Capítulo 2

Ponto de Vista de Cora

A voz de Heitor, geralmente ríspida e imponente, era agora um murmúrio suave de preocupação, um contraste gritante com o tom desdenhoso que ele usara comigo segundos antes. Ele segurava o celular no ouvido, o olhar fixo em algum ponto distante, já a quilômetros de distância da nossa sala de estar em ruínas.

"Ah, meu bem, não chore," ele sussurrou no receptor, seu polegar esfregando inconscientemente a borda do celular. "Está tudo bem. Apenas me diga o que aconteceu. Com calma."

Pelos sons abafados, eu podia dizer que Kaila estava aflita, suas palavras saindo em uma torrente de desamparo fingido. Era uma performance que eu já havia testemunhado em primeira mão, embora nunca dirigida a mim. Ela era mestre em transformar pequenos inconvenientes em emergências catastróficas, tudo para garantir a atenção total de Heitor. Agora, ouvindo aquilo, era nauseante.

"Um pneu furado? Com essa chuva?" Heitor exclamou, sua preocupação aumentando. "E o borracheiro está sendo grosso? Inacreditável. Não se preocupe, estou a caminho. Não se mova um centímetro, estarei aí em vinte minutos." Ele desligou a chamada, já pegando as chaves do carro.

Minha mente girou. Um pneu furado. Essa era a "questão urgente" que se sobrepunha ao nosso casamento de uma década, aquele que ele acabara de assinar casualmente. Lembrei-me do inverno passado, quando meu carro quebrou na Rodovia dos Bandeirantes, a quilômetros de qualquer lugar. Liguei para ele por horas, finalmente conseguindo falar apenas para ele me dizer que estava em uma reunião crucial e que mandaria alguém. Alguém. Não ele.

Eu o observei agora, pegando suas coisas, seus movimentos rápidos e determinados. Ele era um homem em uma missão, um cavaleiro correndo para ajudar sua donzela. Era um papel que ele nunca desempenhou para mim. Nunca.

Uma risada amarga borbulhou na minha garganta. Todos aqueles anos que passei tentando ser a esposa perfeita, a parceira solidária, aquela que nunca causava problemas. Todos aqueles anos em que racionalizei sua distância, sua frieza, dizendo a mim mesma que era apenas o jeito dele, um subproduto inevitável de sua natureza ambiciosa. Mas ele não era frio. Não com ela. Ele era terno, atencioso, protetor. Meu coração parecia uma ameixa seca, espremida de toda a sua esperança.

Ele parou na porta, olhando para mim. "Eu volto mais tarde," ele disse, sua voz neutra, já distante. "Não me espere."

Eu não respondi. Apenas fiquei ali, uma sentinela silenciosa nas ruínas da minha vida. Ele saiu, a porta da frente se fechando com um clique suave que ecoou como um tiro.

Olhei ao redor da nossa opulenta sala de estar, para os móveis feitos sob medida, a arte cara, a vida que havíamos construído. Tudo parecia oco, vazio. Era hora de limpar tudo. Não apenas fisicamente, mas emocionalmente.

Comecei pelo meu closet. Vestidos, sapatos, bolsas – muitos deles presentes de Heitor. Cada item guardava uma memória, um momento em que eu tive esperança, em que acreditei. Eu os tirei, um por um, e os joguei em uma grande caixa de doação. O caro colar de diamantes que ele me deu no nosso quinto aniversário, aquele que eu tanto estimava? Foi para a caixa. Eu não queria nada que carregasse seu toque, seu falso afeto.

Então fui para minha caixa de joias, encontrando o relógio sofisticado que comprei para ele em seu trigésimo aniversário, gravado com nossas iniciais. Peguei-o, meus dedos traçando o metal frio. Ele raramente o usava. Preferia os modelos mais chamativos e novos que Kaila provavelmente escolheu para ele. Joguei-o na caixa também. Que outra pessoa o tenha. Que saibam como é ter o coração nas mãos.

Bem quando eu estava prestes a ir para a estante de livros, a porta da frente se abriu novamente. Minha respiração prendeu. Ele havia esquecido algo?

Não. Era Heitor, segurando a porta aberta para Kaila. E nos braços dela, um minúsculo e fofo cachorrinho branco, seu rabo abanando furiosamente. Kaila riu, aninhando a cabeça dele.

"Ah, Heitor, obrigada, ele é perfeito!" ela sussurrou, sua voz doentiamente doce.

Meu sangue gelou. Minha mente voltou ao pequeno gatinho de rua que eu encontrei uma vez, trazendo-o para casa com a esperança de lhe dar um lar amoroso. Heitor ficou furioso. Ele declarou que odiava animais, que eram bagunceiros, exigentes e um incômodo. Ele me fez doá-lo. Agora, aqui estava ele, radiante para um cachorrinho, seu braço protetoramente ao redor de Kaila.

"Ele é um bom menino, não é?" Heitor disse, seus olhos em Kaila e no cachorrinho, um calor irradiando dele que eu não sentia há anos. "Kaila disse que sempre quis um cachorrinho, então pensei, por que não?"

Ele passou por mim, como se eu fizesse parte da mobília, e foi para a cozinha. Kaila o seguiu, ainda mimando o cachorro.

"Cora, o jantar está pronto?" Heitor chamou da cozinha, sua voz tingida de uma expectativa casual. "Estou morrendo de fome."

Minhas mãos se fecharam em punhos. Jantar. Claro. Por quase uma década, o jantar sempre esteve pronto. Porque eu o fazia. Porque eu era sua esposa. Sua chef pessoal.

"Não, Heitor," eu disse, minha voz neutra, desprovida de emoção. "O jantar não está pronto. E não estará."

Ele saiu da cozinha, uma carranca no rosto. Kaila, ainda segurando o cachorrinho, espiou por cima do ombro dele, seus olhos arregalados com um choque fingido.

"Como assim não estará?" ele exigiu, sua voz endurecendo. "Você está fazendo algum tipo de birra?"

"Heitor, querido, talvez a Cora esteja apenas cansada," Kaila interveio, sua voz suave, apaziguadora. Ela se aproximou dele, colocando a mão em seu braço. "Foi um longo dia para todos. Por que eu não peço um delivery para nós?"

A carranca de Heitor se desfez, seu olhar suavizando ao olhar para Kaila. "Você tem razão, querida. Sempre tão atenciosa." Ele se virou para mim, seus olhos frios novamente. "Viu, Cora? Existem outras maneiras de ser útil."

Kaila então deu um passo à frente, seus olhos inocentes fixos em mim. "Cora, eu realmente sinto muito por... tudo," ela começou, sua voz pingando falsa simpatia. "Eu nunca quis que nada disso acontecesse. Eu realmente espero que você e o Heitor possam... se reconciliar. Vocês estão juntos há tanto tempo." Ela fungou delicadamente, enxugando uma lágrima inexistente.

Minha paciência se esgotou. "Não se atreva, Kaila," eu sibilei, minha voz baixa, mas letal. "Não se atreva a ficar aí e fingir ser a espectadora inocente. Você sabia exatamente o que estava fazendo. As ligações demoradas, os toques 'acidentais', a maneira como você olhava para ele do outro lado da sala, a maneira como você manipulava cada situação para chamar a atenção dele. Foi calculado. Cada movimento."

Os olhos de Kaila se arregalaram ainda mais, e então, como se fosse um sinal, uma lágrima traçou um caminho por sua bochecha. Ela soltou um pequeno soluço sufocado. "Como você pode dizer essas coisas? Eu só... eu admiro tanto o Heitor."

Antes que eu pudesse dizer outra palavra, Heitor a puxou para seus braços, de costas para mim, protegendo-a. "Cora! Já chega! Você não tem vergonha? Ela é uma jovem, você está apenas com ciúmes e ressentimento." Sua voz estava cheia de nojo. Ele embalou a cabeça de Kaila, acariciando seu cabelo. "Está tudo bem, querida. Ela está apenas descontando porque não consegue lidar com a verdade."

Eu os observei, a cena familiar se desenrolando pela última vez. Meu marido, protegendo sua jovem estagiária, enquanto eu, sua esposa por quase uma década, ficava descartada, acusada e totalmente invisível. Senti um cansaço profundo se instalar em meus ossos, uma fadiga que ia além do esgotamento físico. Eu estava cansada das brigas. Cansada da dor no coração. Cansada dele.

Mais tarde naquela noite, depois que eles foram para a cama, fiz um voto silencioso. Eu nunca mais seria essa pessoa. Arrumei uma pequena mala, deixando todo o resto para trás. Dirigi até uma clínica que pesquisei discretamente. O procedimento foi rápido, irreversível. Eu havia desistido de tanto por ele, até mesmo da escolha de ser mãe, porque ele uma vez disse que não estava pronto para dividir sua atenção. Agora, com ele tão claramente dividido, eu sabia que precisava reivindicar essa parte de mim mesma. Garanti que não haveria volta. Nem para mim. Nem para nós.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Cora

Com o cheiro estéril do hospital impregnado em minhas roupas, saí da sala de procedimento, uma dor surda latejando em meu baixo-ventre. A decisão foi minha, tomada com uma resolução fria e clara, uma ruptura final com um futuro que Heitor já havia apagado. Meu celular vibrou na minha mão, me tirando do meu torpor. Era minha mãe.

"Cora, é a Aline," sua voz estava tensa, embargada de lágrimas. "Aconteceu uma coisa terrível."

Meu coração parou. Aline, minha irmãzinha, minha brilhante e vulnerável Aline, que estava apenas começando sua carreira, cheia de sonhos. Heitor sempre a desprezou, vendo-a como mais uma de minhas responsabilidades, um dreno no meu tempo. Se eu precisasse ajudá-la, ele sutilmente, ou não tão sutilmente, me lembrava de minhas próprias obrigações com nossa vida, com a carreira dele. Agora, com ele fora de cena, a culpa de tê-la deixado para trás me corroía.

Antes que eu pudesse processar as palavras de minha mãe, um toque de celular agudo e familiar cortou o ar. A mãe de Heitor. Minha ex-sogra. Mesmo no meu estado atual, me preparei.

"Cora, que bobagem é essa que estou ouvindo?" Sua voz, afiada e acusadora, cortou o telefone. "Divórcio? Você enlouqueceu? Heitor é um homem de sucesso, um partidão! E você simplesmente joga tudo fora?"

"Dona Sônia, acho que isso é entre Heitor e eu," eu disse, minha voz neutra.

"Entre vocês? Não, querida, é sobre o nome da família, o legado! Você precisa voltar para ele, pedir desculpas, consertar as coisas. O lugar de uma mulher é ao lado do marido, apoiando-o. O que você acha que vai fazer sem ele? Você não é nada sem o Heitor." Suas palavras eram um gotejar familiar e insidioso de veneno. "E não pense que eu não sei sobre aquela estagiária. Kaila é uma menina doce, muito ambiciosa, se encaixa perfeitamente na imagem do Heitor. Ela entende o mundo dele. Muito melhor do que você jamais entendeu, honestamente. Ela é uma garota esperta, sempre tão ansiosa para aprender com o Heitor."

Meu sangue gelou. Ela sabia. Ela sabia o tempo todo sobre Kaila, e ela aprovava. Não era apenas a traição de Heitor, era a cumplicidade de toda a sua família. Eles viam Kaila como uma melhoria, um acessório mais brilhante para o menino de ouro deles.

"Talvez você devesse se preocupar com a imagem do seu filho, então," eu disse, minha voz perigosamente calma. "Porque agora, não está parecendo muito boa." E com isso, desliguei. A linha ficou muda, simbolizando o rompimento final dos laços.

Liguei para minha mãe de volta, minhas mãos tremendo. "Mãe, o que aconteceu com a Aline?"

Sua voz estava sufocada por soluços. "Ela... ela foi agredida, Cora. Pelo chefe dela. Kevin Bauer. Ele é um monstro. Ele usou a posição dele... se aproveitou dela..."

Minha visão ficou turva. Aline. Minha doce e inocente irmã. Isso não podia estar acontecendo. "Mãe, onde ela está? Estou indo."

Encontrei Aline encolhida em uma bola na cama, seus olhos vermelhos e inchados, seu corpo tremendo. Meu coração se partiu em um milhão de pedaços. Ela era tão pequena, tão frágil.

"Cora," ela sussurrou, sua voz quase inaudível. "Eu não sei o que fazer. Ele disse... ele disse que arruinaria minha vida se eu contasse a alguém. Ele é tão poderoso."

"Nós vamos lutar contra ele, Aline," eu disse, acariciando seu cabelo. "Nós vamos conseguir justiça. Heitor... Heitor saberá o que fazer. Ele é o melhor advogado."

Aline olhou para mim, um lampejo de esperança, mas depois se apagou. "Mas... ele está ocupado, não está? Com seus casos importantes. E agora com... a Kaila..."

"Não," eu insisti, engolindo minha própria amargura. "Ele não vai virar as costas para a família. Eu vou até ele. Vou fazer com que ele ajude."

Na manhã seguinte, armada com um vislumbre de esperança por Aline, dirigi até o escritório de advocacia de Heitor. A imponente torre de vidro na Faria Lima brilhava ao sol da manhã, um monumento à ambição e ao poder. Lá dentro, o saguão fervilhava com um caos controlado de assistentes, clientes e advogados juniores.

Eu conhecia as regras de Heitor. Sem visitas não agendadas. Sem interrupções pessoais durante o horário de trabalho. Mas isso não era pessoal. Isso era vida ou morte para minha irmã.

Aproximei-me da recepção, dizendo meu nome. A recepcionista, um rosto novo que não me reconheceu, disse-me que o Sr. Bastos estava em uma reunião e tinha uma agenda lotada. Expliquei a urgência, que era um assunto de família. Ela finalmente concordou em transmitir uma mensagem. Sentei-me na luxuosa área de espera, cercada por clientes de aparência nervosa.

Uma hora se passou. Depois outra. Observei o relógio, minha ansiedade crescendo a cada tique-taque. Aline estava em casa, sozinha, quebrada.

De repente, uma voz familiar e adocicada cortou o barulho profissional. "Bom dia a todos! O Sr. Bastos já chegou?"

Kaila. Ela entrou dançando, sua bolsa de grife pendurada no ombro, um sorriso deslumbrante no rosto. Ela cumprimentou a assistente de Heitor como uma velha amiga, um sussurro rápido e íntimo passando entre elas. Então, sem um olhar para a sala de espera cheia de clientes, ela caminhou direto para a porta do escritório de Heitor, bateu uma vez e entrou.

Meu sangue gelou. Simples assim. Sem hora marcada, sem espera. Apenas um passeio casual em seu santuário particular.

Alguns minutos depois, a assistente de Heitor apareceu, parecendo arrependida. "O Sr. Bastos tem um... assunto muito urgente e imprevisto com um cliente. Ele ficará ocupado por tempo indeterminado. Recomendamos reagendar." Ela evitou meu olhar.

Senti uma nova onda de náusea. Assunto imprevisto. Certo.

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