PONTO DE VISTA DE ELARA MENDES:
"Elara, pare." A voz do Ancião Valério era calma, mas firme, uma rocha no caos turbulento das minhas emoções. Ele colocou uma mão gentil em meu braço.
"Não vá", disse ele, seu olhar penetrante. "A cerimônia é uma armadilha. Ele planejou isso."
"Eu não me importo", cuspi, puxando meu braço. A raiva era um animal selvagem dentro de mim, arranhando para sair. "Ele me deve uma resposta. Ele vai me encarar."
Valério suspirou, um som profundo e cansado. "Eu dei este mesmo conselho ao seu pai uma vez. Ele também não ouviu. Seu coração é corajoso, pequena, mas sua raiva a cega. Se as coisas acontecerem como temo... se não houver mais volta... vá para os Ermos do Norte. Há uma cabana escondida perto das rochas gêmeas. Eu a encontrarei lá."
Os Ermos do Norte. Uma terra perigosa e indomada, percorrida por Renegados — lobos sem alcateia que perderam a sanidade para seus instintos selvagens. Suas palavras eram uma premonição arrepiante, mas eu as afastei.
Eu não ouvi. Eu corri.
Eu invadi o círculo de pedras antigas onde a cerimônia estava sendo realizada. A alcateia inteira estava reunida, seus rostos iluminados por fogueiras crepitantes. E lá, no palanque central, estava Lucian.
Ele estava magnífico, como sempre. Alto e poderoso, seus cabelos negros capturando a luz do fogo. Mas ele não estava sozinho. Ao seu lado, com a mão possessivamente em seu braço, estava Lady Seraphina Vexler. Ela era linda de uma forma fria e afiada, envolta em sedas da cor de sangue. Preso em seu vestido havia um broche de prata manchada, o brasão de um lobo rosnando sobre uma coroa quebrada — o emblema de uma casa caída.
A voz de Lucian, amplificada por seu poder de Alfa, ecoou pela clareira. "Apresento a vocês minha Luna escolhida, o futuro de nossa alcateia... Seraphina!"
"Luna escolhida." As palavras ecoaram em minha cabeça, zombando de mim. Lembrei-me de suas desculpas, sussurradas no escuro. "Devemos manter nosso laço em segredo por enquanto, Elara. Uma companheira Ômega pode ser vista como uma fraqueza. Poderia desafiar minha autoridade."
Era tudo uma mentira. Uma gaiola cuidadosamente construída para me manter quieta enquanto ele arranjava seu casamento político.
Os olhos de Seraphina encontraram os meus na multidão. Um sorriso lento e triunfante se espalhou por seus lábios perfeitos. Era um sorriso de pura malícia, de um predador que havia vencido.
Algo dentro de mim se partiu.
Um uivo, cru e cheio de agonia, rasgou minha garganta. Era meu lobo interior, minha própria alma, gritando em traição. A alcateia ficou em silêncio, todos os olhos se voltando para mim enquanto eu abria caminho pela multidão e avançava em direção ao palanque.
"Quem é ela?", gritei, minha voz tremendo de fúria enquanto eu apontava para Seraphina.
Olhei diretamente para Lucian, para o homem que segurava meu coração em suas mãos. "Eu sou a companheira dele! A escolhida para ele pela própria Deusa da Lua!"
Uma onda de murmúrios chocados percorreu a alcateia. Isso era inédito. Uma Ômega, desafiando publicamente seu Alfa.
Seraphina imediatamente se encolheu contra Lucian, seu corpo tremendo delicadamente. Ela soltou um soluço suave, a imagem de uma vítima injustiçada. "Lucian, querido... quem é essa garota histérica?"
Vi um lampejo de algo — dor? culpa? — nos olhos escuros de Lucian antes que fosse substituído por uma camada de gelo.
"Chega", ele rosnou. Sua voz estava impregnada com o Comando do Alfa.
O poder naquela única palavra me atingiu em cheio. Foi uma força física, uma pressão esmagadora que dobrou meus joelhos e fez minha cabeça girar. Era a voz que todo lobo de ranking inferior era magicamente compelido a obedecer.
Ele me encarou, seu rosto uma máscara de fúria. "Você ousa desafiar minha autoridade na frente de toda a alcateia?"
Seraphina fez menção de dar um passo à frente, como se para acalmar a situação. "Por favor, querido, não seja duro com ela", ela arrulhou, sua voz pingando falsa simpatia.
Ela se aproximou de mim, seus olhos brilhando. Ao passar, sua mão roçou em seu próprio braço. Eu vi o brilho de suas unhas longas e afiadas enquanto elas cravavam em sua própria carne, desenhando uma fina linha de sangue.
Então, com um suspiro dramático, ela desabou no chão.
"Ela me atacou!", Seraphina gritou, agarrando seu braço sangrando. "A Ômega atacou sua futura Luna!"
PONTO DE VISTA DE ELARA MENDES:
Seraphina jazia na pedra fria do palanque, sua respiração saindo em soluços encenados e lamentáveis. "Está tudo bem", ela sussurrou, alto o suficiente para os Anciãos próximos ouvirem. "Ela está apenas... confusa. Eu a perdoo."
Sua atuação foi impecável. Ela era a imagem da graça e do perdão, uma futura Luna magnânima, enquanto eu era escalada como a Ômega louca e violenta. Os murmúrios da alcateia se voltaram contra mim, sua simpatia mudando inteiramente para ela.
Lucian se ajoelhou ao lado de Seraphina, seu toque em seu ombro gentil. Então ele se levantou, seus olhos ardendo com uma fúria que eu nunca tinha visto dirigida a mim. "Você está louca?", ele rugiu, sua voz ecoando no silêncio atordoado.
Ele se virou para a alcateia, seu braço gesticulando em minha direção como se eu fosse um pedaço de lixo. "Esta loba e eu não temos nenhuma conexão", ele declarou, sua voz fria e absoluta. "Ela não passa de uma Ômega de baixo escalão com uma obsessão patética e doentia."
Cada palavra foi um golpe físico, roubando o ar dos meus pulmões. Era isso. A humilhação final e pública.
Ele fixou seu olhar no meu. A lua estava diretamente acima de nós agora, sua luz fria nos banhando, uma testemunha silenciosa da atrocidade que ele estava prestes a cometer.
"Eu, Alfa Lucian Montenegro, rejeito você, Elara Mendes, como minha companheira."
As palavras, ditas no silêncio sagrado, estilhaçaram o mundo ao meu redor. Uma dor diferente de tudo que eu já conheci rasgou minha própria alma. Não foi um corte limpo, mas um rasgo violento e brutal. Parecia que uma parte vital de mim, a parte que me conectava a ele, à minha outra metade, estava sendo arrancada do meu peito, deixando uma ferida aberta e sangrando.
Lágrimas de sangue escorreram dos meus olhos, um testemunho da violência espiritual que estava sendo feita a mim. As antigas leis da alcateia exigiam uma resposta. Eu tinha que aceitar, ou a rejeição seria incompleta, deixando-nos ambos em um limbo torturante.
Minha voz era um sussurro quebrado, forçado de uma garganta apertada pela agonia. "Eu, Elara Mendes, aceito sua rejeição."
O laço se partiu. O mundo ficou cinza. O cheiro vibrante de pinho e tempestade que sempre o definiu virou cinzas em meu nariz.
Mais tarde naquela noite, ele veio à minha pequena cabana. Eu estava encolhida na minha cama, tremendo na casca do meu próprio corpo. Ele não bateu. A porta simplesmente se abriu, e ele estava lá.
Ele tentou me tocar, mas eu me afastei.
"Elara, você tem que entender", disse ele, sua voz baixa e urgente, um político fazendo controle de danos. "Minha união com Seraphina é puramente política. A família dela controla as minas de prata a leste. Esta aliança é para o futuro da Alcateia da Lua Negra."
As palavras eram ocas, sem sentido.
"Confie em mim", ele implorou, sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Dê-me um ano. Dois, no máximo. Assim que minha posição estiver segura, eu a deixarei de lado. Então poderemos ficar juntos. Farei de você minha verdadeira Luna, aquela que mantenho escondida, meu verdadeiro prêmio."
Ele não a estava defendendo; estava defendendo sua escolha. Estava justificando sua ambição. "A família dela é poderosa, Elara. Você precisa ser paciente. Você precisa fazer isso pelo bem da alcateia."
Eu olhei para ele então, olhei de verdade. O homem que eu amava se foi. Em seu lugar havia um estranho, um político cujo coração era governado pela ambição, não pelo amor. As últimas brasas do meu afeto por ele se apagaram, substituídas por um ódio gelado.
A agonia da rejeição, combinada com o insulto de suas mentiras patéticas, levou minha dor ao seu limite absoluto. E naquele abismo de dor e traição, algo profundo dentro de mim, algo antigo e adormecido, começou a se agitar.
Um poder que eu nunca soube que possuía estava despertando.