Capítulo 2

Ponto de Vista da Isla:

Não dormi. Toda vez que fechava os olhos, via a marca da mordida no pescoço dela.

A memória de três semanas atrás me invadiu. Eu estava sozinha na clínica, organizando ervas. De repente, uma dor explodiu no meu peito — uma sensação de queimação, como um ferro em brasa pressionado contra meu coração. Caí de joelhos, ofegante, pensando que estava tendo um ataque cardíaco.

Agora eu sabia o que era. Foi o momento em que Damien se uniu a ela. O momento em que o corpo dele traiu o nosso.

Lembrei-me dele chegando tarde naquela noite. Cheirava a Folhas de Louro. Na época, pensei que ele estivesse patrulhando as fronteiras perto da orla da floresta onde as árvores de Louro cresciam.

Fui uma tola. Folhas de Louro eram usadas nos antigos rituais de cortejo das alcateias do Norte. Serafina era do Norte. Ele não estava patrulhando. Estava cortejando-a.

Meu computador apitou, quebrando meu transe.

Eram 4:00 da manhã. A tela brilhava no quarto escuro. Abri o cliente de e-mail seguro.

*Para: Curandeira Isla*

*De: A Antiga Guilda dos Curandeiros, Zurique*

*Assunto: Convite para o Alto Conselho*

*Prezada Curandeira Isla, sua pesquisa sobre a regeneração da Essência Prateada chamou a atenção dos Grandes Anciãos. Nós a convidamos formalmente para se juntar à Guilda na Suíça. Esta posição oferece santuário total e imunidade da política das Alcateias.*

Minha mão pairou sobre o mouse. A Guilda era território neutro. Nenhum Alfa, nem mesmo Damien, poderia exigir meu retorno se eu estivesse sob a proteção deles. Era o único lugar na terra onde eu estaria segura dele.

Cliquei em *Aceitar*.

Levantei-me e caminhei até minha sala de boticário. Era meu santuário dentro do apartamento. Prateleiras forravam as paredes, cheias de potes de raízes secas, cristais e líquidos.

Comecei a empacotar. Não roupas — roupas podiam ser compradas. Empacotei minhas ferramentas. Minhas agulhas de prata. Meu raro pólen de Poeira Estelar.

A porta da frente apitou. Damien entrou. Estava usando seu equipamento de corrida, o suor brilhando na testa. Parecia vibrante, vivo. Não parecia um macho que havia destruído a alma de sua companheira.

Ele viu as caixas na mesa.

"Limpeza de primavera?", perguntou casualmente, pegando uma barra de proteína.

"A cerimônia está cancelada", disse. Não levantei os olhos do pote de acônito seco que estava selando.

A sala ficou em silêncio. A embalagem da barra de proteína estalou quando a mão dele apertou.

"Isla, pare com isso", disse ele, a voz caindo uma oitava. "Nós conversamos sobre isso. Você está chateada com Serafina. É temporário."

"Não é temporário", disse, finalmente me virando para encará-lo. "E não estou chateada. Estou farta."

"Você não pode cancelar a cerimônia!", gritou Damien. "Os convites foram enviados para todos os Alfas do continente! Minha reputação está em jogo!"

"Sua reputação?", ri. Foi um som seco e quebradiço. "Você desfila sua amante pela casa da alcateia usando sua marca, e se preocupa com sua reputação?"

Damien atravessou a sala em dois passos largos. Agarrou meus ombros. Seu aperto era forte, machucava.

"Ela não é minha amante! Ela é uma paciente! E você é minha Companheira!"

Ele caiu de joelhos.

O grande Alfa Damien, o Lobo do Oeste, estava de joelhos na nossa cozinha. Agarrou minhas mãos.

"Isla, por favor", disse ele, os olhos frenéticos. "Eu preciso de você. Você é meu equilíbrio. Sem você, meu lobo fica inquieto. Vou compensar você. O casamento será magnífico. Vou te comprar diamantes, um carro novo, qualquer coisa."

Por um segundo, meu coração vacilou. Aquele era o homem que eu amava desde os dezoito anos. O homem que quase morri para salvar. O desespero dele parecia real.

*Ding.*

As portas do elevador se abriram diretamente na sala de estar.

Serafina saiu. Usava um roupão de seda que mal cobria suas curvas. Segurava a mão sobre a barriga, um sorriso pequeno e secreto nos lábios.

"Damien?", chamou ela suavemente. "O bebê... acho que ele está chutando. Ou se mexendo. Sinto algo estranho."

A cabeça de Damien virou bruscamente para ela. Ele largou minhas mãos como se fossem brasas. Levantou-se do chão e correu para o lado dela.

"É muito cedo para chutar", disse ele, a voz cheia de preocupação terna. "Você está com dor? Precisa do médico?"

Ele colocou a mão grande sobre a barriga dela. Acariciou-a.

Ele havia esquecido que eu existia.

Observei-os. O quadro de uma família feliz. O Alfa, a mãe e o herdeiro.

Meu coração não doía mais. Apenas parou. Transformou-se em uma pedra fria e dura no meu peito.

"Os efeitos colaterais começaram muito antes da marcação, Damien", eu disse.

Ele não me ouviu. Estava ocupado demais sussurrando para a barriga de Serafina.

Voltei para o meu quarto. Arranquei o calendário da parede.

Peguei o marcador vermelho. Risquei "Dia do Casamento".

Em letras garrafais, escrevi: *DIA DA PARTIDA.*

Olhei para a data. Doze dias.

Meu telefone vibrou com a confirmação da Guilda. *Voo agendado. Zurique. Só ida.*

Olhei para minha mão. Sob a pele, uma leve luz prateada pulsava em minhas veias. Era minha Essência Prateada, o poder de uma Alta Curandeira. Estivera adormecida por anos, drenada pelos meus constantes sacrifícios por esta alcateia ingrata.

Agora, estava acordando.

Damien pensava que eu era apenas uma fêmea ciumenta. Pensava que eu era fraca.

Ele não tinha ideia do que acabara de libertar.

Capítulo 3

Ponto de Vista da Isla:

A Rede da Alcateia estava pegando fogo.

Rolei pelo feed interno de mídia social no meu tablet. Uma foto estava em alta. Era um recibo. Um recibo de uma raiz de Ginseng de Sangue de três mil dólares.

Ginseng de Sangue era a erva pré-natal mais potente que existia. Era usada para garantir o nascimento de descendentes Alfas poderosos.

*Alfa Damien não poupa despesas para a Salvadora da Alcateia!*, dizia a legenda.

Os comentários eram nauseantes.

*Usuário LobaGirl99: Tão romântico! Ele cuida tão bem dela.*

*Usuário QueroSerLuna: Ouvi dizer que ela carrega um guerreiro. Finalmente, um herdeiro forte para a Sombra da Lua.*

*Usuário BuscadorDaVerdade: E a Isla? Ela não é a companheira?*

*Usuário FãDoAlfa: Isla é só uma médica. Ela é sem graça. Serafina tem fogo.*

Desliguei a tela. Eu estava sentada no "Esconderijo", uma pequena cafeteria na periferia da cidade, longe da casa da alcateia.

"Ele comprou Ginseng de Sangue para ela?", sibilou Cléo. Ela bateu seu café com leite na mesa. "Ele está louco? Isso é praticamente um pedido de casamento em forma de erva!"

Cléo era minha única amiga. Era uma Beta, uma guerreira com língua afiada e lealdade ainda mais feroz.

"Ele acha que está salvando o futuro da alcateia", disse calmamente, mexendo meu chá.

"E a alcateia está engolindo tudo", rosnou Cléo. "Eles esqueceram tudo o que você fez. As epidemias que você parou. Os guerreiros que você costurou de volta. Agora você é apenas... invisível."

"Prefiro invisível", disse. Deslizei uma pasta pela mesa para ela. "Olhe isso."

Cléo abriu. Era a cópia do ultrassom de Serafina que eu havia imprimido do servidor.

"Seis semanas?", os olhos de Cléo se arregalaram. "Mas... a linha do tempo..."

"Exatamente", eu disse.

"Aquele bastardo", sussurrou Cléo. "Ele estava te traindo. Antes da desculpa da 'dívida de vida'. Antes de tudo."

"Vou embora, Cléo", eu disse.

Ela olhou para cima, lágrimas se formando em seus olhos. "Embora do apartamento?"

"Embora do país", disse. "Vou para a Europa. A Guilda dos Curandeiros."

Cléo estendeu a mão sobre a mesa e agarrou a minha. "Me leve com você. Serei sua guarda-costas. Mordo qualquer um que chegar perto."

Sorri, um sorriso genuíno pela primeira vez em dias. "Você tem um companheiro aqui, Cléo. Você tem uma vida. Preciso que você fique. Preciso de alguém para contar a verdade quando eu me for. Mas você não pode dizer uma palavra até meu avião estar no ar."

"Eu prometo", disse ela. "Juro pela minha loba."

Naquela noite, voltei tarde para o apartamento. Havia participado de um seminário sobre remédios fitoterápicos para manter as aparências. O ar lá fora estava congelante, um vento amargo uivando pelas ruas da cidade.

As portas do elevador se abriram. Damien estava parado no corredor.

Parecia furioso. Seus olhos brilhavam em um vermelho profundo e ameaçador — seu lobo estava perto da superfície.

Ele marchou em minha direção, agarrando meu braço e me puxando para perto. Enterrou o nariz no meu pescoço, inalando profundamente.

"Onde você esteve?", rosnou.

"Trabalhando", disse, tentando me afastar.

"Você cheira a ele", rosnou Damien. "Um macho. Desconhecido. Pinho europeu e livros velhos."

Percebi que ele estava sentindo o cheiro do médico francês ao lado de quem me sentei no seminário.

"Era um colega, Damien. Me solte."

"Você é minha!", rugiu ele. As paredes tremeram. "Você não carrega o cheiro de outros machos! Vá se lavar! Agora!"

"Eu sou sua?", ri amargamente. "Como você é meu? Você cheira a ela todo santo dia, Damien. Você cheira ao xampu dela, à pele dela, à luxúria dela. E ousa me dar sermão sobre cheiro?"

"É diferente!", gritou ele. "Eu sou o Alfa! Faço o que devo!"

Ele agarrou meu rosto com as duas mãos, forçando-me a olhar em seus olhos vermelhos brilhantes.

*Abra sua mente para mim, Isla.*

Ele forçou a abertura do Elo Mental. Geralmente, exigia consentimento, mas um Alfa podia derrubar as barreiras mentais de um membro da alcateia.

Ele inundou minha mente com suas emoções. Queria que eu sentisse sua dominância, sua possessividade.

Mas junto com isso veio outra coisa.

Alegria. Pura e absoluta excitação.

Imagens passaram pela minha mente — imagens da perspectiva dele. Ele imaginava um garotinho de cabelos escuros e olhos cinzentos. Um filho forte. Um herdeiro Alfa.

Ele estava projetando seu amor pelo filho não nascido de Serafina diretamente no meu cérebro.

Era agonizante. Era como se ele estivesse me forçando a assistir a um filme dele amando outra família.

"Saia da minha cabeça!", gritei.

Convoquei cada grama da minha vontade. Não conseguia empurrá-lo com força, então usei a dor. Foquei no coração partido, na traição, na agonia aguda do vínculo quebrado. Transformei minha tristeza em arma e a disparei de volta contra ele através do elo.

Damien engasgou e tropeçou para trás, segurando a cabeça. A conexão se partiu.

Ele olhou para mim, piscando, a confusão substituindo a raiva.

"Isla...?"

"Nunca mais faça isso", sussurrei, tremendo.

Virei-me para a porta do quarto.

"Espere", disse Damien. Sua voz estava fria novamente, o momento de confusão se foi. "Há uma mudança na programação."

Parei, a mão na maçaneta.

"O Ritual da Piscina da Lua", disse ele. "Precisamos mudá-lo."

Não me virei. "Ok."

"Não, Isla. Você não entende. Serafina... o médico diz que o bebê precisa de energia espiritual. A Piscina da Lua tem a essência concentrada mais pura."

Meu sangue gelou. O Ritual da Piscina da Lua era a cerimônia sagrada onde a Luna se banhava nas águas santas da alcateia para abençoar seu reinado. Era meu direito de nascença. Era a maior honra que uma loba poderia receber.

"Você quer dar a ela o meu ritual", eu disse.

"Ela precisa disso para a criança", disse Damien defensivamente. "É só água, Isla. Você pode fazer ano que vem. A alcateia precisa de um herdeiro saudável."

Ele estava me tirando tudo. Minha dignidade. Meu lar. Meu título. Agora, minha fé.

"Tudo bem", eu disse.

"Tudo bem?" Ele parecia surpreso. Esperava uma briga.

"Dê a ela", eu disse. "Dê tudo a ela."

Abri a porta e entrei, trancando-a atrás de mim.

Não chorei. Eu tinha acabado de chorar.

Olhei para o calendário.

Dez dias.

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