores chegarão bem no novo apartamento!
— Sammy, você tem o backup em pelo menos três locais diferentes! Nada da tua pesquisa vai se perder, hã?
— Nanda, na verdade estou com medo. Não terei mais você e Lara o tempo todo!
— Ô, vem cá! — foi puxando minha cabeça para seu ombro. — Você veio do outro lado do mundo quatro anos atrás! Agora estaremos a meia hora de avião! Vamos poder nos ver "quase" sempre!
Nos abraçamos, até que ouvimos um grito:
— Suas vadias, vocês começaram a chorar sem mim?
Não só nós duas, assim como todo o aeroporto olhou para Lara, que vinha correndo em nossa direção, juntando-se a nosso abraço.
— Meu chefe quase não me deixa sair, aquele filho de uma... Que bom cheguei a tempo!
Ficamos abraçadas, com Lara chorando até ouvirmos o aviso de meu embarque. Peguei as mãos de ambas, beijando-as. Puxei minha mala de rodinhas e não arrisquei olhar para trás. Talvez eu não tivesse coragem de prosseguir.
∞∞∞
*Essan*
As negociações não estavam boas. O responsável por representar o dono do clube não tinha autorização para baixar o preço sob nenhuma proposta. Eu odiava esses empresários que mandam outros resolver esses trâmites — eu fazia questão de estar em todos os compromissos. Charlize e o analista financeiro, que nos acompanhava, gastaram toda a saliva em vão. Foi quando me surgiu a ideia de que eu podia juntar o útil ao agradável.
— E quanto aos dados dos clientes? Eu sei que vocês têm uma clientela VIP, com um rigoroso processo de aceitação...
— Sim, prezamos pela segurança, conforto e prazer dos nossos clientes. Só conseguimos isso deixando apenas um seleto público fazer parte. O senhor terá o acesso a esses dados quando as negociações forem concluídas. Não comprará apenas o espaço físico, mas também todas as informações deles.
— Quero esses dados hoje, e pago o valor que estão pedindo!
— Senhor M., isso não é sensato! — Charlize aconselhou. — Esse valor está muito acima do mercado!
— Charlize, agora não! — revidei, com a voz autoritária. Voltei a me dirigir ao representante: — E então, você consegue esses dados o mais rápido possível?
— Verei o que posso fazer!
Em pouco tempo, ele me deu acesso, embora que provisório, aos dados.
— Travis — me dirigi ao meu analista financeiro —, leve Charlize para almoçar. Revisarei estes dados antes de ir.
— Como queira, Senhor M.
— Essan! — ela aumentou a voz, me fazendo virar para ela, irritado. — Digo, Senhor M., o que o senhor está fazendo?
— Charlize... agora não! Vá!
Eles se foram, com ela bufando. Se aquela compra fosse um mal negócio, ela me atormentaria eternamente por não seguir as suas recomendações, contudo, naquele momento, eu só queria voltar meus olhos ao monitor do notebook, cruzar os dados da cidade atual com a cidade de origem dos clientes e os dados dela apareceram na tela.
— Então é você, Samhyrïğa R.!
Achei o sobrenome familiar, porém não me veio a lembrança de onde. Agora me restava fazer algumas ligações e descobrir o seu paradeiro.
∞∞∞
*Sammy*
Quando cheguei ao portão de embarque e entreguei meus documentos a um gentil homem, ele disse:
— Senhora Sam...yra... R.
— Samhyrïğa. — corrigi, amigavelmente.
— Perdão! A senhora por gentileza pode me acompanhar a outro portão? O voo da senhora teve um imprevisto na primeira classe, mas há outro voo para sair logo mais!
— Está bem...
Ele fez um gesto para outro atendente vir ficar em seu lugar e eu o acompanhei ao portão indicado, onde fui levada diretamente, sem fila, a um avião menor. Ao embarcar, me vi na primeira classe, encontrando passageiros já acomodados. Eu estranhei o fato de ela não me recomendar cadeira alguma, mas fez um gesto para eu cruzar uma porta que levava a uma área VIP. Havia apenas quatro acentos, uma tela de TV, bebidas e petiscos já dispostos.
— Hã... minha passagem era de primeira classe...
— Não havia mais assentos vazios.
— Não? Jurei ver alguns lá atrás!
— Senhorita R., é uma cortesia da empresa!
— Ah, já sei, descobriram quem é meu pai! Eu sempre sou tratada com regalias quando descobrem!
— Eu apenas cumpro ordens, senhorita. Agora, por favor, sente-se e coloque o cinto, pois já vamos decolar. Caso precise de qualquer coisa durante a viagem, basta me chamar.
Sentei-me, afinal não tinha muito o que fazer. Por mais que eu não gostasse, seria sempre tratada assim por ser filha de um bilionário!