POV Aurora
O champanhe na minha taça ficou quente, mas a memória do sangue de Caio em minhas mãos ainda é implacavelmente gelada.
Não consigo parar o flashback. Ele me atinge bem ali no salão de festas, sobrepondo-se aos rostos risonhos da elite do Clã como um filme de dupla exposição.
De repente, estou de volta à faculdade. A lanchonete onde eu fazia turnos duplos para pagar os livros de arquitetura.
Caio costumava sentar no reservado do canto, com um café preto que nunca bebia, me observando com olhos que pareciam um toque físico.
Ele já era perigoso naquela época. Ele dirigia um SUV blindado, mas me levava para casa todas as noites, deixando-o estacionado a três quarteirões de distância para não me assustar.
Ele interpretou perfeitamente o papel do garoto durão do lado errado da cidade.
Então veio o ataque.
Uma gangue rival. Um tiroteio de dentro de um carro, destinado a ele, na beira do campus.
Ele não se abaixou. Ele não hesitou. Ele jogou seu corpo sobre o meu.
Lembro-me do som da bala atingindo a carne. Parecia um tapa molhado no concreto. Lembro-me da mancha vermelha se espalhando por sua camiseta branca, da maneira como ele cerrou os dentes e olhou para mim — não para sua ferida, mas para mim — para verificar se eu tinha arranhões.
"Você é a única civil que eu vou proteger, Aurora", ele sussurrou na clínica clandestina enquanto o médico da máfia retirava o chumbo. "Você é minha para manter segura."
Eu acreditei nele. Deus, como eu estava faminta por essa segurança. Eu era uma garota com um pai viciado em jogo e uma mãe morta cujo nome era lama nesta cidade. Caio me ofereceu uma fortaleza.
Mas fortalezas são apenas prisões com paredes mais bonitas.
"Sorria, Aurora!"
A voz aguda de Karina me arrasta de volta ao presente com a sutileza de um tiro.
Um fotógrafo está na nossa frente. Karina passou o braço pelo meu, seu aperto machucando. Ela está me puxando para a foto.
"Precisamos de uma foto com a *amiga*", ela diz, enfatizando a palavra com uma inclinação cruel da cabeça.
O flash me cega.
Caio entra na foto. Ele envolve um braço na cintura de Karina e a puxa para si. Ele a beija.
Não é um beijo casto. É uma reivindicação. Uma performance de poder para a imprensa.
Ele a beija com a mesma boca que me disse que me amava esta manhã.
Sinto o bile subir na minha garganta.
Eu me afasto, tropeçando para trás. "Eu preciso... ir ao banheiro."
Eu fujo em direção ao guarda-volumes, meus saltos batendo um ritmo frenético no mármore.
Não chego ao banheiro. Caio me alcança no corredor estreito perto do guarda-volumes.
Ele agarra meu cotovelo, me virando. Seu aperto é familiar, mas agora queima.
"Que diabos você está fazendo?", ele sibila. "Você está fazendo uma cena."
"Eu estou fazendo uma cena?", eu rio, um som quebrado e irregular. "Você acabou de pedir outra mulher em casamento na minha frente, Caio. Você deu a ela o anel da sua mãe."
Ele suspira, passando a mão pelo cabelo. Ele parece irritado, como se eu fosse uma criança fazendo birra por um brinquedo que ele se recusou a comprar.
"São negócios, Aurora. Você sabe como isso funciona. O território dos Valente faz fronteira com o nosso. É uma fusão. Isso não muda a gente."
"Isso muda tudo!", eu tento puxar meu braço, mas ele segura mais forte.
"Pare com isso", ele ordena. Sua voz baixa uma oitava. "Estou fazendo isso por nós. Com a aliança Valente, eu garanto a cadeira de Chefe. Terei dinheiro suficiente para te bancar em qualquer lugar. Já aluguei o apartamento na Paulista. A cobertura. É sua."
"Eu não quero um apartamento", eu sussurro. "Eu queria você."
"Você me tem", ele diz, aproximando-se, me encurralando contra a parede. Ele cheira a uísque caro e traição. "Karina é apenas um título. Ela é a Sra. no papel. Você é a minha garota. Você sempre foi a minha garota."
Ele enfia a mão no bolso do paletó e tira uma bolsinha de veludo.
"Aqui", ele diz, pressionando-a na minha mão. "Pelo incômodo."
Eu abro. Brincos de diamante. Pesados. Caros.
Dinheiro para me calar.
"Você acha que pode comprar meu silêncio?", eu pergunto.
"Acho que posso comprar sua obediência", ele diz, seus olhos escurecendo. "Seja esperta, Aurora. Você não tem para onde ir. Seu pai está se afogando em dívidas. Sua mãe está morta. Sem mim, você é uma presa."
Ele está certo. Ou estava, cinco minutos atrás.
Antes de eu mandar a mensagem para Heitor Montenegro.
"Vamos", ele diz, ajustando as abotoaduras. "O carro está esperando. Karina vai com a gente. Seja educada."
A viagem para casa é um cortejo fúnebre para o meu coração.
Eu sento de frente para eles no banco de trás da limusine. Karina está bebendo champanhe, com as pernas sobre o colo de Caio.
"Então", Karina diz, olhando para mim por cima da borda da taça. "Aqui estão as regras, Aurora. Já que o Caio é sentimental."
Ela levanta um dedo.
"Um. Você nunca liga para ele depois das 22h. Esse é o meu tempo."
"Dois. Sem aparições públicas, a menos que eu autorize."
"Três. Você não engravida. Se engravidar, você resolve."
Caio não diz nada. Ele apenas observa a cidade passar, sua mão acariciando o tornozelo de Karina distraidamente.
"E Aurora?", Karina sorri. "Você deveria me agradecer. A maioria das esposas mandaria te esfolar. Eu estou deixando você manter suas penas."
Eu olho pela janela para as luzes borradas da cidade.
*O preço é o casamento.*
Eu aperto meu celular no escuro.
*Estou pronta para pagar.*
POV Aurora
As portas do elevador se abriram diretamente na cobertura. *Nossa* cobertura.
Ou pelo menos, era.
Eu saí, meus saltos afundando no tapete felpudo que eu escolhi no ano passado. O cheiro de baunilha e sândalo — minhas velas — ainda pairava no ar.
"Nossa, isso aqui cheira a uma confeitaria." Karina torceu o nariz, passando por mim como se estivesse evitando um cheiro ruim. "Vamos ter que reformar este lugar. É muito... doméstico."
Caio a seguiu, afrouxando a gravata. Ele nem olhou para mim.
"Karina vai ficar com a suíte principal", ele disse, com a voz neutra. "Mova suas coisas para o quarto de hóspedes, Aurora."
Eu congelei. "Como é que é?"
"O quarto de hóspedes", ele repetiu, finalmente encontrando meus olhos. Não havia pedido de desculpas neles, apenas o pragmatismo frio de um Capo dando ordens. "Precisamos da suíte principal. Tem o cofre e a linha segura."
"Esta é a minha casa", eu disse, minha voz tremendo.
"É minha propriedade", Caio corrigiu suavemente. "Eu pago a hipoteca. Eu pago a luz. Eu pago as roupas que você veste."
Ele passou por mim em direção à cozinha, servindo-se de uma bebida sem olhar para trás.
Eu fiquei ali, minha pele queimando de humilhação. Karina já estava caminhando em direção ao nosso quarto — *meu* quarto.
Eu me virei e marchei para a suíte principal. Karina estava parada ao lado da cama, passando a mão na colcha que eu comprei para o nosso aniversário.
"Gracioso", ela murmurou. Ela me olhou com as sobrancelhas arqueadas. "Ah, você ainda está aqui? Caio disse quarto de hóspedes. Rápido, rápido."
Peguei minha mala do armário. Comecei a jogar roupas dentro dela. Não para o quarto de hóspedes. Para a porta.
Eu não ia ficar aqui. Eu dormiria em um banco de praça antes de dormir no mesmo corredor que eles.
Caio apareceu na porta, copo na mão. Ele me observou fazer as malas com um divertimento distante.
"Não seja dramática", ele disse. "Você está fazendo as malas para o apartamento na Paulista? Tudo bem. Mando um motorista levar suas caixas amanhã. Apenas pegue o que precisa para esta noite e vá para o quarto de hóspedes."
Ele achava que eu estava me mudando para o apartamento de amante. Ele não conseguia conceber um mundo onde eu realmente o deixaria.
"Eu não vou para o apartamento", eu disse, fechando a mala com um estalo decisivo.
"Então para onde você vai?", ele riu. "Para a casa do seu pai? Ele te vende de volta para mim por uma ficha de pôquer."
Eu não respondi. Apenas passei por ele.
Ele agarrou meu braço. "Aurora. Pare."
"Me solta."
"Você vai ficar", ele ordenou. "Temos uma reunião de café da manhã aqui amanhã. Preciso que você cozinhe. Karina não cozinha."
Eu o encarei, incrédula. "Você quer que eu faça panquecas para você depois de trazer sua noiva para a nossa cama?"
"Eu quero que você faça a frittata que eu gosto", ele disse, seu rosto endurecendo. "E pare de chamar de *nossa* cama. É um móvel."
Karina saiu do banheiro, agora vestindo um robe de seda. *Meu* robe de seda.
"Amor", ela disse para Caio, me ignorando completamente. *"Ho fame. Ordiniamo da quel posto francese?"* (Estou com fome. Vamos pedir daquele lugar francês?)
*"Sì, amore. Quello che vuoi,"* (Sim, amor. O que você quiser.) Caio respondeu, mudando sem esforço para o italiano.
Ele olhou para mim, depois de volta para ela, e continuou falando na língua rápida e lírica do nosso mundo — a língua dos negócios, dos segredos, da família.
Eu entendia italiano. Eu aprendi por ele. Mas ele fingia que não. Ele usava isso como um muro para me excluir, para me lembrar que eu era uma turista em seu país.
"Comida de plebeu me dá azia de qualquer maneira", disse Karina em português, olhando para o fogão onde os ingredientes para o nosso jantar de aniversário ainda estavam intocados.
Ela foi até a adega e pegou uma garrafa.
Minha respiração prendeu. Era um vinho tinto de safra. Uma das poucas garrafas que Caio guardava para ocasiões especiais.
Era também uma mistura pesada em sulfitos. Eu era gravemente alérgica. Caio sabia disso. Passamos uma noite no pronto-socorro há três anos com ele segurando minha mão por causa de uma garrafa igual a essa.
"Abra esta", disse Karina, entregando-a a ele.
Caio pegou a garrafa. Ele a desarrolhou sem hesitar. Serviu duas taças.
Ele nem olhou para o rótulo. Ele tinha esquecido. Ou pior, ele não se importava se eu parasse de respirar, desde que sua nova Rainha estivesse feliz.
Ele entregou uma taça para Karina. Eles brindaram.
Eu soltei a alça da minha mala. Eu não precisava de roupas. Eu precisava de ar.
Eu caminhei até a porta da frente.
"Aqui", Caio chamou. Ele não se virou. Ele apenas jogou algo na mesa de entrada de mármore. Aterrissou com um barulho de plástico.
Seu cartão Black.
"Vá comprar algo bonito para você", ele disse. "Esfrie a cabeça. Volte quando estiver pronta para se comportar."
Eu abri a porta.
Quando a trava clicou, ouvi Karina dar uma risadinha. Então ouvi o som de uma taça sendo posta na mesa, seguido pelo som suave e úmido de um beijo.
"Quarto", Caio rosnou, sua voz grossa de desejo.
Eu bati a porta, cortando o som. Mas o silêncio no corredor era mais alto. Ele gritava.