Capítulo 2

A festa de noivado terminou de forma abrupta, deixando um rastro de constrangimento que pesava sobre mim e minha família. Em poucas horas, todos já cochichavam pelas costas, me rotulando como a noiva que Jake havia abandonado no altar.

Minha mãe, mesmo com os olhos marejados, se posicionou diante de mim com a firmeza de uma leoa. Ela não deixou que os repórteres, impiedosos, se aproximassem.

Já meu pai, com a elegância de sempre, se limitou a pedir desculpas educadamente aos convidados.

Quando a noite caiu, finalmente, eles foram embora.

Mais tarde, a porta de nossa casa se abriu e Jake entrou carregando Elsie nos braços. Ela estava completamente encharcada, como se tivesse enfrentado uma tempestade, e ele a envolvia com gestos suaves, como quem embalava algo frágil.

Era a primeira vez que eu via Elsie de perto. Ela parecia um filhote assustado, vulnerável. Sua pele era de uma palidez quase translúcida, e seus olhos estavam vermelhos e úmidos.

Quando seus olhos cruzaram com os meus, ela recuou, se aconchegando ainda mais ao peito de Jake.

Jake franziu o cenho e, com um tom irritado disfarçado de preocupação, disparou: "Isabel, mude essa expressão. Você está assustando ela."

Ignorei e voltei a organizar minhas coisas, em silêncio.

Minha mãe surgiu da cozinha segurando uma tigela fumegante de sopa de frango. Ela passou por Jake sem sequer olhá-lo e veio direto até mim. "Isabel, tome um pouco, querida. Vai te aquecer."

Eu abri a boca para agradecer, mas o som de um choro interrompeu minhas palavras. "Jake, eu sinto tanta falta da minha mãe... Ninguém nunca fez sopa de frango para mim."

Jake limpou suas lágrimas com uma delicadeza revoltante. E então me lançou um olhar cortante. "Isabel, você sabe que Elsie não tem família. Acha mesmo apropriado exibir esse carinho todo com sua mãe na frente dela? Ela é sensível, inocente… Vai levar isso para o coração. Por que você precisa dificultar tudo?"

Sustentei o olhar dele e respondi, com frieza: "O fato de ela não ter família não é responsabilidade minha. E se você acha que estou dificultando algo, te garanto que não tenho tempo nem paciência para isso."

Eu nunca costumava discutir com Jake, muito menos nesse tom.

Por um instante, ele pareceu surpreso, logo em seguida, impaciente. "Mesmo que não seja sua culpa direta, você teve sua parcela no que aconteceu com Elsie. Se não tivesse insistido para que ela sumisse naquela época, ela não teria..."

Jake se interrompeu.

Ao olhar para a mão esquerda dele e perceber que o anel de noivado havia desaparecido, um sorriso amargo surgiu em meu rosto.

No fim, não importava o quanto ele fingisse ou tentasse parecer justo, a verdade sempre escapava pelas rachaduras.

Jake nunca havia me perdoado completamente e, pior ainda, nunca havia deixado de amar Elsie.

Engoli o nó na garganta. "Então, o que exatamente você quer?"

Jake desviou o olhar, como se fosse difícil me encarar. "Vou reservar um bom hotel para os seus pais, eles podem sair ainda hoje. A presença deles só vai deixar Elsie mais desconfortável. E você… bem, você vai cuidar dela pelos próximos dias."

Levantei o rosto e o encarei. "Eu vou embora com os meus pais."

Jake parecia não acreditar. Ele parou por um segundo e, em seguida, soltou um suspiro aliviado. "Isabel, você sempre foi tão compreensiva… Eu sabia que entenderia. Algumas pessoas não são boas para a recuperação dela. Mas não se preocupe… Quando tudo estiver mais calmo, vou te buscar."

Após dizer isso, ele avançou e tentou segurar minha mão — coisa que raramente fazia, e que agora, curiosamente, parecia estar disposto a fazer por causa de outra.

Seus dedos estavam quase tocando os meus quando Elsie o puxou de volta. "Jake, estou com muito frio…"

Jake virou a cabeça reflexivamente, viu os olhos de Elsie cheios de lágrimas e, sem dizer mais nada, a carregou apressadamente até o banheiro.

Pela porta entreaberta, vi quando ele se ajoelhou diante dela, retirando com cuidado a blusa molhada de seus ombros.

"Jake, eu consigo sozinha…"

Com tom de voz suave, ele respondeu: "Seja boazinha. Não se mexa O médico disse que seus pulsos ainda estão frágeis."

Observei as costas largas tão familiares dele, a mesma imagem do rapaz que, anos atrás, cuidava de mim com tanto zelo naquele pequeno apartamento alugado, logo após a faculdade.

Naquela época, um simples colar de prata era o suficiente para representar nosso amor.

Mas os tempos haviam mudado, e Jake também.

A dor apertou minha garganta e fechei os olhos, tentando conter as lágrimas. Talvez eu devesse ter percebido há muito tempo que ele não era mais o jovem que fazia meu coração disparar.

"Mas Jake, eu não voltarei nunca mais."

Nesse instante, compreendi que escapar do casamento havia sido um acerto. Pelo menos, não havia bens a partilhar, nenhuma guerra judicial à vista. Mesmo assim…

"Senhorita Douglas, os bens entre você e o senhor Shaw somam um valor significativo. Leva em torno de uma semana para finalizar a separação."

Eu acenei com a cabeça.

Como eu havia decidido terminar com Jake, não deixaria meus bens com ele. Eu estava esperando há sete anos, então mais uma semana não me mataria.

Quando voltei à empresa, os olhares eram inevitáveis. Cada passo pelos corredores era acompanhado por murmúrios curiosos e especulações silenciosas.

Só dentro do elevador pude respirar aliviada, ainda que por pouco tempo.

Foi então que percebi que os botões estavam cobertos por adesivos de coelho.

Minha assistente, Noreen Robertson, percebeu minha confusão e hesitou antes de explicar: "Foi a senhorita Davies quem colou. O senhor Shaw mandou deixar, já que isso a deixa feliz."

Noreen sabia das tensões entre mim e Jake, por isso, escolheu as palavras com cuidado. "Jake é um bom homem, Isabel. Só está cuidando dela porque… bem, porque ela não tem mais ninguém. Você é diferente, é a noiva dele."

Por muito tempo, eu acreditei nisso também, que Jake era apenas um bom samaritano, alguém que estendia a mão por piedade, mas, de repente, ele simplesmente deixou de me amar.

"Nós não temos mais nada", murmurei.

"Como disse?", Noreen perguntou, confusa.

Olhei para o coração rosa colado no botão do último andar e repeti com firmeza: "Jake e eu não temos mais nada."

Assim que terminei a frase, as portas se abriram.

Jake estava ali, parado, com uma Elsie sorridente em um vestido encantador atrás dele.

Capítulo 3

Talvez Jake tivesse escutado o que eu disse. E, pelo jeito como me olhava, definitivamente não gostou do que ouviu.

Elsie se aproximou com um sorriso infantil que me tirava do sério e disse: "Isabel, o senhor Shaw me levou a um jantar de negócios ontem à noite, e foi a primeira vez que vi tanta comida gostosa junta! Mas o melhor de tudo... foram os pastéis de nata! Ele pediu especialmente para mim. Disse que eram bons para minha saúde."

O ar estava impregnado com um perfume floral enjoativo, tão forte que me vi cobrindo o nariz e soltando uma tosse discreta.

Resolvi ignorar Elsie, mas Noreen não deixou barato. "Você devia chamá-la de senhorita Douglas aqui no escritório, Elsie, não sabia disso?"

Bastava esse pequeno lembrete para Elsie desmoronar. Ela se encolheu atrás de Jake, com os olhos marejados como se tivesse sofrido uma crueldade imperdoável.

Jake, protetor, acariciou sua cabeça com delicadeza, tentando acalmá-la. Em seguida, lançou um olhar gélido na minha direção, dizendo: "Controle sua assistente. Estamos no ambiente de trabalho. Isso aqui não é lugar para descontar sentimentos pessoais."

Elsie disfarçou bem a satisfação que passou por seus olhos e logo se agarrou ao braço de Jake, com a voz trêmula e um olhar fingidamente aflito. "Senhor Shaw, a culpa foi minha... Por favor, não seja tão duro com a senhorita Douglas."

Jake pareceu prestes a me dizer algo, mas eu fui mais rápida: segurei o braço de Noreen e a puxei para fora do elevador.

"Isabel, ainda não terminei de falar com você!", ele exclamou.

Respirei fundo, me virei devagar e o encarei sem demonstrar nenhuma emoção. "Você me chamou de Isabel? Já esqueceu o que disse há pouco? Desde quando tem o direito de falar meu nome assim, com essa familiaridade toda? Você é o vice-presidente, senhor Shaw."

O ar parecia pesar ao redor de Jake.

Ele ficou paralisado por um instante, como se estivesse diante de uma estranha, então estendeu a mão na minha direção, hesitante. "Isabel, eu não quis..."

"Plaft!" A mão dele parou no ar, levemente avermelhada onde minha palma havia acertado.

Uma pequena multidão começava a se formar no corredor, mas eu ignorei completamente. "Senhor Shaw, eu o contratei com um bom salário para que contribuísse com a empresa, não para tratar seus dramas amorosos aqui dentro. Se não consegue separar o pessoal do profissional, terei que reconsiderar se está mesmo preparado para o cargo que ocupa."

O silêncio caiu como uma pedra. De repente, Elsie soltou um grito melodramático: "Senhor Shaw, você está bem? Dói? Eu não queria causar esse clima entre você e a senhorita Douglas..."

Com lágrimas falsas escorrendo pelo rosto, ela segurou a mão dele e a esfregou com cuidado, como se fosse algo sagrado. E então, para o espanto geral, ela se ajoelhou diante de mim, implorando: "Senhorita Douglas, eu sou nova nisso tudo... não entendo direito como funcionam essas coisas de escritório. Se eu disse algo que a ofendeu, me castigue como quiser. Eu aguento! Mas, por favor, não trate o senhor Shaw assim. Ele é um homem tão bom, e eu amo..."

Elsie não terminou, mas não precisava, pois todos entenderam exatamente o que ela queria dizer.

Jake, que parecia perdido até então, finalmente reagiu — primeiro olhou para mim, depois para Elsie, em prantos no chão, se abaixou e a pegou nos braços.

Diante de todos, ele declarou com frieza: "Peço desculpas se minha mulher lhe causou problemas, senhorita Douglas. Da próxima vez, serei mais cuidadoso."

Em seguida, ele saiu sem olhar para trás, e eu me senti completamente amargurada.

Quando a porta do escritório se fechou, as lágrimas que estavam acumuladas em meus olhos caíram. Talvez eu tivesse chorado não por causa de Jake, mas pela Isabel de sete anos atrás.

Sozinha, fui à conferência de negócios. Depois de algumas taças de vinho com os parceiros comerciais, vi Jake surgir na entrada com Elsie ao lado.

Ainda havia ecos do nosso noivado recente no ar, o que deixava muitos empresários em dúvida sobre como nos abordar.

Após me aproximar, estendi o roteiro do discurso a Jake com tranquilidade. Ele seria o responsável por apresentar nossos novos produtos esta noite.

Antes que ele pudesse pegar, Elsie tomou o papel das minhas mãos. "Ah, esse é o roteiro de apresentação? Parece fácil. Jake... digo, senhor Shaw, posso tentar depois?"

Entendendo bem o que ela queria, interrompi de imediato. "Essa apresentação é importante, e você nem conhece as especificações do produto..."

"Ela pode fazer isso." Jake se colocou entre mim e Elsie e me lançou um olhar indiferente. "Este é meu dever. Elsie é minha secretária, então é normal que ela fale em meu nome."

Travei a mandíbula, sentindo o gosto amargo da decepção. Jake sabia exatamente o quanto significava para mim esse projeto, no qual eu havia trabalhado quase três anos com minha equipe.

"Isabel, ela precisa de oportunidades para crescer. Nem todo mundo tem os privilégios com os quais você nasceu."

Seu olhar firme me tirou o chão. Como ele, que sabia melhor que ninguém o quanto lutei, podia dizer isso?

Mas não havia mais tempo para argumentar, pois o apresentador já anunciava o início da apresentação.

Diante de uma plateia repleta de profissionais do setor e jornalistas, Elsie subiu ao palco.

O desastre veio rápido. Elsie gaguejava, perdia o fio da meada, e errava dados básicos, mal conseguindo concluir a primeira parte. Com o rosto vermelho e os olhos lacrimejando, ela murmurou: "Jake..."

Jake estava ao meu lado. Ele fechou os lábios com força, refletindo por um instante, até se levantar com firmeza. Seu olhar cruzou o meu, e por um segundo vi culpa em seus olhos.

Jake atravessou o salão sob os cochichos do públic, pegou o microfone das mãos de Elsie e a abraçou. "Sinto muito, pessoal. Minha secretária ainda não está familiarizada com as operações de mercado. A partir de agora, eu mesmo conduzirei a apresentação."

Fiquei imóvel, observando os dedos dos dois entrelaçados.

Jake falou com segurança, cativando a plateia.

Quando ele terminou, os aplausos foram estrondosos, e as câmeras se ergueram, enquanto os repórteres corriam até ele e Elsie.

"Senhor Shaw, é verdade que houve um desentendimento entre o senhor e a senhorita Douglas no noivado? Essa moça seria seu novo amor?"

"A relação entre você e a senhorita Douglas se tornou irreconciliável?"

"Poderia nos contar mais sobre essa jovem ao seu lado?"

Em meio ao bombardeio de perguntas, o olhar de Jake recaiu sobre mim mais uma vez.

Mas eu já não prestava atenção, pois a tela do meu celular havia se acendido.

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