Capítulo 2

O líquido fervente atinge meu peito e rosto.

A dor é instantânea e cegante. Eu grito, caindo para trás da cadeira. Bato com força no chão, minha cabeça estalando contra a madeira polida.

O mundo gira. Através de uma névoa de dor, vejo Heitor pular, seu rosto uma máscara de horror.

"Aurora!"

Ele começa a vir em minha direção, mas Aline é mais rápida. Ela agarra o braço dele, seu próprio rosto coberto de lágrimas, sua voz um grito histérico.

"Ela mereceu, Heitor! Ela estava zombando de mim! Você não vê? É culpa dela que eu bati o carro! É culpa dela que eu não posso ter filhos! Ela arruinou a minha vida!"

Heitor congela. Ele olha do meu corpo caído no chão para o rosto soluçante de Aline. A velha e familiar batalha se desenrola em seus olhos. Dever versus desejo. Culpa versus amor.

Aline envolve os braços em volta da cintura dele, enterrando o rosto em seu peito. "Me tire daqui, Heitor", ela chora. "Por favor, me leve para casa. Estou com medo."

Ele olha para mim uma última vez. Estou deitada em uma poça de sopa, minha pele gritando, minha visão escurecendo. Eu vejo sua hesitação. Eu vejo a escolha que ele está prestes a fazer.

Ele pega Aline nos braços e a carrega para fora do restaurante. Ele não olha para trás.

A última coisa que sinto antes que a escuridão me tome completamente é o chão frio e duro sob minha bochecha.

Acordo com o cheiro de antisséptico e o bipe de uma máquina.

Um hospital. De novo.

Meu peito e pescoço estão enfaixados. Uma dor surda e latejante irradia da minha pele.

Uma enfermeira de rosto gentil está verificando meu soro.

"Ah, você acordou", ela diz com um sorriso suave. "Você nos deu um belo susto. Você tem algumas queimaduras de segundo grau bem feias, mas vai ficar bem. Você teve sorte."

Eu não me sinto com sorte.

"Seu marido estava tão preocupado", ela continua, afofando meu travesseiro. "Ele ficou aqui a noite toda, andando pelos corredores. Ele acabou de sair para tomar um café. Você tem um bom homem."

A imagem de Heitor carregando Aline para longe pisca em minha mente. Meu coração se aperta, uma dor mais aguda que qualquer queimadura.

Ele me deixou no chão.

"Nós nos divorciamos", eu digo, minha voz um sussurro seco.

A enfermeira parece surpresa, mas antes que ela possa dizer qualquer coisa, a porta do meu quarto se abre.

É Heitor. Ele parece cansado, seu cabelo está uma bagunça e seus olhos estão vermelhos.

"Rory", ele diz, o alívio inundando seu rosto. Ele corre para a minha cabeceira. "Não diga coisas assim. Não estamos divorciados, não de verdade."

Ele tenta pegar minha mão, mas eu a puxo para longe.

"Aline... ela não fez por mal", ele começa, uma desculpa familiar em seus lábios. "Ela só não está bem. Ela se sente tão culpada, chorou a noite toda."

Ele se desculpa. "Eu sinto muito, Rory. Eu sinto muito, muito mesmo."

Eu olho para ele, para este homem que amei por tanto tempo, e não sinto nada além de uma exaustão profunda e esmagadora.

"Ela é mais importante, não é?", eu digo, minha voz plana. "Aquela por quem você me deixou no chão."

"Não é isso-"

"Essa coisa toda", eu interrompo, "esse jogo doentio de divórcio e novo casamento, da minha dor para acalmar a 'ansiedade' dela... Eu cansei, Heitor."

Minha voz é baixa, mas é mais forte do que tem sido em anos.

"Vá ficar com ela. Vá cuidar dela. Ela obviamente precisa mais de você."

Ele parece confuso, como se não conseguisse compreender minhas palavras. "Rory, você ainda está com raiva? Eu sei que errei. Eu sei que deveria ter ficado com você."

Ele agarra minha mão, seu aperto firme. "Ela estava ameaçando se matar, Rory! Estava com uma faca! O que eu deveria fazer?"

Ele parece desesperado, sua voz suplicante. "Isso é só de fachada. Você sabe disso. Você sempre será minha esposa. A única."

Ele se inclina para mais perto, suas palavras um veneno suave. "Apenas espere um pouco mais. O médico dela diz que ela está melhorando. Assim que ela estiver totalmente recuperada, poderemos ter a vida que sempre quisemos. Eu prometo."

"Quanto tempo, Heitor?", eu pergunto, a pergunta pairando no ar estéril entre nós. "Mais cinco anos? Dez? Você vai estar acalmando-a em seu leito de morte enquanto eu espero?"

Ele fica em silêncio.

"A culpa é minha", ele finalmente sussurra, as mesmas palavras que disse mil vezes. "Eu devo a ela."

Eu ouvi essa frase tantas vezes. Costumava me fazer sentir compaixão. Agora só me faz sentir cansada.

Eu fecho meus olhos. Meu peito parece pesado, como se estivesse cheio de cimento molhado.

"Sim", eu sussurro de volta. "Você deve a ela."

Eu respiro, me preparando para dizer as palavras que deveria ter dito anos atrás. As palavras que decidi no carro.

Mas assim que abro a boca, o celular dele toca.

É uma chamada de vídeo. O rosto de Aline, manchado de lágrimas, preenche a tela. Sua voz é estridente e acusadora.

"Heitor Bastos! Você prometeu que voltaria logo! Por que está com ela? Eu te disse para ficar longe dela!"

Ela começa a soluçar. "Eu não estou comendo. Não vou comer nada até você voltar. Se eu morrer de fome, a culpa é sua!"

O rosto de Heitor se fecha em uma máscara familiar de frustração e resignação. Ele esfrega as têmporas.

"Ok, Aline. Acalme-se. Estou indo."

Ele se levanta para sair. Ele se inclina para beijar minha testa, mas eu viro a cabeça.

"Rory, descanse um pouco", ele diz suavemente. "Eu volto mais tarde à noite para ver como você está."

Uma risada amarga escapa dos meus lábios. Mais tarde à noite. Depois que ele colocar Aline na cama e prometer o mundo a ela.

Eu o observo sair apressado pela porta, o celular ainda pressionado contra a orelha, sua voz um murmúrio baixo e calmante destinado a outra mulher.

A porta se fecha, me deixando em silêncio.

Eu viro a cabeça e encaro a porta vazia.

"Eu ia dizer", sussurro para o quarto vazio, "que você deve tudo a ela. Então pode ficar com ela."

"Mas eu não devo porra nenhuma a nenhum de vocês."

"A partir de agora, Heitor Bastos, você e eu acabamos. Para sempre."

Capítulo 3

Passei uma semana no hospital. As queimaduras no meu peito e pescoço começaram a cicatrizar lentamente, deixando para trás cicatrizes vermelhas e raivosas.

Heitor veio me visitar, às vezes.

Ele prometia estar lá para minhas consultas, para ajudar a enfermeira a trocar meus curativos.

Mas então seu celular tocava. Aline estaria chorando, ou gritando, ou ameaçando pular. E Heitor ia embora. Todas as vezes.

Depois que ele saía, meu próprio celular se iluminava.

Uma mensagem de Aline.

[Heitor acabou de fazer a canja de galinha especial dele para mim. Ele disse que é só para mim.]

Depois, uma foto de uma tigela de sopa fumegante.

Outra mensagem.

[Ele ficou comigo a noite toda. Segurou minha mão até eu dormir.]

Seguida por um vídeo de Heitor dormindo em uma cadeira ao lado da cama dela, a mão dele segurando a dela.

[Ele vai me levar para um encontro hoje à noite para compensar o que você fez.]

[Ele me carregou para casa porque meus pés doíam.]

E então, a que finalmente rompeu minha dormência. Uma foto. Aline, com o rosto inclinado para cima, pressionando seus lábios contra os de Heitor. Os olhos dele estavam fechados.

Um vídeo se seguiu. A mão dela deslizando por baixo da camisa dele.

Meu coração, que eu pensei ter se transformado em pedra, sentiu uma pressão aguda e esmagadora. Eu não conseguia respirar.

Eu não respondi. Apenas apaguei as mensagens, uma por uma.

No dia em que recebi alta, cuidei da papelada sozinha. Peguei um táxi de volta para a casa que um dia chamamos de lar.

Quando cheguei lá, Aline estava na porta. Heitor estava ao lado dela, parecendo estressado. Ela tinha uma mala.

"Ela não tem para onde ir", disse Heitor antes que eu pudesse falar. "O proprietário a despejou."

Aline estava tentando forçar a entrada. "Esta é a casa do Heitor, o que significa que é minha casa! Você não pode me impedir!"

Heitor a segurava, sua voz firme pela primeira vez. "Aline, não. Esta é a minha casa e da Aurora. Você não pode ficar aqui."

Ela começou a gritar, um som selvagem e encurralado. "Se você não me deixar entrar, eu vou correr para o meio do trânsito agora mesmo! Eu vou fazer isso!"

Ele parecia impotente, preso.

Então ele me viu parada no portão. Seus olhos se arregalaram de surpresa.

"Rory! Você está em casa."

Ele correu até mim, sua voz um murmúrio baixo e apologético. "Ela só vai ficar por alguns dias. Só até eu encontrar um lugar novo para ela. Eu prometo."

Eu olhei por cima dele para Aline, que agora me encarava com triunfo.

Eu baixei os olhos. Minha voz estava calma, desprovida de qualquer emoção.

"Ok."

Heitor pareceu chocado. "Você... você não se importa?"

Eu balancei a cabeça, um sorriso amargo tocando meus lábios. "O que há para se importar?"

Eu não era mais a dona desta casa. Eu era apenas uma hóspede temporária, prestes a ser despejada.

Aline passou por Heitor e entrou na casa como se fosse a dona.

"Nossa, este lugar é tão brega", ela declarou, torcendo o nariz. "Tudo precisa ser mudado."

Ela começou a dar ordens às empregadas. "Este sofá é horrível, livre-se dele. E essas cortinas! Joguem fora!"

Então seus olhos pousaram no grande retrato de casamento pendurado na sala de estar. Era uma foto de Heitor e eu em nosso dia mais feliz.

"E aquilo", ela disse, apontando um dedo afiado, "é o mais feio de tudo. Tirem e queimem."

As empregadas olharam incertas para Heitor.

Ele hesitou por um momento, depois deu um leve aceno de cabeça derrotado. "Façam o que ela diz."

Eu esperava por isso. Eu esperava sua rendição.

Senti um fantasma de riso em meu peito. Virei-me sem uma palavra e fui para o meu quarto fazer as malas.

Se eles me queriam fora, eu facilitaria para eles. Eu me apagaria desta casa.

Peguei uma mala e comecei a enchê-la com minhas coisas. Roupas, livros, meu antigo material de arte. Coisas que eu amava.

Quando saí do meu quarto, arrastando a mala, a sala de estar era uma zona de desastre.

Nossa foto de casamento estava espatifada no chão, o vidro quebrado, meu rosto sorridente rasgado. Meus livros foram arrancados das prateleiras e jogados em uma pilha. O lindo vaso que eu comprei em nossa lua de mel estava em pedaços.

O lar que eu construí com tanto cuidado, mantido com tanto amor, estava destruído.

Fiquei ali por um momento, apenas olhando para os destroços.

Aline estava no meio de tudo, um sorriso presunçoso e vitorioso no rosto.

"Tudo isso", ela disse, gesticulando pela sala, "e você... vocês todos estão no passado agora."

Eu a ignorei. Cansei dos jogos dela.

Mas ela parou na minha frente, bloqueando meu caminho. "Onde você pensa que vai?"

Seus olhos caíram na mala semiaberta. Ela viu o conjunto empoeirado de tintas a óleo que eu havia embalado. Sua expressão se contorceu.

"Ainda fingindo ser uma artista? Está tentando mostrar o quão talentosa você é? O quanto ele costumava te amar?"

Eu apenas olhei para ela, meu silêncio uma parede que ela não conseguia quebrar. "Deixe-me passar, Aline."

Tentei contorná-la.

Seu rosto se contorceu de raiva. "Sua vadia!"

Ela pegou um pesado vaso de porcelana de uma mesa lateral e o balançou na minha cabeça. Eu tropecei para trás, desviando do golpe. O vaso se estilhaçou contra a parede atrás de mim.

Enquanto eu cambaleava, desequilibrada, ela avançou.

Ela colocou as duas mãos no meu peito e empurrou. Com força.

Eu estava no topo da grande escadaria.

"Vá para o inferno, Aurora!", ela gritou, sua voz pingando veneno.

Senti um momento de ausência de peso. Depois, um impacto agudo e violento enquanto meu corpo rolava escada abaixo.

A dor explodiu através de mim. Aterrissei em um monte no final, minha cabeça batendo no chão de mármore com um estalo doentio.

Sangue. Eu podia sentir o sangue quente emaranhando meu cabelo, formando uma poça sob mim.

Meu corpo convulsionou, uma série de tremores violentos.

Minha visão ficou turva.

A última coisa que vi antes de desmaiar foi Heitor, correndo pela porta da frente, seu rosto um retrato perfeito de horror.

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