Capítulo 2

— Por que você não estuda no mesmo prédio que eu? — pergunto

para Taylor, enquanto penteio o cabelo.

— Porque somos de áreas completamente diferentes — ela responde

e logo toma um gole do seu café. — Essa máquina caiu do céu — se refere a

máquina de café que a minha mãe comprou.

— Até parece que você não está acostumada a beber qualquer tipo

de café.

— De manhã cedinho, não — ela retruca. — Geralmente, eu vou para

aula sem tomar ou beber nada e no intervalo como algo.

— Eu acredito que passaria mal no meio do primeiro período —

faço drama e ela ri, fazendo um gesto de negação com a cabeça.

— Vai demorar aí, branca de neve?

— Se eu sou a branca de neve, você é o quê? Cinderela?

— Pode ser — dá de ombros —, só falta o meu príncipe com cavalo

branco aparecer.

Passo um gloss nos lábios, ficando satisfeita com o resultado.

Cabelos soltos, um pouco de rímel incolor e brilho labial, meus

companheiros de sempre.

— Menina, você é naturalmente linda. — Taylor me analisa. — Se

não fossemos amigas, te pegava fácil.

— Você... — deixo no ar, sem saber como terminar a pergunta.

— Sou uma pessoa que gosta de pessoas. Gosto de meninos, mas já

fiquei com meninas. É isso.

— Tipo, bissexual? — pergunto, pegando minha bolsa.

Ela também pega a dela e abre a porta do nosso quarto. Saio e logo

ela fecha, enganchando no meu braço enquanto caminhamos no corredor em

direção à escada.

— Não sei. Sinceramente? Eu sei que existe esse lance de

representatividade, por isso é importante dar nome. Em contrapartida, no

meu caso, não acho que eu precise de um rótulo. Nem sei se estou pronta

para ter um.

— Entendi — respondo, refletindo sobre o que falei. — Como é?

— Como é o quê? — ela pergunta.

— Beijar outra mulher, transar com outra mulher...

— É uma boca como qualquer outra. As meninas que eu beijei foram

lances casuais. Foi bom. — dá de ombros. Já notei que esse gesto é uma

mania dela. — Uma… mais que bom. Sobre sexo, não sei responder. Já

rolou uns amassos, mas nunca o ato.

— Mas você prefere homem ou mulher?

Ela gargalha alto, jogando a cabeça para trás, até atrai uns olhares

para nós.

— Em geral, me sinto atraída por homens, com as meninas, sei lá.

Acontece. Como disse antes, não sei explicar.

— Eu sou curiosa mesmo, foi mal — acompanho-a nas risadas. —

Meus pais dizem que eu sou tipo criança, querendo saber o porquê de tudo.

— Tudo bem, amiga. — Ela solta o meu braço quando paramos em

frente ao prédio de música, que é bem perto do nosso dormitório. — Não me

importo. Você fica aqui — aponta para a construção de tijolos a vista. — Eu

já vou, porque ainda tenho uns dez minutos de caminhada. Almoçamos juntas

no refeitório?

— Claro. Quando eu estiver livre, te mando mensagem — ela apenas

acena, me dá um beijo no rosto e sai.

Sozinha, olho para a construção em minha frente.

É real, Priscila, você está mesmo aqui.

Respiro fundo e entro no prédio. Alguns alunos seguram instrumentos

musicais, perdidos em seus próprios mundos. Paro em frente a um mural,

procurando minha sala, até que encontro depois de um bom tempo. Subo até

o terceiro andar. Chego ofegante e quando dou um passo para dentro, sorrio

feito boba.

Sinto como se estivesse em um filme americano. A lousa do

professor vai de uma lateral até a outra. Sua mesa fica posicionada em um

canto estratégico, que da visão de toda a sala. E então as cadeiras dos alunos

são posicionadas como em um cinema, ficando um lance por fileira. Todas

as vezes em que estive no cinema do shopping da minha cidade, peguei um

assento nas cadeiras do meio da sala, faço o mesmo hoje.

Subo até chegar na fileira, que a meu ver, é a do meio. Me sento,

respirando fundo e passando meu olhar sobre os alunos. Nossa! É tudo tão

surreal, que mal posso acreditar que estou aqui! Caramba, eu estou mesmo

aqui!

Olho ao redor, vendo alguns universitários sentados, outros chegando

e, de repente, me sinto nervosa, sozinha.

Fecho os olhos em uma prece silenciosa, em agradecimento por ter

me livrado da vida que eu tinha. Estou aqui por mim, para mim, é o meu

sonho. Respiro fundo, como dona Marisa me ensinou, focalizando em um

sentimento de gratidão por estar à frente das decisões da minha própria vida.

Eu tomo as minhas iniciativas, não preciso dele. Não preciso

depender de ninguém.

Discretamente, começo o exercício de respiração. Solto todo o ar

que estava preso e eu nem percebi. Depois, inspiro pelo nariz e conto até

quatro. Volto a segurar completamente a respiração e conto até sete, em

seguida, solto novamente todo o ar, enquanto conto até oito. Repito todo o

processo novamente. O certo seria repetir três vezes, mas paro no início da

terceira, quando um rapaz se senta ao meu lado.

— Oi — ele cumprimenta —, estou tão nervoso! Julgo que posso

desmaiar a qualquer momento. — Puxa a gola da camisa, como se estivesse

abafado. — A propósito, sou Andrew. — Ele estende a mão, mas não tenho

tempo de apertar, pois ele puxa e a seca em sua calça. — Estou suando feito

um porco. Esqueça o aperto de mão.

Seguro uma risada.

— Sou Priscila, e se serve de consolo, também estou nervosa.

— Você tem um sotaque diferente — ele me analisa.

— Sou brasileira — sorrio e então, sem pudor algum, ele me olha

dos pés à cabeça. E ainda que eu esteja sentada, vejo que olha para o meu

quadril.

Pigarreio.

— Foi mal — ele fala e ri —, foi uma inspeção sem maldade, bebê.

Sou gay. — Ele pisca.

Meu sorriso aumenta e agora, em vez de me sentir em um filme

americano, sinto-me como se estivesse em um livro, onde tenho a melhor

colega de quarto e um amigo gay para chamar de meu best.

— Qual seu curso? — pergunto.

— Produção fonográfica.

— O meu também — respondo e vejo seus olhos brilharem da

mesma forma que os meus devem estar.

— Então estaremos juntos em todas as matérias! — Ele olha para o

teto — obrigado senhor, por lembrar do seu filho, amém.

Não contenho uma risada, ele é muito engraçado.

— Para ficar perfeito — ele continua —, só falta entrar por aquela

porta um professor gostosão, estiloso e cheio de tatuagens, estilo bad boy!

— ele suspira.

Não é o que acontece.

Com um timing perfeito, entra um professor na sala. Ele deve ter a

minha altura, tem um corpo normal e usa roupas formais. O que me chama

atenção é o colete xadrez por cima da camisa social branca. O cabelo está

perfeitamente alinhado com a ajuda de gel. Como a camisa, as calças e

sapatos também são sociais. Ele segura uma maleta marrom e usa óculos

com armação arredondada.

— É a fanfic da minha vida — Andrew murmura ao meu lado,

chamando minha atenção para si.

Ele tem um braço apoiado sobre o encosto da cadeira e dos seus

olhos só faltam sair aqueles coraçõezinhos, como nos desenhos animados.

— Apaixonou? — brinco.

— Ele é o meu número — declara.

— Ele é seu professor, menino — falo, rindo baixinho com sua

expressão fascinada.

— Também é o meu novo crush e futuro amor da minha vida — fala

de uma forma dramática, fazendo nós dois rirmos.

— Bom dia, alunos! Sejam bem-vindos à nossa universidade.

Aproveitem cada minuto do tempo que vão passar aqui, pois eles serão

lembrados por vocês pelo resto de suas vidas.

— Que voz é essa? Puta merda, acho que gozei nas calças —

Andrew murmura e eu ponho a mão na boca, abafando um riso.

— Como todos sabem, essa é a disciplina de comunicação. Nosso

objetivo é; capacitar o aluno para interpretação, leitura e escrita de textos

verbais e não-verbais, através do domínio de conceitos relativos à

comunicação. Abram na página doze de suas apostilas, vamos começar com

a introdução a comunicação e seus vários meios e formas.

A aula foi demais! Tá! Ok. Talvez, não tenha sido tão legal como as

demais disciplinas serão. Porém, estou tão empolgada com tudo, que achei a

coisa mais interessante do mundo ver o professor falar, sem parar, por horas

a fio. Assim que saí da sala com Andrew ao meu lado, mandei mensagem

para Taylor, que ficou de nos encontrar no refeitório. De início, quando me

viu acompanhada, ficou receosa. Mas bastou meu novo amigo abrir a boca

para ela sorrir e gargalhar com as pérolas dele.

— Existem algumas lanchonetes espalhadas pelo campus, mas

almoço mesmo só aqui. Esse restaurante não é terceirizado, é da

universidade, então acredito que é tipo uma regra sabe? Dessa forma, a

maioria come por aqui.

— Então, você já está aqui há algum tempo?

— Sim, não sou caloura — ela diz e toma um gole do seu suco, limpa

a boca com o guardanapo. — Sei das fofocas, quem anda com quem. Mas

não se empolguem, eu não sou da elite.

— Seremos a resistência! — Andrew diz e nós duas rimos.

— Não que eu precise falar para vocês quem é quem — ela continua

—, uma olhada em volta e saberão.

— Vamos lá — ele responde —, vou tentar adivinhar. Nerds —

aponta para uma mesa e então vai nomeando os vários “grupos” espalhados

pelo Refeitório.

Sim. O nome do restaurante da universidade é Refeitório, muito

criativo.

— Só não consegui distinguir aquele grupo ali. — Ele faz um gesto

discreto com a cabeça.

— Qual? — Taylor pergunta, se virando. — Ah..., eles são a elite.

— Como assim? — Sou eu quem pergunta agora.

— Ali temos alguns do time de futebol americano, líderes de torcida

e o pessoal da banda. — Estreita os olhos. — Faltam dois ainda.

— E por que elite? — Andrew se manifesta.

— São os populares. Integrantes das duas fraternidades mais

famosinhas, promovem as melhores festas. — Dá de ombros.

— Quem é aquele todo de preto? — meu amigo pergunta.

— O Kane. Vocalista da Radioactive. Os caras são bons, acho que

tem futuro.

Olho para o tal Kane, o cara é lindo. Tem um estilo desleixado sexy,

bem aquele tipo que diz “sou lindo e foda-se o resto”. Agora, depois da

Taylor falar por alto quem são, consigo distinguir quem faz parte do time de

futebol americano, quem são os outros meninos da banda e as meninas que

são todas, obviamente, líderes de torcida.

— Quem são os dois que faltam?

— São dois primos. Um deles teve uma overdose no início do ano

letivo passado e ficou afastado durante o resto do ano. O primo dele fez

apenas parte das disciplinas para poder apoiar o outro na clínica de

reabilitação.

— Caramba, que lindo isso — elogio e ela bufa.

— Vai por mim, Brandon é um babaca egocêntrico. Kane vive com

eles também, os três são bem próximos.

— Eles devem ser ainda mais gatos que o tal Kane. Gente bonita

atrai gente bonita.

— Eles são. É engraçado ver os três juntos, porque ao mesmo tempo

que são parecidos, são visivelmente tão diferentes.

— Não entendi nada — Andrew conclui rindo.

— Nem eu — concordo, também rindo.

— É, isso foi complexo — Taylor admite, olhando a tela do seu

celular. — Preciso ir para a cafeteria. Pri, o que acha de o Andrew ir ao

alojamento ver um filme conosco hoje?

— Por mim, tudo bem — concordo, feliz por ver que os dois já se

tornaram amigos.

— Aí gente, que demais! No primeiro dia de aula já arrumei duas

amigas e vou dormir na casa delas!

— Dormir? — pergunto.

Taylor e eu nos olhamos e, como sempre, ela dá de ombros.

— Então, tá! — digo, por fim, e ele bate palminhas, animado.

Senhor, onde esse menino vai dormir?

Balanço a cabeça, ignorando isso. Daríamos um jeito. Taylor se

despede e sai apressada, para não chegar atrasada no trabalho. Ela me

contou que a cafeteria em que trabalha fica a uns quinze minutos da

universidade e funciona o ano inteiro. Meio que entrelinhas, me disse que foi

apenas uma vez para sua casa em uma de suas férias. Minha amiga aluga a

casa que era dos pais, mas mantém um sobrado vazio para caso precisar

voltar.

Nem posso imaginar o quão difícil deve ser perder os pais tão cedo.

Se, ainda assim, ela tivesse uma família, mas ela não tem. Bom, a partir de

agora ela tem a mim. Farei de tudo para sermos boas amigas e para que a

nossa convivência seja a melhor possível. Eu também nunca tive amigos.

Quer dizer, tive “amigos” através dele, eu era uma sombra dele.

— Ei, bebê. — Olho para Andrew. — Você estava longe.

— Estava... no Brasil, procurando as curvas latinas que você disse

que eu não tenho — ele ri.

— Menina, brasileiras tem fama de ter tudo ão.

— Pois, eu tenho inho. Esqueci de passar na fila da bunda e dos

peitos — brinco.

— Você está ótima assim! Eu, mais do que ninguém, não deveria

imaginar um biotipo apenas por conta da sua nacionalidade. Foi bem

imprudente da minha parte.

— Relaxa. — Me levanto. — Vamos? — Ele ajeita a mochila em um

ombro e também se levanta.

— Quero estudar um pouco o início da apostila da disciplina de

amanhã por... — Sinto meu corpo colidir com algo e logo o líquido gelado

escorre pelo meu braço e parte das costas.

— Você está cega, garota? — a menina grita comigo e quando

levanto os olhos, vejo uma das garotas da elite.

— Desculpa, eu estava de costas, não vi...

— Pretendia andar de costas? Você é caranguejo agora?

— Caramba, Já pedi desculpas! — falo mais alto. — Eu me molhei

bem mais que você — falo, vendo apenas seu antebraço manchado pelo

líquido. — Essas coisas acontecem.

— Saia do meu caminho! — ela grita como se fosse a abelha rainha e

eu uma súdita.

— Amber — olho para o cara que a chama. É o tal Kane, que parece

ainda mais bonito de perto. — Acidentes acontecem, deixe a menina em paz.

Ela me encara, em seguida olha para ele e acena em positivo,

fazendo seu caminho porta afora. Suas duas amigas a seguem.

— Desculpe por isso — Ele diz e eu volto a olhar para ele —, ela é

exagerada na maioria das vezes. Sou Kane — ele se apresenta de uma forma

direta.

— Sou Priscila.

— Sotaque diferente — não é uma pergunta, mesmo assim, respondo.

— Brasileira.

— Legal. A gente se vê. — E então, da mesma forma inusitada que

chegou, ele se vai.

— Esse garoto é sexy! — Andrew não tarda em dizer.

— Se apaixonou também? — brinco.

— Não, minha paixão e meu amor são apenas do nosso professor.

Com o Kane é só fogo no rabo mesmo.

Gargalho alto. Me sentindo à vontade em sua presença, faço como

Taylor fez comigo mais cedo e engancho em seu ombro, enquanto saímos do

refeitório.

Me diga uma coisa, garota

Você está feliz neste mundo moderno?

Ou você precisa de mais?

Existe algo mais que você está buscando?

Shallow — Bradley Cooper, Lady Gaga.

Já estou acordada e o despertador ainda nem tocou, estive esperando

a semana toda para que o hoje chegasse. De todas as disciplinas do primeiro

semestre, essa é a mais aguardada, pelo menos para mim.

Mixagem e edição musical.

Cresci indo para o estúdio com meus pais. Ficava fascinada com a

forma que as músicas ganhavam vida e eram modificadas. As gravações

eram feitas e refeitas até que o som ficasse perfeito. A paixão que os artistas

pareciam ter ao expor sua arte, a entrega, o amor. Tudo bem, sou suspeita a

falar, já que toda forma de arte me encanta. Mas a música... é quase

inexplicável.

Em meu ponto de vista, é uma das formas mais expressivas. As

pessoas geralmente usam a música como auto terapia. É um ato inconsciente,

mas quando não estamos bem procuramos músicas tristes, quando acordamos

bem, queremos ouvir algo animado. Os mais reflexivos tendem a procurar

melodias com letras que trazem sentido ao momento, a vida.

Eu amo todo tipo de música. Porém, tenho um fraco, ok, um guindaste

pela música eletrônica.

Não existe forma de definir a música eletrônica. Ela vem evoluindo

desde que alguém começou a brincar com os sons, isso há décadas. Um

pouco de jazz aqui, uma batida mais acelerada ali, bases graves, repetições,

vocais, samplers e temos infinitos resultados. Techno, house, trance, psy,

minimal, progressivo, drum´n´bass os mais crus e, em simultâneo, os mais

misturáveis estilos da cultura club. O experimentalismo cresce e a rotulação

dos deejays por estilo começa a ficar cada vez mais complicada e

dispensável de se fazer. Perceber os elementos característicos de cada

vertente é essencial para identificá-las.

O despertador toca e eu pego o celular, o desligando. Suspiro e

sorrio por estar acordada antes do horário. Hoje é quinta-feira, estou há

quase uma semana aqui em Boston e ainda parece mentira. É como se isso

fosse um sonho, ou uma realidade paralela, e que a qualquer momento eu vou

acordar e me transportar para a minha antiga vida em São Paulo. É só

lembrar da minha vida dos últimos anos para voltar a fechar os olhos e

suspirar novamente, mas dessa vez de frustração.

Como eu pude me sujeitar a tudo que eu vivi?

Como pude simplesmente viver uma vida que eu nitidamente não

estava feliz só para agradar um homem? Melhor, um moleque.

Balanço a cabeça, afastando esses pensamentos assim que ouço o

despertador da Taylor tocando. Como sempre, ela demora alguns segundos,

resmunga algo e então o desliga.

— Pri — murmura quando se senta na cama e passa as mãos no rosto

—, bom dia.

Capítulo 3

— Bom dia, galega — respondo, me levantando. — Posso tomar

banho primeiro?

— Claro. — Ela faz um gesto com a mão, como se estivesse me

dispensando.

Como ela mesmo diz, demora alguns minutos para que sua alma volte

para o corpo quando acorda. Faço um xixi rapidinho e vou para o banho.

Isso facilita nosso convívio, pois, enquanto uma vai ao banheiro, a outra

toma banho. Se bem que, Taylor bota o café a fazer antes mesmo de fazer

xixi ou lavar o rosto.

Ela e o café tem um caso sério de amor.

Tiro a roupa e ligo o chuveiro, gemo ao sentir a água quentinha. Pego

o shampoo e começo a lavar meus cabelos, ainda sinto falta do comprimento.

Não diria falta, mas o costume de sempre ter os cabelos compridos faz com

quem eu sinta falta de algo. Cortei dois dias antes de viajar. Meus cabelos

batiam na cintura, agora batem no ombro. Eu quis fazer em minha aparência

algo tão radical quanto a minha mudança de país. Sim, eu queria literalmente

uma mudança.

Para algumas pessoas, cortar o cabelo parece bem normalzinho, não

para mim, que tenho cabelo comprido desde que me vejo por gente. Há

alguns anos eu já vinha querendo cortar..., mas, como sempre, não tive

coragem.

Ensaboo o corpo e logo tiro a espuma. Desligo o chuveiro e me

enxugo ainda dentro do box, me enrolo na toalha e quando saio Taylor está

escovando os dentes encostada na parede.Quando me vê, se vira de costas

sem jeito.

— Vai ser sempre assim? — pergunto.

Ela larga a escova na pia e põe água na boca, tirando o creme dental.

— O quê? — ela pergunta, ainda de costas.

— Toda vez que eu vou mudar de roupa ou saio de toalha do box,

você fica desconfortável.

Ela suspira alto e se vira para mim.

— Eu não fico desconfortável — declara. — O que eu não quero é

que você se sinta assim. Eu sei que o fato de eu ficar com meninas pode te

deixar constrangida, sei lá. Não quero que fique um clima estranho.

— Você quer ficar comigo? — pergunto, confusa.

— Não — ela ri —, somos amigas. Tenho medo de você pensar que

estou te tarando, te cantando...

— Você tem medo que eu te julgue? Eu não sei o tipo de gente que

está acostumada a lidar, mas não sou assim. Eu gosto de homem, porém, o

fato de eu gostar do sexo masculino não faz com que eu sinta desejo por

todos os homens na terra.

— Sim — ela respira fundo. — É que o julgamento é tão grande, que

eu já prefiro prevenir...

— Não precisa ficar pisando em ovos comigo. Somos amigas,

moramos juntas. — Tiro a toalha, ficando só de calcinha. Pego o sutiã e o

coloco.

— Sem climão então? — ela pergunta sorrindo.

— Sem climão — respondo.

— Aí, você é tão fofa. — Ela vem até mim e aperta a minha

bochecha.

— Ei, para — empurro ela rindo.

Ela gargalha e vai para o box tomar banho. Escolho uma calça jeans

simples e uma camiseta preta lisa de manga comprida. Pego meias, o all star

branco, vou até à cama onde me sento para calçar. Bocejo e me espreguiço

antes de voltar a me levantar, pegar minha escova e ir em frente ao espelho.

Penteio meus cabelos. Nossa, se fosse há uma semana, teria mais trabalho,

cabelo curto é vida. Taylor sai do banheiro ainda se enxugando e reprimo um

sorriso por ver que após nossa breve conversa ela se sente à vontade de

trocar de roupa perto de mim.

— Hoje sou eu quem fecha a Coffe Academics. Você e o Andrew

poderiam ir lá, né? Dás seis às sete a cafeteria é quase deserta.

— Claro, desde que você guarde uma mil-folhas para mim.

— Interesseira — diz, negando com a cabeça.

— A interesseira aqui vai fazer um misto quente, você quer?

— E eu lá sou de negar comida?

— Bom dia, turma! — o professor fala bem-humorado, assim que

entra na sala.

— Bom dia só se for para você — Andrew murmura. Ele está em um

dia ruim hoje.

Segundo ele, precisou bancar o hétero para o pai, que só aparece

uma vez por mês. Mas como ele paga as contas, meu amigo diz que vem se

mantendo no armário em sua frente e eu nem posso imaginar o quanto deve

ser horrível fingir ser algo que não é. Na verdade, posso ter uma noção, já

que eu fiz muito isso. Claro que as situações são incomparáveis, ainda que a

farsa presente nas duas seja a mesma.

— Sou Nilman, professor de mixagem e edição musical. Minhas

aulas serão voltadas à prática...

Pela próxima hora ele fala sobre sua disciplina. Basicamente, o que é

mixagem e em qual etapa do processo de produção fonográfica ela se

encontra. Conta onde começou e como se desenvolveu pela história da

música.

— Vocês devem ter percebido que estamos em duas turmas aqui. —

Ele olha em sua folha. — Sendo específico, trinta e seis alunos. Entre vocês,

temos alunos do curso de Bacharel em Música e Produção Fonográfica.

Olho em volta, para os rostos desconhecidos.

— Por que não estou com um pressentimento bom? — Andrew

murmura baixinho ao meu lado.

— Eu decidi que nesse semestre eu tornaria tudo ainda mais prático.

Por que não juntar o artista ao produtor? — ele fala como se conversasse

com si próprio. — Pensando nisso, decide que faria duplas com um aluno de

cada curso...

— Ah, caralho... — Andrew reclama. Por mais que eu não verbalize,

também não gosto da ideia.

— Eu já separei as duplas. — Balança duas folhas no ar. —

Conforme eu for falando, peço que levantem a mão e se sentem juntos,

porque durante a próxima hora vocês poderão trocar ideias sobre o trabalho.

Ah, eu não disse o principal. O trabalho de vocês será criar uma composição

do zero. Usem a criatividade. Ela será gravada e apresentada para a banca

da universidade.

Depois disso, ele começa a ler os nomes e segue formando duplas. O

meu nome é chamado e, para a minha infelicidade, o meu parceiro não veio

para a aula. Sério, quem falta na primeira semana de aulas? Devo ter jogado

pedra na cruz, porque provavelmente deve ser um idiota, irresponsável.

— Hoje quero que foquem nas etapas de produção; como produzir

timbres, criar arranjos. Vai depender muito do estilo musical escolhido.

Volto a olhar à minha volta, desanimada. Caramba, sou péssima com

a parte da criação. Sem muita escolha, me levanto da minha cadeira e vou

até o professor, que agora está sentado atrás de sua mesa.

— Senhor Nilman — ele levanta os olhos para mim —, a minha

dupla não veio... e não sou muito boa com a parte da criação.

— Você é? — ele pergunta, falo meu nome e ele volta os olhos para

suas folhas com as duplas. — Justin Davis — abro um pequeno sorriso. —

A matrícula dele está ativa, temos cinco meses pela frente.

Após mais algumas palavras, volto para o meu lugar e fico viajando

durante a próxima hora, me sentindo deslocada por todos estarem entrosados

e trabalhando enquanto estou sozinha.

— Ele é meio entojado — Andrew dá de ombros. — Pelo menos,

não é homofóbico, bom, julgo que não é.

— A menina do trabalho de anatomia é querida. Acredito que vamos

no dar bem.

Fico escutando Andrew e Taylor divagarem sobre seus colegas,

dupla de trabalho. Isso só me deixa ainda mais triste pelo fato de o menino

que vai fazer trabalho comigo ter faltado. Caramba, esperei tanto por hoje,

por essa disciplina, para logo no início já levar um toco desses.

— Desfaz essa carinha, Pri — meu amigo fala. — Semana que vem

ele não vai furar.

— Não sei de quem estão falando. — Um loiro alto se senta ao meu

lado no balcão. — Seja quem for, é um babaca por furar com você. — Ele

me encara. — Eu jamais faria isso.

Sinto minhas bochechas esquentarem na hora. Ele está flertando

comigo? Eu, definitivamente, não sou boa nisso. Não sei o que dizer.

— Deixa de ser abusado, Jamie! Deixou a menina com vergonha —

Taylor o repreende. Ele sorri e eu, idiota, solto um riso nervoso.

— Jamie — ele se apresenta e me surpreende ao se inclinar e beijar

meu rosto. — Você é? — pergunta diante do meu silêncio.

— Priscila — falo e ele sorri.

— Que sotaque bonito, é natural de onde?

Taylor bufa do outro lado do balcão.

— Brasil.

— Vai querer algo, Jamie? — minha amiga pergunta.

— Quero um mocaccino[7] para a viagem.

— Não cai no papo dele, amiga — ela fala enquanto prepara a

bebida — ele é da Khapa Alfa e além de fazer parte da elite, é um dos mais

mulherengos de lá.

— Não queima meu filme, loirinha — Jamie a responde rindo,

voltando a me olhar. — Todos sossegam um dia — fala olhando em meus

olhos e, então, pisca.

Novamente, sinto o sangue do meu corpo ser todo direcionado ao

meu rosto.

— Seu café. — Taylor entrega a bebida. — Pare de deixar a garota

constrangida.

Ele apenas ri, pisca para mim e sai do estabelecimento.

— Você não cobrou — Andrew a lembra.

— Ele é filho do dono — dá de ombros —, come aqui em várias

refeições.

— O mundo é muito injusto mesmo. Ele come esse monte de comida

boa e é aquela parede de músculos? A barriga dele deve ser tipo a do Ken.

— Ken? — pergunto.

— Você não teve infância, menina? O marido da Barbie, né — fala

como se fosse óbvio, fazendo Taylor e eu darmos risadas.

— Ele é capitão do time de futebol americano.

— Hum, ele é um dos gostosões que você vai cuidar ano que vem

então? — pergunto só para provocar.

— Credo! Não, é o último ano dele. Provavelmente, o próximo

capitão vai ser o Brandon. — Faz uma cara de desgosto.

— Não vai com a cara desse aí também? — Andrew pergunta.

— Não. Ele também é da elite e é meio abobado. — Dá de ombros.

— Pri, você já percebeu que a Taylor é antissocial? — ele me

pergunta, ganhando um tapa da nossa amiga.

— Só tem minha atenção as pessoas que merecem. — Ela pisca.

Ela brinca e partir daí, são conversas em meio aos risos, até irmos

para o alojamento. Com os dois, me sinto mais amada do que em meio aos

vários “amigos” que tinha em São Paulo. Enquanto estamos sentados sobre o

tapete, tomando uma long neck, faço uma prece silenciosa me sentindo

abençoada, agradecendo por eles terem aparecido em minha vida.

Isso não é para você

A foto que eu postei, eu queria dizer,

sim, "Adeus"

Para o bem ou para o mal

Não é pessoal, não há nada

o que explicar, adeus

Adiós — Selena Gomez

— Não sei se é uma boa ideia — Taylor fala assim que engole a

comida.

— Por quê? — Andrew retruca. — Eu só tenho dois anos aqui, quero

viver intensamente cada momento.

Sorrio, negando com a cabeça.

— O que você acha, Pri? — Taylor pergunta.

— Por mim… — Dou de ombros.

— Ela ainda está chateada por causa daquele trabalho. — Ele revira

os olhos e Taylor bufa.

Ok.

Talvez, eu esteja só um pouquinho repetitiva com esse assunto. Ou

muito. Sim, muito. Era para ser a minha matéria preferida e o garoto, minha

dupla, já faltou duas aulas! DUAS! Fui novamente questionar o professor e

ele me garantiu que o garoto está matriculado e virá em breve. Em breve.

Será que esse breve é quando para ele? Pergunto-me se é semana que vem,

mês que vem...

— Ei! — Minha amiga estala os dedos em frente ao meu rosto. —

Para de ficar se martirizando. Se seu colega não aparecer na próxima, você

volta a se preocupar, agora esqueça isso. — Ela vira o rosto para Andrew.

— Vamos nessa festa!

— Ah! — ele grita comemorando, fazendo nós duas gargalharmos. —

Que roupa vocês vão?

— E o que você tem a ver com isso? — pergunto, arqueando a

sobrancelha.

— Bebê, não aceito menos que muita pele à mostra! Vai ser tipo

triteto fantástico.

— Triteto? — a galega pergunta, mordendo o lábio.

— Sim! Se a Marvel criou o quarteto fantástico, acabo de criar o

triteto. — Empina o nariz. — Eles que lutem.

Kane entra no refeitório com a sua pose de “foda-se, eu sou lindo”.

Usa uma calça jeans preta skiny rasgada, camisa preta, coturnos pretos. Tem

uma jaqueta jeans amarrada na cintura e ostenta um cabelo despenteado que

o deixa ainda mais gato. Quantas tatuagens será que ele tem?

— Ele é muito gostoso — Andrew fala. Não preciso olhar para ele

para saber que também se refere a Kane.

— Quando vocês virem o trio juntos, vão atualizar com sucesso o

significado de beleza em seus dicionários.

— Os primos? — pergunto.

— Sim — Taylor afirma.

— Ele está vindo! — Andrew fala e logo disfarça, pegando o copo

de suco e tomando.

Kane se senta no banco da minha frente.

— Oi, bebê — ele fala para mim, pisca para Andrew, que suspira, e

então se vira para Taylor.

Ele se sentou sim no banco em minha frente, porém, com uma perna

de cada lado, ficando de frente para Taylor, que está ao seu lado.

— Oi, loirinha — ele sorri e pega uma batata do prato dela.

Ela o encara, estreitando os olhos quando ele novamente pega uma

batata.

— Por que não pega uma folha de alface em vez da batata?

Ele gargalha alto.

— Eu não mantenho uma alimentação saudável, linda. — Ele faz uma

careta. — Se bem que isso muda com a chegada de Brandon.

— Ele chega quando? — ela pergunta, surpreendendo a todos nós.

Kane sorri de lado.

— Interessada no meu irmão?

— Claro que não! — afirma, para logo questionar. — Vocês são

irmãos?

— Meio irmãos.

— Sério? — Arregala os olhos.

— Meu pai se casou com a mãe dele quando éramos crianças. — Ela

apenas move a cabeça em resposta que entendeu.

— Então, posso deduzir que o Honey bun[8] também estará de volta

— pergunta.

Ele abre um sorriso lindo.

— Como sabe que chamo ele assim? — Kane questiona.

— E quem não sabe? — ela devolve.

— Amanhã é a primeira festa da Khapa Alfa. Não sei se já foram

convidados...

— Não fomos — Andrew fala rápido e Kane sorri de lado por sua

afobação.

— Em que festa nós iriamos, então? — Taylor pergunta, franzindo a

sobrancelha.

— Quem se importa? — Andrew responde, fazendo todos nós

rirmos.

— Vou esperar vocês lá. — Então se vira para Taylor. — Eu pediria

seu número, mas tá na cara que tem uma quedinha pelo meu Teddy Bear[9]. E

quer saber? Ele se deitaria para você rolar por cima.

— Não quero nada com seu irmão. Foi só uma curiosidade — ela

fala séria.

— Sei — fala, já se levantando. — A gente se vê.

Fala para todos nós, dá duas batidinhas na mesa e vai em direção a

onde costumam ficar, como diz Taylor, a elite.

— Esse boy é muito quente — Andrew diz, puxando a gola da sua

camisa.

— Sabe, amiga — Taylor me olha. — Acredito que esse ódio pelo

tal Brandon é...

— Tesão incubado — Andy decreta e eu confirmo com um mover de

cabeça.

— Eu já falei, ele é um babaca egocêntrico — ela responde e

emenda, desconversando. — Sobre as roupas, não sei se tenho algo decente.

Não costumo sair.

— Tudo que eu trouxe é bem normal...

— Vamos às compras! — Andrew rebate, animado.

— Eu trabalho hoje à tarde, amigo — Taylor fala desanimada, mas

logo sorri. — Porém, amanhã de manhã é minha folga.

— Resolvido! Amanhã vamos às compras, depois vamos para o meu

apartamento. Passamos o dia lá e à noite vamos juntos a festa.

Taylor e eu nos olhamos, ela apenas dá de ombros e eu suspiro,

sabendo que questionar Andrew nem sempre é a melhor saída. Lembro de

minha mãe dizendo para eu viver todas as experiências. É isso que vou fazer.

— Essa blusa é muito chamativa. — Estendo o pedaço de pano no ar.

— Isso mal vai cobrir meus seios.

— Essa blusa é ótima — Andy rebate.

— Mas…

— Penso que não vou ter coragem de usar essa roupa — Taylor

murmura do provador, parecendo tão aterrorizada quanto eu.

Andy caminha até onde ela está e abre a cortina sem cerimônia

alguma.

— Caralho! — exclama, surpreso. — Eu sabia que ficaria bem em

você, mas nossa…

Vou até o encontro dos dois e a primeira coisa que vejo é a bunda

muito bem desenhada de Taylor em uma calça jeans. Ela tem uma senhora

bunda. Levanto os olhos por suas costas, vendo um body rendado preto para

encontrar seu reflexo pelo espelho, notando seus seios moldados em um

decote generoso. O resto da renda se agarra em sua cintura, deixando pontos

estratégicos expostos pelo tecido fino. A calça jeans parece ainda mais

perfeita em suas coxas grossas do que na parte traseira.

— Você está gostosa, amiga! — exclamo e ela ri sem jeito.

— Não sou acostumada a mostrar tanto…

— Sorte sua que agora me tem em sua vida! — Andy diz orgulhoso.

— Vou passar frio… — ela tenta.

— Não vai. Aquele lugar vai estar lotado, calor humano, galega. —

Pisca para ela, que revira os olhos.

— Quem sabe o tal Brandon aparece? — Jogo no ar.

— Pelo amor de Deus, eu já disse que não quero nada com esse

menino! — Ela empurra Andy e eu para fora e fecha a cortina.

Nós nos entreolhamos em um claro “aí tem”.

— Agora é sua vez, princesa. — Ele segura minha cintura, me

empurrando até o provador. — Vamos, não enrole.

E eu não enrolo.

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