Capítulo 2

O dia amanheceu tranquilo, mas havia algo estranho no ar. O vento parecia sussurrar meu nome, e meu peito carregava uma inquietação difícil de explicar. Faltavam apenas cinco dias para o meu aniversário de 18 anos - e, mesmo com toda a ansiedade boa pela festa que meus pais estavam preparando, um certo peso me rondava o coração.

Minha mãe passou a manhã toda preparando os detalhes do bolo, e meu pai saiu bem cedo para resolver algo com o Conselho da Alcateia. Eu fiquei em casa ajudando com as decorações enquanto ouvia músicas antigas no rádio da cozinha. Liam, Luísa e Ju viriam mais tarde para ensaiar uma apresentação surpresa. Eles insistem em me fazer rir mesmo quando eu não estou no clima.

No entanto, algo naquela tarde me tirava a paz. O céu, mesmo ensolarado, carregava nuvens que vinham do leste - pesadas e cinzentas. Uma sensação estranha crescia dentro de mim, como se algo grande estivesse se aproximando... algo que poderia mudar tudo.

- "Morgana, está tudo bem?" - perguntou minha mãe ao notar minha expressão distante.

Assenti com um sorriso forçado.

- "Só tô pensando..."

- "Na sua alma gêmea?" - ela perguntou baixinho, com aquele olhar compreensivo de mãe.

Desviei o olhar.

- "Acho que sim. Sei lá, mãe. E se ele nunca aparecer? E se eu for diferente demais até pra ter um companheiro?"

Ela se aproximou, enxugando as mãos no avental antes de pousá-las sobre minhas bochechas.

- "Filha, o destino nunca falha. Ele pode atrasar, mas nunca erra. Talvez o universo só esteja esperando o momento certo... e esse momento está mais perto do que você imagina."

À noite, houve uma reunião especial da alcateia. Era noite de lua cheia - o momento mais sagrado para nós. Mesmo que eu ainda não tenha completado minha primeira transformação em público, sempre participo dos rituais de meditação e conexão espiritual.

Foi durante essa cerimônia que senti pela primeira vez aquele calafrio profundo na espinha, como se algo - ou alguém - estivesse me observando. Virei a cabeça devagar, tentando ignorar a sensação, mas meus olhos encontraram os de um lobo negro entre as árvores.

Seus olhos brilhavam intensamente... um verde profundo, como esmeraldas vivas.

Ele não era da nossa alcateia.

Fiquei imóvel, como se o mundo tivesse congelado. Meu coração acelerou, e algo dentro de mim pareceu despertar... como se cordas invisíveis estivessem se conectando entre nós.

Mas num piscar de olhos, ele desapareceu entre as sombras da floresta.

- "Morgana?" - a voz de Liam me trouxe de volta. - "Você viu alguma coisa?"

Engoli em seco.

- "Acho que... nada. Foi só impressão."

Mas dentro de mim, eu sabia.

Algo estava vindo.

E aquela noite de lua cheia havia mudado tudo.

Capítulo 3

A noite estava silenciosa demais. A floresta além da casa parecia conter a respiração, como se soubesse que algo estava para acontecer. A lua cheia, alta no céu, lançava sua luz prateada sobre o mundo como um farol antigo e mágico.

Depois de um dia cheio de preparativos para a festa de aniversário, tudo o que eu queria era dormir. Mas algo em mim... inquietava. Uma espécie de ansiedade que não vinha da mente, e sim da alma.

Deitei na cama, virei de um lado para o outro, respirei fundo, fechei os olhos.

E então, como se o mundo se apagasse, tudo mudou.

Era como cair dentro de um espelho de água. O ar ficou denso, a realidade escorregou pelos meus dedos, e de repente me vi em outro lugar.

Estava em uma floresta cinzenta, envolta em névoa. Tudo ali parecia feito de sombras e memórias esquecidas. As árvores eram altas, retorcidas, antigas. Suas folhas sussurravam segredos quando o vento passava.

- "O que é esse lugar...?" - murmurei, tentando controlar o tremor na voz.

Meus pés estavam descalços, tocando o solo úmido. Sentia a terra viva, pulsando embaixo de mim. O ar cheirava a musgo, magia e mistério.

Então eu o senti.

Antes mesmo de vê-lo.

A presença.

Imensa. Selvagem. Antiga.

Uma energia crua e arrebatadora.

De entre as árvores, ele surgiu: um lobo preto como a noite, com olhos vermelhos que brilhavam como rubis em brasa. Ele caminhava com passos lentos, silenciosos. Nenhuma folha se movia sob suas patas.

Fiquei paralisada. Não por medo. Mas por... reconhecimento.

Era como se eu o conhecesse de vidas que nunca vivi.

Como se ele fosse parte de mim.

- "Quem é você?" - perguntei, a voz embargada.

Ele se aproximou, o olhar cravado no meu. Cada passo dele parecia sacudir a terra. Seu tamanho era maior do que qualquer outro lobo que eu já vira, mesmo nos contos antigos. Era uma força da natureza.

Então ouvi a voz. Grave. Sólida. Ecoando dentro da minha mente.

- "Você voltou para mim, minha luz na escuridão."

Eu recuei um passo, surpresa.

- "Isso é um sonho... não é?"

- "É mais do que isso, Morgana Fenrisse. Aqui, as verdades se revelam."

Meus olhos se arregalaram. Como ele sabia meu nome?

- "Você ainda não entende o que é. Mas entenderá. Logo."

O lobo me encarava como se estivesse sondando minha alma. Então, seu corpo brilhou com uma luz sutil. Aos poucos, ele começou a mudar de forma. A pelagem desapareceu, os olhos continuaram os mesmos, mas agora diante de mim estava um homem.

Alto, ombros largos, cabelos castanhos claros e lisos, olhos verdes como as matas ancestrais. Sua presença era tão intensa quanto a do lobo, mas agora havia outra coisa em seu olhar... dor.

- "Você me pertence, e eu a você."

Minha garganta secou. Ele deu um passo adiante, mas não senti perigo - senti calor. Uma conexão invisível queimava no ar entre nós.

- "Mas antes de sermos um, você precisa lembrar. Precisa despertar."

- "Despertar o quê?" - perguntei, sem conseguir parar de tremer.

Ele não respondeu. Apenas levantou a mão e tocou levemente minha testa com dois dedos. Um calor percorreu todo meu corpo. Meus olhos se fecharam, como se um vendaval me engolisse.

Acordei assustada, sentada na cama, respirando com dificuldade. Meu quarto estava como sempre - quieto, escuro, real.

Levei a mão à testa onde ele me tocou. Estava quente.

Pulei da cama e acendi o abajur.

Nada de anormal, exceto...

Sobre o meu travesseiro, repousava uma pena negra. Longa, reluzente. Brilhava como se estivesse viva sob a luz fraca.

Toquei nela com os dedos. Um arrepio percorreu meu corpo.

- "Isso não foi só um sonho..." - sussurrei.

Algo dentro de mim havia sido acordado.

E agora, nada mais seria como antes.

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