Capítulo 2

A médica, uma mulher de rosto gentil na casa dos cinquenta, olhou para Estela com uma mistura de choque e preocupação. "Sra. Bastos... Estela. Você tem certeza? Este é um passo extremo."

Estela não vacilou. O homem que havia prometido tratá-la como uma rainha quando ela estivesse grávida, o homem que segurou sua mão durante os ultrassons e massageou suas costas doloridas, era agora a razão pela qual ela estava ali. O contraste era uma lâmina se torcendo em suas entranhas.

Agora, toda aquela ternura era dirigida a outra mulher. Aquela devoção era uma arma usada contra ela.

Seu rosto era uma máscara de luto, mas seu coração estava se endurecendo em algo frio e afiado.

"Tenho certeza", disse ela à médica, a voz firme. "Eu não quero a criança."

O procedimento foi uma violação fria e clínica. Ela sentiu o raspar e o puxar, um esvaziamento por dentro. Era uma manifestação física do que Júlio havia feito à sua alma.

Ela sentiu uma parte de si ser arrancada, uma parte que havia sido preenchida com esperança e amor. Agora, era apenas um vazio dolorido.

Quando acabou, uma enfermeira perguntou gentilmente: "Você gostaria de ver... ele?"

A compostura de Estela finalmente se quebrou. Um soluço cru e gutural escapou de seus lábios. "Não! Leve isso para longe de mim!"

Ela se encolheu em uma bola na cama, lágrimas e sangue se misturando nos lençóis brancos. Ela sussurrou o nome dele, repetidamente, como uma maldição.

"Júlio. Júlio. Acabou, Júlio."

Ela caiu em um sono agitado e exausto. Quando acordou, estava escuro lá fora. O quarto estava silencioso. Ela checou o celular. Nenhuma chamada perdida. Nenhuma mensagem dele.

Claro que não. Ele estava em Paris com Kátia.

Ela abriu o Instagram. Kátia havia postado uma nova foto. Um close dela e de Júlio, se beijando em frente à Torre Eiffel, as luzes da cidade brilhando atrás deles. A legenda dizia: "A cidade do amor, com o meu amor. Ele me faz sentir como a única mulher do mundo. ❤️"

O rosto de Estela estava em branco. Ela não sentia nada. A dor era tão imensa que se tornou dormência.

Ela chamou a enfermeira. Sua voz estava desprovida de emoção. "O... espécime. Eu preciso dele. Preservado, como eu pedi."

A enfermeira voltou com um pequeno recipiente selado. Estela o pegou com a mão firme.

Ela o faria pagar. Ela o faria ver o monstro que ele havia se tornado.

Ela tinha uma semana antes de seu voo para Lisboa. Uma semana para desmontar sua vida antiga e garantir a segurança de seus pais.

De volta à cobertura, o silêncio era ensurdecedor. Ela caminhou até a grande geladeira de aço inoxidável, aquela que Júlio havia encomendado sob medida da Alemanha.

Ela abriu a porta e colocou o pequeno recipiente dentro, escondido atrás de uma caixa de leite orgânico. Um caixão minúsculo e perfeito em um lugar frio e escuro.

Assim que fechou a porta, ouviu uma chave na fechadura.

Júlio estava de volta.

Ele entrou na cozinha, parecendo cansado, mas satisfeito consigo mesmo. Ele ainda usava o terno caro da foto, mas estava um pouco amassado. O cheiro fraco do perfume de Kátia, um aroma doce e enjoativo, pairava sobre ele.

"Estela", ele disse, a voz casual.

Ela não olhou para ele.

Ele notou a caixa na geladeira quando foi pegar uma garrafa de água. "O que é isso?"

"Sobras", ela disse rapidamente, fechando a porta. Sua voz era plana, vazia.

Ele franziu a testa, sentindo a mudança nela. Estava acostumado com suas lágrimas, sua raiva, seus apelos. Esse vazio frio era novo. Isso o perturbou.

Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Um colar de diamantes. Um suborno. Um presente de desculpas que não eram sinceras.

"Eu trouxe algo para você", ele disse, em tom conciliador. "Vamos apenas esquecer o que aconteceu. Você me levou ao limite, Estela. Mas podemos superar isso."

Esquecer? Ele queria que ela esquecesse de ser presa? Esquecesse da humilhação pública?

Ela não disse nada, apenas encarou a parede atrás dele.

Ele suspirou, um lampejo de irritação em seus olhos. "Por que você está agindo assim? Ainda está com raiva? Pense no bebê."

Ele estendeu a mão, movendo-a em direção à sua barriga ainda lisa.

Capítulo 3

Estela se encolheu ao toque dele, um movimento reflexo e brusco.

A mão de Júlio congelou no ar. Sua testa se franziu em confusão, depois endureceu em aborrecimento.

"O que há de errado com você?", ele exigiu. "Ainda está fazendo birra? Eu já te disse, o castigo acabou."

Ele deu um passo mais perto, sua voz baixando para uma ameaça. "Não me faça fazer algo pior. Você não gostaria de machucar o bebê, gostaria?"

A menção do bebê foi um golpe físico. A respiração de Estela ficou presa na garganta. A dor, aguda e real, perfurou a dormência.

"O bebê...", ela começou, a voz um sussurro rouco e cru. "Júlio, o bebê está..."

Suas palavras foram interrompidas pelo toque do celular dele. Ele olhou para a tela. Kátia.

Ele atendeu imediatamente, sua voz suavizando instantaneamente, todos os traços de sua raiva por Estela desaparecendo.

"Kátia? O que foi?"

Estela podia ouvir a voz suave e chorosa de Kátia pelo telefone. "Júlio... estou com medo. Tem uma tempestade, e a luz acabou. Você pode vir aqui?"

"Estou a caminho", ele disse sem hesitar. Ele desligou e pegou as chaves, já se movendo em direção à porta.

Ele parou na soleira, virando-se para Estela. "O que você estava dizendo?"

Ela olhou para as costas dele se afastando, para o homem que corria para confortar sua amante enquanto sua esposa estava despedaçada em sua casa. As palavras morreram em sua garganta.

"Nada", disse ela. "Não é nada."

Ele se foi.

Um momento depois, um forte trovão sacudiu as janelas.

Estela pulou, um pequeno grito involuntário escapando de seus lábios. Ela odiava tempestades. Desde criança, elas a aterrorizavam.

A governanta, Maria, correu para a sala, o rosto cheio de preocupação. "Dona Estela, a senhora está bem? O Sr. Júlio acabou de sair com tanta pressa."

Estela se abraçou, o rosto pálido.

Ela se lembrou de uma época em que ele teria movido céus e terras para confortá-la durante uma tempestade.

Agora, esse mesmo conforto, essa mesma proteção, estava sendo dado a outra mulher.

Outro trovão ecoou pela cobertura, e Estela caiu no chão, encolhendo-se em uma bola apertada.

Ela ficou lá a noite toda, sem dormir e oca por dentro.

Na manhã seguinte, Maria a acordou gentilmente de onde ela finalmente havia adormecido no sofá. "Dona Estela, o Sr. Júlio voltou. Ele pediu para a senhora descer para o café da manhã."

Estela desceu a grande escadaria como um fantasma.

E lá, na mesa de jantar deles, estava sentada Kátia Franco.

"Bom dia, Estela", disse Kátia com um sorriso brilhante e falso.

Júlio, que estava colocando um prato de panquecas na frente de Kátia, lançou a Estela um olhar de desaprovação. "Não seja rude, Estela. Kátia foi gentil o suficiente para vir aqui esclarecer as coisas depois que você a chateou."

Kátia passou o braço pelo de Júlio. "Está tudo bem, Júlio. Eu estou bem. Sei que ela não fez por mal."

Ele acariciou a bochecha de Kátia, os olhos cheios de adoração. "Você é gentil demais com ela."

Estela sentou-se, observando-os. Era uma performance de amor e devoção, uma paródia distorcida do que ela e Júlio um dia tiveram. Ela mal tocou na comida, o gosto de cinzas na boca.

O celular de Júlio vibrou. Uma ligação de trabalho.

Ele beijou Kátia na testa antes de entrar em seu escritório. "Volto já."

Estela não aguentava mais. Ela se levantou para sair.

"Espere", disse Kátia atrás dela. Sua voz havia perdido o tom doce, agora era afiada e fria. "Júlio assinou algo para mim ontem à noite."

Ela ergueu um documento. Os olhos de Estela se concentraram na assinatura na parte inferior. A caligrafia ousada e familiar de Júlio. Seu coração parou.

Era um acordo de divórcio. Aquele que seu advogado havia redigido. Aquele que ela havia dito a Kátia para fazê-lo assinar.

"Ele estava distraído", Kátia ronronou. "Eu apenas o coloquei em uma pilha de papéis de investimento que ele tinha que assinar antes de dormir. Ele nem olhou."

Ele havia prometido. Jurado.

Mas ele havia assinado o fim do casamento deles com a mesma facilidade com que assinava um contrato de negócios, enganado pela mulher que agora se sentava na cadeira de sua esposa.

Kátia sorriu, um olhar venenoso e triunfante em seus olhos. "Ele fará qualquer coisa que eu pedir. Qualquer coisa. Minha pontuação para ele está em 90% agora. Está quase no fim para você."

Estela apenas a encarou, o rosto uma tela em branco.

"Parabéns", disse ela, a voz plana.

O sorriso de Kátia vacilou. Ela esperava lágrimas, raiva, um colapso. Essa calma fria e morta a perturbou. Ela precisava de uma reação. Precisava ser a vítima para cimentar sua vitória.

Assim que Júlio voltou para a sala, a expressão de Kátia mudou. Seus olhos brilharam com uma ideia súbita e cruel. Ela agarrou a mão de Estela.

"Estela, por favor, não fique com raiva de mim!", ela gritou, a voz cheia de falso terror.

Então, com uma força que surpreendeu Estela, Kátia a empurrou. Com força.

Em direção ao topo da grande escadaria.

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