Juliana Andrade P.O.V.
O bolo estava na mesa de cabeceira, brilhando como um rubi na luz fraca do abajur.
Red velvet.
Coberto por espirais grossas de glacê de cream cheese.
A olho nu, era uma obra-prima.
Alex sentou na beira da cama, afrouxando a gravata com movimentos lentos e deliberados.
Ele me observava, seus olhos brilhando com uma diversão sombria e predatória que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem.
"Come, Juliana", ele murmurou, a suavidade de seu tom traindo a crueldade por baixo.
"A Carla recomendou essa confeitaria. Disse que é simplesmente... de morrer."
Meu estômago se revirou violentamente.
A imagem da mensagem de texto queimava por trás das minhas pálpebras.
Uma lembrancinha do meu Rottweiler.
Fezes.
Ele estava me dando lixo de verdade para comer.
Ele sabia.
Estava me testando, esperando para ver se eu faria o papel da esposinha obediente.
Se eu hesitasse, se eu recusasse, a farsa se despedaçaria.
Ele saberia que eu vi a conversa.
Meu plano de fuga viraria cinzas antes mesmo de começar.
Peguei o garfo.
Minha mão tremia tanto que a prata bateu contra o prato.
"Você está tremendo", observou Alex, sua voz desprovida de simpatia.
Ele estendeu a mão, envolvendo a minha com a sua mão grande para firmá-la.
Sua pele era quente, mas seu toque parecia um ferro em brasa na minha carne.
"Deixa que eu te ajudo", ele sussurrou.
Ele pegou o talher dos meus dedos inertes.
Cortou um pedaço generoso do bolo carmesim, arrastando-o pelo glacê.
Levou-o aos meus lábios.
"Abra", ele ordenou.
Encarei seus olhos, vendo o monstro à espreita por trás das íris azuis e frias.
Eu abri a boca.
O gosto estava mascarado por uma overdose de açúcar e cacau, mas minha mente sabia o que havia sob a doçura.
Meu corpo inteiro gritava em revolta.
Eu forcei para baixo. Eu engoli.
Ele sorriu.
"Boa menina", ele elogiou. "De novo."
Ele me deu mais três garfadas.
Cada uma era uma violação.
Cada vez que eu engolia, sentia como se um pedaço da minha alma estivesse se quebrando e morrendo.
Dez minutos depois, as cólicas começaram.
Não era uma dor sutil; parecia uma faca serrilhada se contorcendo nas minhas entranhas.
Corri para o banheiro, mal conseguindo chegar ao vaso sanitário.
Vomitei até minha garganta queimar e meus olhos lacrimejarem.
Caí no chão de mármore frio, agarrando minha barriga enquanto a dor me cegava.
Alex estava parado na porta.
Ele não estava em pânico.
Não estava correndo para ajudar.
Ele estava digitando no celular.
"Alex", eu ofeguei, a palavra rasgando minha garganta. "Me ajuda."
Ele terminou de digitar sua mensagem antes de finalmente olhar para mim.
"Você deve ter pego uma virose", ele disse, em tom displicente. "Você sempre teve o estômago fraco, Juliana."
Ele ligou para o Dr. Ricci.
O médico particular da família — o Médico da Máfia.
Ricci chegou vinte minutos depois, cheirando a antisséptico e colônia cara.
Ele me deu uma injeção para a náusea e deu um tapinha condescendente na minha mão.
"Gastrite aguda", Ricci disse a Alex, seu rosto uma máscara de neutralidade profissional. "Ela precisa de repouso."
Não envenenamento.
Gastrite.
Eles se acobertavam, uma irmandade silenciosa de pecadores.
Alex acompanhou Ricci até a porta.
Eu fiquei na cama, tremendo de suor frio, o gosto de bile e traição cobrindo minha língua.
Meu celular vibrou na mesa de cabeceira.
Uma notificação do Instagram piscou na tela.
Carla tinha postado um story.
Eu abri. Uma foto de duas taças de champanhe de cristal brindando contra o horizonte desfocado da cidade.
A legenda dizia: Comemorando uma pegadinha de sucesso. A cara dela deve ter sido impagável.
Alex voltou para o quarto, vestindo o paletó do terno.
"Tenho uma reunião de emergência com os gerentes", ele mentiu suavemente. "Vou chegar tarde."
Ele não ia para uma reunião.
Ele ia para o encontro dela.
Ele ia rir de como tinha alimentado a esposa com lixo.
"Tudo bem", sussurrei, fechando os olhos.
Ele se inclinou, pressionando um beijo na minha testa úmida e fria.
"Descanse", ele disse. "Temos o Leilão de Caridade na próxima semana. Preciso de você perfeita."
Ele se virou e saiu.
O apartamento mergulhou num silêncio pesado.
Encolhi-me numa bola apertada, tentando me manter inteira.
A dor no meu estômago não era nada comparada ao fogo que se acendia em minhas veias.
Eu não dormi.
Eu contei.
Setenta e um dias.
Juliana Andrade P.O.V.
O olhar de pena da funcionária do cartório foi o primeiro sinal.
Era um olhar reservado para tragédias, não para tarefas administrativas. Eu só tinha ido buscar uma cópia da nossa certidão de casamento para o pedido de visto da minha viagem "surpresa".
"Sra. Borges", disse a funcionária, sua voz baixando um tom enquanto deslizava uma única folha de papel pelo balcão. "Eu não sei como te dizer isso."
Olhei para o documento.
NULA.
A palavra parecia pulsar em tinta vermelha.
"O juiz de paz não tinha licença para atuar no estado de São Paulo", ela explicou, seu tom de desculpa, mas final. "E a assinatura... não é a assinatura legal do Sr. Borges."
O mundo girou.
Eu não era a esposa dele.
Eu era a amante.
Não.
Eu era menos que isso.
Eu era uma mulher sustentada sem nenhum direito legal a ele, à sua fortuna ou à sua proteção.
Se eu desaparecesse amanhã, ninguém procuraria por uma esposa desaparecida.
Procurariam por uma namorada que fugiu.
Era brilhante.
Era diabólico.
Saí do cartório para a luz ofuscante do sol, me sentindo menos como uma mulher e mais como um fantasma assombrando a própria vida.
No entanto, o show tinha que continuar.
Naquela noite era o Leilão da Fundação.
Alex me fez usar o vestido vermelho — o mesmo que Carla havia zombado semanas atrás. Parecia uma fantasia, uma marcação.
Entramos no salão de festas, e os flashes das câmeras nos assaltaram, ofuscantes e implacáveis.
A mão de Alex repousava na base das minhas costas, me guiando, me possuindo.
"Sorria", ele sussurrou contra minha orelha, seu hálito quente. "Você parece cara."
Então, eu a vi.
Carla.
Ela usava um vestido preto que se agarrava às suas curvas como óleo.
E em volta do pescoço dela, repousava a Estrela dos Borges.
O pingente de diamante que pertencera à avó de Alex.
A mesma herança de família que ele havia jurado para mim que estava trancada em um cofre por segurança.
Ela encontrou meu olhar do outro lado da sala lotada.
Lentamente, deliberadamente, ela tocou o colar, com um sorriso presunçoso.
Ela estava marcando seu território.
O leilão começou, transformando-se em um desfile de excessos. Alex sentou-se relaxado ao meu lado, bebendo seu uísque como se fosse o dono do mundo.
O leiloeiro apresentou o item final.
"O Coração do Oceano", ele anunciou, sua voz retumbando. "Um colar de safira de clareza inigualável. O lance inicial é de cinco milhões."
Alex não hesitou. Ele levantou sua placa.
"Vinte milhões de reais", ele disse, sua voz cortando os murmúrios.
A sala inteira ofegou em uníssono.
Ele se virou para mim, seu sorriso deslumbrante e predatório.
"Para você, meu amor", ele disse, alto o suficiente para a imprensa capturar cada sílaba.
A multidão explodiu em aplausos.
Senti a bile subir pela minha garganta.
Por quê?
Por que me comprar um colar de vinte milhões de reais quando ele nem sequer se casaria legalmente comigo?
"Preciso assinar a papelada", disse Alex, levantando-se e abotoando o paletó. "Espere aqui."
Ele foi para os bastidores, a imagem de um marido devotado.
Dez minutos se passaram.
Depois vinte. O silêncio na mesa tornou-se ensurdecedor.
O gerente do leilão se aproximou da nossa mesa. Ele não parecia mais deferente; parecia nervoso.
"Sra. Borges", ele disse.
Um título que eu agora sabia ser uma mentira.
"O Sr. Borges parece ter... precisado sair."
"Ele foi assinar", corrigi automaticamente.
"Não, senhora", disse o gerente, sua voz baixando. "Ele deixou o prédio. E o cartão de pagamento registrado foi recusado."
Água gelada inundou minhas veias, me congelando no lugar.
Ele havia dado um lance de vinte milhões de reais em meu nome.
E então ele tinha ido embora.
"Precisamos de um depósito", disse o gerente, sua voz endurecendo como aço. "Ou teremos que chamar as autoridades. Fraude é um crime sério."
As pessoas estavam olhando.
Sussurrando. Os aplausos haviam se transformado em julgamento.
Meus dedos trêmulos buscaram meu celular para verificar minha conta bancária.
Zerada.
Ele a tinha esvaziado.
Eu não tinha nada.
"Eu...", gaguejei, a sala girando novamente.
"Os brincos", disse o gerente, seu olhar fixando-se avidamente nos meus lóbulos. "Parecem uma garantia adequada até o Sr. Borges retornar."
Minha mão voou para minhas orelhas instintivamente.
Eram da minha avó.
A única coisa que me restava da minha vida antes de Alex.
Antes que a escuridão me levasse.
"Por favor", sussurrei, minha voz quebrando. "Estes não."
"A polícia está lá fora", avisou o gerente.
Eu desprendi os diamantes.
Minhas mãos tremiam tanto que quase os deixei cair.
Coloquei-os na palma estendida dele.
Fiquei sentada ali, despojada de minhas joias, minha dignidade e meu marido.
Do outro lado da sala, Carla ergueu uma taça para mim.
Eu não desviei o olhar.
Encarei-a de volta.
E adicionei os brincos à dívida que eles, um dia, pagariam com sangue.