- Mas que brincadeira mais sem graça, Dona Lourdes! Só porque eu falei que nem com a morte de alguém... Olha, se isso for... - Chris olhava as lágrimas escorrendo do olho dela e seu completo congelamento. Transtornado, olhou para a "virgem" e ela parecia aterrorizada. - Não, o velho Bill é invencível... Nada derruba aqui homem! Estava bem, com saúde de ferro! Seguro, nunca ninguém chega perto dele! - Tentava buscar alguma justificativa que fizesse sentido para aquela notícia que, para ele, era inaceitável.
- Infarto fulminante. Mesmo sendo atendido prontamente, tentaram fazer massagem na hora mas...
- NÃO! - Chris cortou a explicação de Lourdes com um grito ensurdecedor. - Não é verdade!
Ele começou a andar pelo quarto, trajando apenas a espécie de sunga que ele usava. Tempestivamente, começou a derrubar o que encontrava pela frente, a quebrar tudo, chutar, socar.
A garota, que ainda estava na cama, mas já vestida, levantou com medo, correu e por pouco não foi atingida por um de seus golpes ensandecidos.
- Sai daqui! Sai agora! - Ele gritou e as duas o deixaram, fechando a porta.
Sua fúria foi tamanha que ele praticamente desmontou o quarto por completo, não deixando nada intacto. Seus braços, seu peito, suas pernas, ficaram marcados, arranhados, com alguns pequenos cortes. Sangue escorria de seus dedos, vítimas dos murros que aplicou.
- Seu desgraçado! Por que tinha que fazer isso? Você me prometeu! Prometeu que não iria cedo! - Do grito da primeira pergunta, ele caiu de joelhos, murmurando o resto da frase, aos prantos.
Mas, no enterro, toda lágrima já estava contida, apesar do evidente sofrimento que se demonstrava para todos. Cara inchada, olhos vermelhos, mãos machucadas. Ainda assim, fazia o que o homem dentro daquele caixão havia mais lhe ensinado: nunca deixe que vejam sinais de sua fraqueza. A quantidade de pessoas que o cumprimentavam, oferecendo condolências, era infindável. Ele detestava isso, detestava pessoas. Para ele, toda a raça humana era desprezível. Não havia no mundo alguém que fizesse qualquer coisa que não fosse por interesse próprio. Seu sofrimento, ele sabia, não era pelo pai, mas por ele mesmo. A dor era por sua perda, pela ausência que ele teria, daquela figura, que mesmo dentro de seus defeitos, era todo o alicerce que ele tinha, tudo que mantinha a vida dele como era. E todas aquelas pessoas queriam apenas ser lembradas. Queria que seus rostos ficassem em sua memória, na hora que precisassem fazer qualquer coisa que fosse do interesse deles e dependesse do dinheiro das empresas de seu pai. Empresas que agora seriam dele, único herdeiro.
Na verdade, a palavra certa seria Império! E o príncipe teria que ser o novo Rei. O que ele faria?
Centralizador, seu pai nunca abriu capital para investidores. Nunca deixou pessoas assumirem suas funções de liderança, cuidava de todo com mãos de ferro. E o filho nunca tinha chegado na hora certa de aprender, na opinião dele.
Agora, teria que ser na marra.
Mensagens não paravam de chegar.
Algo que o deixou impressionado foi a quantidade de ex-namoradas, ex-ficantes, até mesmo mulheres que ele nem sabia o nome, que mandaram textos e mais textos. A maioria deles tinha a frase: "independente de qualquer coisa... pode contar comigo para tudo que precisar".
Ele devia ter magoado muito mais garotas do que imaginava. Talvez por isso, também, tivesse ficado mais cético diante da possibilidade de relacionamentos. Mesmo, Simone, a última oficial, aquela que ele tinha realmente feito de gato e sapato, que tinha todos os motivos do mundo para nunca mais olhar na sua cara. Mesmo ela, mandou mensagem, deixando claro que estava disponível para o novo bilionário, não importava de que forma.
Essa mistura de pensamentos e sentimentos o atormentava.
Quando estava já pronto para ir embora, uma mulher, que mesmo naquela situação, toda de preto, como todos ali, conseguia se destacar de forma deslumbrante, vinha em sua direção. Seu vestido, colado ao seu corpo, ressaltava seu corpo que parecia ter sido milimetricamente esculpido por Deus, por um incrível personal, por um ótimo cirurgião plástico ou por todos juntos.
Com seu salto alto, chegava quase a altura de Chris e seu andar era hipnotizante. Cabelos lisos, escuros feito a noite, bem compridos. Rosto angelical, de tal forma que fazia Chris imaginar se era mesmo um anjo bom ou maligno, pronta para todo tipo de devassidão por baixo daquela imagem.
- Meus sentimentos, Sr. Christopher! - Sua voz, para completar, doce e suave e ao mesmo tempo firme.
- Te agradeço, mas me desculpe, não estou com clima para me aproximar de alguém, sério, tanta gente já veio me procurar hoje... Mas confesso que você se destaca muito! Me procure em outro momento, tá bem? - Chris já tirou suas conclusões e se antecipou. Ela sorriu, o encarou por mais alguns segundos e só então ele percebeu que ela carregava um envelope.
- Imagino que se tornar um novo bilionário possa atrair muita gente, mas apesar de ser exatamente esse o motivo de eu estar aqui, não é da forma que você está imaginando. Eu sou a Dra. Melanie, eu represento um outro tipo de pessoas que está atrás do seu dinheiro. Sinto ter que fazer isso agora, não é o momento mais oportuno, mas as coisas acontecem muito rapidamente. Esse documento é um contrato de acordo de corpo de diretores de suas empresas. São condições para manutenção de hierarquia de nova gestão antes da possibilidade de ajuizamento, no caso de você pensar de outra forma.
- Você está me dizendo que os diretores da empresa de meu pai te mandaram aqui, no enterro dele, para me intimidar com algo que eu ainda nem sei o que é, para assumirem o comando? Eu ainda não os conheço, não faço a mínima ideia do que irá acontecer, mas diga a eles que eu não sou nem meu pai, nem o moleque que eles devem imaginar que eu seja. Que se eles acham que podem me manipular agindo assim, eles estão muito enganados, pois ao invés do meu apoio, eles conseguiram uma reação oposta da minha parte! - Chris respondeu de forma indignada.
- Admiro sua reação, mas sugiro que leia primeiro o documento, avalie. Seria interessante procurar um advogado também - ela disse, já virando-se para ir, com um charme que claramente balançou todas as estruturas dele.
- O que acha de ser você? - Perguntou, ainda.
- Eu já defendo a parte contrária - ela respondeu.
- Pago o dobro! - Insistiu.
Melanie voltou, chegou bem perto dele, olhou em seus olhos e respondeu:
- Procuro entrar em causas nas quais eu acredito. Sua proposta claramente desmonta qualquer possibilidade, que já não existia, que me pudesse fazer pensar em mudar de lado - Falou pausadamente, num tom baixo que fez Chris desejar ter aquela mulher por completo, em todos os sentidos.
- Você se tornou meu novo desafio, Dra. Melanie! - Ele ainda disse, enquanto ela se distanciava.
Chris não estava acostumado a perder. Tinha acabado de ter a maior de todas as suas perdas. Sua mãe se foi antes que ele pudesse sequer ter consciência de que ela tinha partido, era recém-nascido. Mas ele nunca tinha considerado que tivesse perdido algo que nunca teve. Figuras femininas para cuidar dele nunca faltaram, então, ele nunca teve a noção do quanto uma mãe fez falta em sua vida. Para sua sorte, segundo sua própria opinião, seus pais tinham um núcleo familiar muito reduzido e todos se foram antes deles. Como tinham uma idade já mais avançada, quando decidiram concebê-lo, parecia natural, mas a realidade era que famílias como a dele, com estrutura sólida pelas gerações, tinham começado cada vez mais a reduzir seus herdeiros de forma consciente. Os casamentos, que nos primórdios, eram arranjados e feitos muito cedo, para juntar riquezas, com o tempo passaram a ser menos necessários, até evitados, o que culminou na situação atual dele: o único nome de toda uma enorme dinastia.
Terminar aquele dia com uma negativa daquela advogada, apesar de deixar um gosto de desafio, de algo inacabado, parecia uma derrota com a qual ele não ficou nada satisfeito. Ler o conteúdo do envelope agravou a situação.
Aparentemente, havia uma série de situações, de possíveis promessas não cumpridas por seu pai. Todo o processo, da forma como estava descrito, desenhava-o como um canalha, manipulador, usurpador e explorador. Mas a análise que Chris fez, ligando cada um dos pontos abordados, era de que havia uma armadilha montada, que atacava em várias frentes, para que seu pai não percebesse onde estava se metendo, e assim, quando ele se fosse, era só puxar uma linha, ligando todos os lados.
Apesar de ter convidado a Dra. Melanie, Chris sabia que seu pai tinha uma equipe de advogados. O principal deles, Dr. Arnaldo Campos, era um dos melhores amigos de seu pai, passaram décadas juntos e possivelmente era a pessoa em quem ele mais confiava. Pensando por esse lado, se poderia ser um grande aliado, demonstrava-se um enorme perigo. Chris acreditava que qualquer coisa poderia ser comprada, mesmo lealdade era uma delas. Uma pessoa poderia ser leal uma vida inteira, enquanto aquilo se demonstrasse mais vantajoso, independente do sentido que essa palavra tivesse, mas na maioria das vezes era financeiro. No momento em que uma boa oportunidade se apresentasse, era justamente essa lealdade conquistada que se tornava a mais lucrativa moeda de troca.
Dentre todas as mensagens que recebeu, lembrou-se de Catarina. Durante sua faculdade, enquanto cursava Administração, ou pelo menos estava matriculado no curso, ela estava se formando em Direito. Era uma mulher inteligente, linda, independente, de personalidade muito forte, decidida e, por incrível que pareça, uma das poucas pessoas com quem ele foi para cama apenas uma vez e não recebeu nenhum contato no dia seguinte.
- Você pode não acreditar, mas não tô aqui com você pelo seu dinheiro. É difícil imaginar que uma mulher possa querer se envolver contigo apenas querendo prazer? - Ele começou a relembrar o diálogo daquela noite.
- Eu passei da época em que acreditei nisso um dia. No final das contas, todas que diziam ser só uma noite, sempre voltavam a me procurar, mas sempre procurando algo mais do que só prazer.
- Meu interesse por dinheiro vai até a aquisição do suficiente para sustentar minhas vontades. Como já tenho o bastante para toda minha vida, hoje já sem depender de ninguém e ainda por cima gosto de trabalhar com o que estou fazendo, minha perspectiva de interesse num marido bilionário é zero. Aliás, de algum marido, qualquer que seja. De todo modo, não te importa muito toda essa conversa, já que, na sua mente, eu vou te ligar de novo, então, vamos transar e deixar essa história de lado.
Chris nunca mais tinha se lembrado disso. Ela realmente não ligou, mas ele sequer percebeu. Um dia se cruzaram, conversaram, deram risada, até tomaram uma bebida juntos com outros amigos, mas esse assunto nem passou por sua cabeça.
- Talvez seja a pessoa certa para pedir ajuda, agora! - Ele sussurrou para si mesmo.
Pesquisou mais a fundo seu perfil na Internet. Além de uma advogada com alguns casos importantes já vencidos, ela havia se tornado mestre e doutora e agora dava aula na mesma Universidade que se conheceram.
Resolveu ligar.
- Catarina?
- Chris? Chris, meus pêsames... Mas estou no meio da minha aula, te ligo em seguida pode ser?
- Não, Catarina! Não pode! Passo aí em 15 minutos no máximo e você vem comigo.
- Como assim? Você não está no enterro de seu pai? Já saiu? E eu não posso sair assim daqui. - Estava espantada com a forma como ele falou.
- Estou entrando no helicóptero já, a faculdade tem heliponto. E como meu pai comprou essa Universidade e agora ela é minha, você não vai perder seu emprego, fique tranquila.
Antes que ela pudesse se justificar, dizendo que não era essa a questão, mas seu compromisso com seus alunos, Chris desligou.
Ela ficou parada na frente dos alunos, que estavam fazendo a leitura de um trecho de um manual de leis e esperavam que ela retomasse a aula. Pensou por alguns segundos. Seria pior se Chris entrasse pela sala atrás dela, uma cena desnecessária e ela detestava chamar a atenção.
- Não sei se vocês sabem... - Ela começou a explicar para a classe. - Mas o dono dessa Universidade faleceu. - A turma fez silêncio absoluto. - Por algum motivo, seu filho, o novo dono, de quem por acaso fui colega, nesse mesmo prédio que vocês estão, me ligou pedindo ajuda para alguma situação que ainda não sei qual é. Dessa forma, continuaremos a leitura e a explicação na próxima aula e eu farei uma coisa que detesto, que é ter que dispensar vocês mais cedo! Peço minhas sinceras desculpas por isso, mas vocês estão liberados.
A classe ficou surpresa pois realmente, de todos os professores, ela era alguém que eles mais confiavam que jamais faria aquilo se não fosse realmente importante.
- Professora, ele tá vindo? - Uma das garotas parou com uma colega, diante dela e perguntou.
- Sim, está vindo, Ana! Por que a pergunta?
- Ah, ele é bonitão e bilionário. A gente gosta tanto de você... Deixa a gente dar uma arrumada no seu cabelo e fazer uns retoques na sua maquiagem?
Catarina foi pega de surpresa. Apesar de se cuidar e de ser uma mulher muito bonita, ela já estava no final de um dia de trabalho e não tinha se produzido muito para as aulas. Odiava se produzir pensando em alguém, ainda mais sem interesses como os que suas alunas sugeriram. Mas ela não sabia onde poderia ir, ainda mais encontrando alguém que estava chegando voando, literalmente. Resolveu aceitar a ajuda.
- Mas não pensem que eu estou fazendo isso porque quero alguma coisa com ele. É que vocês têm razão, se for para defender um caso ou algo assim, preciso estar pelo menos apresentável!
- Claro, professora, claro! A gente te conhece! Mas não seja boba, se tiver alguma oportunidade, agarre ele! - As duas brincavam com ela enquanto tiravam um estúdio de beleza de suas bolsas.