Lys Cavalcante não dormiu bem.
Não por causa do fuso.
Nem do jantar.
Mas pela sensação incômoda de estar sendo observada - algo que ela detestava.
Na manhã seguinte, desceu cedo. Óculos escuros, postura firme, passos objetivos. Quando chegou ao elevador, apertou o botão com mais força do que o necessário.
As portas se abriram.
Erick Montreal estava lá dentro.
Sozinho.
Ela travou por meio segundo. O suficiente para ele perceber.
O suficiente para confirmar que não fora imaginação.
- Bom dia - ele disse, neutro, dando um passo para o lado. - Pode entrar. Ou espero o próximo.
Ela entrou.
As portas se fecharam com um som suave demais para o silêncio que se instalou.
- Não se preocupe - Lys disse, sem olhá-lo. - Não vou acusar você de me seguir... hoje.
O canto da boca dele se moveu, quase um sorriso.
- Agradeço o voto de confiança.
- Não é confiança - ela corrigiu. - É observação.
O elevador começou a descer.
- Você saiu cedo ontem - ele comentou.
- Eu sempre saio quando percebo expectativas não combinadas.
- E eu fiquei - ele respondeu. - Tentando entender por quê.
Ela o encarou pela primeira vez naquela manhã. Os olhos azuis estavam atentos, frios, mas curiosos apesar de si.
- E chegou a alguma conclusão?
- Que você não gosta de atalhos.
- Que você está acostumado a oferecê-los.
Ele aceitou o golpe com tranquilidade.
- Verdade - disse. - Mas também sei respeitar quando alguém diz não.
- Muitos homens dizem isso - Lys respondeu. - Poucos agem assim.
O elevador parou em um andar intermediário. As portas se abriram. Ninguém entrou. Fecharam-se de novo.
O espaço pareceu menor.
- A bebida que você recusou - Erick disse - não era um convite.
- Sempre é - ela rebateu. - Gentilezas raramente são neutras.
- Então considere isso - ele falou, sério -: eu não espero nada de você. Nem conversa. Nem simpatia.
Ela cruzou os braços.
- E por que está falando comigo, então?
- Porque seria covardia fingir que não notei você.
- Notar não dá direito a aproximação.
- Concordo - ele respondeu. - Por isso estou pedindo permissão agora.
O elevador desacelerou.
- Permissão para quê?
- Para tomar um café. Em público. Sem cortesia. Sem expectativa.
As portas se abriram no térreo.
Lys não respondeu de imediato. Saiu do elevador, caminhou alguns passos. Erick não a seguiu.
Isso contou pontos.
Ela parou. Virou-se.
- Café não é um sim - disse.
- Eu sei - ele respondeu. - É só café.
Ela o observou por alguns segundos. Não o homem bonito. Não o CEO.
O homem que soube parar.
- Trinta minutos - disse ela. - Depois disso, cada um segue seu caminho.
Erick assentiu.
- Combinado.
Enquanto caminhavam em direções opostas pelo lobby, ambos sabiam:
aquilo não era um encontro.
Era um teste.
E nenhum dos dois tinha certeza de quem estava avaliando quem.
Lys Cavalcante chegou ao café exatamente no horário combinado.
Pontualidade era uma forma silenciosa de controle.
Com seus 24 anos, ela já aprendera a não oferecer mais do que pretendia sustentar. A postura firme compensava a estatura delicada de 1,59, e ainda assim ninguém duvidava da segurança com que ocupava o espaço.
Erick Montreal a aguardava em uma mesa lateral.
Aos 39 anos, 1,80 de altura, presença marcante mesmo sentado, ele não se levantou de imediato - não por descaso, mas para não invadir. Observou quando ela se aproximou, avaliando cada gesto.
- Trinta minutos - ela lembrou, sentando-se.
- Estou contando - ele respondeu, olhando discretamente o relógio.
O café chegou. Conversa contida. Perguntas simples. Nenhuma invasão.
Até que o passado decidiu não respeitar limites.
- Lys?
A voz veio de trás. Grave. Familiar demais.
O corpo dela reagiu antes do rosto. Ombros rígidos. Respiração presa por um segundo - imperceptível para quase todos, mas não para Erick.
Ela virou devagar.
- Eu sabia que era você.
O homem se aproximou sorrindo, confiante demais. Mais alto que ela, postura de quem se sentia no direito de ocupar espaço.
- Quanto tempo... - ele disse. - Não esperava te ver aqui. Sozinha.
Erick permaneceu sentado, observando.
Esperando.
- Estou acompanhada - Lys respondeu, firme, sem olhar para ele.
O homem finalmente percebeu Erick. Avaliou-o dos pés à cabeça. O terno sob medida. A calma controlada. A diferença de presença era gritante.
- Desculpe - disse ele, forçando simpatia. - Sou Henrique.
Erick se levantou então. Devagar. A diferença de 1,80 contra 1,59 não era só física - era postura, domínio silencioso.
- Erick - respondeu. Nada mais.
Henrique voltou-se para Lys.
- Você sumiu - comentou. - Nunca respondeu minhas mensagens.
Ela sustentou o olhar.
- Porque algumas conversas terminam quando uma pessoa vai embora antes do que prometeu ficar.
O silêncio caiu pesado.
Erick entendeu ali.
Não os detalhes.
Mas o peso.
- Eu só queria saber se estava bem - insistiu Henrique.
- Agora sabe - Lys respondeu. - Estou.
Ela se levantou, o gesto encerrando qualquer continuação. Erick acompanhou o movimento imediatamente, sem perguntar, sem tocar.
- Vamos? - ele disse, olhando para ela, não para o outro homem.
Lys assentiu.
Enquanto se afastavam, Henrique ainda tentou:
- Você mudou, Lys.
Ela parou. Virou-se apenas o suficiente.
- Não - disse. - Eu aprendi.
E seguiu.
No corredor silencioso, ela respirou fundo. Erick caminhava ao lado dela, mantendo o ritmo - não à frente, não atrás.
- Obrigada - ela disse, sem olhá-lo.
- Não fiz nada.
- Fez - Lys respondeu. - Não tentou ser maior do que a situação.
Ele a encarou.
- Você não é alguém que precisa ser resgatada.
- Exato - ela disse, finalmente olhando para ele. - E é por isso que ainda estou aqui.
O relógio marcava vinte e oito minutos.
Erick sorriu de leve.
- Ainda temos dois.
- Use bem - ela respondeu.
E pela primeira vez desde que se conheceram,
Lys Cavalcante não se afastou imediatamente.