Ponto de Vista: Alina
Minha primeira prioridade ao pousar era o Núcleo Prometeus. Era o coração da Monteiro Tech, um supercomputador quântico alojado em um laboratório subterrâneo sob nossa sede corporativa. Ele continha cada linha de código que eu já havia escrito, o ápice do trabalho da minha vida. Sem ele, a empresa não passava de uma casca vazia com um logotipo chique.
Chegar até ele era o problema. Anos atrás, em um acesso do que eu então acreditava ser paranoia romântica, Bernardo insistiu em um protocolo de autorização dupla para a entrada do laboratório. Uma varredura de retina e uma impressão da palma da mão. De nós dois. Simultaneamente. "Para proteger nosso legado", ele disse, segurando meu rosto em suas mãos. "Para garantir que ninguém possa tirar isso de nós."
Agora, sua precaução havia se tornado minha prisão.
O jato pousou com um baque suave. Um carro preto esperava na pista. O assistente de Bernardo, um homem de aparência severa chamado Marcos, nos encontrou nos degraus. Ele não olhou para mim, seu olhar fixo em Bernardo, que já caminhava em direção ao carro.
"Espere aqui pelo Júlio", Bernardo ordenou por cima do ombro. "Leve-o de volta para a mansão."
Ele entrou no carro sem olhar para trás e partiu em alta velocidade, me deixando sozinha na pista ventosa. Uma hora depois, outro carro chegou com meu filho. Júlio correu para os meus braços, seu pequeno corpo ainda tremendo.
Ajoelhei-me, afastando o cabelo de sua testa. "Júlio, querido, me escute. Você quer ir em uma grande aventura? Só você e eu?"
Ele olhou para mim, seus olhos grandes e sérios. Eram os olhos de Bernardo, mas não tinham nada da frieza dele. Eles continham apenas uma confiança profunda e inabalável em mim.
"Nós vamos deixar o papai?", ele perguntou, sua voz um pequeno sussurro.
A pergunta foi um soco no estômago. Respirei fundo. "Sim, meu amor. Nós vamos."
Ele assentiu, um gesto solene, quase adulto, que partiu meu coração. "Bom", ele disse. "Eu não gosto mais dele. O Marcos me disse que se eu chorasse no avião, o papai ficaria bravo e jogaria você do céu."
A crueldade casual daquilo me tirou o fôlego. Eu o abracei com mais força, minha própria raiva uma brasa ardente em meu peito. "Ele não pode mais nos machucar, Júlio. Eu prometo. Agora, você está comigo?"
"Sempre, mamãe", ele disse, seus pequenos braços envolvendo meu pescoço. "Somos você e eu."
Minha determinação se transformou em aço.
Levei-o primeiro à sede da empresa, uma torre reluzente de vidro e aço que eu havia projetado em minha mente muito antes de o primeiro tijolo ser assentado. Os seguranças na recepção me cumprimentaram com sorrisos ensaiados, mas seus olhos estavam cautelosos. A notícia do caso de Bernardo era um segredo aberto.
Como eu esperava, o elevador para o laboratório do subsolo não respondeu apenas ao meu cartão de acesso.
"Acesso negado", anunciou uma voz estéril e computadorizada. "Autorização secundária necessária."
Júlio olhou para o scanner. "O papai não está aqui", ele afirmou, sua simples observação cortando mais fundo do que qualquer insulto.
Claro que ele não estava. Ele estava com Carla. Lembrei-me do dia em que ele instalou o sistema. Ele beijou minha palma depois que o scanner registrou minha impressão. "Assim, sempre teremos que fazer isso juntos", ele disse, sua voz suave. "Você está presa a mim, Alina Wade." Parecia uma promessa na época. Agora parecia uma jaula.
Derrotada por enquanto, levei Júlio de volta ao nosso antigo apartamento, aquele em que morávamos antes do dinheiro e da fama. Era um pequeno apartamento de dois quartos que eu mantive, pagando o aluguel todo mês como uma apólice de seguro secreta. Um lugar para onde correr se o castelo de vidro algum dia se estilhaçasse.
O ar lá dentro estava viciado, cheirando a poeira e memórias esquecidas. Júlio e eu nos movemos pelos pequenos cômodos, arrumando uma única mala. Brinquedos, roupas, alguns livros.
"Esse não, mamãe", ele disse, apontando para um urso de pelúcia azul. "O papai me deu esse."
Ele examinou suas coisas com uma precisão arrepiante, criando duas pilhas. A minha. A dele. Não havia mais 'nosso'. Cada presente de Bernardo, cada item associado a ele, foi deixado para trás. Eu o observei, um nó se formando em minha garganta. Ele tinha apenas cinco anos, mas entendia a traição de uma forma que nenhuma criança deveria.
"Está tudo bem, mamãe", ele disse, vendo as lágrimas brotarem em meus olhos. Ele se aproximou e deu um tapinha na minha mão. "Nós não precisamos dele."
Sua força era minha âncora. Na parede da sala havia uma pintura — uma representação infantil e colorida de nossa família. Bernardo a pintou com Júlio um ano atrás, durante um raro fim de semana em que ele estava totalmente presente, quando ainda era um pai e um marido. Ele mesmo a emoldurou, pendurando-a com um floreio. "O legado Monteiro", ele declarou, rindo.
Eu olhei para ela, para as figuras de palito sorridentes de mãos dadas sob um sol torto. Minha mão tremeu quando peguei um marcador preto da escrivaninha. Desenhei uma linha grossa e raivosa sobre o rosto sorridente de Bernardo.
Júlio me observou por um momento, depois pegou um marcador vermelho e rabiscou sobre sua própria figura de palito. "Eu vou desenhar um novo, mamãe", ele disse, sua voz firme. "Só você e eu. E talvez o Gui."
A menção do meu velho amigo de faculdade, a única pessoa que permaneceu firmemente ao meu lado, trouxe um sorriso aguado aos meus lábios.
Fomos implacáveis. Cada vestígio de Bernardo foi expurgado. As fotos na lareira foram para o lixo. As roupas que ele deixou no armário foram ensacadas para doação. Até encontrei um frasco esquecido da colônia cara e personalizada que ele usava e a despejei no ralo.
Pintei a parede onde o quadro estava pendurado, o cheiro de tinta fresca cobrindo o aroma de memórias viciadas. No banheiro, encontrei uma caixa de seu remédio para alergia. Ele era propenso a reações graves e debilitantes a poeira e pólen. Sem pensar, joguei a caixa na lata de lixo. Foi um ato mesquinho, mas parecia cortar mais um laço.
Finalmente, estava feito. O apartamento estava despojado, uma lousa em branco. Segurei a mão do meu filho, nossa única mala ao lado da porta, e voltamos para a gaiola dourada que Bernardo chamava de lar.
Ele nos esperava no grande hall de entrada com piso de mármore. Ele parecia desgrenhado, o cabelo despenteado, a camisa amassada. Ele fedia a álcool e a um perfume enjoativamente doce que não era o meu.
"Onde diabos você esteve?", ele exigiu, seus olhos ardendo com um fogo possessivo.
Puxei Júlio para trás de mim, protegendo-o. "Não, Bernardo. Não na frente dele."
Nesse momento, uma figura apareceu na escadaria imponente. Era Carla, envolta em um dos roupões de seda de Bernardo, seu rosto uma máscara de falsa inocência.
"Bernardo, querido", ela arrulhou, descendo as escadas. "Eu estava tão preocupada. Por favor, não me mande embora de novo. A Sra. Monteiro... ela me assusta." Ela agarrou o braço dele, pressionando-se contra ele.
Ele olhou para ela, sua expressão suavizando instantaneamente. "Está tudo bem, meu passarinho. Eu estou aqui." Ele passou a mão pelo cabelo dela, então seus olhos piscaram para um arranhão fraco em seu braço. "O que é isso?"
Carla se encolheu, puxando a manga do roupão para baixo. "Não é nada. É que... algumas das outras estagiárias têm dito coisas. Espalhando rumores de que a Sra. Monteiro me quer fora. Elas têm sido... cruéis." Ela olhou para ele, o lábio inferior tremendo. Ela era uma mestra em sua arte, uma virtuose da vitimização.
O rosto de Bernardo endureceu enquanto olhava para mim. "Você vê o que fez? Você e seu ciúme. Você não podia simplesmente deixá-la em paz, podia?"
Eu não respondi. Apenas me abaixei e cobri os olhos de Júlio com a mão. "Está tudo bem, meu amor. Estamos apenas brincando de um jogo."
"Eu pedi para você trazê-la de volta, Alina, não para a aterrorizar", Bernardo continuou, sua voz subindo.
Carla caiu de joelhos, um gesto dramático e teatral. "Por favor, Sr. Monteiro, não culpe sua esposa. A culpa é minha. Eu vou embora. Não quero causar mais problemas."
Bernardo a pegou nos braços como se ela não pesasse nada. Ele a segurou contra o peito, aninhando-a. Ele olhou para mim por cima da cabeça dela, seus olhos cheios de uma ameaça fria e aterrorizante.
"Precisamos conversar", ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. "No escritório. Agora."
Júlio puxou minha manga, sua pequena voz um sussurro desesperado. "Mamãe, quando vamos para a nossa aventura? Quando vamos deixá-lo?"
Acariciei seu cabelo, meu coração doendo. "Em breve, meu amor. Muito em breve."
Meu olhar passou por Bernardo e Carla, em direção às portas abertas da sala de estar. Pela fresta, eu podia vê-los. Bernardo estava sussurrando algo para ela, seus lábios roçando sua orelha. Ela riu, um som agudo e tilintante que irritou meus nervos. Então ele a beijou, um beijo profundo e apaixonado, bem ali no coração da nossa casa.
O mundo ficou em silêncio. O sangue sumiu do meu rosto, e um rugido oco encheu meus ouvidos. Era o som do último fio de esperança finalmente se rompendo.
Ponto de Vista: Alina
A visão de Bernardo beijando Carla em nossa sala de estar foi como um golpe físico. O ar saiu dos meus pulmões, deixando uma dor oca em seu lugar. Fiquei paralisada, uma espectadora silenciosa do desmantelamento final e brutal da minha vida.
Guiei Júlio gentilmente escada acima até seu quarto. "Fique aqui e brinque com sua nova estação espacial, ok, meu amor? A mamãe precisa conversar com o papai um pouco."
Ele olhou para mim, seu pequeno rosto gravado com preocupação. "Você prometeu que iríamos embora. Em três dias."
"Eu prometo", sussurrei, beijando sua testa. "Três dias. Só você e eu."
Fechei a porta dele e desci a grande escadaria, cada passo parecendo mais pesado que o anterior. Bernardo estava me esperando na entrada do escritório. Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando em minha carne, e me puxou para dentro, batendo a porta atrás de nós.
O escritório, antes nosso santuário compartilhado, agora era território alienígena. Meus livros sobre mecânica quântica e teoria computacional haviam sumido das prateleiras, substituídos por revistas de moda e romances. Uma manta rosa e fofa estava jogada sobre a poltrona de couro onde eu costumava sentar. O cômodo cheirava fracamente ao perfume enjoativo dela.
Foi aqui que começamos tudo. Foi aqui que esbocei a arquitetura inicial do Núcleo Prometeus em um quadro branco, com Bernardo me observando com um olhar de pura admiração. "Você é um gênio do caralho, Alina Wade", ele sussurrou, me beijando até eu ficar tonta. "Meu gênio." Aquela memória, antes uma fonte de conforto, agora parecia uma piada cruel.
"Que porra é essa?", ele rugiu, jogando um arquivo na mesa. Era a papelada de transferência de Carla.
"Eu te disse", falei, minha voz estranhamente calma. "Eu estava consertando sua bagunça."
Ele caminhou em minha direção, o rosto uma máscara de fúria. "Você acha que pode simplesmente se livrar dela? Como se ela fosse algum tipo de... inconveniência?" Ele apontou um dedo para o meu rosto. "Deixe-me ser claro. Você não vai tocar nela. Você não vai falar com ela. Você não vai nem olhar para ela. Entendido?"
"E os papéis do divórcio?", perguntei, as palavras com gosto de cinzas.
"Não haverá divórcio", ele zombou. "Você é a Sra. Bernardo Monteiro. Você permanecerá Sra. Bernardo Monteiro. Você fará o papel da esposa feliz e solidária, e não causará mais problemas."
Minha determinação se fortaleceu. O Núcleo Prometeus. Eu precisava dele. "Tudo bem", eu disse, minha voz plana. "Mas há uma falha crítica no último conjunto de dados. Preciso entrar no laboratório para fazer diagnósticos. Preciso de você para a autorização."
Ele me olhou, os olhos semicerrados de desconfiança. Por um momento, pensei que ele recusaria. Mas a ideia de sua preciosa empresa estar em risco era um motivador poderoso.
"A Carla tem uma consulta médica amanhã de manhã. Eu a levarei", ele disse, suas prioridades doentiamente claras. "Posso estar no escritório ao meio-dia. Você vai esperar."
Ele já estava perdido. Ele me via como uma megera ciumenta e vingativa, e Carla como uma vítima indefesa. Ele estava cego para a verdade, perdido em uma fantasia que ela havia tecido com tanta perícia.
Naquela noite, fui acordada por um grito agudo. Era Carla.
Antes que eu pudesse processar o que estava acontecendo, a porta do meu quarto se abriu e Bernardo entrou furioso. Ele me agarrou pelos cabelos, me arrastando para fora da cama e para o chão frio.
"O que você fez com ela?", ele berrou, o rosto contorcido de raiva.
Júlio, acordado pela comoção, saiu correndo de seu quarto. "Mamãe!", ele chorou, tentando puxar a mão de Bernardo do meu cabelo. Bernardo o empurrou, fazendo nosso pequeno filho tropeçar para trás e bater na parede.
Dor e fúria lutavam dentro de mim. Levantei-me com dificuldade, posicionando-me entre Bernardo e Júlio. "Não se atreva a tocar nele!"
"Eu devia saber", Bernardo cuspiu, seus olhos selvagens. "Ela é inocente demais. Ela nunca faria isso consigo mesma."
Ele me arrastou pelo corredor até o quarto de hóspedes onde Carla estava. A porta estava aberta. Ela estava no chão, o pulso sangrando no tapete branco imaculado. Um caco de um copo de água quebrado jazia ao lado dela. Ela estava soluçando, um lamento patético e teatral.
"Me desculpe, Bernardo", ela chorou, olhando para ele com os olhos cheios de lágrimas. "Eu só... eu não aguento mais. Ela disse... ela disse que você acabaria se cansando de mim. Que eu deveria acabar com tudo..."
Protegi os olhos de Júlio, virando seu rosto para o meu lado para que ele não pudesse ver a cena horrível. Mas eu vi. Vi o corte superficial, o caco de vidro cuidadosamente colocado, as lágrimas de crocodilo. Era uma performance, uma peça de chantagem emocional perfeitamente executada.
E Bernardo comprou cada segundo.
Ele correu para o lado dela, envolvendo-a em seus braços. "Está tudo bem, meu passarinho. Eu te peguei." Ele me fuzilou por cima do ombro dela, seus olhos cheios de puro ódio. "Você fez isso."
Ele a carregou para fora do quarto, gritando ordens para a equipe da casa chamar uma ambulância. Um par de seus guarda-costas me flanqueou, suas expressões sombrias. Eu era uma prisioneira em minha própria casa.
Eles me escoltaram até o hospital, com Júlio agarrado à minha mão. A sala de emergência era um borrão caótico de ruído e luz. Bernardo andava de um lado para o outro, um destroço perturbado, enquanto Carla era levada por uma equipe de médicos. Ele havia comprado a atuação dela tão completamente que estava genuinamente apavorado por ela. Teria sido risível se não fosse tão patético.
Ele finalmente parou de andar e se virou para mim, seu rosto uma máscara fria e dura.
"Você está gostando disso, não está?", ele disse, sua voz pingando veneno.
Antes que eu pudesse responder, ele se lançou sobre mim. No meio do corredor lotado do hospital, ele agarrou o colarinho do meu pijama de seda e o rasgou. Botões se espalharam pelo chão de linóleo.
Eu ofeguei, instintivamente tentando cobrir meu peito exposto. Ele agarrou meus pulsos, segurando-os com um aperto de torno.
"Deixe todo mundo ver", ele sibilou, o rosto a centímetros do meu. "Deixe que vejam o monstro feio e ciumento que você se tornou."
"Bernardo, pare com isso", supliquei, minha voz mal um sussurro. "As pessoas estão olhando."
O flash das câmeras disparou ao nosso redor. A imprensa, provavelmente avisada por sua própria equipe de relações públicas, havia chegado. Eles nos cercaram como abutres, suas lentes famintas pela minha humilhação.
"Quem sou eu?", ele exigiu, sua voz perigosamente baixa. "Diga."
Lágrimas embaçaram minha visão. "Você é meu marido", engasguei.
"E o que eu faço?"
"Você me protege", sussurrei, as palavras um eco oco de um passado há muito morto.
Com um puxão final e brutal, ele rasgou completamente minha blusa, deixando-me nua da cintura para cima sob a luz fluorescente e dura. Os flashes das câmeras eram implacáveis, um estroboscópio ofuscante de degradação pública.
"Eu vou te destruir, Alina", ele zombou, sua voz uma promessa fria. "Vou te despojar de tudo. Seu nome, sua dignidade, sua reputação. Quando eu terminar, você não será nada."
Ele costumava traçar a curva da minha clavícula com as pontas dos dedos, seu toque reverente. "Perfeita", ele murmurava. "E toda minha." Ele era obcecado pelo meu corpo, possessivo e territorial. Agora, era ele quem o expunha ao mundo, usando-o como uma arma contra mim. A ironia era um ácido amargo e ardente em minha garganta.
Caí no chão, tremendo incontrolavelmente enquanto tentava puxar os restos esfarrapados da minha blusa ao meu redor.
Ele se inclinou, sua voz um sussurro frio em meu ouvido. "As fotos já estão online. Bem-vinda à sua nova vida, Sra. Monteiro."
Ele se endireitou e se afastou sem olhar para trás, deixando-me exposta e quebrada no chão frio do hospital. Consegui dar uma risada fraca e trêmula que soou mais como um soluço. Apertei meu peito, uma dor física florescendo ali, aguda e insuportável. O homem que um dia jurou me proteger do mundo acabara de me jogar aos lobos.