Lucas Silva sentia o gosto amargo do café na boca, um gosto que ele conhecia bem. Era o mesmo café que sua mãe adotiva, a Sra. Silva, sempre fazia, fraco e sem açúcar, exatamente como a afeição que ela tinha por ele.
Ele estava sentado no sofá da sala de estar luxuosa, uma sala que nunca pareceu ser sua casa. Em frente a ele, seu irmão adotivo, Bruno, exibia um sorriso presunçoso, o tipo de sorriso que Lucas tinha visto mil vezes, sempre antes de algo ruim acontecer com ele.
"Mãe, pai, eu já pensei bem," Bruno disse, ajeitando a gravata de seda. "Eu e o Lucas vamos trocar de noivas."
A Sra. e o Sr. Silva, sentados lado a lado no sofá maior, não pareceram surpresos. Na verdade, eles pareciam satisfeitos.
"A herdeira rica, a Isabella Costa, fica com o Lucas," Bruno continuou, gesticulando com desdém na direção de Lucas. "Eu fico com a modelo de passarela, a Juliana. Ela é mais o meu tipo, vocês sabem."
Ele riu, e seus pais riram com ele.
Lucas permaneceu em silêncio, o olhar fixo na xícara de café em suas mãos. Sua mente não estava ali, naquela sala abafada com cheiro de dinheiro velho. Estava em outro lugar, em outro tempo, um tempo que cheirava a sangue e desespero.
Ele se lembrava da escuridão, do frio do chão de um armazém abandonado. Lembrava-se da dor lancinante quando os homens da organização criminosa o espancaram. E lembrava-se, com uma clareza aterrorizante, dos rostos de Bruno e Juliana observando de longe, seus rostos iluminados pelos faróis de um carro.
"Ele não vai mais ser um problema," Bruno tinha dito para Juliana, a voz fria e sem emoção. "Com a dívida da empresa no nome dele e ele fora do caminho, a fortuna dele e a empresa dos Costa serão nossas."
Juliana, sua noiva, a mulher que ele amava, tinha sorrido. Um sorriso que o assombrava.
Depois disso, veio a escuridão final. Uma morte trágica e solitária.
Mas ele não morreu.
Ele acordou em sua cama, três anos antes do ocorrido, o sol da manhã entrando pela janela. Ele estava vivo. Ele tinha renascido.
E agora, estava aqui, ouvindo o mesmo plano diabólico se desenrolar mais uma vez.
Bruno achava que estava sendo esperto. Na vida passada, o casamento com Isabella Costa era para ele, Bruno. Mas ele, cego pela beleza superficial de Juliana, insistiu na troca. Ele não sabia que Juliana, a "modelo de passarela" , era um peão de uma organização criminosa, uma mulher com um passado sombrio e dívidas enormes. Ele não sabia que ela o levaria à ruína, o usaria e o descartaria.
Ele não sabia que Isabella Costa, a "empresária rica" , era a verdadeira joia, uma mulher cuja inteligência e visão de negócios a tornariam uma das pessoas mais poderosas do país.
Mas Lucas sabia.
Ele levantou o olhar da xícara de café e encontrou os olhos de Bruno. Havia um brilho de triunfo presunçoso no olhar do irmão. Mas havia algo mais, algo que fez o coração de Lucas gelar. Um lampejo de reconhecimento, de uma memória compartilhada.
Naquele instante, Lucas entendeu.
Bruno também tinha renascido.
Ele não estava apenas repetindo seu erro estúpido por coincidência. Ele estava repetindo de propósito. Em sua mente renascida, ele acreditava que o casamento com Juliana o levaria ao luxo, e que o casamento com Isabella, que na vida passada terminou em desastre para a família Costa por causa das maquinações de Juliana, levaria Lucas à ruína.
Ele queria dar a Lucas o que ele pensava ser um presente envenenado.
A ironia era tão espessa que Lucas quase riu.
Ele sorriu, um sorriso frio que não alcançou seus olhos.
"Como quiser, irmão," disse Lucas, sua voz calma. "Eu aceito a troca."
A modelo de passarela podia ser problemática, mas a empresária... a empresária era muito mais perigosa. E desta vez, Lucas estava pronto para o jogo.
"Está decidido, então," disse a Sra. Silva, batendo palmas com uma satisfação mal disfarçada. "Lucas se casará com a Senhorita Costa. É uma ótima união para a nossa família."
O Sr. Silva concordou com a cabeça, o olhar calculista fixo em Lucas. "Não nos decepcione, Lucas. A família Costa é um peixe grande. Certifique-se de segurá-los bem."
Lucas sentiu uma onda de náusea. Para eles, ele não era um filho, era uma ferramenta, um peão em seus jogos de status e poder. Ele sempre fora. Lembrou-se de quando era mais jovem, um programador promissor com um projeto que poderia ter mudado sua vida. Seus pais o forçaram a abandonar tudo e entregar o código-fonte para Bruno, para que ele pudesse usar em sua própria empresa. "Você é o irmão mais velho, Lucas. Você deve ajudar o Bruno. É sua obrigação," eles disseram.
Ele tinha obedecido. E Bruno levou todo o crédito.
"Eu não concordo com isso," Lucas disse, a voz firme, quebrando o clima de celebração. "Eu deveria ter uma palavra a dizer sobre com quem eu me caso."
O sorriso da Sra. Silva desapareceu. Seu rosto se contorceu em uma máscara de fúria. Ela se levantou e caminhou até Lucas, seu corpo tremendo de raiva.
"Você nos deve obediência!" ela gritou.
E então, sua mão voou pelo ar e o som de um tapa ecoou na sala silenciosa.
A bochecha de Lucas ardeu. Ele não reagiu. Apenas a encarou com olhos frios e vazios.
"Nós te criamos, te demos um teto, comida, uma vida que você nunca teria! Você é um órfão que tiramos da rua! Um pouco de gratidão é o mínimo que esperamos!"
Lucas não disse nada. A dor em sua bochecha não era nada comparada à dor que ele sentia em seu coração, uma dor antiga e familiar.
Mais tarde naquela noite, a porta de seu quarto se abriu com um estrondo. Bruno entrou, o mesmo sorriso de escárnio no rosto.
"A empresária é sua, irmão," ele zombou, aproximando-se da mesa onde Lucas trabalhava em seu laptop, digitando linhas de código para um projeto pessoal que ele mantinha em segredo. "Eu vou me casar com a modelo e viver no luxo. Você vai se afogar em dívidas e morrer sozinho, assim como na vida passada."
A confirmação de que Bruno se lembrava de tudo atingiu Lucas como um soco. Ele continuou digitando, fingindo indiferença. Seus dedos se moviam rapidamente sobre o teclado. Uma pequena lâmina que ele usava para abrir caixas de componentes eletrônicos escorregou de sua mesa e cortou seu dedo. O sangue brotou, uma gota vermelha e brilhante, mas ele não demonstrou dor.
Ele simplesmente pegou um lenço de papel e pressionou contra o corte.
"Parabéns, irmão," disse Lucas, sem olhar para ele. "Que você aproveite sua nova vida."
A calma de Lucas pareceu irritar Bruno ainda mais.
"Espero que você se divirta com a empresária. Quando você estiver preso em um mar de dívidas, não me venha pedir ajuda," Bruno cuspiu as palavras. Com um gesto de raiva, ele varreu os objetos da mesa de Lucas com o braço. Manuais, ferramentas e componentes eletrônicos caíram no chão com um barulho alto.
Lucas não se moveu. Ele apenas observou Bruno sair do quarto, batendo a porta atrás de si.
Quando ficou sozinho, um sorriso sombrio e lento surgiu em seus lábios. Ele olhou para o código na tela de seu laptop. Era um programa complexo, um sistema de segurança que ele estava desenvolvendo.
Na vida passada, ele foi ingênuo. Desta vez, ele estava preparado.
"Você não sabe o que te espera, Bruno," ele sussurrou para o quarto vazio. "Desta vez, a queda será sua."