A foto chegou ao celular de Clara às três da tarde, enviada por um número desconhecido, sem nenhuma palavra, apenas uma imagem. A foto não estava nítida, parecia ter sido tirada às escondidas, mas Clara reconheceu imediatamente o homem na imagem, era seu noivo, Pedro, com quem estava há dez anos.
Na foto, Pedro estava sentado num restaurante, com o corpo ligeiramente inclinado, olhando com ternura para a mulher à sua frente. Ele segurava um copo de suco verde e o levava aos lábios da mulher, com os cantos da boca curvados num sorriso suave. A mulher inclinava a cabeça para beber, com o cabelo comprido caindo sobre os ombros, e olhava para ele com um brilho nos olhos.
A intimidade entre eles era visível, uma intimidade que não precisava de palavras para ser expressa.
A cabeça de Clara zumbia, o zumbido era tão alto que quase a ensurdecia. Ela sentia o estômago revirar, uma sensação de náusea subindo pela garganta.
Ela conhecia aquele olhar de Pedro, era o mesmo olhar que ele lhe dera inúmeras vezes nos últimos dez anos. Ela também conhecia aquele suco verde, era o suco de abacate que ele sempre pedia para si mesmo. Mas Clara odiava abacate, sentia náuseas só de sentir o cheiro. Pedro sabia disso. Ele sempre soube.
Então, para quem era aquele suco? Para quem era aquele olhar terno?
Clara não era boba, a mulher na foto era a secretária de Pedro, Sofia, uma jovem bonita e ambiciosa. Clara já a tinha visto algumas vezes na empresa de Pedro.
A verdade era clara como o dia.
O coração de Clara parecia ter sido esmagado, a dor era tão intensa que ela mal conseguia respirar. Dez anos. Dez anos de um relacionamento que todos achavam ser um conto de fadas, dez anos de amor e companheirismo, tudo se transformou numa piada cruel neste momento.
Ela tentou ligar para Pedro, mas o celular dele estava desligado. A voz fria e eletrônica da secretária eletrônica era como uma faca a mais no seu coração já ferido. Desligado. Ele nunca desligava o celular, sempre dizia que era para que ela pudesse encontrá-lo a qualquer momento.
Clara lembrou-se de uma promessa que ele lhe fizera há muito tempo. Ele disse: "Clara, não importa o que aconteça, não importa o quão ocupado eu esteja, eu nunca vou deixar você me procurar e não me encontrar. A comunicação é a base de um relacionamento, e eu nunca vou quebrar essa base."
Que irônico. A base já tinha ruído há muito tempo, e ela tinha sido a última a saber.
Ela correu para o banheiro, agarrando-se ao peito, lutando para respirar. A náusea finalmente a venceu, e ela vomitou na pia, vomitou até sentir que ia vomitar os próprios órgãos. Olhando para o seu reflexo pálido no espelho, com lágrimas a escorrer pelo rosto, Clara sentiu-se completamente destruída. O mundo que ela tinha construído com tanto cuidado desmoronou num instante.
Há dez anos, Clara esperava por Pedro debaixo de uma grande árvore de flamboyant no campus da universidade. As flores vermelhas caíam com a brisa, cobrindo o chão com um tapete carmesim. Ela sentia um friozinho na barriga, uma mistura de ansiedade e excitação. Era o primeiro encontro deles.
Ele estava atrasado. O sol se punha lentamente no horizonte, e a ansiedade de Clara transformava-se em preocupação. Ela começou a andar de um lado para o outro, olhando constantemente para a entrada do campus. Onde ele estaria? Teria acontecido alguma coisa? A preocupação apertava-lhe o coração.
De repente, ela viu uma figura a correr na sua direção. Era Pedro, com o cabelo desgrenhado e o rosto corado pelo esforço. Ele parou à sua frente, ofegante, e antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele a abraçou com força.
"Desculpa, desculpa, desculpa," ele disse, com a voz abafada no cabelo dela. "Eu perdi a noção do tempo. Por favor, não fiques zangada."
O abraço dele era quente e forte, e o cheiro a sabão e a suor juvenil enchia os seus sentidos. A preocupação de Clara evaporou-se, substituída por um sentimento de alívio e calor.
Ele afastou-se um pouco, com as mãos nos ombros dela, e olhou-a nos olhos. "Eu estava a fazer uma coisa para ti."
Ele tirou um par de chinelos de um saco de lona. Os chinelos eram tecidos à mão com palha, com pequenas flores bordadas na parte da frente. Eram simples, mas feitos com um cuidado óbvio.
"Eu sei que gostas de andar descalça em casa, mas o chão é frio," disse ele, com o rosto um pouco vermelho. "Eu aprendi a fazer isto com a minha avó. Espero que gostes."
Clara sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Ninguém nunca tinha feito nada tão atencioso por ela. Ela pegou nos chinelos, sentindo a textura áspera da palha e a suavidade das flores bordadas.
Naquele momento, Pedro olhou para ela com uma expressão séria e disse: "Clara, prometo-te. Não importa o que aconteça no futuro, não importa o quão ocupado eu esteja, eu nunca vou deixar que me procures e não me encontres. Se alguma vez eu não atender o telefone, é porque deve ter acontecido algo muito grave. Mas eu vou sempre encontrar uma forma de te avisar. A comunicação é a base de um relacionamento, e eu nunca vou quebrar essa base."
A sua expressão era tão solene, a sua voz tão firme, que Clara acreditou em cada palavra. Ela acreditava que este rapaz à sua frente, este rapaz que tinha corrido até ela ofegante, que lhe tinha feito chinelos à mão, que lhe tinha feito uma promessa tão séria, seria o seu príncipe encantado para sempre.
Ela guardou essa promessa no fundo do coração, como um tesouro precioso. Durante dez anos, ela acreditou nela, confiou nela. Acreditava que o amor deles era forte o suficiente para superar qualquer obstáculo.