POV. Marcelo
Quando a claridade começou a incomodar percebi imediatamente que não estava em meu quarto, pois quando nos mudamos Laura só fez uma exigência, o quarto mais claro do apê, algo que não fiz a mínima questão de questionar pois pra mim ter uma cama era o suficiente. Meio zonzo, ainda sobre o efeito do grande porre de tequila que havia tomado na noite anterior, olho para o lado e vejo Laura vestida com minha camisa e na mesma hora veio em minha mente tudo o que tinha acontecido naquele dia mais cedo. Eram 6 horas da manhã, sai da cama cuidando pra não fazer barulho pois não queria acordar ela, ainda era cedo e sinceramente não saberia como agir, precisava de um tempo pra por minha cabeça no lugar. Ao fechar a porta a última imagem que vejo é de Laura deitada em sua cama com os raios do sol que teimam em transpor as cortinas batendo em suas pernas desnudas sobre o fino lençol branco. Já em minha cama deitado com os olhos fechados, começou a passar em minha mente cenas dos momentos vividos com Laura e por incrível que pareça, não consigo me arrepender pelo que senti naquele momento, por me deixar levar pelo impulso e também pela coragem que a Tequila te dá depois de algumas doses. Sei que a frustração causada na tarde de ontem pela decepção de ser traído me levaram a tomar tudo que vi pela frente e não é de hoje que busco consolo nos braços dela. Mas nunca tinha acontecido nada nem parecido, quando percebi estava em sua cama, deitado sobre seu travesseiro que imediatamente exalou seu perfume adocicado, mas muito suave. Quando ouvi ela gritando meu nome pelo susto que tinha causado, não me assustei, nem ao menos pensei em me justificar e no impulso seja primitivo ou não quis tê-la perto de mim e ao sentir o mesmo aroma doce misturado em sua pele ainda úmida pela hidratação de seus cremes de costume, despertou em mim algo selvagem e que exigia com urgência seus lábios nos meus. E a cada toque seu, a cada movimento das suas mãos pequenas sobre meu corpo faziam percorrer sobre ele descargas elétricas nunca antes sentidas por mim. Que conexão, que sintonia, estava confuso e com tais pensamentos não nego estava começando a ficar excitado mas nada que um banho gelado não resolvesse.
Liguei o chuveiro no máximo, precisava acalmar os ânimos, pois o dia hoje seria difícil, encarar ela depois de tudo, dizer o que? pedir desculpas nem pensar... Até porque não me arrependo. Mas também criar falsas expectativas se nem mesmo eu saber o que aconteceu e o porque aconteceu. Laura era muito importante pra mim e brincar com os sentimentos dela estava fora de questão.
Desliguei o chuveiro peguei a primeira toalha que enxerguei e estava decidido, não iria puxar o assunto, se caso ela viesse falar sobre o que aconteceu tentaria agir com naturalidade.
Terminei minha higiene pessoal, coloquei um calça jeans, camiseta branca, minha jaqueta de couro e meus tênis... Ajeitei o cabelo e a barba estava recém feita então por uns dias sem preocupações com ela. Fui até a cozinha, hoje o café era por minha conta pois decidimos em comum acordo dividir igualmente as tarefas o que pra mim sempre pareceu justo. Liguei a cafeteira, coloquei o leite pra aquecer no micro e com maestria coloquei a toalha sobre a bancada aonde iriamos tomar café, fui até a geladeira e peguei o que ainda tínhamos para o café, ir ao mercado era algo que precisávamos fazer o quanto antes. Se minha mãe me visse assim com certeza teria orgulho de mim, pois fui criado com toda regalia de um filho único o que inclui ter tudo nas mãos, sem muito esforço, isso só mudou quando me mudei pra Porto Alegre, aqui mesmo tendo grande ajuda deles financeiramente falando, o dia a dia eu a Laura que administramos, desde as contas até a lavagem das roupas e ela não facilita em nada minha vida, o que me ajudou muito a ser quem sou hoje.
O café já estava terminando de passar, quando gritei por ela. Adoro provocar ela pela manhã e hoje pra manter as coisas o mais parecidas possível, não podia ser diferente.
Chamei pela segunda vez, mas colocando um pouco mais de provocação, eis que surge a princesa da casa, noto que desviou ligeiramente seu olhar de mim, largou suas coisas na mesa central da sala como de costume, pensa em um ser humano organizado, queria muito ser assim mas sinceramente a preguiça não deixa, senti que um silêncio se fez presente mas não por muito tempo pois puxei uma conversa aleatória, senti que ela também não iria puxar o assunto, o que não nego fiquei muito aliviado. Após o café escovei os dentes e saímos até a garagem aonde fica meu carro que no momento é nosso, mas que somente eu dirijo, já vi Laura dirigindo e não recomendo. Mas isso também é algo que ela não faz questão. No caminho pra alegrar um pouco nosso dia resolvi colocar uma música um pouco diferente, senti ela distante e sabia que música sertaneja não era seu forte, mesmo ela gostando de muitas delas . Tinha ouvido outro dia meu Talismã, gostei da batida, da voz da cantora. Quando coloquei percebi seu olhar, tipo como assim... Quando se convive muito com uma pessoa pequenos sinais revelam muita coisa.
E tipo tava curtindo a batida do som, quando meio que dançando, meio que tentando dublar a música pois tinha ouvido uma ou duas vezes, foi quando prestei atenção na letra da música e coincidência ou não dizia muito sobre nós e para que ela não percebesse continuei a me balançar parecendo um completo idiota. Chegando ao campus chamei por ela que parecia ter dormido no caminho. Entramos nos despedimos, estudamos em salas com direções opostas.
Posso dizer que os dois primeiros períodos até foram interessantes, amo história da Arquitetura e a professora Antônia arrasa dando essa matéria. Ouvi o som da liberdade tocar avisando o final do segundo período, estava indo até o refeitório encontrar a galera quando meu celular tocou.
- Alô sr. Marcelo Drummond.
- sim, é ele.
- Gostaríamos de comunicar que o senhor foi qualificado para o estágio na KW arquitetura, gostaríamos de confirmar sua disposição ao cargo.
- Sim, lógico.Quando devo me apresentar?
- Deixamos reservados uma entrevista para próxima quarta-feira às 10:30 na sede central. Sala nove, sexto andar. Posso confirmar Sr. Marcelo?
- Com certeza
-Tenha um bom dia e meus parabéns!!!
- Obrigado, com certeza vou ter.
Desliguei o celular e mal pude conter um misto de emoção e orgulho, saí correndo quando avistei Laura com a amiga dela e tomado pelo impulso, peguei ela pela cintura e giramos feito duas crianças no corredor do campus. Quando soltei ela no chão estávamos corados pelo esforço que fizemos expliquei a ela o que tinha acabado de acontecer e quando percebi estava abraçado nela de tal forma que podíamos sentir o coração um do outro, novamente pude sentir a eletricidade percorrer meu corpo por inteiro, constrangidos pela entrega do abraço mas também muito feliz pelo ocorrido, fomos até o refeitório comemorar o meu primeiro feito como futuro arquiteto.
Já dentro da sala... Amava arquitetura, mas com certeza gestão de projetos não era a cadeira dos meus sonhos, de fato esse era o meu algoz em todos os semestres.
E hoje pra ajudar meus pensamentos, estavam direcionados a outros fatores da minha vida, basicamente Laura tomava conta de mim nesse dia, desde os meus pensamentos até as sensações mínimas, que um ser humano pode sentir a flor da pele. Já passava das 16h quando finalmente o último sinal tocou despertando meus pensamentos e me chamando a realidade.
Meio perdido, notei que a turma de Laura não tinha saído ainda, nesses momentos senti um certo alívio de ter trocado de curso a tempo, por não ser escravo de tantos cálculos. Resolvi esperar por ela, pois já estava ficando tarde, sentei na portaria, coloquei meu fone de ouvido e abri minha playlist daquele sertanejo que gosto, perdido em meus pensamentos, refletindo tudo o que tinha acontecido desde a tarde de ontem, vi Laura se aproximando com uma cara interrogativa, conversamos até que ao tocar no nome do Marco imediatamente veio a mente tudo que tinha acontecido, algo que me deixou visivelmente chateado.
No caminho para casa, não tive ânimo algum, uma auto piedade tomou conta de mim, quando de repente fui atingido por uma enxurrada de informações dada por Laura, que do nada começa a falar e a gesticular feito uma doída, o que na hora me pareceu hilário, não me contive soltei uma gargalhada, posso dizer que ajudou muito a me soltar. O restante do trajeto foi tranquilo, conversamos como se nada tivesse acontecido. Chegando em casa fui direto para meu quarto, estava decidido que o quanto antes eu tirasse as coisas do Marco da minha vida, seria melhor, estava decidido a virar a página e parar com essa auto piedade, então liguei minha playlist no último volume e comecei a tão dolorosa tarefa, mas necessária.
Estava ali perdido em minhas lembranças quando Laura bate na porta, abrindo sem constrangimentos falando sobre ir ao super, sei que ela percebeu o que estava acontecendo mas como uma lady que é, desconversou ignorando o que tinha visto.
Não estava com cabeça para sair e resolvemos em comum acordo deixar pra outro dia, foi quando lembrei tenho que comemorar minha promoção, contudo tinha até esquecido que tinha ocorrido coisas boas no dia de hoje.
Gritei a ela pra encomendar uma pizza, sem brócolis, só ela gosta dessa desgraça.
Quando terminei de colocar tudo na caixa, ouvi o barulho do chuveiro vindo do quarto dela e por um momento imaginei quão sexy seria ela tomando banho...foi aí que percebi que algo com certeza estava acontecendo, pois nunca em anos imaginei nenhuma mulher em tal situação, muito menos ela que por anos ocupou em minha vida o lugar de irmã. Suspirei fundo aliviado por ela não ser. Fui até meu carro, abri o bagageiro e coloquei a tal caixa lá, amanhã daria um jeito de entregar ela quem ela pertencia.
Abri a porta de casa, pedindo a Deus para que ela estivesse usando um daqueles pijama ridículos de bichinhos, que em nada iria mexer com minha imaginação, pois sinceramente estava me desconhecendo e o medo de perder o controle novamente me deixava em pânico e ao mesmo tempo excitado, foi quando vi ela abrir a porta do quarto e sair com o cabelo preso por um coque que caia um pouco sobre seus ombros e sim com um dos seus pijamas engraçadinhos que somente coloca quando estamos sozinhos em casa.Tudo certo, Marcelo hoje Laura quer aparentar ter 10 anos, beleza!
A pizza chegou desci fui até a portaria pois como já era tarde seu Manoel já tinha se recolhido, paguei o motoboy e avistei o carro do Marco no outro lado da rua, ignorei e subi.
Chegando no apê, a mesa estava colocada, sinal de que ela sim achava que minha promoção era algo a se comemorar e por um momento me senti imensamente feliz, pois Laura sempre esteve ao meu lado, incentivando, acreditando em mim. Coloquei a pizza na mesa e lembrei que tinha comprado um vinho importado que ela amava na volta da inscrição do estágio, peguei duas taças e fui em direção a sala, quando me peguei olhando para Laura, Puta que p... Até de pantufa de bichinho e pijama de pelúcia ela consegue ser linda! Mas fui chamado a realidade quando ela fez um comentário sobre o vinho, servi ela, brindamos e imediatamente vi ela sorver com tanta maestria aquele vinho, que mesmo eu não sendo um grande apreciador fiquei com vontade de também saborear. A noite transcorreu de maneira agradável, rimos muito lembrando de coisas da nossa infância e pude perceber que ela sempre esteve comigo, muito minha e também como ela se soltava quando bebia algo.
De repente notei seu olhar fixo aos meus como se quisesse desnudar minha alma, senti um frio na espinha, me senti encurralado, pronto ela iria questionar o que tinha acontecido entre nós. Foi quando não menos doloroso ela pergunta sobre o Marco, virei ligeiramente para a varanda um pouco aliviado pois mais cedo ou mais tarde ela teria que saber o que houve, respirei fundo e olhando bem em seus olhos verdes, que naquela noite pareciam ainda mais claros, quando finalmente ia começar a falar, o interfone toca, quem poderia ser a essa hora, pois já passava da meia noite, quando vejo Laura atender e me dizer que Marco estava na portaria querendo falar comigo... Na hora fui acometido de uma raiva, que me paralisou, foi quando ouvi Laura dizer que eu não era assim...e realmente essa história merecia um ponto final e eu teria que ser homem o suficiente para dá-lo .
Reuni todas minhas forças, levantei sem nada falar, abri a porta e saí.
POV. Marcelo
Ao fechar a porta, respirei fundo e fui em direção ao elevador, apreensivo mas determinado, pois o que descobri ontem, mudou radicalmente o rumo da minha vida.
Cheguei na portaria e Marco estava na frente da porta, olhos vermelhos de quem havia chorado, nunca tinha visto ele em tal estado.
Abri a porta e fui pego de surpresa por seus braços envolvendo meu pescoço, sendo bruscamente puxado pra perto dele, senti fortemente o cheiro de álcool, que da sua boca exalava e em um reflexo repentino me desenvencilhei dos seus braços, antes mesmo que ele pudesse ter um contato mais íntimo. Fui tomado por uma repulsa nunca antes sentida por mim em relação a ele.
- Precisamos conversar, Marcelo!
- Sim precisamos, mas não aqui, te encontro no lugar de sempre daqui a alguns minutos.
- Estarei te esperando!
Entrei no prédio, subi até o apartamento pra colocar uma roupa mais descente e avisar Laura, tudo que não quero é deixa- lá preocupada comigo.
Abri a porta do apê e Laura estava na sacada.
- Imaginei que estaria aqui.
- sim, sabe o quanto esse cantinho me acalma.
- só vim te avisar, vou trocar de roupa e dar uma saída, mas volto logo e sim vou conversar com Marco, mas se precisar de qualquer coisa me liga vou estar com o celular ligado o tempo todo.
- Tudo bem.
Fui em direção a meu quarto, troquei de roupa, peguei as chaves do carro que estavam sobre a mesinha de centro da sala, foi quando ao me virar senti os braços pequenos de Laura me envolvendo, fui surpreendido por um abraço gostoso e aconchegante, ela nem imagina o quanto estava precisando, pois o que eu tinha pra enfrentar seria no mínimo desgastante. Me despedi dela e fui até o local marcado, que ficava a poucos minutos de minha casa.
Chegando lá estacionei o carro na vaga que já me era de costume, abri o porta mala e peguei a caixa que pertencia a ele e subi no elevador para oitavo andar.
A porta do apartamento estava entreaberta, entrei coloquei a caixa em cima da mesa, encontrei Marco sentado no sofá cabisbaixo, tomando um copo de whisky.
Marco era um homem bem sucedido, arquiteto formado, um grande nome em ascensão na arquitetura moderna, trabalha em uma grande empresa, viaja muito o que explicava muito sua ausência, mas de pé em sua frente não consegui me compadecer com tal cena.
- Pode me dizer, o quê tá acontecendo?
Diz ele levantando em minha direção, colocando suas mãos em meus ombros e olhando fixamente em meus olhos, querendo de alguma forma me intimidar.
- Me diz você?
Falei isso, novamente escapando de seu contato físico.
- Você simplesmente resolveu que eu não sirvo mais, me dá um pé na bunda, sem nenhuma explicação, pôr um chamada de celular, depois de quase 4 anos e eu que tenho que me explicar, sério?
Nesse momento, minha vontade era de quebrar a cara desse sujeito, como ele pode ser tão dissimulado, mas não vim aqui pra isso.
Então olhei fixamente em seus olhos e perguntei ironicamente:
- Como me explica, então senhor Marco Ferraz, o senhor ser casado a 3 anos e com um filho a caminho?
Ao terminar de falar, a sensação era que uma granada havia acabado de explodir e tudo que vivemos, em quase quatro anos, foi destruído e pude perceber, Marco por um instante cambalear devido a tudo que tinha lhe dito, como se perdesse o chão naquele segundo.
Esfregando as mãos no rosto em um gesto de desespero olhou em minha direção.
- Como soube disso? Quem te contou?
Parecendo, querer achar algum culpado pela verdade ter vindo a tona.
Mas sem piedade ou compaixão lancei a ele um olhar de desprezo.
- Ah! ao menos tem caráter! Bati palmas nesse momento . De não tentar se defender ou inventar mais mentiras, sabe Marco, a mentira tem pernas curtas e o sucesso, a vaidade quase sempre se tornam inimigas de quem as usam sem pudores. Recebi de um amigo uma revista conceituada de arte moderna, de poucas edições e muito limitada ao grande público, sabemos que somente grandes escritórios e arquitetos renomados recebem essa revista, mas por ironia ou não do destino, fui presenteado por uma dessas edições e ao folhear, já nas primeiras páginas e para minha surpresa o entrevistado era uma pessoa que eu conhecia muito bem, ou pensava que conhecia. Imagina como me senti? Alguma vez você parou pra pensar que tanto eu, quanto sua esposa estamos sendo usados e feitos de idiotas, por você? É sem dúvidas tenho que dar os parabéns a esse repórter uma matéria muito esclarecedora ao menos para mim, com muitas fotos revelando sua vida por inteiro.
E ao terminar de falar observo o quão nervoso ele estava, andando em círculos pela sala e parando em minha frente, respeitando o espaço que no começo da conversa deixei claro com minhas atitudes que queria.
- Eu posso explicar... Eu não a amo.
Nosso casamento não passa de pura formalidade, ela era minha namorada, quando vim pra capital estudar Arquitetura, ela ficou em Santa Maria pois cursava veterinária, meus planos eram me formar e casar com ela, pois seu pai era grande empreiteiro da cidade e minha carreira estava garantida, nunca menti sobre minha ambição em crescer na vida, foi quando te conheci e me deixei envolver por você, mas não nego que nunca deixei de lado meus planos, mas também não tive coragem de abrir mão de você e do que tínhamos. Marcelo, te conheço bem você jamais aceitaria. Fiz o que achei o melhor para todos, eu te amo!
Olhei para ele sentindo meu estômago revirar a cada palavra dita e fico pensando que aquele papo de que assumir algo publicamente, era difícil pois temia ser prejudicado e eu aqui idiota entendendo tudo, querendo parecer maduro.
E num ato de total compaixão, querendo o quanto antes dar o golpe final acabando de vez com essa agonia e já sabendo o desfecho, lancei a ele.
- Se não a ama como diz, me prove... então larga tudo e assume o que sente por mim!
- Sabe que não posso, tenho muito a perder, você não entende?!
- Eu sei, só quis dar a essa história toda um final digno de Shakespeare, já que pelo que ouvi você sempre soube seu papel nela, mas sabe eu tenho pena de você, pela pessoa materialista e mercenária que você se tornou, ou sempre foi, e que em nada me lembra a pessoa por quem me senti envolvido todos esses anos, mas o que mais me dá asco é o fato de você manter essa mentira, não me dando a chance de querer ou não estar em um relacionamento nessas condições, bom a caixa com suas coisa estão em cima da mesa e aqui esta a chave deste apartamento, acabou, tô saindo de cena.
Falei isso virando as costas sem nem sequer olhar pra ele, bati a porta ao sair, sabia que ali nunca mais voltaria e nem sequer uma lágrima consegui deixar escapar, mesmo tomado por tanta emoção, acredito que não tenha mais o que chorar, nem lamentar dessa história. Pois como alguém pode agir assim manipulando, mentindo, armando situações tudo a seu favor, me senti usado, sujo, precisava chegar em casa, tomar um banho e tentar apagar de minha mente todos os anos que vivi sendo enganado por ele.
Entrei no carro e logo a lembrança de como eu conheci ele me veio a mente...e eu era calouro ainda no campus, primeiro ano de arquitetura, Marcos veterano estava no último ano do curso. No auge dos seus 23 anos era dono de um corpo bem definido, cabelos loiros crespos e olhos azuis, ficamos amigos logo na primeira semana, ele era muito bom, aprendi muito com ele, pois as cadeiras eram bem puxadas em relação ao conteúdo, como eu era bolsista minhas notas tinham que ser impecáveis.
Um dia em uma festa da universidade, bebemos muito foi quando pela primeira vez ele deu em cima de mim, achei que fosse da bebedeira, ignorei pois eu não estava certo da minha sexualidade, mesmo eu já tendo 18 anos, ainda era virgem, tinha ficado com algumas meninas mas nada sério, apenas alguns amassos. Sempre fui muito dedicado ao estudos e mesmo sendo desorganizado na minha vida, sempre soube o que queria pra mim. E sobre não ter perdido a virgindade, falta de segurança, desejo, não sei definir o que me levou a não perde mais cedo, com uma menina qualquer.
Mas as investidas foram ficando intensas e não sei bem se pela carência, pela curiosidade ou simplesmente por admiração aquela pessoa me deixei levar pelo impulso e começamos a nós encontrar escondido, o que parando para pensar sempre foi escondido, na surdina, sem amigos, sem grandes gestos em público. No outro ano começamos a nos encontrar no apartamento dele, com a desculpa de que ele viaja muito, nos víamos quando dava, nunca poderia imaginar que nesse ano em questão ele estaria casando, constituindo família, me sinto um completo otário... Chegando perto de casa, o alívio começou a tomar conta de mim, gosto do cheiro do meu apê, de saber que Laura está lá, isso me acalma.
Estacionei na vaga de sempre, segui até o elevador, cheguei em casa e puxei o ar com toda força de minha alma, como é bom estar em casa. Me aproximei do quarto de Laura, vi a luz do abajur ligado, ela estava dormindo, encostei a porta com cuidado. Fui ligeiro para meu quarto, já tirando minha roupa, pois precisava ficar livre da sensação de sujeira que preguinava meu corpo naquele momento, liguei o chuveiro de maneira que rapidamente uma neblina densa de vapor pudesse cobrir todo box.
Já despido entrei no chuveiro e posso afirmar que era tudo que eu precisava naquele momento.
Foi quando ouvi a voz da Laura, me chamando baixinho, meio rouca pelo fato de ter dormido.
- Celo é você?
- Tô no banho!!
- Desculpa...
- Quê?!
- Precisando tô no quarto.
Terminei meu banho, posso dizer que estava revigorado. Coloquei uma calça de moleton larga, daquelas que com certeza minha mãe já teria colocado fora, por estar tão desgastada e uma camisa manga comprida, estava friozinho naquela madrugada, fui até o quarto de Laura e não pude deixar de lembrar do que aconteceu no dia de ontem, mas tentei não transparecer, abri a porta ela estava acordada, tapada até o pescoço, pensa em uma menina friolenta é ela.
- Acordada ainda, menina? Falei isso me aconchegando ao seu lado embaixo do cobertor aveludado que ela estava usando.
Quando ela grita:
- Marcelo, você tá gelado!!! Te esquenta primeiro só depois encosta em mim.
- sim, senhorita...mas, vou me esquentar mais rápido se eu ficar bem pertinho de você.
Falei isso envolvendo meus braços grandes em seu corpo que estava quentinho, nem dando chances para ela conseguir reagir.Conformada, que não iria solta-la facilmente senti seu corpo ficando molinho, foi quando ela se ajeitou colocando sua cabeça sobre meu peito, uma de suas pernas sobre as minhas, ficamos em silêncio, mas não era por falta de palavras, nem sequer querendo fugir delas, não tinha o que ser dito, sabe aquele silêncio que não constrange, que não sufoca ou intimida, magicamente se instaurou naquele cômodo. Passavam das 4h da manhã, sorte que nem eu, nem Laura temos aula amanhã, pois tem o bendito conselho de mestres do semestre.
Quando percebi Laura tinha dormindo sobre meu peito, podia sentir sua respiração calma e a batida lenta do seu coração, foi quando parei para pensar, o que meu Deus tá acontecendo comigo?!Ali naquele momento, mesmo magoado pela traição, me sentindo um grande idiota, estava feliz, o que mudou? Porque mudou? Novamente eu que achava a dois dias atrás estar com minha vida toda resolvida e aceita por mim mesmo, hoje não consigo definir mais nada ... O que sentia pela Laura de fato?!Pensei em levantar e ir dormir em meu quarto para evitar mais mal entendidos entre nós, mas estava tão gostoso sentir ela e sua respiração que novamente deixei me levar pelo momento e adormeci ali mesmo, nos braços dela.