Eu parei Gabriel. Não adiantaria nada.
Danilo estava cego. Ele só veria minhas ações como mais uma tentativa de manipulação.
Três anos antes, o mundo desabou sobre nós. Nossa empresa farmacêutica estava em ruínas, alvo de ataques implacáveis.
Foi então que meu pai e eu o encontramos. Danilo. Ele estava em uma armadilha, ferido, à beira da morte.
Meu pai, um homem de princípios, não hesitou. Ele enviou nossos homens para lutar contra os inimigos de Danilo. Nós o resgatamos.
Danilo, um guerreiro orgulhoso, havia se ferido gravemente para proteger um de seus homens.
Nós o levamos para a nossa fortaleza, um lugar seguro, onde ele pudesse se recuperar.
Fui eu quem cuidou dele. Dia e noite. Troquei suas bandagens, dei-lhe remédios, alimentei-o.
Ao longo daquelas quatro semanas, eu me apaixonei por ele. Pelo homem forte e vulnerável que jazia em minha cama.
Na noite em que ele estava prestes a partir, meu pai deu uma festa de despedida em sua honra. A celebração era para marcar sua recuperação e seu retorno.
O vinho fluiu livremente. Os risos ecoaram.
Naquela noite, a embriaguez tomou conta. Em um momento de fraqueza e desejo, nós nos deitamos.
Sua respiração estava ofegante. Em meio aos beijos, ele sussurrou um nome.
Não era o meu. Era Alessandra.
Meu coração se quebrou em mil pedaços. Ele amava outra. Eu era apenas um substituto, um consolo.
A paixão me cegou. Eu agi egoisticamente.
Eu não o afastei. Não o acordei. Eu queria apenas uma noite. Uma única noite para fingir que ele era meu.
Eu nunca tive intenção de destruir o casamento de ninguém.
Dias depois, Alessandra apareceu em nossa porta. Ela estava furiosa, os olhos faiscando.
Ela foi direto para meu pai. "Eu sei o que aconteceu. Heloísa e Danilo. Eu sou a noiva dele!"
Ela tinha uma proposta. Dinheiro. Uma fortuna. Para que eu o deixasse, para que sumisse de suas vidas.
Meus pais, que viram meu sofrimento e amor por ele, concordaram com a proposta de Alessandra.
Com o dinheiro, eles reconstruíram nossa empresa. Mas eles usaram isso como um trunfo.
Eles forçaram Danilo a se casar comigo.
Eu não o queria forçado. Eu o amava. Acreditava que, com o tempo, eu poderia fazê-lo me amar também. Que ele esqueceria Alessandra.
Eu estava errada.
Ele nunca esqueceu. Meu amor nunca o alcançou.
Ele acreditava que eu o tinha embriagado e o seduzido. Que eu tinha manipulado meus pais para expulsar Alessandra de sua vida. Que eu tinha usado a reconstrução de nossa empresa como chantagem.
"Se você queria tanto, então me tem", ele me disse na noite de nosso casamento, a voz cheia de ódio.
Ele me tomou brutalmente. Não havia amor, apenas uma vingança cruel.
Por três anos, eu fui uma esposa de fachada. Só havia ódio, nunca amor, entre nós.
Eu tentei explicar, mas ele via minhas palavras como mentiras. Eu desisti. Desisti de tentar alcançar seu coração.
Me concentrei no que importava. Minha comunidade. Meu trabalho. Ajudei os menos afortunados.
Gabriel, o irmão de Danilo, se juntou a mim após a faculdade. Ele viu como Danilo me tratava. Ele sentiu a culpa do irmão.
"Ele vai ver a verdade um dia, Heloísa", Gabriel me confortou, seus olhos gentis.
Eu sorri amargamente. "Eu não sei se estarei aqui para ver isso, Gabriel."
O médico entrou no quarto, interrompendo nossa conversa.
"Senhora De Pinho, nós entramos em contato com todas as instalações médicas que pudemos. Ninguém encontrou uma cura para sua condição."
Ele colocou um novo frasco de analgésicos na minha mesa de cabeceira.
"Certifique-se de se alimentar bem. Mantenha sua força", ele disse.
Gabriel se ofereceu. "Eu posso trazer algo para ela comer. Algo caseiro."
Eu apenas balancei a cabeça. "Qualquer coisa serve, Gabriel. Eu não tenho preferência."
Ao meio-dia, Gabriel trouxe uma sopa quente. Eu comi, sem realmente sentir o gosto.
Logo depois, meu telefone tocou. Era Danilo.
Gabriel me olhou. "Coloque no viva-voz."
Eu assenti.
A voz dele estava fria. "Arrume suas coisas, Heloísa. Saia da minha casa. Alessandra está se mudando."
"Sim, Danilo", eu respondi, a voz vazia. Desliguei o telefone.
Gabriel socou a parede. "Eu vou lá! Eu vou arrancar a cabeça dele!"
"Não, Gabriel", eu disse, a exaustão pesando em cada palavra. "Não adianta. O amor não pode ser forçado. E eu não quero que vocês briguem por minha causa."
Ele estava pálido. "Mas o seu estado! Você mal consegue ficar de pé!"
"Eu estarei bem. Apenas me ajude a pegar algumas coisas."
Ele hesitou, mas depois assentiu. "Tudo bem. Mas eu vou com você. Não vou te deixar sozinha para enfrentar aquilo."
Eu assenti. Pelo menos eu tinha Gabriel.
Quando chegamos à casa, Danilo e Alessandra estavam no jardim, rindo. Ela estava aninhada em seus braços, os olhos dele cheios de um carinho que ele nunca me dedicou.
Meu coração se apertou. Ele nunca olhou para mim assim. Nunca me tocou com tanta ternura.
Danilo nos viu. Seus olhos se estreitaram. "O que você está fazendo aqui, Gabriel? Não deveria estar trabalhando?"
Gabriel avançou, a raiva em sua voz. "Você não vai acreditar no que ele fez, Heloísa!"
Danilo olhou para mim com desprezo. Ele pensou que eu tinha trazido Gabriel como meu "ajudante".
Gabriel me interceptou. "Eu vim porque quis. Ele precisa saber o que você tem feito por ele nos últimos três anos!"
Ele se virou para Danilo, apontando um dedo. "Heloísa o amou. Ela trabalhou ao seu lado, reconstruiu sua empresa. Todos a admiram! E você? Você a trata como lixo!"
Danilo franziu a testa, desviando o olhar.
Alessandra, com um sorriso vitorioso, acariciou o braço de Danilo. "Eu entendo, Gabriel. Heloísa é uma mulher admirável. Mas o amor... o amor não pode ser forçado, não é?" Ela olhou para Danilo. "Danilo e eu somos almas gêmeas. Nosso amor é inquebrantável."
Gabriel riu, uma risada amarga. "Seu amor? Se fosse tão inquebrantável, por que você o abandonou por dinheiro, Alessandra?"
O rosto de Danilo escureceu. "Cale a boca, Gabriel! Não fale mal da Alessandra!" Ele se virou para mim. "Ela me deixou por causa dos seus pais! Eles a chantagearam!"
Gabriel tentou argumentar, mas eu o interrompi. "Não, Gabriel. Não vale a pena."
Eu olhei para Danilo. "É minha culpa. Sempre foi. Eu aceito. Não há necessidade de discutir mais."
Eu me virei para Alessandra. "Você pode tê-lo. Ele é seu. Eu não serei mais um obstáculo."
Eu me dirigi ao meu quarto. Gabriel me seguiu.
Por três anos, dormimos em quartos separados. Ele só vinha ao meu quarto quando precisava de algo.
Eu juntei algumas roupas e uma toalha. Eu viveria no hospital.
Quando voltei para a sala, Danilo estava me esperando.
"O resto pode jogar fora", eu disse, minha voz baixa. "Não importa mais."
Um lampejo de remorso passou pelo rosto de Danilo, mas ele se recuperou rapidamente.
"Não aja como se fosse a vítima aqui, Heloísa", ele disse, sua voz dura. "A verdadeira vítima é Alessandra."
Ele tirou uma chave do bolso. "Eu comprei um apartamento para você. Considere isso como uma compensação pelos anos perdidos."
"Não, obrigada", eu disse, virando as costas. Eu não queria nada dele.
Gabriel se interpôs entre nós. "Você realmente vai expulsá-la assim? Enquanto ela está doente?"
"Isso não é da sua conta, Gabriel", Danilo rosnou.
Alessandra se aconchegou em Danilo. "Eu farei Danilo feliz, Gabriel. Não se preocupe."
Gabriel lançou um olhar de desprezo para Alessandra. "Você vai se arrepender, Danilo. Você vai se arrepender amargamente."
Ele me pegou pela mão. "Vamos, Heloísa."