Capítulo 2

Ponto de Vista de Alina

Lucas ficou em silêncio na linha por um longo e tenso momento.

Eu podia ouvir o zumbido distante e caótico de uma rua movimentada do lado dele, um contraste brutal com a quietude sepulcral do meu quarto.

"Explique", ele finalmente exigiu, sua voz baixa.

"Eu estou morta aqui, Lucas", sussurrei, agarrando o telefone. "Se eu ficar, eles vão me matar. Ou eu vou me matar. Preciso desaparecer."

Ouvi o clique metálico de um isqueiro, seguido pelo som de uma expiração forte.

"O Ceifador vai virar esta cidade de cabeça para baixo se você sumir."

"Ele não vai", eu disse, meu olhar se desviando para a foto de casamento na mesa de cabeceira. O vidro estava rachado como uma teia de aranha de onde havia sido jogado. "Ele tem uma substituta na fila. Um novo herdeiro. Eu sou apenas uma ponta solta esperando para ser cortada."

Contei tudo a ele: os papéis do divórcio, o casamento de fachada, o brilho químico que eu via nos olhos de Dante.

"Preciso de um acidente", eu disse, minha voz tremendo. "Destruição total. Um descarte clássico na rota para o litoral."

"Considere feito", respondeu Lucas, seu tom mudando para um gelo profissional. "Esteja na pista particular em duas horas. Tenho um esconderijo em Provença preparado para você."

Desliguei. Provença. Campos infinitos de lavanda. Um lugar onde o nome Vitale não tinha peso, nem sangue.

Comecei a fazer as malas com uma eficiência frenética. Sem roupas, sem joias. Levei apenas dinheiro e o passaporte falso que Lucas havia forjado para mim anos atrás, uma garantia que eu rezei para nunca usar.

Eu estava fechando o zíper do forro da mala quando a maçaneta da porta girou.

Empurrei a mala para debaixo da cama no momento em que a governanta, Maria, entrou. Ela parecia pálida, as mãos torcendo o avental.

"O Don está perguntando por você, Dona Alina."

Assenti, recompondo-me. Verifiquei meu reflexo no espelho; eu parecia pálida, fantasmagórica. Apropriado para uma mulher caminhando para seu próprio funeral.

Saí e desci a grande escadaria. Dante estava esperando no hall de entrada. Jade estava ao seu lado, a mão dela pousada em seu antebraço com uma possessividade que revirou meu estômago.

O menino, Léo, brincava com um carrinho no chão de mármore frio.

Dante olhou para cima. Por um instante, vi o homem que eu amava lutando para emergir através da névoa, confuso, com dor. Então o brilho químico voltou, engolindo-o por completo.

"Aí está você", disse ele. Sua voz estava muito alta, muito maníaca.

Dei os últimos passos lentamente. Senti o cheiro imediatamente, o perfume dela. Era enjoativo, doce e pesado, agarrado ao paletó dele como uma segunda pele.

"Quem são nossos convidados?", perguntei, mantendo meu rosto como uma máscara.

Dante piscou, como se estivesse genuinamente surpreso por eu ter que perguntar.

"Esta é Jade. A nova babá. E este é Léo. Estou o acolhendo como meu protegido. Ele precisa de uma figura paterna."

Jade sorriu de lado. Foi uma expressão pequena e afiada, como uma lâmina deslizando para fora da bainha.

"Prazer em conhecê-la, Sra. Vitale", disse ela, enfatizando o título que ela já havia roubado.

Léo ergueu os olhos do carrinho. Ele tinha dez anos, mas seus olhos não continham inocência infantil.

"Oi, mamãe", ele zombou.

A palavra foi um tapa calculado. Jade soltou uma risadinha pequena e delicada.

"Ele só está brincando", ela arrulhou.

Senti a bile subir pela minha garganta, queimando. Virei-me para subir as escadas, minhas mãos tremendo ao lado do corpo.

"Espere", ordenou Dante. Seu tom mudou, tornando-se agudo e autoritário. "Léo fez o almoço para você. Para começarmos com o pé direito."

Léo se levantou, tirando uma poeira imaginária dos joelhos. Ele correu para a cozinha e voltou um momento depois com uma tigela fumegante de sopa de tomate. Ele caminhou em minha direção, uma expressão estranha e ansiosa estampada em seu rosto.

"Aqui", disse ele.

Estendi a mão para pegar a tigela, com a intenção de colocá-la na mesa mais próxima e sair.

Mas no momento em que meus dedos tocaram a cerâmica, a expressão de Léo se contorceu. Ele empurrou a tigela para a frente com uma força cruel.

O líquido fervente espirrou sobre minha mão e pulso.

Eu ofeguei, a dor foi instantânea, lancinante. A tigela se estilhaçou no chão, a sopa vermelha parecendo um respingo de sangue arterial no mármore branco.

Antes que eu pudesse sequer respirar, Léo se jogou para trás no chão.

"Ela me queimou!", ele gritou, agarrando seu braço ileso, o rosto contorcido em uma agonia falsa. "Ela jogou em mim!"

Capítulo 3

Ponto de Vista de Alina

As portas duplas do escritório bateram contra o painel. Dante entrou correndo, com Jade logo atrás.

Ele não olhou para mim. Nem sequer olhou para a pele vermelha e empolada da minha mão. Ele foi direto para o menino que se contorcia no chão.

"Léo!", Dante rugiu, pegando a criança nos braços.

"Ela fez de propósito!", Léo soluçou, enterrando o rosto no peito de Dante. "Ela disse que me odeia!"

Dante se virou para mim. Seus olhos eram poços negros, as pupilas totalmente dilatadas. Não havia reconhecimento neles, nenhuma memória dos dez anos que passamos juntos. Havia apenas a fúria alimentada por drogas de um protetor defendendo sua matilha.

"Qual é o seu problema?", ele cuspiu.

Segurei meu pulso, a pele se descascando em tiras raivosas. "Dante, ele derrubou a sopeira", gaguejei. "Ele me queimou."

"Mentirosa!", gritou Jade. Ela correu para o lado de Dante, acariciando o cabelo de Léo. "Ela está com ciúmes, Dante. Com ciúmes porque ela é defeituosa. Porque não pode te dar o que eu te dei."

O olhar de Dante caiu para o meu estômago. A expressão de nojo em seu rosto estilhaçou o que restava do meu coração.

"Você é um monstro", disse ele, sua voz baixa e venenosa. "Você ataca uma criança por causa do seu próprio fracasso?"

"Meu fracasso?", sussurrei, minha voz tremendo. "Você jurou me proteger."

"Eu protejo minha família", Dante rosnou. "Suma da minha frente. Se você tocar nele de novo, Alina, vou esquecer quem você foi para mim."

Ele virou as costas. Ele se afastou, carregando o menino que sorria maliciosamente por cima de seu ombro. Jade o seguiu, parando na porta para olhar para trás, para mim.

Ela não disse uma palavra. Apenas sorriu, uma volta da vitória em silêncio.

Fiquei ali, congelada, por um longo tempo. A sopa estava secando, pegajosa e dura na minha pele. A queimadura latejava no ritmo do meu coração, uma agonia distinta e rítmica.

Fui até a pia da cozinha. Deixei a água fria correr sobre minha mão. Enrolei-a em uma toalha. Fiz tudo mecanicamente, como um robô programado apenas para sobreviver.

Lembrei-me de uma vez em que um garçom derramou vinho no meu vestido. Dante quebrou os dedos do homem. Agora, eu era a inimiga.

Subi para o meu quarto. Sentei-me na beirada da cama que costumávamos compartilhar.

Uma hora depois, a porta se abriu. Dante estava lá. Ele parecia exausto, a energia maníaca se transformando em um colapso químico.

"Vou dormir no quarto do Léo hoje", disse ele. "Ele está traumatizado."

Eu não olhei para ele. Encarei o curativo branco na minha mão.

"Tudo bem", eu disse.

Ele demorou. Talvez esperasse uma briga. Talvez, no fundo, o verdadeiro Dante estivesse gritando para sair. Mas as drogas eram mais fortes.

"Bom", disse ele.

Ele saiu.

Deitei-me no escuro. As paredes da mansão eram grossas, mas não o suficiente.

Ouvi a porta da ala de hóspedes se abrir. Ouvi a voz de Jade, baixa e murmurante. Ouvi o ronco profundo de Dante.

E então ouvi o rangido rítmico das molas da cama. Os sons do meu marido levando outra mulher para a cama na casa que meu pai construiu.

Eu não chorei. Lágrimas eram para os vivos. Meu casamento era um cadáver, e eu só estava esperando o enterro.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED