Na escuridão repentina e cortada apenas pelo brilho rachado da Prata, Lyra ouviu o som claro e assustador: a claraboia quebrando. Cacos de vidro caíram no tapete da sala de estar.
A figura que desceu era rápida e silenciosa, um borrão em um terno escuro. Seus passos não faziam barulho no piso de madeira, um sinal de sua leveza sobrenatural. O ar frio da noite o seguia. Ele era alto, de ombros largos, e a penumbra apenas acentuava a geometria angular de seu rosto.
- Lyra da Matilha Mista. Uma tragédia, de fato - A voz dele era um sussurro grave, com a frieza de quem recita um epitáfio. - Seu aroma é... inconfundível, mesmo através daquela joia barata.
Lyra não respondeu. Ela recuou, sua mão agarrada ao cabo da faca de aço negro. O medo que sentia era agora convertido em uma raiva fria, a parte Lobisomem gritando por ataque, a parte Bruxa calculando.
- Você não me interessa, híbrida. Só o que você carrega. O Tribrido. Entregue-o agora e eu farei a sua morte rápida e sem dor.
Lyra usou a escuridão. Ela sabia que os vampiros viam no escuro, mas a rajada de vento que havia derrubado as lâmpadas também levantara a poeira e cortinas, criando uma distração visual mínima. Ela atirou a faca de aço negro em direção ao lugar de onde vinha a voz.
A faca não acertou. Houve apenas um clang surdo, rápido demais. O vampiro a segurou no ar.
- O aço é inútil. E por que está tremendo? A Bruxa em você está fraca. O Lobo está sedado pela prata. Você é a mais patética das caçadas.
Ele jogou a faca de volta, não em Lyra, mas mirando o Pingente da Máscara de Prata.
Lyra cambaleou para trás, evitando o impacto, mas a faca rasgou o ar perto o suficiente para que ela sentisse o frio da lâmina. A ameaça era clara: o caçador sabia o ponto fraco dela.
Ele deu um passo à frente, e o cheiro de Canela e Mofo inundou o pequeno apartamento. Lyra estava encurralada contra a parede e o seu corpo, pesado pela gestação, recusava-se a obedecer à velocidade de que precisava.
- Você me deve o favor de não prolongar esta noite, criança.
Quando o vampiro estendeu a mão para o pescoço dela, Lyra fez a única coisa que lhe restava. Ela fechou os olhos e puxou o Pingente da Máscara de Prata.
Não foi um movimento cuidadoso; foi um ato de desespero. O Pingente rasgou o tecido de sua blusa e caiu no chão. O som do metal atingindo a madeira ecoou no silêncio, mas foi rapidamente abafado pelo rugido que Lyra não pôde mais conter.
A Obsidiana rachada liberou toda a energia mágica que havia absorvido. Uma onda invisível de poder Bruxo explodiu, empurrando o vampiro para trás e chocando-o contra a parede com a força de um pequeno carro. Ele soltou um ruído áspero de surpresa e dor.
Lyra não esperou. No instante em que a prata deixou sua pele, o Lobisomem foi libertado. A dor da transformação sob o estresse da gravidez foi excruciante, mas Lyra a abraçou. Seus ossos se estalaram, não completamente, mas o suficiente para injetar nela uma força brutal e uma velocidade que ela não sentia há meses. Seus olhos passaram de castanho opaco para um dourado líquido e furioso. Presas se alongaram ligeiramente.
- Você disse patética? - O som que saiu da garganta de Lyra não era humano; era um rosnado guttural, amplificado pela fúria.
O vampiro se levantou, mas agora ele via a diferença. Ele via o perigo. O cheiro de Canela e Mofo foi ligeiramente sobrepujado pelo cheiro de Terra, Pinho e Tempestade que emanava de Lyra.
Mas havia algo mais. Um terceiro cheiro. Frio, metálico e imensamente potente, emanava da sua barriga. O poder do Tridrido, sem a supressão do pingente, era um farol.
O vampiro rangeu os dentes. - Você é uma tola! Você o revelou!
Lyra usou a velocidade que lhe restava. Não atacou diretamente; usou a magia ambiente. Em um piscar de olhos, ela estendeu a mão para a claraboia quebrada. As partículas de vidro flutuaram no ar, envoltas em um brilho roxo-claro, e em seguida se transformaram em estilhaços afiados.
Ela não os atirou. Ela os rodeou de fogo.
No meio da sala escura, um anel de estilhaços flamejantes voou em torno do vampiro, criando um calor insuportável e cortando a sua velocidade. Não era um ataque para matá-lo, mas para ganhar tempo. O fogo era uma arma antiga contra a qual os Vampiros se protegiam.
Lyra sabia que a sua vantagem seria breve. O Tribrido o drenava rápido.
Ela se virou e, sem olhar para trás, correu em direção à porta do apartamento. Sua única chance era escapar para a noite.