Capítulo 2

Ao descermos do carro, observo que o mês não será tão calmo como eu imaginei, a quantidade de jovens é absurda, são cerca de 15 ônibus à espera, para saírem cheios, sinto um pequeno calafrio percorrer meu corpo, e penso comigo mesmo “isso não vai dar certo”, Duda ao perceber minha aflição me dar um abraço meigo, onde retribuo e sei que ela sabe o que estou sentindo nesse exato momento.

Camila mais do que nunca está animadíssima, ela tira suas malas do carro, envolve em um abraço forte nossa mamãe, que lhe dá a benção, e deseja boa viagem, e sai correndo para seu grupinho da escola, sei que a decisão mais sábia que eu fiz foi ter posto a condição para Duda vir. Sinto-me aliviada.

Mamãe percebe a ansiedade de Camila, queria aproveitar mais um pouco do momento com suas filhas, mas conhece bem a filha mais nova que tem, e isso faz com que ela a deixe ir para junto de seus amigos. Tiramos nossas malas do carro, dou um abraço bem à forte em minha mãe, que se despede de Duda também, peço a benção mamãe, e a vejo sair, ainda irá trabalhar, vejo o carro se afastando bem devagar, sei que ela está chorando, é a primeira vez que iremos passar tanto tempo longe, na verdade é a primeira vez que ela ficará só, ou acho que ficará sozinha, pois sempre que uma de nós viaja a outra sempre fica pra ninguém ficar só, mas Camila conseguiu até isso, não tenho raiva dela nesse momento, tenho inveja, sua determinação e socialização são agradáveis, eu sinto que iria gostar de ser assim, mas paro de pensar nisso assim que escuto um apito que uma mulher usa para chamar a atenção de todos, ela está pedindo silêncio, todos param para escutá-la, e assim ela começa seu discurso de boas-vindas, fala das regras do acampamento, e diz que os alojamentos serão separados por sexo, acho que isso deixa Duda muito triste, mas já era esperado, fala também que teremos hora pra dormir, mas não pra acordar, a pessoa estará livre para fazer sua rotina, a não ser pelas horas exatas das refeições, o que inclui o café da manhã.

- Espertos – Digo.

- O que? – Pergunta Duda.

¬- Eles falam que não tem hora para acordar, mas definem o horário das refeições, o que teoricamente nos obriga a acordar no horário para comer, se quisermos comer, é claro. – Explico a Duda, que assente com a cabeça e um sorriso no rosto, olhando para o lado, acho que ela já encontrou com o que se ocupar o mês todo. Procuro o que ela tanto olha e encontro, um garoto, moreno, cabelos quase raspados, olhos escuros, que retribui o sorriso dela. Definitivamente ela encontrou sua ocupação, o que me deixa mais arrependida de ter topado essa aventura. Camila nem sei mais onde está.

A mulher que fala no autofalante identifica-se como Laura e diz que é a chefe desse acampamento, e apresenta mais 30 monitores, 15 homens e 15 mulheres, que estarão “tomando conta” da gente durante todo o tempo. Duvido muito, penso. Ela segue falando que o objetivo é conhecer e interagir e por tal motivo, os ônibus que irão nos levar serão aleatórios, poderemos entrar em qualquer um, assim como as alas de quartos das cabanas serão feitas por sorteios, o que nos proporcionará conhecer novas pessoas.

Essa informação me dá um nó na barriga. O que, como assim sorteio? Posso ficar longe da Duda e da Camila? Duda me olha e percebe meu medo. Por um minuto ela me tranquiliza com um olhar. Meu Deus essa mulher me conhece mesmo. Aceito. Laura ainda diz que essa separação será apenas para dormir, durante o dia poderemos nos comunicar com qualquer pessoa do acampamento, isso me tranquiliza mais. Bom, só dormir acho que consigo. Ela ainda fala sobre os atos sexuais, o que faz com que muitos soltem gritos, penso: isso vai ser uma loucura. Ela diz que nenhum ato sexual é proibido, mas explica que há menores de idade no acampamento e qualquer ato descoberto sendo praticado com menores de idade será denunciado à direção, assim também como qualquer denúncia de violência, seja ela de que tipo for. Ela diz que “a dispensa está cheia de camisinhas, mas como serão separados por sexo, ou vamos para a mata ou as camisinhas irão vencer na dispensa”. Isso seria para soar engraçado da parte dela, mas não achei nenhuma graça.

Abaixo a cabeça e ao levantar observo uma garota que, acredito eu, também não tenha gostado nenhum pouco da brincadeira, ela está de cara feia, tem um cara abraçando-a, não consigo parar de olhá-la, meu Deus ela é muito linda. Loira, olhos claros e cabelos cacheados. Como ela é linda. Está com uma blusa amarela, e uma mochila nas costas, o cara que a abraça, está aos gritos pelos comentários de Laura, ela não está gostando, deve ser seu namorado, porque não consigo parar de olhá-la? Então ela percebe, e me olha também, sem nenhuma expressão em seu rosto, nos encaramos por algum tempo. E então me espanto com o grito de Laura no autofalante, “ENTÃO, VAMOS NESSA”. Ela ainda está me olhando, mas Duda começa a me puxar, para irmos para o ônibus.

Muita gente reunida, avistamos Camila com mais uns 5 amigos, incluindo o carinha que ela gosta, parece que seu nome é Pedro. E seguimos todos para um só ônibus, eu e Duda sentamos mais atrás, assim temos uma visão total de todos, mas claro, Camila e seus amigos ficaram nos assentos da frente, ela senta-se ao lado de Pedro, evidentemente.

Quando nos encaminhamos para o banco, percebemos que tem um pequeno folheto em cada assento, com o nome na frente PARQUE PARADSO: ONDE SUA IMAGINAÇÃO GANHA ASAS, estão descritas todas as atividades disponíveis do parque, assim como suas regras. Concentro-me paro para ler com Duda, que logo começa a falar como achou o carinha lindo, e isso e aquilo. Bom, ela sabe o que fazer. E ele está a apenas uns 5 metros longe dela, sim, ele está no ônibus, para a sorte dela.

- Vamos Clare, se anime, você veio para se divertir. – Diz Duda me dando um empurrãozinho com o ombro.

- Eu sei Duda, eu sei. – Respondo forçando-me a dar um sorriso.

Estou o tempo todo de cabeça baixa, lendo o folheto, e eis que num momento de mexer o pescoço, pois já dói um pouco, levanto a cabeça e vejo ela entrando, cabelos loiros e cacheados, meus Deus, ela realmente é muito linda, ela está o tempo todo de mãos dadas com o rapaz, parece ter a mesma idade que ela, a mesma parece ser um pouco mais nova que eu, talvez 18 ou 19 anos. Mas no momento não estou interessada na idade dela, ela me avista assim que entra. Nossos olhares se encontram como se fosse um vulcão em erupção, sei que tem algo de especial nela, sei que tem, ela senta com o rapaz em duas poltronas à frente da que estou. O que estou fazendo? Pare com isso Clarisse! Ela está acompanhada. Digo isso a mim mesma durante quase toda a viagem, mas não consigo parar de olhar para ela, alegro-me por Duda não ter percebido, ela está muito ocupada com seu novo “amigo”.

No meio da viagem, que durará umas 3 horas, (sendo que saímos da escola às 9:00hs). Resolvo distanciar-me dos pensamentos que envolvem “cabelos loiros e cacheados”, não sei seu nome então refiro-me a ela assim, pego meu celular coloco meu fone, começo a escutar Fifth Harmony, como gosto dessas meninas, é um grupo só de meninas formado em um programa de TV Americana, daqueles reality show que descobrem talentos. E que talentos. Começa a tocar Write on me:

Pegue uma caneta, coloque no papel

Escreva em minha pele, traga-me à vida

Você não pode começar de novo, não tem borracha

Todas as minhas falhas, você as entende muito bem

Tudo é vazio até que você me desenhe

Tocando em meu corpo como se me conhecesse

Escreva em mim

Colora para fora das linhas

Adoro a forma como você me marca por completo

Amor, leve o tempo que precisar

Escreva em mim

Me dê asas, eu voarei

Adoro a forma como você me marca por completo

Nunca mudarei de ideia

Escreva em mim, escreva em mim

Escreva em mim, escreva em mim

(Escreva em mim)

Escreva em mim (escreva em mim)

Escreva em mim

Adoro a forma como você me marca por completo

Escreva em mim

Parece que quando as coisas são para acontecer, acontecem de qualquer forma, a música cai como uma luva, e isso me deixa relaxada, ao dar uma última olhada em “cabelos loiros e cacheados” percebo que ela me observa, e quando a olho ela desvia o olhar, dou um sorriso interno, meu Deus como ela é linda. Relaxo no banco e me deixo levar pela música e as vozes das meninas que me irradiam calmaria, principalmente quando elas cantam em espanhol, e com um sorriso espontâneo no rosto, pego no sono.

Capítulo 3

- Clare. Clare. Clare, acorda!

Duda está para me derrubar do banco tentando me acordar, e avisa que chegamos. Abro os olhos devagar e percebo que as pessoas já estão a descer do ônibus. Nossa, eu dormi muito! E como um bebê. Duda está muito desesperada, mas sei que é para não perder o garoto bonito de vista. Então resolvo me recompor e descemos também, pegamos nossas bagagens e saímos.

Todos estão em um local cheio de árvores, não é exatamente um acampamento, há alojamentos, estilo hotel, com quartos compartilhados, existem tobogãs, balanços, mesas de jogos, jet-ski, mas também existem muitas árvores, há três lagos, segundo o que o orientador do parque nos diz, um para os jet-skis, outro para jogos, como natação, lutas de cama de gato, onde existem equipamentos para isso, entre outros, e outro lago que serve apenas para tomar banho, ou pegar sol, ou apenas namorar - ele diz isso sorrindo. Acho que ele já viu bastante coisa nesse lago para falar isso, o que já dá ideia para muita gente, inclusive para Duda.

Fico deslumbrada com tudo, é um lugar maravilhoso, natureza misturada ao lazer. Duda me olha e bate em meu queixo, sei que ela quer dizer: “EU TE DISSE”, mas não o faz. Eu só retribuo com um sorriso que ela sabe o que significa.

O orientador que se identifica como Marcos, fala sobre o uso do celular, ele diz que normalmente não é autorizado o uso do mesmo no parque, mas como se trata de uma temporada longa e de muitos jovens, será permitido, desde que não atrapalhe o aproveitamento do local, pois a principal intensão é essa, se soltar da vida real, e curtir a imaginação. Marcos nos mostra duas caixas, uma tem todos os nomes dos garotos e outra todos os nomes das meninas, o sorteio dos quartos será feito agora. Segundo ele, são cerca de 450 pessoas, o número me assusta, mas diz que o parque foi reservado pelo mês todo apenas para nós. Isso me tranquiliza, e deixa muita gente animada. Marcos segue dizendo que existem 50 quartos que foram adaptados para alojarem 10 camas cada, ele não sabe o número exato de homens ou mulheres, cada quarto tem 2 banheiros, nós temos que nos organizar, ele irá começar a sortear os nomes, 10 por vez, até acabar os das meninas, após cada 10sorteados, ele dirá o número do quarto e nos encaminharemos, onde um dos monitores já estará à nossa espera.

Então ele começa... 10 nomes, quarto 1. Mais 10 nomes quarto 2.... Mais 10, sai o de Camila que fica muito alegre por sair uma de suas amigas também, quarto 17. Mais 10 nomes quarto 22. Mais 10. Sai o meu... meu deus é agora. Fico na expectativa e nada do nome de Duda, sai os outros 4 nomes e a decepção toma conta de mim, sem Camila e sem Duda. Não acredito, não poderia ser pior, Duda me olha e diz com os lábios, “EU TO AQUI”, ela sabe que fiquei muito triste. Baixo a cabeça e sem olhar para trás sigo para o quarto 25.

Não consigo nem pensar direito no momento, seria tão perfeito se Duda estivesse junto comigo, entro no quarto com mais umas 8 meninas atrás de mim em uma fila perfeita, não olho para trás só para baixo, mas algo está estranho, eu sei que está. Entro no quarto e a monitora nos espera. Ela se apresenta como Bruna, e diz que será responsável pelo quarto que estamos, o que isso significa eu não sei, então manda escolhermos nossas camas, que são beliches, 5 beliches e mais uma, acredito que seja a de Bruna. Escolho uma mais próxima do banheiro, a cama de baixo, não gosto de pensar que posso dormir e cair, isso seria estranho. Então Bruna pede para que digamos nossos nomes, eu falo um pouco baixo e de cabeça ainda baixa, triste pelo acontecimento e decepção de não ter Duda ali.

Então escuto alguém falando:

- Meu nome é Jasmine.

Que nome diferente, mas a voz é linda, como nunca tinha escutado igual, meu coração acelera e por um minuto me sinto fria, forço-me a levantar a cabeça, e lá está ela, linda como nunca, como consegue ficar ainda mais linda? Ela me olha como se fosse a primeira vez que nos vemos, “cabelos cacheados e loiros” tem um nome: Jasmine. Jasmine, Jasmine, repito inúmeras vezes em pensamento, e as apresentações continuam. Mas eu não consigo parar de olhá-la, como uma pessoa desconhecida tem esse efeito sobre mim?

Assim que terminamos de nos apresentar, Bruna pede que deixemos as malas em cima das camas para arrumar depois. Cada beliche tem uma pequena cômoda ao lado, com 4 gavetas grandes e duas pequenas. As parceiras de beliche terão que dividir as gavetas, o almoço será servido em meia hora, ou seja, às 13:00, o café da manhã as 7:30hs e o jantar as 19:00hs. Esses serão os horários todos os dias. Quem não estiver lá, não comerá depois. Essa é uma regra rígida de funcionamento do parque.

Não sei o que pensar nesse momento, ela está aqui, dormindo no mesmo quarto que eu, isso me desvia do momento de tristeza que aparecia em meu olhar. Não sei se é bom ou ruim, mas ela está aqui. Nossos olhos a todo instante se cruzam, ela também sente, eu sei que sente, não sei o que é, mas ela sente.

Seguimos para um local que tem umas mesas ao ar livre, estilo parques de piqueniques, estou à procura de Duda, e espero que ela esteja à minha. Avisto-a olhando para cima, para meu alívio faz um sinal ao me ver, ela estava à minha procura sim.

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