Rodrigo acordou com o cheiro de café velho e silêncio. O silêncio foi a primeira coisa que pareceu errada. Normalmente, o aroma de uma cafeteira fresca, preparada exatamente como ele gostava, estaria vindo da cozinha. Clara era uma criatura de hábitos. Os hábitos dele.
Ele se virou. O lado dela da cama estava vazio, os lençóis frios e intocados. Ela não tinha voltado para a cama.
Ele se sentou, uma leve irritação o cutucando. Ela realmente tinha ido embora. Ele esperava lágrimas, talvez alguns gritos, seguidos por uma noite dramática no sofá. Mas ir embora? Era um pouco demais.
"Se fazendo de difícil", ele murmurou para si mesmo, balançando as pernas para fora da cama. "Ela vai voltar. Elas sempre voltam."
Ele tinha uma cirurgia marcada para as dez, uma complexa ponte de safena que exigia sua total atenção. Tomou um banho rápido, a água lavando o cheiro persistente do frango frio e da decepção da noite anterior. Ele disse a si mesmo que era decepção com o teatro dela, não com o espaço vazio que ela deixou para trás.
Ele pegou o celular para ligar para Bianca, um ritual que sempre o acalmava antes de uma grande cirurgia.
"Oi, você", disse ele, sua voz suavizando instantaneamente.
"Rodrigo!" A voz de Bianca era brilhante, cheia da energia juvenil que ele achava tão viciante. "Eu estava pensando em você. Você vem me ver hoje?"
"Depois da minha cirurgia. Prometo. Como você está se sentindo?"
"Muito melhor! O médico disse que meus exames estão perfeitos. Acho que talvez eu possa ir para casa em breve. Para casa de verdade."
As palavras enviaram um choque de algo complicado através dele. Alívio, sim. Mas algo mais também. Um lampejo de ansiedade que ele não conseguia nomear.
"Isso é ótimo, B. Apenas vá com calma. Não se esforce."
"Não vou. Vou ficar aqui, esperando meu lindo marido vir me resgatar."
Ele sorriu. Isso era fácil. Este era o roteiro que ele conhecia. Ele era o salvador, o provedor, o herói. Com Clara, as linhas sempre foram borradas. Ela era enfermeira; ela também resgatava pessoas. Ela não precisava dele da mesma maneira.
Ele desligou e dirigiu para o hospital, o desconforto da casa vazia desaparecendo enquanto ele mergulhava no mundo familiar e estéril da medicina. Ele era o Dr. Montenegro aqui. Confiante, no controle.
Após uma cirurgia bem-sucedida, ele foi direto para o quarto de Bianca na ala de transplantes. Ela estava sentada na cama, o rosto radiante. Ela praticamente se lançou em seus braços quando ele entrou.
"Você está aqui!" ela gritou, abraçando-o com força.
"Eu disse que viria", disse ele, acariciando seu cabelo. Ele a segurou à distância, seus olhos fazendo uma varredura rápida e profissional. "Você parece melhor. A cor está boa."
"Eu me sinto incrível. É como se... como se o rim dela finalmente tivesse decidido ser meu amigo", disse ela com uma risadinha.
Ele sentiu um estranho aperto no peito com a menção de Clara. "É uma parte de você agora, B. Você só precisa cuidar dele."
"Eu vou", disse ela, sua expressão ficando séria. "Eu prometo. Podemos finalmente começar nossas vidas, Rodrigo. Chega de se esconder. Chega dela."
Ela se inclinou, seus lábios encontrando os dele. Ele a beijou de volta, o movimento automático. Ele disse a si mesmo que era isso que ele queria. Este era o objetivo final, o culminar de anos de obrigação e planejamento secreto.
"O médico disse que eu posso ter alta já na próxima semana", ela sussurrou contra sua boca. "Podemos fazer aquela viagem para a Itália que conversamos."
"O que você quiser, B", disse ele, sua voz um pouco rouca.
Ela se afastou um pouco, seus olhos perscrutando os dele. "Você contou para ela?"
"Ela sabe", disse ele, seu tom plano. "Ela viu uma correspondência."
"E? Ela foi horrível? Ela chorou?" Havia uma curiosidade aguda e ansiosa em sua voz que era ligeiramente desagradável.
"Ela foi embora", disse ele simplesmente. "Fez uma mala e foi embora."
"Bom", disse Bianca, um sorriso satisfeito se espalhando por seu rosto. "Já era hora. Ela estava sempre por perto, empesteando o ar como um encosto." Ela se recostou nos travesseiros, parecendo satisfeita consigo mesma. "Ela provavelmente estava apenas tentando fazer você se sentir culpado. Ela vai te ligar, implorando para voltar, você vai ver."
Rodrigo não respondeu. Ele olhou pela janela, um estranho vazio ecoando em seu peito. Ele esperava se sentir aliviado, livre. Em vez disso, ele apenas se sentia... quieto.
"O que há de errado?" Bianca perguntou, sentindo sua mudança de humor. "Você está preocupado com sua cirurgia?"
"Não, a cirurgia correu bem", disse ele, forçando um sorriso. "Apenas cansado. Dia longo."
"Bem, você precisa descansar", disse ela, dando um tapinha em sua mão. "Vá para casa. Durma um pouco. Eu vou ficar bem."
Ele assentiu, grato pela desculpa para sair. Deu-lhe outro beijo superficial e saiu do quarto.
Enquanto caminhava pelo corredor, sentiu a vibração no bolso. Era uma mensagem de Léo. 'Bebida hoje à noite? Ouvi dizer que você é um homem livre.'
Ele não deveria. Estava de plantão. Mas o pensamento de voltar para aquela casa silenciosa e vazia era insuportável.
'Sim. Bar Veloso. 8 horas.'
De volta ao seu quarto, Bianca o observou ir, seu sorriso desaparecendo assim que a porta se fechou. Ela pegou um celular descartável escondido sob o colchão. Um lampejo de dúvida cruzou sua mente. A reação dele não foi o que ela esperava. Ele não estava comemorando. Ele estava... distante.
Ela precisava ter certeza de que Clara estava fora de cena para sempre. Ela percorreu seus contatos, encontrando o número que usara antes. Seus dedos voaram pela tela, digitando outra mensagem, esta projetada não apenas para informar, mas para quebrar.
'Ele me escolheu. Ele sempre me escolheu. Nós vamos ter um bebê.'
Ela anexou a foto do teste de gravidez positivo. Era uma foto antiga, de um susto que tiveram há um ano e que não deu em nada. Mas Clara não precisava saber disso.
Ela apertou enviar, um sorriso cruel e triunfante retornando ao seu rosto. Isso deve resolver. Esse deve ser o empurrão final que Clara precisava para desaparecer para sempre.
Rodrigo se afastou do hospital, mas não foi direto para casa. Ele se viu na Marginal Pinheiros, indo na direção oposta ao seu apartamento. Ele não sabia por quê. Apenas dirigiu, as luzes da cidade passando borradas, sua mente um estranho vazio.
O silêncio no carro era pesado. Clara era sempre quem preenchia o silêncio, tagarelando sobre seu dia no hospital, alguma coisa engraçada que um paciente disse, ou uma nova receita que ela queria experimentar. Ele geralmente apenas resmungava em resposta, ouvindo pela metade enquanto sua mente estava no trabalho ou em Bianca. Agora, a ausência de sua voz era uma presença física.
Ele finalmente saiu da marginal e deu a volta, um sentimento desconhecido de pavor se instalando em seu estômago enquanto entrava na garagem. Ele saiu do carro, meio esperando, meio torcendo para ver o carro dela de volta em sua vaga. Não estava.
Ele entrou em casa. O frango assado frio ainda estava no balcão, agora coberto com filme plástico. Um único prato estava posto na mesa. O prato dele.
Uma onda de irritação o invadiu. Isso era tão dramático. Ela estava tentando provar um ponto, fazê-lo se sentir mal. Estava funcionando, e isso o irritava ainda mais.
Ele viu a diarista, Maria, terminando na cozinha.
"Boa noite, Dr. Montenegro", disse ela, seus olhos cheios de uma simpatia que ele não queria.
"Maria. A... a Sra. Almeida voltou?" ele perguntou, tentando soar casual.
"Não, Doutor. Ela saiu ontem à noite. Levou uma mala pequena." O olhar de Maria era conhecedor. Ela estava com eles há anos. Ela tinha visto tudo.
"Certo", disse ele, virando-se. "Bem, você terminou por hoje. Eu tranco tudo."
Depois que ela saiu, o silêncio desceu novamente, mais denso desta vez. Ele andou pelos cômodos. Tudo estava arrumado, limpo, exatamente como Clara sempre mantinha. Mas parecia estéril, vazio. Como um quarto de hotel.
Ele não aguentou. Pegou as chaves e foi para o Bar Veloso.
Léo já estava no bar, uma cerveja esperando por ele. "Aí está ele! O recém-solteiro!" Léo deu um tapa em suas costas. "À liberdade!"
Rodrigo deu um longo gole em sua cerveja, o líquido frio fazendo pouco para anestesiar o nó em seu estômago.
"Então ela realmente se foi?" Léo perguntou, seu tom mais sério agora.
"Parece que sim", disse Rodrigo, encolhendo os ombros. "Ela finalmente entendeu o recado."
"Que recado? Que você a enganou por três anos?" Léo disse isso com uma risada cínica, mas as palavras pairaram no ar.
"Não foi assim", Rodrigo retrucou, mais defensivo do que pretendia.
"Claro que não foi", disse Léo, levantando as mãos em rendição. "Olha, estou feliz por você, cara. Você finalmente acabou com a farsa. Bianca está melhor, você pode ficar com ela. É o que você sempre quis, certo?"
"Certo", disse Rodrigo, forçando a palavra a sair.
"Quero dizer, a Clara era legal e tudo", Léo continuou, alheio ao humor de Rodrigo. "Um pouco legal demais, sabe? Tipo, esposa de comercial de margarina. Sempre cozinhando, sempre limpando, sempre perguntando sobre o seu dia. Deve ter sido exaustivo."
Rodrigo estremeceu. Ele nunca tinha pensado nisso dessa forma. Era apenas... o que Clara fazia.
"Ela me enviou os papéis do divórcio", disse Rodrigo, mudando de assunto. Ele recebera o e-mail do advogado dela naquela tarde. Parecia surreal.
"Divórcio? Vocês não eram casados", disse Léo, confuso.
"É simbólico, eu acho", Rodrigo murmurou. "O jeito dela de se posicionar."
"Bem, ótimo", disse Léo, sinalizando ao barman por outra rodada. "Assine, mande de volta, e acabou. Corte limpo. Você pode se concentrar na Bianca agora. Ela é quem você ama, certo?"
"Claro", disse Rodrigo, sua voz plana. Ele repetiu para si mesmo, um mantra que vinha cantando há anos. Eu amo a Bianca. Estou fazendo isso pela Bianca.
Mas, pela primeira vez, um pingo de dúvida se insinuou. Ele pensou no rosto de Clara na noite anterior, na forma como a luz se esvaiu de seus olhos quando ele lhe contou a verdade. Ele pensou em sua força silenciosa, sua lealdade inabalável, na maneira como ela segurou sua mão por horas depois que seu próprio pai morreu, sem dizer uma palavra, apenas estando lá.
"Você está bem, cara?" Léo perguntou, cutucando-o. "Você parece estar a um milhão de quilômetros de distância."
"Apenas cansado", disse Rodrigo, esvaziando sua segunda cerveja. "Dia longo."
Eles beberam por horas, Léo falando sobre trabalho, mulheres, esportes — toda a besteira de sempre. Rodrigo apenas assentia, sua mente repassando as últimas 24 horas. O rosto dela. A carta. A casa vazia.
Quando Léo finalmente deu um tapa em seu ombro para ir embora, já passava da meia-noite. "Sério, cara, parabéns. Você está livre. Não estrague tudo."
Rodrigo dirigiu para casa, o álcool fazendo sua cabeça girar. Ele tropeçou para dentro da casa escura, o silêncio gritando para ele. Ele pegou o celular, o polegar pairando sobre o contato de Clara. Ele queria ligar. Gritar com ela por ser tão dramática. Perguntar onde ela estava. Ouvir sua voz.
Ele se conteve. Não. Era isso que ele queria. Corte limpo.
Ele foi para o quarto e caiu na cama, totalmente vestido. Ele rolou para o lado, encarando o espaço vazio ao seu lado. Um cheiro fraco e doce pairava no ar. O xampu dela. Baunilha e algo floral.
Uma dor estranha e aguda perfurou a névoa alcoólica. Não era mais apenas irritação. Parecia perda. Ele apertou os olhos, tentando forçar o sentimento a ir embora.
Ela voltaria. Ela tinha que voltar.