CAPÍTULO DOIS
Laila saiu e Marc fechou a porta, parando por um momento para recuperar o fôlego.
Obviamente, ele tinha muita coisa para pensar. A maior delas, o bebê que estava atualmente cochilando em sua cadeirinha depois que Laila o embalou para dormir. Mas a mente dele continuava focando na mulher que tinha acabado de pegar o elevador de volta ao saguão, a caminho de casa para fazer as malas para a viagem.
Deus, como ela era linda. Sua pele era de outro mundo, um bronzeado dourado salpicado por sardas adoráveis posicionadas sobre o nariz arrebitado. Nem seu traje sério e prático de negócios conseguia esconder sua bunda em formato de pêssego ou a forma como seus seios esticavam o tecido da blusa. Ela parecia saída de todas as fantasias que ele já havia se permitido ter. Mas essa não era a hora para fantasias. Agora era a hora de descobrir o que diabos ele faria a seguir.
Ele respirou fundo para se recompor, percorreu mentalmente sua lista de tarefas e, em seguida, decidiu usar sua carta na manga; aquela sem contrapartidas.
Ele ligou para sua mãe.
O barulho de fundo de um restaurante barulhento agrediu seus ouvidos. Ele escutou o murmúrio aflito de seu pai, seguido pelo resmungo de sua mãe:
— Ai, eu não entendo essas engenhocas... ah! Está ligado! Oi, Marcus! Você está me ouvindo?
— Sim, mãe. Desculpe incomodar.
— Não é incômodo — assegurou sua santa mãe, embora ele tivesse certeza de que seu pai discordaria.
Marc esfregou a nuca.
— Mãe, eu tenho algo pra te contar e preciso que você não faça perguntas até que eu termine a história toda.
— Estou ouvindo — ela respondeu imediatamente.
Ele olhou para a cadeirinha de bebê. Pobre Remy. Memórias passaram por sua mente, as noites que costumavam passar em claro na faculdade, revisando a matéria antes dos exames de economia, a noite em que invadiram o refeitório e roubaram uma bandeja inteira de copos de pudim. Eles se distanciaram nos últimos anos, mas o forte senso de lealdade permanecia – de ambos os lados, aparentemente, já que Remy chegou ao ponto de nomear Marc como guardião. A culpa surgiu como peixinhos em suas veias, e ele limpou a garganta.
— Mãe, você se lembra do Remy Clark? Meu amigo da universidade? — Sua mãe se lembrava, e ele rapidamente a informou sobre o acidente e suas consequências, concluindo: — Eu sei que você e papai tinham uma noite inteira planejada, mas vocês se importariam de voltar agora? Tenho coisas de bebê para hoje à noite, mas preciso comprar mais para o cruzeiro.
Ela prometeu voltar imediatamente e, no entanto, o tempo pareceu se arrastar infinitamente. Sua comida chinesa eventualmente chegou, mas Marc a deixou de lado. Estava sem apetite. Finalmente, ele ouviu seus pais entrando com a chave reserva. O pai, previsivelmente, desapareceu no quarto de hóspedes sem dizer uma palavra a Marc, mas sua mãe dirigiu-se a ele de imediato.
— Pobrezinho.
Marc se permitiu ser envolvido no abraço apertado. Sua mãe o segurou por um momento e ele pôde sentir a emoção começar a brotar de dentro dele.
Ele se afastou, enxugando os olhos. Este não era o momento de desmoronar – era o momento de assumir o comando. Afinal, era por isso que ele era reconhecido. Marc não se tornou um bilionário antes dos trinta e cinco anos recuando e deixando a vida acontecer.
— Você pode me fazer uma lista de coisas que vamos precisar pra viagem?
— É claro. E então, quando eu terminar com isso... — Ela fez uma pausa e por um momento seus olhos brilharam com entusiasmo. — Posso vê-lo? Ele está acordado?
Marc riu. O desejo de sua mãe em ver o bebê não foi uma surpresa.
— Ele está na cadeirinha, mais ou menos por aqui. — Ele a conduziu mais alguns passos para dentro da sala. — Mãe, conheça Grayson Clark. Ele tem seis meses.
— Ah, Marc. — Sua mãe suspirou. Ela agarrou o braço dele por um momento, antes de se agachar para espiar o bebê adormecido. — Ele é perfeito! Olha essa boquinha! Fico imaginando com o que ele está sonhando.
— Espero que com alguma coisa dessa lista que você vai fazer — Marc instigou sua mãe.
— Sim, claro.
Ela se pôs em pé novamente e, depois de uma breve discussão sobre a necessidade de um bloco de notas, com Marc explicando pacientemente que era para isso que servia o celular, ele recebeu suas diretivas e partiu em busca de um berço portátil, mais leite em pó, mamadeiras, fraldas, lenços umedecidos e o que quer que fosse um “mordedor”. Ele também ligou para o capitão para garantir que o cruzeiro estivesse preparado para outro passageiro adulto e um bebê.
A ligação para o capitão foi muito melhor do que sua incursão às compras. Ele ficou perdido na seção de bebês até que uma vendedora gentil sentiu pena dele e assumiu seu carrinho de compras.
— Eu faço isso — ela disse com firmeza. — Espere no caixa.
O resultado disso foi que ele realmente não tinha ideia do que havia comprado até que voltou para casa e fez sua mãe lhe explicar tudo. Assim que tudo foi desembalado e montado, sua mãe deu uma olhada em seu rosto e apertou sua mão novamente.
— Você gostaria que eu assumisse o primeiro turno com o garotinho?
Marc fechou os olhos, aliviado.
— Sim. Obrigado.
Sua mãe lhe deu um sorriso carinhoso.
— Vamos tirar o bairn daquela cadeirinha e colocá-lo em seu berço novo. Eu vou te mostrar como deve ser a rotina noturna. Quando foi a última vez que você trocou uma fralda?
Pelo menos ele não era tão inútil nas trocas de fraldas quanto era nos corredores de fraldas, ele pensou com orgulho, uma vez que Grayson estava trocado e vestido com seu novo body. Sua mãe se acomodou na bola de pilates que ela pediu para Marc comprar – por razões que ele não entendeu muito bem até que a viu se balançando – e os olhos do bebê começaram a se fechar.
— Como está o papai? — ele perguntou em voz baixa. Embora seus pais estivessem com ele nos últimos dois dias, em preparação para o cruzeiro, ele mal tinha trocado duas palavras com seu pai. E isso era típico do relacionamento deles. Se não fosse por sua mãe mantê-lo informado, ele nem saberia sobre as batalhas que enfrentaram com a saúde em declínio do seu pai. — Ele está indo bem?
Havia um toque de desespero em sua voz.
Sua mãe suspirou enquanto batia ritmadamente no bumbum de Grayson.
— Melhor do que se esperaria, mas pior do que ele pensa.
— O que ele pensa?
— Que ele é invencível? — sua mãe sugeriu secamente.
Marc soltou um gemido frustrado.
— Ele tem silicose. Ele obviamente não é invencível. O que vai ser preciso pra ele entender?
Sua mãe permaneceu resolutamente calada, ele não tinha certeza se por lealdade ou simplesmente resignação. Os dois permaneceram quietos por um momento enquanto a respiração de Grayson desacelerava e se aprofundava.
— Você já pensou em como contar a ele sobre a clínica de tratamento? — Marc finalmente perguntou quando ela se levantou para acomodar Grayson no berço. Essa era a razão do cruzeiro, mesmo que seu pai não soubesse. Em algum momento entre agora e quando eles chegassem à Grécia, alguém ia ter que dizer a Kenneth Campbell que eles o levaram até lá para ter acesso a um tratamento novo e revolucionário.
Sua mãe balançou a cabeça.
— Deixe que eu me preocupo com isso — ela disse, apagando a luz. — Mas agora, você e eu precisamos dormir um pouco.
Eles precisavam dormir. Mas, definitivamente, não conseguiram.
Cedo na manhã seguinte, Marc abafou um bocejo e tomou outro gole de seu café. Grayson passara a noite toda inquieto. A cada hora, aparentemente na virada da hora, Marc ou sua mãe tinham que correr para o quarto para alimentá-lo, ou trocá-lo, ou acalmar quaisquer terrores infantis que o atormentassem. Não era justo ficar irritado com um bebê, especialmente um que perdeu seus pais, mas Marc não conseguia olhar para Grayson esta manhã sem se irritar um pouco.
Se ele não tivesse tanta coisa para fazer...
Ele bebeu mais café e consultou a lista de embarque.
— Acho que isso é tudo — disse ele quando seus pais saíram do quarto de hóspedes. Suas malas estavam todas empacotadas e a caminho das docas. Ele tinha providenciado para que carregadores conduzissem as malas separadamente, imaginando que elas precisariam ser carregadas muito antes de qualquer passageiro.
Mas seus nervos não aguentaram a espera e, não muito tempo depois que os carregadores saíram, ele chamou o carro para pegar os três. Os quatro.
Ele esperava que eles fossem os primeiros a chegar, mas devia ter se esquecido em que família ele tinha nascido.
— Veja! — sua mãe exclamou, apontando para fora da janela do carro. — Todo mundo já está aqui!
— A família Campbell inteira — Marc ecoou. — Espero que você esteja pronto.
Ele soltou Grayson da sua nova cadeirinha e o ergueu desajeitadamente em seus braços.
— Um bebê? — seus primos mais novos gritaram, correndo até ele.
— De onde você tirou um bebê? — sua prima Mathilda perguntou, incrédula.
Grayson olhou para todos os rostos que o cercavam e começou a chorar.
— Ah. — Marc se balançou do jeito que tinha visto sua mãe fazer na noite passada. — Ah, pronto, pronto. Está tudo bem. Você está bem.
Isso deve ter soado tão pouco convincente para Grayson quanto para Marc, porque o bebê começou a chorar desesperadamente.
Seu pai bufou.
— Você definitivamente tem o dom. Está me dizendo que vou ficar preso em um barco, não só com vocês — disse ele, gesticulando para a família ao seu redor —, mas com um bairn birrento também?
Marc sentiu o calor subir até a nuca. Isso foi o máximo que seu pai falou com ele nas últimas quarenta e oito horas, e foi para insultá-lo.
Quando ele estava prestes a retrucar e expor seus próprios sentimentos sobre estar preso em um barco com seu pai, sua tia Sutton falou:
— Kenneth, você poderia se acalmar e sorrir uma vez na vida? Pare de agir como um idiota, se isso for possível.
Tia Sutton sempre foi a favorita de Marc.
Sua prima favorita, enquanto isso, balançava a cabeça com toda essa cena.
— Não consigo acreditar que você tem um bebê — Mathilda repetiu. — Vai pelo menos nos dizer o nome dele?
— Hã, este é o Grayson. — Marc estava se balançando novamente. — O pai dele era um velho amigo da faculdade. Aconteceu um acidente alguns dias atrás, e eu descobri ontem que ele deixou a guarda pra mim. Grayson, esta é minha prima Mathilda. Talvez ela tenha mais sucesso em acalmar você?
Mathilda, que agora parecia um pouco culpada por provocá-lo, estendeu os braços para pegar Grayson, mas a tia deles se atravessou.
— Me dê o pequenino! — tia Sandra gritou.
Marc pesou sua exasperação com sua tia menos favorita contra o desejo de que Grayson parasse de fazer barulho e imediatamente o entregou. Tia Sandra balbuciou e murmurou algumas coisas estranhas que, ou acalmaram o bebê, ou o deixaram tão perplexo que ele teve que parar de chorar para ouvir melhor. De qualquer forma, Grayson parou de chorar por um momento e apenas olhou para a mulher que o segurava.
Marc imaginou se deveria continuar as apresentações, mas então decidiu que não importava. Grayson parecia muito mais interessado em chupar seu punho do que aprender fatos sobre os parentes de Marc – que Sutton e Sandra eram irmãs de seu pai, que Fraser era tio de seu pai, que Mathilda era filha de Sutton e que Fiona e Felix eram netos de Fraser, ou que todas as outras pessoas que todos mencionavam eram os vários outros parentes que não puderam se juntar a eles e que ficariam “verdes de inveja” quando vissem todas as fotos depois que a viagem terminasse.
Não havia necessidade de Grayson aprender sobre a família... já que ele provavelmente não faria parte dela por muito tempo.
Marc já tinha incumbido seus advogados de encontrar parentes de Remy ou de sua esposa que fossem adequados para acolher Grayson. Marc se certificaria de que o menino fosse bem cuidado, é claro, mas ele também sabia que ser pai não era com ele. Ele cumpriria seu dever para com Remy, certificando-se de que o filho de seu amigo encontrasse um lar maravilhoso. Um que não incluísse uma figura paterna antissocial e viciada em trabalho. Mas até que o lar perfeito pudesse ser encontrado, Marc teria que superar essa situação da mesma forma que superou todas as outras provações que enfrentara – com compromisso, dedicação e disposto a contratar as melhores pessoas disponíveis para ajudá-lo ao longo do caminho.
E por falar nisso, onde estava Laila? Ele esperava que ela não tivesse amarelado, embora honestamente não a culpasse.
Ele franziu a testa quando o barco de transporte se aproximou.
— Temos que pegar uma carona para chegar ao iate — ele explicou ao grupo enquanto o barco se aproximava.
— Todos a bordo! — Tia Sutton gritou assim que o barco atracou.
Marc ficou para trás.
— Hum, bem, nem todos. Ainda não. — Ele olhou na direção do final da plataforma. — Ainda estamos esperando por alguém.
— Quem?
— Marc contratou uma babá — explicou sua mãe. — Ela deve estar chegando, não é, Marcus? Você gostaria que eu esperasse com você?
Marc balançou a cabeça.
— Vocês todos vão sem mim e escolham seus quartos.
— Eu fico com o maior — Mathilda anunciou imediatamente.
— Boa tentativa — ele brincou com a prima. — A cabine VIP vai para mamãe e papai. E a suíte do proprietário...
— Fica com você, eu presumo? — Mathilda revirou os olhos. — Sem graça.
Marc riu.
— Bom, todo o resto está disponível. Vou confiar em você para garantir que nenhuma briga terrível aconteça.
— Não garanto nada — Mathilda retrucou. Mas ela pareceu levar sua atribuição a sério, porque levantou a voz e acenou com as mãos, efetivamente enxotando todos pela passarela e para as mãos da tripulação que esperava. — Tudo bem, pessoal, vamos sair!
Uma vez que todos estavam a bordo, o barco de transporte se afastou, deixando Marc e Grayson sozinhos. A ausência do motor do barco deixou um profundo silêncio em seu rastro, pontuado apenas pelos gritos curtos das gaivotas que sobrevoavam.
Ele manteve os olhos focados na extremidade do píer, esperando um vislumbre da reveladora nuvem de cachos de Laila. Um minuto se passou, e então cinco, e, quando ela não apareceu, Marc notou sua atenção vagando para o pequeno humano que ele estava segurando.
Ao menos Grayson estava agora calmo em seus braços.
— Sinto muito por minha família disfuncional — disse ele ao bebê. — E estes são apenas os que puderam vir no cruzeiro. Você tem sorte de não ter todo o clã Campbell pra enfrentar.
O bebê balbuciou e deu um soco minúsculo no peito de Marc.
— Sim, eu concordo. — Marc teve que rir. — Eles são definitivamente um desastre. Eu sei que eles se amam, mas nem sempre sabem como demonstrar isso. Eu vou te prometer uma coisa agora, ok? Eu vou encontrar uma família melhor pra você. A melhor família, até. Você merece pessoas que possam te dedicar todo o seu tempo. Você merece— Ele se conteve antes que pudesse dizer “um pai”.
Marc não estava equipado, de forma alguma, para ser pai. Grayson merecia o pacote completo – um pai que realmente quisesse filhos, não apenas alguém que estava tolerando uma situação na qual foi jogado.
— Você merece o melhor, e eu vou te dar o melhor. Mas o melhor não sou eu. Entende? — ele perguntou ao bebê.
Por um momento, seus olhos se conectaram e Marc se pegou imaginando o quanto um bebê de seis meses poderia realmente compreender.
Então, Grayson balbuciou e avançou para esfregar a gengiva nos botões da camisa de Marc. O que, Marc supôs, era a melhor resposta que ele poderia ter recebido.
Laila desceu correndo o passadiço, com a mala de rodinhas batendo na parte de trás do calcanhar a cada dois passos. Ela ficaria com um belo hematoma, mas não havia tempo para se preocupar com isso agora.
O píer era uma rede confusa de passarelas interconectadas. Os iates e veleiros ancorados pelos quais ela passava em sua corrida desenfreada pareciam ficar maiores à medida que ela avançava. Seu coração – já prestes a bater fora do peito com o exercício inesperado – acelerou ainda mais rápido em antecipação ao tamanho da embarcação de Marc. Onde ela passaria as próximas seis semanas da sua vida?
No entanto, quando chegou à vaga numerada onde ele a instruiu a encontrálo, ela ficou surpresa. Estava completamente vazia.
À exceção do escocês incrivelmente bonito segurando um bebê.
— Sinto muito! — ela disse, ofegante, para as costas largas de Marc.
Ele se virou e sorriu para ela. Grayson estava confortavelmente encaixado no quadril dele, parecendo feliz e, para quem tinha passado a noite com estranhos, com a aparência até que boa.
Laila engoliu em seco. Ontem à noite, Marc estava vestido como se tivesse vindo direto do escritório, com uma camisa social com as mangas arregaçadas e uma calça de corte impecável, e isso foi o suficiente para ela ter alguns sonhos bem embaraçosos com ele.
Mas a visão dele em roupas casuais – calças bem ajustadas de sarja e uma camiseta branca com decote em V que descia o suficiente para revelar um pouco dos seus peitorais impressionantes – também seria material para algumas fantasias muito embaraçosas.
Ela tirou esses pensamentos da mente tão rápido quanto eles surgiram. Ele era o patrão dela e ela estava aqui para executar um trabalho; e o pior de tudo é que ela estava atrasada para o primeiro dia.
— Sinto muito — repetiu.
— Você chegou — Marc disse, e não havia nada acusatório em seu tom de voz.
Irredutível, Laila continuou se desculpando.
— Fazer as malas demorou muito mais do que eu desejava — ela engasgou. — Consegui sublocar o meu apartamento e minha amiga do trabalho concordou em ficar responsável por isso, mas ela precisava que eu deixasse a chave na casa dela antes de vir pra cá, porque ela estava cuidando dos filhos da irmã dela—
— Está tudo bem — disse Marc, levantando a mão para evitar mais desculpas ofegantes. — Ainda estamos organizando tudo e, cá entre nós, o tempo extra de espera ajudou a clarear a minha cabeça.
— Onde está o barco? — ela perguntou, confusa.
Como resposta, ele gesticulou para a água. Um pequeno barco de transporte estava vindo direto até eles.
— Meu iate é grande demais para esta marina rasa — ele explicou. — Precisamos chegar a águas mais profundas.
— Ah — Laila disse em voz baixa, tentando agir como se isso não fosse intimidador. Ela aceitou Grayson em seus braços e balançou seu pingente sedutoramente na frente dele. Ele atacou.
O capitão do barco de transporte manobrou habilmente a embarcação ao lado do cais. Antes mesmo de parar completamente, um tripulante uniformizado saltou para abaixar o passadiço, prendendo-o com alguns nós rápidos. Ele levantou a cabeça ao concluir e bateu continência.
— Bom dia, Sr. Campbell.
— Bom dia, Jackson — Marc respondeu cordialmente. — Você pode ajudar a Srta. Diaz com a mala?
— É claro. — Laila ficou ali, estupefata, enquanto o tripulante se movia com tanta rapidez e eficácia que, em um momento, sua mala estava ao seu lado, e no outro estava presa no barco em algum lugar. Quando tudo foi resolvido, Jackson perguntou: — Pronto pra embarcar, senhor?
— Um momento — Marc respondeu, com a voz tensa. Laila voltou-se para ele e percebeu, pela primeira vez, que ele não parecia bem. Ele tirou algo do bolso da calça e enrolou no pulso.
— O que é isso? — perguntou Laila. — Algum tipo de aparelho? Você está bem?
Marc respirou fundo.
— Não, estou bem. Bom, não estou doente. — Ele baixou a voz um pouco, parecendo envergonhado ao confessar. — É uma pulseira com ponto de pressão. Não sei se funciona ou se é tipo um placebo, mas supostamente reduz o enjoo, e eu às vezes fico um pouco mareado.
— Você fica mareado? — repetiu Laila. Não era típico dela ser rude, então manteve a segunda parte da sua pergunta para si mesma, mesmo com as palavras ecoando na sua cabeça. Por que diabos alguém que fica enjoado na água decide comprar um iate?
Mas a pergunta não foi feita e os dois embarcaram no barco de transporte. Enquanto aceleravam pelas águas agitadas, duas coisas se tornaram imediatamente aparentes. Uma, que a pulseira era definitivamente uma farsa, porque não funcionou. E a segunda foi que Marc estava mentindo quando disse que só ficava um pouco enjoado.
Laila nunca tinha visto um homem mais arrasado. Ele se inclinou para frente, respirando fundo e engolindo em seco, ocasionalmente soltando um gemido triste quando eles alcançavam o rastro de outro barco e mergulhavam precariamente. Grayson se mexeu nos braços de Laila, claramente gostando do passeio, mas a atenção dela estava focada apenas em Marc e, finalmente, ela não pôde deixar de perguntar, o mais diplomaticamente possível:
— Por que você concordaria com um cruzeiro se estar na água te deixa assim tão enjoado? — Ela tentou suavizar a pergunta com um sorriso. — Não parece uma maneira agradável de passar suas férias.
Marc riu com tristeza.
— Bom, este cruzeiro é mais do que meras férias em família. O que eu vou te contar é confidencial, certo?
Laila se endireitou.
— Claro.
Marc assentiu e então fechou os olhos com força, parecendo ter se arrependido do movimento adicional.
— Meu pai está doente. Ele tem uma doença pulmonar, resultado de uma vida inteira na indústria de petróleo e gás. Ele recusou a maioria dos tratamentos paliativos que estão no mercado, pois ele teria que tomar a medicação pelo resto da vida e se recusa a me deixar pagar a conta. Mas eu encontrei uma clínica na Grécia que desenvolveu um tratamento que pode ser administrado de uma só vez. Não é uma cura, mas vai tornar a vida mais confortável pra ele. É pra lá que estamos indo.
— E eu jurei segredo porque... ele não sabe disso?
Marc assentiu novamente, desta vez com resultados menos dramáticos.
— Minha mãe acha que será mais difícil pra ele recusar quando já estiver lá, com ela e as irmãs dele pressionando pra que ele diga sim.
— Você acredita nisso? — Laila perguntou.
Seu olhar fulminante era a resposta que bastava.
Como se estivesse ecoando o descontentamento de seu guardião, Grayson gemeu e se contorceu nos braços dela, seu punho gorducho batendo no fecho do seu colete salva-vidas. Laila sentiu um aperto no coração. Ela acreditava que sua habilidade de sentir empatia era sua maior força, mas também era sua maior fraqueza. Às vezes, ela desejava poder se isolar das emoções do mundo – poder se isolar da dor dos outros e viver apenas em sua própria cabeça. Outras vezes, ela sabia, sem sombra de dúvida, que sua capacidade de realmente compreender o que os outros sentiam tinha sido sua salvação em mais de uma ocasião.
Seu instinto lhe disse que Marc não queria mais falar sobre seu pai. Algo além da sua angústia sobre a saúde dele agora o estava calando. Ele precisava de uma distração. Ele precisava rir.
— Você já esteve em Wildwood? — ela perguntou em um impulso.
Marc olhou para ela, confuso.
— Isso não fica em Nova Jersey? — ele perguntou. As palavras foram ditas com o sotaque escocês, mas com uma rendição tão perfeita do desdém dos habitantes de Manhattan que Laila teve que rir.
— Sim. Nova Jersey. Talvez você tenha ouvido falar. É aquele pedaço de terra... bem ali? — Ela acenou com a mão em direção ao oeste e aos distantes arranha-céus. — Muitas pessoas são de Nova Jersey.
Marc sorriu, aparentemente grato pela mudança de assunto e disposto a entrar na brincadeira.
— Hum, eu não vejo nada digno de nota. Tem certeza?
— Típico nova-iorquino — ela brincou. — Sim. Foi lá que eu cresci, então tenho certeza de que existe. E Wildwood é uma cidade na costa sul de Jersey.
— Já ouvi falar — admitiu Marc.
— O que você ouviu?
— Que existe uma cidade chamada Wildwood na parte sul de Jersey — ele brincou, fazendo cara de paisagem.
— Muito engraçado. Bom, tem um parque de diversões lá, chamado Píer do Morey. Provavelmente, pensei nisso agora, porque está efetivamente localizado em um píer que se projeta do calçadão para a água. Enfim, aquela atração da costa de Jersey foi o píer mais chique em que eu já estive. Antes de hoje, de qualquer forma.
— Algo me diz que tem uma história aí.
Marc sorriu. Um sorriso amplo e contente. Ele era ainda mais bonito quando sorria, Laila percebeu. Algo que não deveria ser possível, porque ninguém no mundo era tão bonito quanto esse homem.
Mesmo que ele ainda estivesse um pouco esverdeado.
— Ah, tem, sim. — Ela fez uma pausa, esperando para ver se ele queria ouvir, e ele gesticulou para que ela continuasse. — Imagine que eu tinha dezesseis anos e estava abrindo caminho até uma das gôndolas da famosa roda-gigante do píer. Já tinha duas pessoas a bordo e eu insisti com o operador que o casal que já estava lá dentro tinha espaço suficiente para me incluir.
— Ah! Mas você não podia ter esperado?
Ela balançou a cabeça.
— Eu queria tirar uma foto do pôr do sol do alto da roda-gigante, e todas as outras gôndolas estavam cheias. Se eu tivesse esperado pela próxima gôndola disponível, eu teria perdido. Por isso, insisti pra que permitissem o meu embarque. Só que...
— Só que? — Os olhos de Marc já estavam dançando e ela mal havia começado a história.
Ela estremeceu.
— Só que acabou que o cara tinha planejado esse pedido de casamento grandioso, no pôr do sol, e as outras gôndolas estavam todas cheias de amigos do casal. Eu basicamente entrei de penetra em uma coisa que ele estava planejando há semanas.
Marc começou a rir e o som estava mexendo com coisas dentro dela.
— O que aconteceu depois?
— Quando a gôndola chegou ao topo, ele pediu a namorada em casamento enquanto me fuzilava com os olhos o tempo todo. Seus amigos estavam todos conectados por vídeo e lá estava eu sentada, tentando não atrapalhar, mas completamente no caminho.
— Ah, não! Mas você não poderia saber que era isso que ele tinha planejado. Não é?
Laila deu de ombros.
— Acho que eu poderia ter perguntado, mas isso teria estragado a surpresa dele. — Ela riu ao se lembrar do evento. — E ficou pior. Acabamos ficando presos lá em cima por mais tempo do que o normal e eles começaram a se pegar loucamente, como se já estivessem na lua de mel. Como se estivessem tentando me punir por estar lá. E conseguiram.
— Você pelo menos conseguiu sua foto?
— Sim. Não, na verdade não. Eu tentei, mas eles ficaram me encarando como se eu estivesse fazendo algo ruim. Então eu tirei um monte de fotos e, quando eu finalmente fui olhar, mais tarde, elas estavam todas fora de foco.
Marc ainda estava rindo quando o barco de transporte parou ao lado do que, deste ângulo, parecia um penhasco branco escarpado.
— Chegamos — disse ele, aliviado. — E eu não tive que pendurar minha cabeça pra fora do barco, graças a você, que manteve minha mente longe. Obrigada. Foi uma grande vitória.
— De nada — murmurou Laila distraidamente. Ela estava muito ocupada olhando para cima. E mais para cima.
O iate de Marc era mais do que enorme. Era gigantesco, do tamanho de um quarteirão inteiro.
— Isso é seu? — ela grunhiu, sentindo-se repentinamente desconfortável. Quando eles estavam apenas conversando, Marc parecia um cara normal, mas não era. A sombra do seu ex-noivo passou por ela. Ele era razoavelmente rico e estava progredindo, mas achava que isso lhe dava o direito de controlar tudo. Incluindo ela.
— Não por muito mais tempo, eu espero — Marc bufou.
Laila se virou para ele, lutando com seus pensamentos internos. Marc era do tipo que acreditava que seu dinheiro lhe dava o direito de exercer seu poder sobre os outros? Ela ainda não sabia dizer, mas a ideia a deixou inquieta.
Ele encolheu os ombros.
— Quero vender essa coisa desgraçada assim que voltarmos. Só comprei pra impressionar o dono de uma empresa que adquiri há alguns anos. Quase não uso. Como você deve ter notado, não sou muito adepto da água.
— Sim — Laila concordou sem muito entusiasmo. Por dentro, sua mente ainda girava. Ela sabia que Marc era o presidente da Campbell Web Developers – ela havia pesquisado bastante no Google quando chegou em casa na noite passada. Sua empresa fazia aplicativos de celular, que ela avaliou que devia ser um bom negócio. Mas, se ele foi capaz de comprar um iate do tamanho de um quarteirão por capricho, então de quanto dinheiro estavam falando? Como esse tipo de riqueza poderia não mexer com a cabeça de alguém?
Essa era a pergunta que agora dançava na ponta da sua língua, mas, ao contrário da última, ela era educada demais para deixar essa escapar. Ela manteve os lábios – e todas as perguntas por trás deles – bem fechados enquanto embarcava no iate, segurando Grayson cuidadosamente em seus braços. Ela pisou na madeira polida do amplo deck e olhou para seus chinelos de farmácia e para a bainha do vestido da Target que ela sempre considerou seu vestido “bom”, e se sentiu distinta e desconfortavelmente fora de lugar.
Ainda bem que esse era apenas um trabalho temporário. Seis semanas, e então ela estaria de volta ao mundo real. Onde ela pertencia.