Capítulo 2

A água gelada subia rapidamente, já me chegava à cintura. Eu estava presa no carro, no meio de um túnel inundado. A chuva lá fora era uma parede de água, e o som era ensurdecedor.

O pânico apertava-me o peito. A minha mão tremia sobre a minha barriga de nove meses. O meu filho. Tínhamos de sair dali.

Agarrei no telemóvel com os dedos a tremer e liguei ao meu marido, Tiago.

A chamada demorou uma eternidade a ser atendida. Quando ele finalmente atendeu, o barulho de fundo era de vento e chuva, mas não tão abafado como o meu. Ele estava lá fora.

"Sofia? O que se passa? Estou ocupado."

A sua voz era ríspida, impaciente.

"Tiago, ajuda-me! O carro parou no túnel da Baixa, a água está a subir muito depressa! Estou com medo."

A minha voz quebrou. Eu só queria que ele me dissesse que estava a caminho.

Houve uma pausa. Ouvi outra voz ao fundo, uma voz de mulher, abafada pelo vento. Era a Clara. A sua "melhor amiga".

"Onde é que estás exatamente?", perguntou ele, mas o seu tom era distante.

"No túnel da Avenida Central! Por favor, vem depressa!"

"Droga, Sofia. Isso é do outro lado da cidade", ele resmungou. "A Clara ligou-me, a casa dela está a inundar e o cão dela, o Max, está em pânico. Já estou quase a chegar a casa dela. Não posso dar a volta agora."

Fiquei em silêncio. O meu cérebro não conseguia processar as suas palavras. A casa da Clara. O cão dela.

"Tiago", a minha voz era um sussurro. "Eu estou grávida. O nosso filho está aqui dentro comigo. A água não para de subir."

"Eu sei, mas não entres em pânico", disse ele, como se estivesse a falar com uma criança. "Liga para os bombeiros. Eles são pagos para isso. Tenho mesmo de ir, a Clara está sozinha e desesperada. Depois ligo-te."

Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.

O som do "tu-tu-tu" misturou-se com o som da água a bater contra os vidros do carro.

Ele desligou.

Ele escolheu-a a ela. Ele escolheu o cão dela em vez do seu próprio filho.

Olhei para a água escura e suja que já me molhava o peito. O meu telemóvel escorregou da minha mão e desapareceu na água turva.

Fiquei sozinha no escuro, com a água a subir.

Capítulo 3

Não sei quanto tempo passou. Perdi a noção de tudo, exceto do frio e do medo. A água chegou-me ao pescoço quando finalmente ouvi um barulho forte vindo de fora.

A janela do carro partiu-se e uns braços fortes agarraram-me. Eram os bombeiros.

"Calma, senhora. Vamos tirá-la daqui."

A última coisa de que me lembro é da luz forte das lanternas deles a encandear-me os olhos.

Acordei num quarto de hospital. O cheiro a desinfetante era intenso. Uma enfermeira estava a ajustar o soro ao meu lado.

A minha primeira reação foi levar a mão à barriga.

Estava lisa. Vazia.

O pânico voltou, mil vezes pior do que no túnel.

"O meu bebé...", sussurrei, a voz rouca. "Onde está o meu bebé?"

A enfermeira olhou para mim com uma expressão de pena. Uma pena que eu não queria ver.

"Lamento muito", disse ela suavemente. "Devido à hipotermia e ao choque, entrou em trabalho de parto prematuro. Fizemos tudo o que podíamos, mas... o bebé não sobreviveu."

As suas palavras pairaram no ar. Não sobreviveu.

O meu filho. O meu menino. Tinha desaparecido antes mesmo de eu poder ver o seu rosto.

Fiquei a olhar para o teto branco do quarto. Não chorei. Não gritei. Senti um vazio tão grande, tão profundo, que parecia ter engolido todos os outros sentimentos.

O meu filho estava morto porque o pai dele estava ocupado a salvar o cão de outra mulher.

Naquele momento, deitada naquela cama de hospital, fria e vazia, tomei uma decisão.

O meu casamento tinha acabado. Tinha morrido juntamente com o meu filho.

A minha mãe, Helena, entrou no quarto nesse momento. O seu rosto estava marcado pela preocupação. Ela tinha passado pela sua própria cirurgia cardíaca há apenas algumas semanas.

"Sofia, minha querida!"

Ela correu para o meu lado, agarrando a minha mão. As suas mãos estavam quentes.

"O Tiago... Onde está o Tiago?", perguntou ela, olhando à volta.

Uma risada amarga escapou dos meus lábios.

"Não sei, mãe. Talvez ainda esteja a consolar a Clara."

A confusão no rosto da minha mãe era evidente. Antes que ela pudesse perguntar mais alguma coisa, a porta abriu-se novamente.

Era o Tiago.

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