- por que tanta pressa, Kira? - pergunta com um sorriso convencido e se põe na minha frente.
Será que ele se esforça para ser insuportável, ou sai naturalmente?
- para você não é " Kira", é Kiara! - empuro ele com força.
Eu preciso me controlar para não passar dos limites. Mas eu o odeio tanto...!
- ah menina, você é muito abusada mesmo, eu sou o futuro alph...- nem o deixo terminar.
- alpha para mim precisa ser maduro, que liga para as pessoas a sua volta, que tem responsabilidade e que é amigo de todos!. Você não é isso, é apenas um mimadinho que acha legal ficar rebaixando os outros - nesse momento todos que estavam no corredor nos olhavam.
Cuspi na cara dele tudo o que estava engasgado a muito tempo. Óbvio que uma parte de mim está profundamente ofendida, porque a realidade é que eu tenho sim um pouco de medo dele. Mas sou orgulhosa demais para deixar que ele note isso.
- quem você pensa que é para dizer o que eu devo fazer? Você não é ninguém, agora vejo a falta que sua "mamãezinha" faz para você - ele rebate com os olhos pegando fogo de ódio.
Agora ele passou de todos os limites possíveis. Embora seja uma escola grande, todos saberiam dessa confusão em poucos minutos. Podia sentir meu sangue ferver, enquanto uma parte de mim só queria fugir dali e chorar sem que ninguém me visse. Eu odeio essa parte minha...
- como você se atreve a falar da minha mãe?!- vocifero - posso não ter mãe, nem amigos, posso ser mesmo uma ninguém, mas pelo menos tenho uma coisa que você não tem, e pelo visto nunca terá: coração - falo a última palavra com mais entonação. Era como se ele tivesse mordido sua própria língua e estivesse engasgando com o próprio veneno. Ele não disse nenhuma palavra, nem sequer uma sílaba.
Ando a passos largos até o banheiro, passando por dentro de todos aqueles alunos paralisados com o que acabara de acontecer. Me sento em um dos puffs que enfeitavam o lugar, e permito que algumas lágrimas fujam. Era necessário, nem mesmo a pessoa mais forte, consegue ser forte por muito tempo. Minha mãe é um dos meus pontos fracos. Termino de secar as lágrimas e tento me recompor. Escuto a porta ser aberta, e pelo reflexo do espelho vejo quando algumas garotas da minha sala caminham em minha direção.
Eu realmente não tenho a quem chamar de amigo, não nego. Mas não amaldiçoava a todos daquela sala, algumas pessoas conseguem ser legais. Mas eu nunca deixei de ser a garota quieta no fundo da sala. Essa é a minha identidade.
- se vieram manifestar sua opinião sobre o ocorrido, podem começar. Hoje eu estou falando tudo - tremo por dentro, mas continuo a me manter firme por fora.
- não Kiara, queremos te apoiar. Logan não tinha o direito de fazer isso, todos já sofreram na mão do Logan, mas você foi a única que se manifestou. - a menina suspira - Porque finalmente não começa a se sentar conosco? - uma ruiva disse.
Ao todo estavam lá 3 meninas, uma ruiva chamada Loren, uma loira chamada Kite e uma de cabelos castanhos chamada Lili. Eu já havia visto elas na escola, sempre foram gentis comigo, embora eu nunca tenha feito nenhum esforço para me aproximar mais. Não sei se isso é uma defesa minha, ou simplesmente seja medo de deixar que os outros me conheçam melhor.
Kite e Loren passavam uma impressão de simpatia e delicadeza, estavam sempre a sorrir, já Lili parecia ser mais crítica, mais audaciosa. Não vou mentir, elas eram de fato interessantes. Parecia que assim como eu, estavam apenas tentando sobreviver a mais um ano no ensino médio.
- mas... vocês nunca falaram muito comigo - falo baixo.
- a gente até que já tentou antes, né... - Lili murmura, e recebe uma leve cotovelada de Kite.
Devo admitir que ela estava certa, infelizmente. Digamos que não sou lá muito aberta a novas amizades.
- não é justo os ataques que você sofre, e nem os que muitas pessoas dessa escola sofrem. Sempre a vimos quieta e serena no fundo da sala, quase nunca falava com ninguém, achávamos que era apenas o seu jeito... - Kite fala meiga.
- eu acho que a minha armadura já está começando a pesar...- suspiro cansada - sinto muito se fui rude com vocês, garanto que não foi minha intenção.
- não se preocupe, não precisa mais ficar sozinha - Lili sorri pegando minhas mãos - agora pare de bobeira e erga essa cabeça!
- podia ter se aproximado da gente, Kira...- Loren comenta.
- tenho dificuldades para isso. Não sei se reparou - falo com humor.
Não sei porque sou assim, não sei de quem puxei... Meu pai sempre me disse que minha mãe era uma mulher alegre, simpática e cheia de vida. Ele também não é diferente, se inturma rápido e é uma pessoa simpática, o que claramente apenas meu irmão herdou, já que é muito conhecido por todos nessa escola.
Principalmente pelas meninas, específicamente, as líderes de torcida e as atletas do time de natação.
- vêm, vamos sair daqui - Lili ri.
- não se preocupe - Loren sorri - apenas pare de fugir de nós. Não precisa ser tão sozinha.
Bom, no quesito "fugir" ela estava certa. Sabe, somente os filhos e filhas de lobos importantes ou endinheirados frequentavam essa escola, ou seja, era meio difícil encontrar gente legal por aqui, já que parece que foram ensinados a acharem que são a última bolacha do pacote. Sempre vejo essas meninas juntas, elas são quietas, mas passam uma vibe tranquila. É fato que elas já tentaram se aproximar de mim algumas vezes, mas acho que não percebi que eu mesma me afastava... bom, eu acho que nunca é tarde para tentar largar um pouco as autodefesas excessivas que nosso subconsciente cria para lidar com certos problemas.
Me separo das meninas quando o sinal para as próximas aulas toca. Vou ao meu armário de novo, e começo a trocar os livros. Sinto algo me observando, e começo a olhar em volta. O corredor não estava muito cheio, e estava ficando cada vez mais vazio. Vejo um garoto se esconder quando noto sua presença. Me aproximo calmamente, e o vejo no fim do corredor, de costas para mim e andando tranquilamente até uma das salas. Quem era ele?.
Foi tudo tão rápido, que a única coisa que lembro são seus olhos azuis. Acho que nunca vi olhos num tom de azul escuro como os dele. Prefiro não arriscar e ir atrás, para não me atrasar para a aula.
Entro na sala de matemática, e procuro um lugar vago. Como sempre, sou uma das primeiras a chegar, e aos poucos, os outros alunos começam a entrar.
E lá se foi o meu silêncio...
Muitos murmúrios ainda rolavam por causa do acontecido. Vai ser uma semana difícil, mas não me arrependo de ter colocado aquele miserável em seu devido lugar. Fala sério, é impossível que eu seja a única nessa escola a ter neurônios o suficiente para não cair aos pés de Logan!
Por azar do destino, Logan acaba se sentando não muito longe de mim. Minhas costas queimavam a medida que ele me fuzilava com os olhos.
Será que ele acha que eu não percebo?.
Quando menor, tinha uma pequena queda por Logan, mas isso foi se perdendo a medida que ele se transformava no que ele é hoje, ou seja, um babaca com visível complexo de superioridade.
(...)
Ao acabar a aula, ando apressadamente até a saída e procuro Théo com o olhar.
Ele parecia fazer o mesmo, já que de longe acena para mim. O vejo se despedir de seu círculo de amigos, e vir na minha direção. Não vi mais as meninas depois do ocorrido, algumas turmas ainda estavam em aula.
- vamos? - Théo pega minha mochila.
- achei que tivesse vindo com o seu carro - franzo o cenho.
- eu vim de carona - ele bufa - papai tomou o meu carro depois que viu aquele arranhão na lateral do carro.
- ou será que foram as latinhas de cerveja e os engradados no porta-malas? - o olho convencida.
- ah... Aquilo? - ele sorri amarelo - nããããão... Tenho certeza que não foi por isso.
- você sabe que não vai dirigir o meu carro, não é? - falo com humor.
- seu carro? - ele ri - papai mandou dividirmos - ele pega a chave da minha mão e corre até o carro.
- Théo, nem pense nisso! - corro atrás dele.
(...)
Assim que chegamos em casa, estranho Théo ainda não ter falado sobre o ocorrido comigo. Certamente ainda não soube. Bom... melhor assim. Após um banho relaxante, visto uma calça jeans, uma blusa comum, e um par de tênis.
- onde vai? - Théo me olha torto.
- vou sair um pouco.
- papai não vai gostar de chegar em casa, e ver que você não está aqui - ele avisa - você sabe como ele é com a "filhinha" dele - ele ri.
- eu volto logo, Théo! - bufo.
- eu bem que avisei - ele volta a olhar o conteúdo na televisão.
Corro até a floresta e adentro mais, até chegar na minha cachoeira preferida. Abro minha mochila e sorrio ao ver meu arco e flecha.
Eu adoro arco e flecha desde criança, lembro como se fosse ontem quando meu pai levava eu e meu irmão para caçar nesta mesma floresta.
Pego meu arco e flecha, e me concentro nos meus sentidos, até que sinto o cheiro do coelho, minha presa.
Preparo a flecha, mas acabo errando, fazendo o coelho se assustar e correr para longe. Ando mais pela floresta, e admiro sua beleza, estava tão distraída que não notei o grande lobo negro a metros de mim. Seus olhos dourados penetravam minha alma. Por impulso pego meu arco e aponto para ele, eu estava em desvantagem, não podia me transformar, isso tomaria muito tempo.
Ele avança em mim e joga meu arco para longe, onde o escuto de partir. Droga! Eu gostava daquele arco!.
- me parece que a lobinha destemida, esta com medo - ele fala com voz de besta devido a forma lupina.
Não me levem a mal, mas quando um lobisomem está em sua forma lupina, parece que sua voz fica tão assustadora quanto sua forma física. A voz se torna grossa e amendrotadora, como a voz daqueles filmes de terror que passam na televisão a partir de meia-noite, podem imaginar?.
- quem é você?! - tento parecer firme. Mas só tento mesmo.
- você ainda não me conhece , mas vai conhecer - ele se afasta, e corre para a parte escura da mata.
Isso foi estranho. Decido então pegar o resto do meu arco, e ir fui pra casa. Noto a casa vazia, e agradeço mentalmente por isso. Depois de tomar outro banho, troco de roupa para uma mais quente. Estou prestes a descer a escada, quando Théo me puxa para dentro do quarto dele.
- Kira, que merda foi aquela na escola? - ele me mostra as mensagens dos amigos dele o contando o que aconteceu.
Bando de fofoqueiros!
- eu só me defendi, não vou deixar ninguém ficar me rebaixando. Sou da corte do alpha também - cruzo os braços.
- me conta tudo direitinho - ele tentando manter a calma, mas eu sabia que ele estava com raiva.
Após contar tudo o que houve, tanto o tranquilizar de que estava bem agora, mas claro que não funcionou.
- eu mato esse garoto um dia desses!- ele diz com raiva.
- não por favor, eu não quero mais problemas. Já tem muita gente falando sobre isso. Não quero que o alpha vá reclamar com o papai! - praticamente imploro para Théo ficar de boca calada.
- ele é louco se acha que nosso pai não ficará sabendo - Théo sai do quarto a passos raivosos.
Merda!.