Capítulo 2

Bruno era um jovem subestimado e ambicioso, dono de seus vinte e um anos, já tinha sua vida completamente ganha sem fazer o mínimo esforço para tal, já que seus pais, os senhores Calandes com seus sobrenomes estampados nos jornais de sucesso, tinha uma empresa bem sucedida no centro de São Paulo. O que o fez herdeiro de quase tudo, já que tinha seu irmão mais velho que dividia consigo o dinheiro de seus pais (ainda vivos). O garoto ainda recebia mesada, bem alta por sinal, já que o mesmo não se sentia no direito de estar no meio dos negócios dos seus pais, deixava isso com seu irmão, não se importava com essa vida de reuniões e quebra-cabeça. Não era sua praia. Era mais fácil ter sem fazer nada, já que seus pais o acostumaram dessa forma. Com a vida ganha. Não se sentia nem um pouco ofendido, se sentia melhor do que todos, e tinha a plena certeza de que realmente era.

Estava a dormir calmamente em sua cama de casal em seu apartamento luxuoso na zona sul de São Paulo, nada o preocupava então não tinha necessidade alguma de acordar cedo, entretudo seus sonhos foram interrompidos por seu toque de celular, o mesmo suspirou fundo e o pegou, vendo o nome "Fernanda" estampado na tela clara de seu aparelho. O mesmo revirou os olhos em indignação.

Bruno Calandes.

Fernanda era (ou ainda é, não sei) uma ficante, na verdade foram duas ou três vezes que fiquei com ela num pub ou em algum evento qualquer em que eu ia, e nunca quis nada sério com ninguém, sempre deixei isso completamente claro Tanto para ela, quanto para qualquer mulher com quem me relaciono casualmente. Tanto que já fiquei com diversas outras meninas além dela, e mesmo assim ela vive me ligando como se eu tivesse que dar satisfação para ela de minha vida, perguntando onde estou ou com quem, como se estivessemos num relacionamento (e, cá entre nós, eu não sirvo para isso. De forma alguma). Isso é algo que nunca acontecerá, definitivamente. Eu nem ao menos gosto dela, porra, como ela pode achar que temos algo? Céus. Dei de ombros e desliguei sua ligação, revirei meu corpo em cima de minha cama, ficando debruço, relaxando meus músculos na tentativa de voltar a dormir.

Porém ele começa a tocar novamente.

O toque do celular começa a ecoar novamente em meu quarto num volume irritante, desacreditei em tamanha afronta, minha cabeça martelava com aquele barulho infernal. Rangi meus dentes irritado, peguei novamente o celular e o atendi.

— O que é, inferno? - Perguntei, grosso.

— Oi, amor... Desculpe. Te acordei?

— O que você acha, Fernanda? - Fui irônico, a raiva me consumia.

— Ah, Me desculpe, amorzinho. É que eu pensei que poderíamos, não sei, sair hoje? Jantar? - Revirei os olhos.

— Fernanda, quantas vezes vou ter que dizer que não sou de ficar marcando datezinho? - Respirei fundo, coçando meus olhos. - Pelo amor de Deus. Me deixe em paz.

— E quando você me liga, querendo me ver, eu tenho que ir, não é? Isso é que acaba conosco, Bruno!

— Não te obrigo a nada, garota. É só não vir. E... Calma. Acaba conosco? - Repeti, confuso.

— Bruno, se você não vir, eu nunca mais vou te ligar! - Disse, autoritária. Segurei uma risada genuína, é sério isso?!

— Isso foi uma ameaça ou um milagre? Eu agradeceria se acontecesse.

— Ridículo! - Xingou, num gritinho estérico extremamente fino. - Eu ia te apresentar meus pais hoje! Você é tão ridículo! - Gargalhei, alto.

— Eu não quero conhecer seus pais, está maluca? - Continuei rindo. - Nós nem ao menos temos nada, além de sexo. Acorda, Fe.

— Ninguém fica por um mês inteiro só com uma pessoa, Bruno! Se enxerga. - Aquilo parecia um stand-up para mim, não conseguia ao menos parar de rir.

— Duas ou três vezes num mês, você quer dizer, não é? - Neguei com a cabeça, nessa altura, eu já havia acordado. - E quem que eu só fiquei com você?

— Você? Você disse! Você falou que não tinha ninguém além de mim! - Ri alto, negando minha cabeça. Desacreditado.

— Só me esquece, Fe. Eu nunca quis namorar, muito menos você. Prometo nunca mais te ligar, tudo bem? - Ela desligou. Sorri. - Menos uma, FINALMENTE! - Voltei finalmente a dormir como um anjo depois dessa ligação amistosa.

Por volta das três e meia da tarde eu despertei tranquilamente, sorri aliviado. Eu finalmente havia descansado da noite anterior que foi uma maluquice. Bem, pelo menos sem ressaca. E melhor, sem vômitos indesejados. Olhei o dia em meu celular e o que eu pensava, era dia de jogatina com meus amigos, sempre marcavamos de fazer algo numa tarde de quarta-feira. Peguei meu celular e liguei para Mauro, que atendeu rapidamente.

— Fala, Bru.

— E aí, Mauro? Dia de jogos hoje? - Me espreguicei, permanecendo deitado.

— Com certeza, parceiro. Chamou os outros?

— Ainda não. Chama ai, acabei de acordar, estou um porre. Preciso de um banho e de um café. - Ele riu.

— Ontem você meteu muito o louco, riquinho. - Me chamou por aquele apelido ridículo, revirei os olhos.

— De novo com esse apelido de boiola. - Bufei.

— Ah, qual é, riquinho. Combina contigo. - Brincou, gargalhando. - É até mais bonitinho.

— Vá a merda, Mauro.

— Estou zoando, mano. Aliás, você soube do Gusta? Ele terminou o namoro.

— Finalmente. - Ele riu.

— Ele está muito mal, vai ser até bom para ele espairecer. Está foda aguentar ele. Ontem ele bebeu igual um arrombado, e eu tive que voltar com ele ouvindo o quanto ela iria fazer falta.

— Nunca gostei dela. - Fui sincero.

— Nenhum de nós gostava dela. Ela simplesmente proibida ele de nós ver, maior vagabunda. Ele era o único a gostar dela aparentemente.

— Sinto muito por ele. Quero que ela se foda. - Cocei meus olhos, ele concordou. - Bom, resolve aí, que eu vou dar um jeito aqui. Falou?

— Falou, irmão. Logo menos estamos aí. - Desligou.

Tomei coragem e me levantei finalmente, fui só banheiro, retirei minha roupa e tomei um banho longo em minha banheira de hidromassagem, ainda tinha resquícios de cansaço em meu corpo, tentei o máximo o extinguir de mim. Odeio essa sensação de cansado, pesado. Quando terminei, tirei o sabão de meu corpo na ducha e sequei-me, pus uma roupa leve, de ficar em casa. Famoso bermudão e camiseta.

Já na sala, deixei ligado meu videogame e meu VR em outro televisor, nunca fui muito bom em jogos, o que não quer dizer que eu não gostava de jogar com meus amigos e ser ruim assim mesmo. Era divertido. Vergonhoso, mas divertido.

Já estávamos todos juntos na sala de estar jogando um jogo qualquer, enquanto conversavamos coisas aleatórias, Gusta estava cabisbaixo, deixei o controle de lado, peguei uma cerveja que Mauro havia trazido e me sentei ao seu lado.

— E aí, mano?! Como você se sente? - Dei duas Batutinhas em suas costas, chamando sua atenção.

— Dessa vez foi sério, irmão. - Suspirou fundo, ele realmente parecia abalado. - Ela me deixou de verdade. Não teve jeito.

— Mauro me disse. - Ele deu de ombros. - Mas você não pode morrer por uma desilusão amorosa, Gusta. Você é novão, já já está com outra, ainda melhor.

— Mas é dela quem eu gosto, Bru. -Ele me fitou. - Você não tem noção disso. Eu amo ela. Eu quero estar com ela.

— Mas se ela não quer, o que você tem que fazer? - Ele voltou seu olhar para o chão. - Se você acha que ainda tem chance, corre atrás. O não você já tem, de qualquer forma.

— É, talvez. - Bati meu ombro no dele, passando força. - Quem diria que você me daria conselho um dia. - Ri.

— Estou fingindo que sei o que estou te dizendo, mas não faço a mínima ideia. - Brinquei, ele riu. Não tinha experiência nenhum com relacionamentos e muito menos em gostar de alguém.

— Sortr a sua de nunca ter ocorrido consigo, é foda.

— Falando nisso, lembra da Fernanda?

— A peituda? - Rimos, concordei.

— Hoje ela me ligou falando que queria me apresentar aos pais dela. - Gargalhei, tomando um gole da cerveja.

— Para que? - Ele riu, dei de ombros.

— Na cabeça dela, a gente estava tendo algo. Estou tentando até agora descobrir o que tínhamos.

— E ela não é de se jogar fora, cara. - Ouvi Rafael dizer, enquanto jogava.

— Não mesmo, mas não nasci pra essa palhaçada. Eu nem ao menos gostava de ficar com ela, muito grudenta. Quero distância.

— Sonho do Gusta ser desapegado dessa forma. - Brincou Mauro, rimos.

— Desculpa se é crime amar demais, me prenda e me joga na cadeia por ser um grande apaixonado. - Gargalhamos.

— Foda que o Gusta se apega demais, e o Bruno nem pensa em começar. - Concordei.

— Para evitar ficar essa caco de merda. - Apontei para Gustavo com a cabeça, que se fingiu de ofendido.

— Obrigado.

— Eu viso meu bem estar mental e físico, porque estar com uma só, se eu amo ficar com todas elas? É até egoísmo. Dou chance para todas. - Ouvi um coro de "ânsia de vômito" ao meu redor.

— O problema nem é esse irmão, é que você é extremamente rápido. Mal chega num lugar e já arruma umas cinco, você parece um ímã de mulher. Nunca entendi. - Reclamou Rafael, sorri malicioso.

— Vocês com essas caras de lesados, é óbvio que nenhuma mulher vai olhar.

— Desculpe, coach de relacionamentos.

— É sério, porra. Vocês têm que ser mais confiantes, seguros. Vocês chegam numa pub com cara de mongo, ninguém vai chegar. Nenhuma mina que um cara com cara de bocó, quer um responsa.

— Pior que pode ser verdade essa porra. - O fitei, convencido.

— Óbvio que é, amigo. Tente na próxima. Não é sorte, é estratégia. - Sorri de canto. - Enquanto vocês estão aí, minha lista só aumenta.

Continuamos a jogar e conversar sobre algumas coisas aleatórias como o lançamento de um próximo jogo de terror ou até numa próxima festa que poderíamos ir juntos. Quando me cansei de jogar, passei o controle para Gusta e me deitei no sofá maior, vendo algumas de minhas redes sociais para somente passar o tempo que tínhamos livre. Quando notei não ter nada importante, comecei a assistir alguns vídeos completamente desnecessários apenas para suprir minha falta do que fazer.

— BRUNO! - Ouvi Rafael gritar, chamando minha atenção para si. - Puta que pariu.

— O que?

— Faz um minuto que estou te chamando, sem parar. Você viajou para longe.

— Foi mal. Mas o que houve? Fala aí?!

— Saquei. Não tem nada para comer aí, não? Maior fome. - Arregalei levemente meus olhos, esqueci de comprar as coisas para comer.

— Nao tem porra nenhuma. - Cocei minha nuca. - Mas eu vou comprar rapidão, ou posso pedir no delivery.

— É até melhor, chega mais rápido. Pede naquela lanchonete que fomos na terça-feira, os bolinhos de lá são mil grau. - Concordei, logo lembrei do atendente intrometido, e conti o riso. Incrível como pessoas como ele são mal educadas. Entrei no aplicativo de delivery e pedi algumas porções para entrega, e alguns lanches prontos também, e fiquei no aguardo.

— Agora que lembrei naquela comida de rabo que aquele garçom deu no Bruno. - Brincou Rafael, rindo. - Cara brabo.

— Normal, é como esses malucos de favela agem.

— Atravessou o cara sem medo.

— É até eu processar aquela nojeira. - Revirei meus olhos.

— Nem invente de fazer isso, a comida de lá é uma delícia e aquele café é o único que me faz querer acordar todas as manhãs. - Disse Mauro, sendo dramático

Depois de alguns longos minutos a espera do motoboy, finalmente recebi a notificação que o mesmo estava a chegar, resolvi descer o apartamento e aguardar na parte da portaria. Logo o vi se aproximar de moto, coloquei minhas mãos no bolso, aguardando o mesmo retirar o capacete e me entregar os pedidos.

— Droga. - O ouvir exclamar baixinho, estranhei. O mesmo retirou o capacete, e ali entendi. Me fazendo rir levemente.

— Boa tarde para você também, garçom. - Ele me fitou, sério.

— Boa tarde. - Abriu sua bag, retirando meus pedidos da mesma. - Aqui estão.

— Pode me ajudar a subir? - Indaguei, sorrindo vitorioso. - É muita coisa, você sabe.

— De forma alguma.

— Certeza? Eu tenho o contato do seu gerente aqui no aplicativo, posso recorrer. Quer mesmo perder seu... - O olhei de cima a baixo. - Emprego? - Ele respirou fundo, pegando todas as sacolas e me seguindo. - Boa. Por aqui. - Voltei a direção que tinha feito, mas, só invés do elevador, peguei as escadas, eu morava no quinto andar, aquilo era uma boa recompensa pelo que ele tinha me feito.

— O elevador está quebrado? - Ele perguntou, soltei um riso frouxo.

— Não. Mas você é empregado, não pegam elevador comercial.

— Como é?

— Desculpe. - Sorri de canto, falso.

— Você sempre foi assim?

— Assim, como?

— Mesquinha? Isso é doentio. - Respirou fundo, ainda subindo cada degrau.

— Continue subindo, garçom.

— Você fala como se fosse algo ruim.

— Talvez, para mim, seja. - Ri fraco, dando de ombros.

— Essa é sua tentativa de me humilhar? - Ele riu, o fitei confuso. - Tenta outra forma, essa foi fraca.

— Jura, garçom? - Parei, o fitando. - Você realmente quer perder esse empregozinho de merda, não é? - Perguntei, ficando de frente para si. - Saiba que eu não meço esforço algum para isso acontecer. - Voltei a subir as escadas, faltavam apenas um lance para chegarmos em meu andar. Ele continuou em silêncio, sorri vitorioso. - Chegamos.

— Finalmente. - Murmurou, respirando fundo. Paramos em frente ao meu apartamento.

— Coloque lá dentro. - Ele me fitou, sem entender. - Ande. Coloque lá dentro.

— Isso já não é trabalho meu.

— Garçom... Coloque essa merda dessa comida lá dentro, agora. - Mandei, abrindo a porta. Ele apertou as sacolas e adentrando minha casa, dando de frente com meus amigos.

— Bruno...? - Mauro me olhava confuso, vendo o garçom da lanchonete colocar a comida na mesinha de centro da sala.

— Huh? - O olhei, me fazendo de desentendido. Vendo o garçom deixar a comida calmamente ali, e se dirigir para fora do apartamento.

— Nada. - Me amigo negou, ainda sem entender. Voltei a porta de meu apartamento.

— Muito obrigado, garçom. - Sorri. - Você foi muito atencioso, foi um prazer.

— Você é ridículo.

— Olha, ainda não deu minha avaliação, cuidado. - Coloquei meu indicador em meus lábios, para ele ficar calado. - Você pode ir. Não preciso mais do seu trabalho. - Ele me deu as costas. - Cadê o "Bom apetite"? - Ele parou e Respirou fundo, sorri ainda mais vitorioso.

— Bom apetite. - Falou, baixo.

— Obrigado, garçom. Até a próxima. - Ri, fechando a porta.

— Por que você fez o cara subir? - Indagou Mauro.

— Porque eu quis. E ele subiu de escadas. - Eles arregalaram os olhos.

— Você é maluco. - Gusta falou, negando sua cabeça. Caminhei até a sala me sentindo aliviado e vingado, ou talvez, não totalmente.

Capítulo 3

Lucas Menezes.

Uma e vinte e três da manhã. Quinta feira.

Merda. Mil vezes merda!

Meus olhos estavam terrivelmente abertos como nunca, olhei pela vigésima vez para a tela de meu celular, mostrava "01:24" da madrugada, eu precisava dormir já que ainda hoje eu haveria de trabalhar cedo. Como todos os dias de minha vida. Revirei meus olhos e bufei, completamente bravo, meu corpo resistia ao cansaço e minha mente não me deixava em paz nem por um segundo, eu odiava ser ansioso desta forma, ao nível de me manter ligado por, as vezes, vinte e quatro horas de meu dia. É como se minha vida somente dependesse de uma determinada situação. Isso ferrava com meu físico e psicológico, pois não conseguia de forma alguma descansar e ficar tranquilo. Mas nada dessa tranquilidade chegar. Novamente peguei meu celular, passando de um aplicativo a outro.

Logo me recordei do que ocorreu no dia anterior de uma forma inesperada, me sentir pequeno naquela situação, céus, como ele era um imbecil... Eu me senti tão humilhado, eu estava tão revoltado. Como alguém pode ser assim tão nojento? Me senti preso, atado numa situação extremamente desconfortável. Tudo porque sou um subordinado, que ódio eu senti de sua cara. Aquele sorriso vitorioso foi como uma espada enfiada em minha barriga, não compreendo como alguém consegue ser tão frio e ambicioso. Neguei com a cabeça, visivelmente chateado. Disquei o número de Gab, na tentativa de ligar, já que não tinha certeza alguma se ela me atenderia pelo horário em que estávamos.

— Uma da manhã, Lucas. Uma da manhã. Você tem noção disso? - Indagou, assim que atendeu, com sua voz sonolenta.

— Desculpe. - Pedi, já me arrependendo. - Eu não consigo dormir, e estou com medo de ter uma crise de ansiedade e não saber quando vou parar, pode ficar um tempinho comigo? - Perguntei sendo sincero, odiava ter que atrapalhar as pessoas, mas eu realmente estava apavorado.

— Tudo bem. - Ela Respirou fundo, aparentemente se arrumando em sua cama. - O seu psicologo não passou nada para evitar isso?

— Por enquanto, não.

— E o que aconteceu?

— Aí é que está. - Suspirei. - Não sei.

— Aparentemente você me odeia. - Ri fraco. - No que estava pensando antes? Teve algum gatilho?

— Não... - Menti. - Creio que não.

— Certeza?

— Sim.

— Tudo bem, o que lhe dá sono? - Bocejou.

— Ótima pergunta. - Ri, ouvindo a mesma me acompanhar.

— Vamos falar sobre... Matemática. Você tem cara de quem tem sono em aula de matemática.

— Gab, eu tenho tdah. O que você acha? - Sorri, deixando a ligação no viva-voz.

— Certo, certo. Vamos lá. 12+15?

— 27?

— 55+41? - Fiz careta.

— 96.

— 28+39?

— 67.

— 15×25?

— Aí você me quebrou, Gab. - Ela gargalhou.

— Ande, não é tão difícil assim.

— Para mim é péssimo, é a mesma coisa que assinar minha certidão de óbito. - Sorri. - Sou péssimo nisso.

— Tente.

— Não, eu estou bem não sendo humilhado.

— Pelo menos deu sono?

— Nem um pouco.

— Nadinha?

— O que você acha?!

— Bom, pelo menos temos a plena certeza que você é de humanas mesmo. - Brincou.

— Não precisava nem de muito para notar. - Peguei meu notebook e o liguei, na tentativa de me distrair. - Enfim, Gab. Deixando isso de lado, como está o observador?

— Está dizendo o Matt? - Riu. - Na mesma, Lu. Me liga daqui, troca de número para me encher de mensagens jurando que irá mudar, perfis falsos em redes sociais... Pix para dizer que me ama.

— De quanto?

— Sério que de tudo que eu falei, você só se importou com o último citado? - Dei de ombros.

— A parte que ele é lunático eu já entendi, agora é ter a certeza se ele é mão de vaca. Quanto?

— Geralmente de 100, mas estou guardando para devolver. Não quero nada dele.

— Eu guardava e fazia uma viagem com outro.

— Nossa, que ótima ideia?! - Concordei, enquanto lia algumas anotações que tinha feito na noite passada.

— Eu estou dizendo. Você quem não sabe aproveitar os burros que a vida coloca na sua história.

— Realmente. Nada disso muda o fato dele ter sido um grande cuzão comigo por todos estes anos.

Ligeiramente lembrei do cara da lanchonete, e nem ao menos entendi o porquê. Provavelmente por ele ser um grande pé no saco, e eu imagino que eu não seja o único "sortudo" de ter passado por ele algum dia, tenho certeza que outras pessoas com empregos inferiores foram maltratadas.

— Pessoas maldosas não mudam de jeito nenhum, elas fingem. Manipulação o nome.

— Absolutamente. Mas e aí, Lu? Você nunca me disse nada sobre conhecer alguém, ter uma paquerazinha?

— É porque eu não tenho mesmo. - Sorri de canto. - Eu não saio de casa, Gab. Eu gosto de ficar no meu conforto, com o Mint, assistir alguma série, escrever e ir dormir. Essa é minha vibe. Definitivamente.

— Mas viver somente disso, Lu, não é saudável. Sei que é seu hobby, seu sonho. Mas você tem que seguir sua vida, ver pessoas, sair, conhecer novos lugares. E talvez até um novo hobby.

— Sair da bolha é mais doloroso do que eu imaginei.

— Realmente, é muito doloroso. Mas necessário. Ninguém disse que a vida era fácil. Aprender e ultrapassar cada pouquinho das limitações que temos, é uma vitória.

— Meu maior pavor. - Disse, baixinho. - Não quero viver tudo aquilo que já vivi antes, é doentio.

— Mas todos nós somos criações diferentes, amigo. Nem todos são errados, alguns são machucados como você, como eu. Mas eles têm possibilidades de estar afundados em casa, ou tentando um dia seguinte melhor.

— Duas da manhã e minha amiga desequilibrada me dando aula de equilíbrio social. - Rimos. - Obrigado, Gab. Minha cabeça é uma zona, e sozinho é complicado de conseguir ultrapassar as limitações de cada dia.

— Voltando a pergunta: ninguém que lhe interesse?

— Não, ninguém.

— Nem que você ache bonitinho?

— Nem.

— E aquele cliente que sempre frequenta a lanchonete? Matias? É um gatinho, não acha? - Tentei lembrar quem era, fazendo careta.

— Não faz meu tipo. - Neguei com a cabeça.

— Céus, você parece um jovem virgem.

— Me deixe em paz, Gabriella. - Ri fraco.

— Vamos arrumar alguém bem maneiro para ti, amanhã. Só para tirar esse bvl.

— Garota, me respeite! - Ri, deixando meu computador na mesinha de canto.

— Pelo menos desestressar, esquecer essa vida de intelectual pelo menos por alguns segundos. Ninguém se apaixona por você dessa forma, parece que está se escondendo. - Revirei os olhos.

— E quem está pedindo para que se apaixone por mim?

— Eu.

— Você é insuportável, garota.

— Bom, já que te distrai o suficiente hoje, posso ir dormir? Porque o mesmo trabalho que você tem amanhã, eu também sofro.- Fingiu voz de choro.

— Obrigado pela companhia, Gab.

— Precisando, Lu, estamos sempre aí.

— Obrigado.

— Boa noite, vê se dorme. Te amo.

— Boa noite. Você também. Te amo. - Desliguei a ligação, junto da tela do celular.

Coloquei o aparelho no carregador, ao lado de meu computador, e me aconcheguei em meu edredom, tentando acalmar meus pensamentos e relaxar meus músculos para conseguir dormir, já eram duas e meia da manhã, eu precisava, pelo menos, fingir que descansei. Mas acabei dormindo rapidamente.

Acordei num quarto escuro, totalmente. Olhei em volta, confuso, não sabia onde estava de forma alguma. Me sentia estranho, observado. Olhei por todos os lado, minha visão estava turva, pisquei diversas vezes na tentativa das mesmas voltarem ao normal. Ouvi passos, o que me deixou ainda mais atento, não sabia de onde vinha, pois parecia vir de todos os lados, me senti ofegante, aquilo me agoniava de todas as formas possíveis.

— Oi, querido. - Ouvi alguém sussurrar em meu ouvido, congelei. - Fique tranquilo. - Sua voz era grossa, aveludada. Meus olhos se arregalaram. Engoli em saco. - Não, não... Não fique assustado. - Bufou um riso em minha orelha, tentei controlar minha respiração. - Fique tranquilo. - Repetiu.

— O-onde... O-nde estamos...? - Perguntei com dificuldade, num sussurro. Eu não tinha controle algum de minha voz, sentia que perdia todo o ar em meus pulmões.

— Fique relaxado. Não fale. - Repousou suas mãos em meus ombros, eu senti todo meu corpo responder. Trêmulo. Suas mãos eram frias, mesmo através de minhas roupas. Eu estava completamente assustado.

Não consegui mover um músculo além das tremedeiras sem fim.

Notei, só então, que estava sentado numa cadeira, não sentia minhas pernas, nem meus braços. Um nó se fez presente em minha garganta. Onde estava? Com quem estava? Tinha algo atrás de mim que me impedia de olhar para seja lá quem for, ele novamente pois-se a se aproximar de meu ouvido, num riso baixo e aterrorizante. Fechei fortemente meus olhos, que desciam largrimas grossas e pavorosas, eu estava com muito medo.

— Vai ficar tudo bem. - Ele riu. - Eu estou com você.

Acordei num sobressalto, minha respiração estava descompensada, meu corpo tremia como nunca antes, sentia minha cabeça latejar e minhas bochechas queimarem. E me pus a chorar. Chorar muito, não sabia o porquê, mas eu estava desesperado. Foi o pior pesadelo que um dia, pude ter. Eu odeio minha cabeça. Eu odeio.

Depois de um certo tempo com meus joelhos junto de meu peito descompensado, eu respirei fundo e me levantei, desligando o despertador. Eu precisava tomar um banho, eu precisava trabalhar. Com minhas pernas ainda trêmulas e teimosas, segui até meu banheiro, me despi e comecei o banho mais doloroso de minha vida.

Senti meu corpo pesar ainda mais, como se levasse um elefante em meus ombros, encostei minha testa na parede, deixando a água cair contra meu corpo. Tentando deixar os flashes do pesadelo descerem pelo ralo.

— Que merda, que inferno de vida, Lucas! - Gritei, contra a parede. - Você não é assim! Por favor! - Soquei a mesma diversas vezes, num choro incessante. - Eu não sou assim, eu não sou... - Continuei a chorar, com meu peito ardendo. - Eu não sou isso... - Repeti.

Já no quarto, eu me troquei rapidamente. Não queria ter tempo para pensar nem em uma fração de segundos naquele pesadelo, senão eu tinha a plena certeza que me acarretaria uma crise de ansiedade doentia, e eu não posso. Não agora. Eu preciso trabalhar.

Olhei o relógio e eu ainda tinha tempo, peguei meus fones e minha bolsa, saindo de casa e colocando uma música de minha playlist favorita. Respirei fundo e comecei a caminha para o local de meu trabalho, tentando distrair minha cabeça com as paisagens que eu tinha o prazer de ver.

Cheguei no momento certo, suspirei aliviado por não ter me atrasado, odiava atrasos retirei meus fones e segui ao quartinho para me trocar, rapidamente.

— Bom dia. - Vi Gab, com seus olhos cansados, carregando um sorriso leve, e forçado, em seu rosto.

— Bom dia, Gab. Me desculpe por ontem. - Fui sincero, a abraçando rápido. - Não queria te perturbar, mas não tinha com quem conversar.

— Está tudo bem, amigo. Você faria o mesmo por mim. - Sorri fraco.

— Bom, pelo lado bom... Estamos quebrados juntos. - Rimos, e ela concordou com a cabeça.

— ah, não esqueça. É amanhã, viu? Vê se você se arruma igual gente e seja o mais incrível daquela pub, se não eu lhe viro do avesso. - Alertou, concordei. Ela piscou para mim. - Fico no caixa hoje, você pode buscar os pedidos?

— Claro. - Peguei o bloco de notas e a caneta no balcão, seguindo aos clientes.

Por volta das seis e quarenta da tarde, já estava no horário de saída da lanchonete, os últimos clientes já saiam pela porta e sorri fraco, sentindo meu dever, por mais um dia, cumprido. Retirei meu avental, e segui para o quartinho colocar de volta minhas roupas, vestindo, também, um casaco. Sai da sala e peguei novamente meu celular, plugando meus fones de ouvido. Música nunca é demais, principalmente para cessar pensamentos intrusivos.

— Tchau, Lu! - Acenou para mim de trás do balcão.

— Até amanhã! - Acenei de volta, saindo finalmente de lá.

Cheguei em casa tão rapidamente que acabei não notando, quando vi, estava na porta de casa. Eu me sentia pesado, cansado. Mais do que em outros dias que a lanchonete estava até mais cheia. Me joguei em meu sofá sem ao menos tirar a roupa, e ali mesmo, eu dormi.

Quando despertei, estava completamente torto e dolorido, e Mint estava em cima de mim, miando incessantemente. Levantei e o peguei no colo, me levantando e seguindo para a área de serviço. Eu havia esquecidk de colocar sua ração no potinho.

Resolvi, também, comer algo. Preparei um sanduíche rápido e peguei meu celular para ver as horas, e me assustei quando notei: onze da noite. Eu odiava dormir quando chegava do trabalho, eu literalmente ferrava com meu sono.

Já me sentia sem sono quase por completo, fui ao meu guarda-roupa decidir o que iria vestir amanhã, eram muitas para decidir, mas fui separando as que mais me chamavam atenção, enquanto mordiscsva meu lanche. Logo optei por uma calça escura jeans, uma camisa longa e uma blusa xadrez, dei de ombros e a deixei em minha mesinha de canto, era o necessário para mim.

Senti novamente Mint miar, e se esfregar em minhas pernas enquanto estava de pé, decidindo alguns acessórios. Sorri e deixei de canto os acessórios e me sentei na cama, terminando meu sanduíche e o pegando no colo, deitando ele ao meu lado. Acariciando-o.

— Essa monótonia está me matando, Mint. Preciso me divertir mais, me permitir. Estou cansada dessa vida de seguir somente regras e nunca me permitir errar. Não está certo. - Mint ronronou. - Isso vai mudar, eu prometo. A partir de amanhã, isso com certeza irá mudar. Vou fazer isso acontecer.

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