A minha noite começou a dar errado no momento em que minha irmã se recusou a me levar para o bairro dos mafiosos.
Ela disse que já passava das dez horas da noite e que não queria se meter em problemas com os nossos pais. Me deu um sermão de vinte minutos falando que eu não podia faltar a aula do dia seguinte, e que Suzan acabaria me levando para o buraco com aqueles convites para bailes no Quartel. Eu não contei que, na realidade, eu quem convenci Suzan a ir para o baile, porque nem mesmo ela frequentava o lugar em dias de semana.
A minha irmã me ajudou no máximo a arrumar alguns travesseiros em minha cama para que meus pais não se perguntassem onde eu estaria, já que eles não sabiam que o tal trabalho de escola que eu faria seria naquela noite. Ela também se comprometeu — se conseguisse continuar acordada até que eles chegassem — a mentir sobre eu ter coberto a cabeça por sentir dor de cabeça, e que seria bom se eles não tirassem minhas cobertas para ver o que estava acontecendo.
Nós não tínhamos dúvidas de que eles acreditariam, meus pais se faziam de burros para não perceber que uma das filhas era completamente desandada. Por isso, por culpa da minha irmã, tive de recorrer a um ônibus.
Suzan me disse que o horário era difícil para que eu conseguisse pegar algum, mas eu arrisquei. Por muito pouco eu não tive de esperar por meia hora até que outro chegasse, e tive de ir o caminho inteiro em pé, porque o horário era o pico da noite, em que boa parte dos trabalhadores estariam indo embora para casa, e eu o peguei na metade do caminho, e não na estação como os outros.
Eu atraí olhares pelo tamanho da minha roupa numa noite fria já dentro do ônibus, mas fiz o melhor para ignorar. Eu nunca me cansaria de dizer o quanto achava a energia dos moradores do Quartel das Sombras numa das melhores que já senti na vida.
É claro que, sendo uma pessoa de fora, que apenas estava ali para a diversão dos bailes e da facilidade de conseguir drogas, tudo me parecia bonito demais. Eu nem mesmo me incomodei quando saltei do ônibus e dei de cara com um bar lotado de homens.
O meu vestido era curto demais, só que as coisas estavam mudando. Embora os homens tenham me observado da cabeça aos pés, fazendo comentários baixinho entre si, nenhum deles deu qualquer sinal de que avançaria o limite de apenas observar.
Mas, conhecendo os homens da forma que eu conhecia, andei o mais depressa possível do ponto na frente do bar para a entrada do bairro, querendo evitar problemas daquele tipo. Suzan me encontrou exatamente onde disse que estaria.
Ela usava um short branco e um cropped preto que deixava sua barriga de fora e o piercing no umbigo bem a mostra. Eu sempre a considerei uma garota bonita demais, principalmente pela franjinha e o cabelo escorrido que a davam a compleição de uma índia.
O tom de pele dela também era surpreendentemente escuro e bonito, combinando perfeitamente com as bijuterias douradas que ela usava nas orelhas e em cada um dos dedos da mão. Nem mesmo o meu vestido rosa e chique conseguia invalidar a beleza de Suzan em sua simplicidade.
Suzan me pegou pelo braço para caminharmos juntas, porque as ruas dentro do Quartel estavam movimentadas demais naquela noite, muita atividade para que uma pessoa de fora conseguisse passar despercebida. Os postes de luz eram poucos ali, mas as luzes dos faróis das motos e dos carros nos permitiam enxergar com clareza o caminho.
Eu podia contar nos dedos quantas vezes cada pessoa cruzando o asfalto me olhou enquanto eu me agarrava em Suzan e deixava que ela me levasse para os fundos do grande e perigoso bairro. A caminhada era longa, meus saltos não foram feitos para aquilo, e eu tropecei várias vezes, sentindo as sandálias escorregarem.
Mas, apesar de resmungar baixinho cada vez que o meu calcanhar bambeava, eu não daria o braço a torcer de usar um simples tênis como Suzan. Motos entravam e saiam de suas casas escuras e de aspecto antigo o tempo todo, alguns garotos jovens se sentavam na calçada da entrada e observavam com atenção a rua abaixo que levava para fora do Quartel; eu sabia que só estavam ali para vigiar no caso de a polícia aparecer.
Algumas outras pessoas se juntavam àqueles garotos, conversando como quem não quer nada, mas boa parte delas nos observava com mais atenção do que normalmente fariam. Lado a lado como estávamos na entrada do bairro, Suzan e eu parecíamos polos opostos; ela, preta, bonita e reluzente. Eu, pálida e loira, abusando de cores fortes para chamar atenção.
Uma música começou em um lugar distante, e ainda nem estávamos na metade do bairro.
— Por que é que todo mundo está olhando assim pra gente? — perguntei baixinho para Suzan. Um homem passou por nós, virou a cabeça e ficou parado no meio da rua, querendo saber para onde estávamos indo. — Su, estou começando a ficar com medo.
— Ah, Vic, só estão curiosos porque não estão acostumados a ver você e porque você está encarando todo mundo. Para com isso — explicou ela, dando uma risadinha e gritando um cumprimento para um grupo de meninas que também começava a cruzar o bairro do outro lado da rua. Mantive minha atenção nas casas ao nosso redor, nos cães que passavam farejando o chão, e nas crianças que corriam livremente pela rua. Era tarde da noite, mas, ali, ninguém se preocupava com isso. — E porque o meu pai me proibiu de ir até o baile dessa noite. Ele disse que andou vendo uns policiais revirando o bairro esses dias. Até levou um sermão enquanto ia trabalhar.
— Parece que eu sou a má influência aqui — falei em tom de deboche. Suzan riu. Era a mais pura verdade pensar daquela forma. Nem mesmo ela, morando no Quartel, conseguia ser tão atentada quanto eu. — Vamos pensar pelo lado bom, se alguma merda acontecer, estaremos juntas.
— A sensação que eu tenho, é que só fazemos isso — disparou Suzan, suspirando. Eu dei risada. O som ecoou pela rua fria, mas só não chamou tanto a atenção porque a música estava cada vez mais alta. O frio ali também estava pior, eu me encolhi, aproveitando o calor de Suzan para conter os arrepios. — Mas, Vic, essa noite, por favor, não arrume confusão com as outras meninas. Vamos acabar rolando bairro a fora numa dessas loucuras que você faz quando bebe.
— Eu prometo que não vou beber hoje — garanti, cruzando os dedos nas costas. — Além do mais, eu só estou aqui para dançar. Deus me livre arrumar alguma confusão e ficar cara a cara com o chefe. Você falou mal o bastante dele para que eu morresse de medo.
— Sua sorte é que o chefe tem coisas demais para fazer do que estar nos bailes — disse ela, ainda rindo, mas balançou a cabeça. — Você parece ter o dom de se meter em furadas, Vic.
— E é por isso que somos amigas. Você é a pessoa sensata que irá me salvar desses problemas — falei, virando-me de frente para ela e caminhando de costas ao longo do bairro. — Eu sou aquela que terá boas histórias para contar aos netos.
Suzan abriu a boca para falar, mas parou, dando um sorriso largo. Eu observei o que havia chamado a sua atenção, e era um grupo de homens, em que um deles possuía os mesmos traços que os dela, mas eu sabia não ser um parente. O homem assoviou quando me viu, e eu também sorri.
— Olá, galega. Caprichou, hein? — admirou o homem que chamavam de Be, um dos seguranças da máfia mais conhecidos do bairro. Os homens atrás dele eram carregados de arma e munição até os dentes. Não que eles estivessem mostrando tudo isso naquele momento, eu só sabia porque uma das maiores recomendações de Suzan foi não dar muita brecha para os colegas de Bey, porque ninguém do alto escalão era flor que se cheirasse. Eu nem correspondi ao olhar dos homens, embora estivesse ciente do modo com que olhavam para minha roupa. Bey deu uma olhada em Suzan, o suficiente para deixá-la sem graça, então se virou para mim. — O aviso geral é o seguinte, moças, sem confusões hoje, hein? O padrão está na área, e ninguém aqui quer causar problema e ser “interrogado” por besteira, hein? Eu fiz uma expressão de quem se sentia ofendida, até coloquei uma mão no peito de modo teatral.
— Eu? Causar problemas? Por favor, Bey. Só quero dançar um pouquinho.
— E você sempre faz merda quando vem dançar um pouquinho — disse o bandido, cruzando os braços. Ele usava uma regata longa, que deixava seus braços fortes muito expostos, e quando ele os cruzou, o tamanho aumentou de modo sugestivo. Eu nem precisei olhar para Suzan para saber que ela estaria se derretendo por dentro. Ela havia me confessado uma vez o seu tipo ideal de bandido, eu apenas dava risada, porque, apesar de gostar muito do clima no Quartel, jamais me senti atraída pelos homens de lá. Eu sabia que eles eram barra pesada demais para o meu estilo de vida. — Não está lembrada não da vez que você quase apanhou das outras meninas do bairro? Se não fosse a proteção dos amigos seguranças você já estaria careca, galega.
Quando ele falava daquele jeito até dava medo de verdade, mas a história nem foi tão preocupante assim. Eu não fiz nada para que as mulheres que traficavam dentro do bairro me notassem. Elas simplesmente não concordavam com o que chamavam de “Burguesa de Quartel”, e estavam sempre na entrada do bairro para saber quando eu chegaria. E tudo não passava de provocações.
Suzan sempre deixou bem claro que eu não devia falar, ou olhar, ou fazer qualquer gesto estranho para ninguém além dela. Eu nem mesmo pagava diretamente aos traficantes quando precisava das minhas maconhas, era tudo feito através do intermédio de Suzan. Porque ela dizia que qualquer merda que eu dissesse atrairia a atenção do chefe do crime.
Só que, um belo dia, aquelas mulheres resolveram que não só falariam sobre mim pelas costas. Elas realmente tentaram tocar em mim e em Suzan, mas Bey apareceu, e as levou para o “interrogatório”, que Suzan resumiu como sendo um tribunal do alto escalão e algo que eu jamais deveria ter a curiosidade de ser levada.
Eu só sabia que, depois daquele julgamento que as tais mulheres levaram, elas nunca mais apareceram na minha frente ou de Suzan. Mas, todo cuidado era pouco dentro do Quartel, nada garantia que elas não estavam esperando uma outra oportunidade para realmente me pegar. Eu só não entendia o motivo.
Eu só era bonita demais, gostosa, rica, não fazia mal para ninguém. Infelizmente, nem toda a sociedade estava preparada para lidar com uma pessoa tão interessante quanto eu.
— Certo, eu prometo que não vou terminar a noite sem os meus cabelos — garanti para Bey. — Mas, é sempre bom contar com a sua ajuda e dos seus amigos, para o caso de as coisas saírem do controle.
— Você não tem juízo, Galega — disse ele, dando uma risada. Ele observou Suzan com mais um olhar penetrante. — Cuide da amiga para ela não ficar chapada e fazer merda de novo.
— Pode deixar — disse Suzan, sem saber se sorria ou se mantinha a expressão séria.
Bey e os homens em suas costas seguiram caminho, deixando-nos sozinhas no meio da noite fria. Eu tive que pegar Suzan pelo braço para continuar subindo, porque ela ficou em choque de ter se encontrado com o homem. Não era segredo para ninguém que a única coisa que a impedia de avançar os sinais vermelhos de perigo sobre aquele homem era justamente o fato dele não ser a melhor pessoa do mundo para se envolver.
Bey era o único homem meramente importante que eu conhecia no bairro, o restante eram apenas os aviõezinhos — que na maioria eram apenas adolescentes —, e eu conhecia todos os alertas de Suzan para me manter bem longe de todos.
Embora ela nem precisasse ficar falando, ninguém ali conseguia me garantir algum futuro tão bom quanto estar com meu rico e esnobe namorado adolescente, eu só estava ali para me divertir.
— Você viu como ele reparou nos meus cabelos? — perguntou Suzan, quando finalmente alcançamos o quarteirão em que o baile se encontrava.
As pessoas estavam espalhadas por ali, porque o espaço não era nada pequeno, e as ruas largas estavam cheias com os carros e as motos. A música estava em pleno vapor, misturada em dois tipos de sons, em que cada porta-malas de um carro exibia uma verdadeira máquina com sons alto falantes e que provocava um grave suficiente para tremer o chão.
Eu amava aquilo. Fiquei sorrindo de orelha a orelha enquanto arrastava Suzan comigo para o foco de toda a muvuca. O Quartel das Sombras levava aquele nome por se localizar num dos pontos da cidade atrás do parque central, cujas árvores se erguiam contra algumas casas e faziam sombras em cada rua.
Chamava-se de quartel por ser, de fato, um condomínio menos sofisticado ao qual eu estava habituada, e com pessoas que comercializavam produtos ilícitos sem a menor preocupação de disfarçar, bem protegidos dos olhos da polícia. Ali havia música, festivais, dança, comidas servidas em barracas. Parecia um mundo paralelo. As pessoas podiam cometer crimes sem atrapalhar a vida das outras. Tudo sempre passando pela autorização do chefe daquela região cheia de mafiosos e bandidos menores.
— Ah, seria tão mais fácil se ele não fosse tão complicado. — Suzan suspirava ao pé do meu ouvido. — Deve ser horrível ser o segurança do patrão. Imagina quais tipos de coisa ele tem que treinar para saber o que fazer? Ah, Victoria, você nem está me ouvindo.
Eu estava muito mais concentrada em aceitar a garrafa de cerveja que uma das meninas que vimos subindo cruzando obairro me oferecia. Minha mãe sempre me orientou para não beber nada que estranhos me dessem. Ela disse que eu nunca deveria estar bêbada e num lugar onde a polícia não tinha voz.
Só que, considerando tudo o que Suzan me dizia sobre o as cinco famílias que comandavam o crime naquela área, eu deveria estar mais segura ali do que no meio dos meus colegas de escola que pensavam que o dinheiro cobria qualquer crime.
Eu tomei a cerveja quase que pela metade, nem reparando que eu estava com tanta sede assim. Suzan ficou horrorizada enquanto eu me afastava dela e começava a dançar com as outras meninas.
O Reggaeton era meu estilo de música favorito. Mas eu fingia gostar de Jazz quando estava com meus pais; eu odiava Jazz.
— Amiga, o único lugar para onde ele não olhou foram os seus cabelos — falei aos gritos para Suzan, porque eu fiquei parada bem ao lado de um carro alto, em que nem existia mais uma caçamba como porta-malas, só havia o aparelho de som que provocava reverberações até na bebida dentro da minha garrafa. Eu dei risada quando duas meninas me incentivaram a descer até o chão ao som de uma canção latina.
A música não era nada elogiosa, mas o grave que ela produzia no som era contagiante. Só Suzan permanecia parada, porque todo mundo estava se entregando ao som. Eu a puxei pelo braço.
— Amiga, vem, dança.
— Estou desabafando sobre os meus sentimentos — insistiu ela, amarrando a cara.
— Desabafe enquanto dança — falei em tom de risada.