Ponto de Vista de Eliana
"Você precisa parar de ouvir suas amigas paranoicas", disse Ricardo, ajustando meticulosamente a gravata no espelho.
Ele parecia revigorado, descansado, a imagem perfeita do sucesso corporativo.
Eu, por outro lado, não dormia há vinte e quatro horas.
"Paranoicas?", perguntei, encostada no batente da porta do nosso closet, com os braços cruzados para me manter inteira. "Jéssica me mandou fotos de vocês dois no nosso carro. Ela deixou o esmalte dela na sua mesa. Ela está usando a pulseira que você disse ter perdido."
Ricardo suspirou, o som de um homem sobrecarregado por uma criança irritante.
"Jéssica é jovem. Ela é entusiasmada. Ela me vê como um mentor. As fotos? Provavelmente Photoshop ou você interpretando mal uma piada. E a pulseira... eu a encontrei. Não percebi que ela tinha uma igual."
"Ela está grávida, Ricardo."
Suas mãos congelaram no nó de seda da gravata.
O silêncio se estendeu, tenso e sufocante, sugando o ar do pequeno cômodo.
Ele se virou para me encarar lentamente.
"Quem te disse isso?"
"Ela."
"Ela está mentindo", disse ele, mas seus olhos desviaram para a esquerda antes de encontrarem os meus. "Ou talvez esteja, mas não tem nada a ver comigo."
"Ela diz que é seu. Diz que você vai comprar um apartamento para ela na Vila Olímpia."
"Isso é uma despesa da empresa!", ele explodiu, o rosto ficando vermelho. "É uma moradia corporativa. Para retenção de talentos. Você não entende a logística, Eliana."
"Eu entendia a logística quando cuidava da sua contabilidade por cinco anos. Eu entendia de negócios quando apresentei sua startup para os amigos do meu pai."
"Isso foi há muito tempo", ele zombou, virando-se de volta para o espelho. "As coisas são diferentes agora. Operamos em outro nível."
"Nós?"
"Eu. A empresa."
Ele checou o relógio.
"Olha, se o problema é dinheiro, é só dizer. Você quer um carro novo? Férias? Vá para Paris. Faça compras. Faça o que quer que você faça o dia todo."
Ele tirou um talão de cheques do bolso do paletó.
Rabiscando um número, ele arrancou a folha, estendendo-a para mim entre dois dedos.
Era de duzentos e cinquenta mil reais.
"Vá comprar algo bonito para você e pare de inventar histórias."
Olhei para o cheque.
Depois olhei para ele.
Vi o homem que amei por metade da minha vida e percebi que aquele homem estava morto.
O homem parado na minha frente era um estranho vestindo a pele do meu marido como uma fantasia.
"Eu não quero o seu dinheiro", eu disse em voz baixa.
"Então o que você quer?"
"Eu quero o divórcio."
Ricardo riu.
Foi um latido curto e agudo de diversão.
"Divórcio? Por quê? Por causa de algumas mensagens de texto? Você está sendo dramática. Você não vai me deixar, Eliana. Você não tem para onde ir. Você não trabalha há uma década."
"Eu construí esta vida com você."
"Você me assistiu construí-la", ele corrigiu.
A crueldade de suas palavras me atingiu como um tapa físico, mas eu não vacilei.
"Estou falando sério, Ricardo."
"Tudo bem", disse ele, enfiando o cheque na minha mão. "Pegue o dinheiro. Acalme-se. Conversaremos sobre isso quando você não estiver sendo histérica."
Ele saiu do closet.
Eu o segui até a sala de estar.
Jéssica estava lá.
Ela estava parada perto das janelas do chão ao teto, olhando para a cidade como se já fosse a dona dela.
Ela se virou quando entramos.
Estava usando um vestido branco justo que realçava sua figura.
Em seu dedo, havia um anel de diamante.
Não era um anel de noivado, mas era um anel de compromisso — um substituto.
Eu sabia porque tinha visto o recibo na lixeira do e-mail de Ricardo.
"Ah, oi Eliana", disse ela, a voz escorrendo uma doçura falsa. "Ricardo, você está pronto? Os investidores estão esperando."
Ela exibiu o anel ao colocar uma mecha de cabelo atrás da orelha.
"Belo lugar", acrescentou, seus olhos percorrendo a sala. "Ricardo disse que comprou os móveis para o apartamento novo do mesmo designer."
Ela estava marcando seu território.
Poderia muito bem ter urinado no meu tapete e me desafiado a limpar.
"Vamos", disse Ricardo, colocando uma mão possessiva na base das costas dela.
Ele a guiou em direção à porta, sem nem mesmo olhar para mim.
"Espere", eu disse.
Eles pararam.
"Você acha que isso é um jogo?", perguntei, minha voz tremendo de raiva contida. "Você acha que pode simplesmente me substituir como se eu fosse um servidor desatualizado?"
Ricardo se virou, o rosto sombrio.
"Pare com isso, Eliana. Você está se humilhando."
"Você está dormindo com sua assistente na minha cama, perdendo meu aniversário para ficar com ela e mentindo na minha cara. Isso não é um casamento. É uma farsa. Você não é um CEO, Ricardo. Você é um clichê. Você é o homem de meia-idade apavorado em envelhecer, correndo atrás de uma garota que só ama a sua carteira."
Jéssica ofegou, agarrando o estômago teatralmente.
"Ricardo, ela está me estressando. O bebê..."
Os olhos de Ricardo se arregalaram.
Ele se virou para mim, apontando um dedo na minha cara.
"Mais uma palavra", ele sibilou. "Mais uma palavra, e você não ganha nada. Sem pensão. Sem acordo. Nada."
Olhei para o dedo dele, depois para seus olhos.
"Eu não quero o seu dinheiro", repeti. "Eu quero sair."
"Você está louca", ele murmurou.
Ele conduziu Jéssica para fora e bateu a porta.
O som ecoou pelo apartamento vazio como um tiro.
Olhei para o cheque em minha mão.
Rasguei-o em pedacinhos e os deixei cair no chão como confete sem valor.
Ponto de Vista de Eliana
Fiz uma única mala.
Apenas o essencial: roupas, meu laptop e a câmera Nikon vintage que eu não tocava há anos — uma relíquia de uma vida que eu costumava possuir.
Deixei as chaves na bancada de mármore.
Deixei os cartões de crédito de platina que ele me deu, abandonando a coleira de plástico de seu controle.
Sem olhar para trás, saí da cobertura e chamei um táxi.
"Para onde?", perguntou o motorista.
"Qualquer lugar, menos aqui", sussurrei, minha voz trêmula, antes de dar o endereço de Sara.
Sara abriu a porta e não fez perguntas.
Ela apenas me puxou para um abraço que cheirava a lavanda e segurança.
Fiquei lá por três dias.
Mantive meu celular desligado, um tijolo preto de silêncio.
Bebi vinho barato e chorei até meus olhos incharem e fecharem.
Então, no quarto dia, acordei e as lágrimas haviam sumido.
Senti-me leve.
Oca, talvez, mas inegavelmente leve.
Peguei minha câmera.
Andei pelo bairro de Sara, capturando imagens do mundano e do quebrado: calçadas rachadas, ervas daninhas forçando passagem pelo concreto, a luz da manhã atingindo uma escada de incêndio enferrujada.
Foi como respirar depois de prender a respiração debaixo d'água por quinze anos.
Sara chegou do trabalho e me encontrou editando fotos no meu laptop.
"Ele está te procurando", disse ela, jogando a bolsa no sofá com um suspiro cansado.
"Eu sei."
"Ele me ligou. Parecia... irritado."
"Não preocupado?"
"Ele perguntou se você já tinha terminado de fazer seu chilique."
Eu ri. Foi um som seco e áspero, como folhas mortas farfalhando no asfalto.
"Ele acha que vou voltar porque preciso dele."
"Você precisa?"
"Eu preciso de oxigênio. Não preciso dele."
Abri uma aba no navegador.
O rosto de Ricardo estava estampado na primeira página de um site de notícias de tecnologia.
*Magnata da Tecnologia Ricardo Ferraz sobre o Futuro da IA.*
Cliquei no vídeo.
Ele estava sentado em um palco, irradiando aquele carisma praticado e visionário.
O entrevistador perguntou sobre seu sistema de apoio.
"Eu tenho uma equipe incrível", disse Ricardo, sorrindo. "Especialmente minha diretora de criação, Jéssica. Ela é minha musa. Ela sabe do que eu preciso antes de mim. Na semana passada, ela mandou trazer uma caixa de cookies de macadâmia porque sabe que são os meus favoritos."
Eu congelei.
Nozes de macadâmia.
Minha garganta se apertou só de ouvir as palavras. Eu era mortalmente alérgica.
Por quinze anos, essas nozes foram banidas da nossa casa. Uma regra única e inegociável.
Ele sabia disso.
Ou pelo menos, eu achava que ele sabia.
"Ela é indispensável", continuou Ricardo, seus olhos se suavizando enquanto olhava para fora da câmera.
Fechei o laptop com força.
Não era que ele tivesse esquecido.
Era que ele simplesmente não se importava o suficiente para lembrar.
Ele havia trocado a minha segurança pelos cookies dela.
Meu celular, que eu finalmente havia ligado, apitou.
Era uma mensagem de Ricardo.
*Pare de joguinhos. Volte para casa. A casa está uma bagunça e não consigo encontrar meu passaporte.*
Depois outra.
*Jéssica está tentando ajudar, mas ela não sabe onde as coisas ficam. Você está sendo egoísta.*
Egoísta.
Eu lhe dei minha juventude. Eu lhe dei minha herança. Sacrifiquei minha arte em seu altar.
E ele me chamava de egoísta porque não conseguia encontrar um passaporte.
Digitei uma resposta.
*O passaporte está no cofre. A combinação é a data em que você fundou a empresa. Não o nosso aniversário. Você nunca a mudou.*
Não apertei enviar.
Em vez disso, apaguei a mensagem.
Levantei-me e peguei meu casaco.
"Onde você vai?", perguntou Sara.
"Preciso voltar", eu disse.
"Eliana, não."
"Não para ficar", eu disse, minha voz endurecendo como aço. "Deixei algo para trás. Algo que não pertence a ele."
"O quê?"
"O anel da minha mãe."
Sara me olhou, preocupada.
"Você quer que eu vá com você?"
"Não. Preciso fazer isso sozinha. Preciso vê-lo uma última vez, sem os óculos cor-de-rosa."
Saí para o ar fresco da noite.
Eu não estava voltando para um lar.
Estava voltando a uma cena de crime para coletar as provas.