Debbie
- Mas alguma coisa? - A voz grossa combina perfeitamente com a aparência física do homem.
Pisco e saio do transe.
- Aqui está o orçamento que pediu para o Sr. Jenkins. - Entrego a pasta azul.
Impaciente, ele pega a pasta de minha mão.
- Pode se retira.
- Sim..., sim, Sr. Butler.
Passo a mão pela saia e me viro saindo de sua sala. Não saio apressada, ou demonstro desconforto. Só não poderia negar que está em sua presença mexeu comigo. E mais uma vez preciso ser uma ótima atriz, absorvendo tudo ao meu redor e não deixando transparecer.
- Uau. - Ouço a voz debochada da Martina. - Não saiu chorando da sala do chefe? Não é que é durona mesmo.
A outra secretaria ri.
- Não haveria motivo. - Certifico que a porta esteja fechada, não quero dar motivo algum para Sr. Butler seja o monstro que as pessoas o vê. Volto para minha mesa. - Vocês o descrevem como um monstro que a qualquer momento fosse atacar, mas é uma pessoa como qualquer outra.
Nicholas não foi a pessoa mais gentil do mundo e se a primeira impressão é que fica, não agradou tanto. Mas não foi rude comigo em momento algum. Talvez hoje não seja o bom dia para ele.
Seis palavras trocadas e tive pensamentos inadequados com meu chefe neste mísero segundos. Droga! Será que é amor a primeira vista? Sinto vontade de rir de mim. Mas não dar para agir normalmente depois da minha mente me trair facilmente. Balanço a cabeça querendo afastar esse pensamento e volto ao meu trabalho. O telefone toca na minha mesa.
- Olá...
- Revise os e-mails que mandei, quero todos ainda hoje. - Nicholas fala e desliga.
Abri o e-mail e quase choro, são 20 e-mails. Vou passar do meu horário, em um suspiro começo o meu trabalho. Martina e Paula, vão embora rindo quando me ver trabalhando. As duas não são amigas, mas parece estarem se divertindo quando o assunto sou eu. Minha bunda doía, mas me mantenho concentrada no meu trabalho e ignorando elas. Nicholas não saiu de sua sala em nenhum momento, pelo que fiquei sabendo era raro os momentos que Nicholas saia cedo ou no fim do expediente. Olho para a porta de seu escritório, ele parece ser um homem tão solitário.
São duas semanas trabalhando aqui e hoje é a primeira vez que vejo e ouço esse homem. Deve ser aquele tipo de pessoa que só pensa em trabalho, coitada de sua esposa. Um homem lindo desse e não ter a atenção dele, não sei se ele é casado ou não. Nicholas é um homem muito reservado e não há informação da sua vida pessoal. Termino meu trabalho uma hora depois do meu horário, envio o e-mail para meu chefe e começo a arrumar minhas coisas para ir embora.
Me espreguiço ao levantar e pego minha bolsa para ir embora, a porta do escritório de Nicholas se abre. Seguro a alça da minha bolsa, quando vejo Nicholas fechando a porta do seu escritório e passando por mim.
Sou uns 30 centímetros mais baixa que ele.
- Será creditado um bônus no final do mês, pelo hoje. - Ele para e olha sobre os ombros. - Me ouviu?
Volto para a realidade.
- Sim. - Mentir.
O que está acontecendo comigo? Um simples olhar desse homem e esqueço de tudo? Era só o que me faltava. Nicholas me olha em silêncio, seu olhar desce pelo meu corpo tão lentamente que sinto o mundo parar. O ar de mistério e sem saber o que pode acontecer na sua presença me deixa ansiosa. Com a sua pasta em mãos, coloca em frente o corpo me olhando com atenção.
- Debbie Ward. - Puta merda! Meu nome na sua voz me deixa grogue. - O que falei?
Arregalo os olhos. E agora?
- Hum... - Evito seu olhar. - Desculpe.
- Você vem tendo grande destaque em minha empresa nos últimos dias. - Ergue uma sobrancelha. - Até mesmo a Srta. Cameron elogiou seu trabalho.
Sorri, sentindo orgulho de mim. Meu trabalho não é brincadeira. Conheci algumas pessoas da advocacia, eles são mais fechados, mas amigáveis.
- Dou meu melhor, sempre.
- É uma mulher ambiciosa e pode ser visto de longe. - Meu sorriso some, o jeito que ele fala faz parecer ruim. - Quem é amiga de todos, não é amiga de ninguém.
Procuro não ficar tensa.
- Sou a novata, a credibilidade sobre mim é nada. - O olho nos olhos. - Mostro que sou capaz e faço meu trabalho com excelência. Não há maldade alguma ser ambiciosa, até porque não estou fazendo nada de errado e nem passando por cima de ninguém.
Sinto seu olhar mais atento sobre mim, mas dessa vez diferente. Percebo que a todo momento está me analisando, sou avaliada constantemente em sua presença e poderia fazer muitos tremer sobre seu olhar severo. Não sinto medo dele e não quero ser pretensiosa, de alguma forma consigo vê-lo diferente dos outros. Algo aquece o meu corpo, e posso estar delirando, mas acho que vi um sorriso se formar em seus lábios mostrando que gostou da minha resposta.
- Srta. Ward?
- Oi?
- Não, não sou uma pessoa qualquer, sou Nicholas Butler e deveria me temer como todos os outros. - seu tom de voz faz parecer que está brigando comigo, suas ações estão leves.
O Nicholas não perde mais seu tempo comigo e vai até o elevador. Fico bastante confusa com as suas palavras, fiz algo que não o agradou? Mas ele parecia tranquilo. Mordi o lábio inferior, ele ouviu minha conversa com as outras secretarias. Como? Olho ao redor, estamos sendo gravadas e ele pode nos ouvir o tempo todo. Esse homem é bastante controlador. Será que as outras sabem? Ou como eu achava que nosso chefe não tinha acesso às câmeras da sua própria sala.
Não, elas não sabem ou tomariam mais cuidado com o que dizem.
Talvez esteja arriscando, mas...
- Para te temer, teria que pensar como eles. - Nicholas para a sua mão no ar, ele estava prestes a apertar o botão para chamar o elevador. - E não vejo você como um monstro. Não, com certeza não. No fim, teria que te conhecer melhor e não o personagem que você veste.
Debbie Ward
Um mês trabalhando para NexTech Dynamics, aperto o botão do elevador freneticamente para o décimo quinto andar. Sr. Butler está com um humor péssimo e acabou de demitir a Paula, ela atrasou cinco minutos para fazer a entrega dos papéis para o Sr. Jenkins e sem piedade alguma ele demitiu ela. Aos choros Paula pegou suas coisas e foi embora, a responsabilidade foi passada para mim e agora sou eu com medo de ser demitida por causa desse elevador.
Talvez esteja um pouco desesperada e não esteja demorando tanto para o elevador chegar no andar desejado.
Porém, não quero ser a próxima a ser mandada embora, confesso que estou assustada. Desde nossa última conversa, não tivemos mais nenhuma troca de palavra, todos os trabalhos eram direcionados para Martina ou para Paula e por um momento fiquei preocupada que a nossa conversa tenha assinado a minha demissão sem eu saber. Os dias haviam se passado e aqui estou.
As portas se abrem e praticamente sai correndo do elevador, mantenho a minha postura e respiro fundo enquanto caminho em passos rápidos até a sala do Sr. Jenkins. Cumprimento algumas pessoas durante o caminho, havia até saído com algumas pessoas desse andar para um bar na esquina.
Converso com a sua secretária, uma pessoa incrível e muito animada. Ela me tranquiliza dizendo que o Sr. Jenkins estava me esperando e não precisava se preocupar que estava de bom humor.
Thomas Jenkins é braço direito e administrador empresarial. Seu cabelo é ondulado em um tom castanho com mechas grandes fazendo com que ele passe a mão pelo cabelo constantemente, aqueles braços fortes e firmes desenham perfeitamente o seu terno. Tem os traços marcados como seu amigo e chefe. Seus olhos em um castanho-claro e uma barba por fazer, ele adora conversar e expor aquele belo sorriso. É um homem lindo, não havia tido oportunidade de falar com ele, apenas o via de longe.
- Sr. Jenkins, a senhorita Ward está aqui. - A secretária abre a porta e me dá passagem.
Agradeço e passo por ela. Thomas se levanta de sua cadeira e vem até mim, fico um pouco surpresa com a sua aproximação e aperto sua mão quando ele estende para mim. O sorriso no seu rosto é contagiante e me faz querer sorrir também, e assim faço.
- É um prazer te conhecer, Srta. Ward.
- Digo o mesmo, Sr. Jenkins. - Entrego a pasta para ele.
Thomas começa a olhar os papeis voltando para sua mesa.
- Por favor, Srta. Ward, sente-se. - Ele ocupa sua cadeira.
Faço o que ele me pediu, não acho que seria uma boa ideia voltar sem esses papéis. Havia alterações no orçamento de um dos projetos que o Sr. Butler fez e Sr. Jenkins terá que olhar novamente, antes de voltar para o Sr. Butler e ele assinar.
- Imagino que nosso chefe não esteja de bom humor hoje. - Comenta enquanto começa a digitar no seu notebook. Ele me olha quando fico em silêncio. Seu sorriso aumenta. - Tudo bem, Srta. Ward. Não estamos falando nada de mais além do que já estão falando nos corredores.
Começo a me sentir à vontade com ele.
- Pode me chamar de Debbie.
Seu olhar, que demora mais que o normal em meu rosto, desce mais abaixo e finjo não perceber. Porque com toda a certeza duas ações são bem diferentes do Sr. Butler.
- Debbie. - Testa meu nome em sua voz. A voz firme e confiante, faz eu gostar do som. - E você pode me chamar de Thomas...
- Não acho que...
- Na frente dos outros nos cumprimentamos formalmente e a sós pelo primeiro nome, o que acha? - sua pergunta está bastante sugestiva, mas não sei as verdadeiras intenções nessa pergunta.
Os homens dessa empresa são bem bonitos, uns com suas belezas mais internas, mas todos parecem ter sido escolhidos a dedo em um catálogo de modelos sensuais.
- O que faz você pensar que estaremos a sós novamente? - Pela primeira vez, encolho um pouco os ombros, sentindo a vontade de morder o canto da boca. - Bem, pode demorar.
Não quero que Sr. Jenkins pensa que estou flertando com ele. Depois de um mês consegui ter um contato direto com esse homem. Talvez o Sr. Butler só me mandasse novamente após um ou dois meses.
- Fiquei sabendo que você gosta de fazer amizades, podemos ser amigos também.
Ri e Thomas me acompanha, era tão nítido a malícia em sua voz e ele não disfarça. Se soubesse que tinha chance com ele, teria tentado uma aproximação antes, não sou de ferro e estou precisando de uma diversão. Thomas Jenkins parece ser alguém que ama diversão.
- É, quem sabe. - Não dou muita corda para o assunto.
Temos que trabalhar e Thomas parece pensar o mesmo, voltando sua atenção para o notebook. Após revisado e alterado os documentos, Thomas me leva até a porta.
- Até logo, nova amiga. - Sorri para ele. - Tenha um ótimo dia.
- Você também, amigo.
Pisca para mim e torço para que sua secretária não tenha percebido. Não sei se Thomas é assim com todo mundo, mas não quero comentários sobre a gente. Em passos rápidos e sem parecer desesperada, volto para o vigésimo andar. Não encontro com Martina, fui em direção à sala do Sr. Butler. A porta se abre no exato momento que iria abrir após ouvir ele liberar minha passagem, pega de surpresa dou um passo para trás e me desequilibro. Sr. Butler agir com rapidez ao passar o braço pela minha cintura evitando a minha queda.
Coloco minha mão em seu peito, os olhos arregalados e respiração ofegante. O movimento rápido me deixa tonta, fecho meus olhos. Em vez de levar um tombo feio, agora estou nos braços do meu chefe.
- Você está bem? - O hálito fresco bate em meu rosto.
Ergo minha cabeça, olhando-o.
- Eu..., sim, a tontura passou. Não comi ainda. - Confesso.
Sr. Butler parece ficar mais sério. Engoli em seco, mantendo o braço ao meu redor, ele me guia para dentro do seu escritório. É agora? Agora que serei demitida? Não é possível, ele poderia ter me deixado cair no chão se evitasse minha demissão.
- Não imaginava que você fosse tão irresponsável. - Me faz sentar em um dos sofás que tem disponível no canto do seu enorme escritório.
- Irresponsável? - Fico sem entender com a pasta em meu colo.
Sr. Butler dá a volta em sua mesa e pega o telefone fazendo dois pedidos de comida. Ele... ele estaria pedindo para mim? Não sei se fico horrorizada ou estou vendo coisa onde não tem. Quero voltar para minha mesa e ficar quietinha terminando o meu trabalho. Finalizando a ligação, Sr. Butler dá a volta em sua mesa com os passos pesados.
- Por que não comeu? - Pega a pasta em meu colo.
- Hum, o dia foi bem corrido.
Não vou falar que ele chegou muito irritado e de repente surgiram mais de vinte coisas para fazer ao mesmo tempo, e depois que demitiu a Paula todos estavam fazendo tudo na velocidade da luz com medo de ser o próximo. Todos agindo na base do medo hoje.
Será que não percebeu? Não sou tão ousada em perguntar.
- É motivo para descuidar da saúde? - Olha os papéis, concentrado.
É a saúde ou ser demitida? Melhor não debochar ou ser irônica agora.
- Acabei me descuidando. - Me levanto. - Não irá se repetir. Precisa de algo a mais? Posso...
- Sente-se. - Senta na poltrona de couro do lado do sofá que estou. - Irá almoçar comigo.
Terei mais tempo com ele? Me sento. Faz uma hora que terminou o horário do almoço, a manhã foi agitada, passando praticamente por cada andar. Não estou reclamando, trabalhei tanto que não percebi a hora passar e agora que meu corpo resolveu reagir. Dividimos a sua mesa para poder almoçar, o silêncio me incomoda, mas não queria ser a primeira a falar.
Está sendo fora do normal almoçar com meu chefe, não quero acabar falando algo de errado.
- Deve ser difícil para você ficar tanto tempo quieta.
O olho e seu olhar já estava em mim.