Os dias seguintes se abriram como se fossem um livro novo, sem nenhuma marca anterior. Com frieza calculada, Donavan tratou de arrancar qualquer lembrança das três de sua rotina — retirou as fotos da galeira, apagou os números de telefone e ordenou à equipe que, com toda a educação possível, recusasse ligações ou visitas. A única coisa em que se concentrava em seus pensamentos era no casamento com Alexa Cain, união aceita com rapidez surpreendente por Marcus Cain, em Nova York, que parecia até curioso com a ousadia desse passo.
A forma como Donavan se movia impressionava — havia nele uma eficiência gelada, quase impessoal, que fez até o próprio pai reconhecê-lo como alguém diferente. Ele já não era mais o rapaz apagado, que vivia preso à sombra das amizades de infância — agora se apresentava como o verdadeiro herdeiro dos Pittman, um homem disposto a abrir o próprio caminho.
Ainda assim, o passado não havia soltado suas garras.
Cerca de uma semana depois, enquanto descia os degraus da escadaria principal, Donavan deu de cara com eles — Kortney, Danielle e Jinnie, cercando Jeb como se fossem seu escudo ali no saguão.
O mordomo novo, pelo jeito, havia sido facilmente dobrado pela insistência delas.
"Donavan!", chamou Kortney com a voz carregada de acusação. "Precisamos conversar."
Jeb, que se apoiava numa bengala e mancava de maneira tão exagerada que mais parecia encenação, levantou o rosto e ostentou uma expressão de falsa inocência. "Senhor Pittman, a culpa é toda minha... eu só queria agradecer pessoalmente... por tudo que fez."
Cada palavra era escolhida para soar humilde, como se Donavan fosse um tirano impiedoso.
"Agradecer pelo quê, Jeb?", perguntou Donavan, sem alterar o tom, enquanto descia calmamente os últimos degraus.
"Por me permitir continuar aqui, mesmo depois de... bem, de tudo que aconteceu", murmurou Jeb, mantendo o olhar no chão. "Sei exatamente meu lugar. Ficarei feliz em engraxar seus sapatos, senhor, é o mínimo que posso oferecer." Antes que ele fizesse qualquer gesto, Danielle se adiantou, bloqueando sua frente. "Não fale bobagens, Jeb! Você não é criado dele, e além disso seu tornozelo ainda está machucado."
"Ele tem sido tão corajoso", acrescentou Jinnie suavemente, colocando uma mão reconfortante no braço de Jeb. "Mas você não deveria ficar de pé, Jeb."
O olhar de Kortney então se voltou em desafio para Donavan. "Você não enxerga que ele está machucado? Como pode deixá-lo acreditar que precisa trabalhar? Não sente nem um pouco de compaixão?"
Era um espetáculo quase surreal — dentro da sua própria casa, essas mulheres o acusavam de crueldade por causa justamente do homem por quem o tinham trocado poucos dias antes.
"Esta é minha casa", disse Donavan, sem alterar a voz. "Jeb é filho do administrador da propriedade. Se ele insiste em trabalhar, a decisão é dele. Mas, se se importam tanto assim, talvez fosse melhor levarem ele com vocês."
Isso não passava de um teste, pois Donavan já conhecia a resposta.
Os olhos de Jeb se arregalaram em fingido pavor, até que, de repente, como se perdesse as forças, deixou a bengala cair, despencando de joelhos no chão. "Por favor, senhor Pittman! Não me mande embora! Não tenho para onde ir! Minha família serviu à sua por gerações, não me expulse!"
Foi uma encenação épica.
"Jeb!", gritaram as três, em coro perfeito.
Apressadas, elas se jogaram para ajudá-lo, os rostos misturados entre pena e raiva.
"Donavan, como você pôde!", choramingou Kortney, segurando a cabeça dele. "Olhe só o que fez!"
"Ele só queria ser educado!", atacou Danielle, seus olhos faiscando, enquanto erguia Jeb com cuidado. "Você não passa de um monstro!"
Envolvendo-o num círculo de proteção, as três murmuravam palavras de conforto, sem sequer lançar um olhar para Donavan.
Mais uma vez, ele se via transformado no vilão de um drama barato dentro da própria casa e um peso cansado caiu sobre seus ombros — as velhas dores da vida anterior voltavam como fantasmas, junto com as lembranças de décadas sendo ignorado, tratado como nada além de um pano de fundo para a obsessão delas.
Sem responder, Donavan virou as costas e subiu os degraus em silêncio. As vozes delas o perseguiam pelo corredor, um coro estridente de lealdade cega e mal direcionada, então, ele fechou a porta do quarto e os deixou do lado de fora.
Mas a trégua não durou muito.
Poucos minutos depois, um toque discreto soou na porta e Jeb disse: "Senhor Pittman? Eu... trouxe um café. Me perdoe pela confusão que causei."
Quando abriu a porta, Donavan se deparou com Jeb segurando uma bandeja, o rosto marcado por um arrependimento ensaiado.
"Não quero", respondeu Donavan, gélido. "Vá embora."
"Só um gole, senhor", insistiu Jeb, avançando um passo. "Fui eu mesmo que preparei."
Assim que entrou no quarto, Jeb tropeçou de propósito e seu corpo se lançou para frente — a bandeja virou, e o café fervente respingou direto na mão e no braço de Donavan.
A dor foi imediata e cortante, e um grito escapou enquanto Donavan, por reflexo, empurrava Jeb.
Era justamente o que Jeb esperava. O empurrão foi fraco, mas ele aproveitou o impulso para se jogar com violência para trás, virando o corpo até acertar a cabeça no canto do criado-mudo.
O estalo seco cortou o ar, ele caiu, e um filete de sangue escorreu pela têmpora. E com um choro desesperado, gemeu alto: "Aaah! Minha cabeça!"
O grito era o sinal combinado.
A porta do quarto se escancarou e Kortney, Danielle e Jinnie entraram correndo com os olhos arregalados diante da cena — Jeb caído, sangrando, e Donavan de pé, com a pele queimada pelo café.
Nenhuma perguntou o que havia acontecido, nem notou a queimadura de Donavan — só enxergaram o que Jeb queria mostrar.
"Meu Deus, Jeb!", gritou Kortney, jogando-se ao lado dele.
Danielle e Jinnie vieram logo atrás, atropelando Donavan como se ele fosse invisível.
Na pressa, o ombro de Danielle acertou em cheio o braço queimado dele, arrancando outro gemido.
Recuando, Donavan segurou o braço dolorido, o coração em chamas como a própria carne.
Ele ficou parado, assistindo à cena — as três mulheres que já tinham sido o amor da sua vida, agora todas devotas ao homem que arruinara sua existência. A preocupação estava estampada cada olhar dirigido a Jeb, enquanto ele, queimado e ferido, não recebia sequer uma palavra.
Juntas, elas levantaram Jeb com cuidado e saíram apressadas com passos ecoando pelo corredor.
Sozinho no quarto, Donavan permanecia cercado pelo cheiro amargo de café e de traição. Uma única lágrima desceu quente pelo rosto, mas não era tristeza — era a certeza do fim.
Ele então decidiu que jamais deixaria essas mulheres tocarem de novo em sua vida, e que queimaria cada lembrança delas até restar apenas cinzas.
A sala de emergência exalava frieza e esterilidade, em contraste gritante com a dor em brasa que queimava no braço de Donavan, que aguardava o médico sozinho sobre a maca, enquanto as bolhas que marcavam sua mão contavam a história amarga do dia. Ele tinha dirigido até ali por conta própria, pois não queria arrastar os pais para dentro desse drama sujo.
Enquanto a enfermeira espalhava enfim o creme refrescante sobre a queimadura, vozes conhecidas surgiram pelo corredor — eram vozes aflitas, carregadas de pânico.
"Ele vai ficar bem?" A urgência de Kortney soou nítida. "Tragam os melhores médicos! Não importa quanto custe!"
"A cabeça dele estava sangrando demais..." A voz de Danielle oscilava de preocupação.
Um gelo percorreu o coração de Donavan — era óbvio que tinham vindo por causa de Jeb.
Sem fazer barulho, ele desceu da maca, espiou pelo canto e avistou as três, agrupadas diante de um quarto particular, com os rostos pálidos e ansiosos. Sua queimadura, real e dolorida, não havia arrancado delas sequer uma pergunta, mas o machucado forjado de Jeb fazia o mundo girar em torno dele.
Recolhido às sombras da parede, Donavan apenas escutou.
"Não dá para acreditar que Donavan fez isso", murmurou Jinnie, a voz carregada de reprovação. "Empurrar Jeb daquela forma... Ele é tão frágil."
"Ele mudou, ficou gelado", confirmou Kortney, com a raiva transbordando. "Por isso uma de nós precisa se casar com ele. Não temos escolha. É a única maneira de vigiá-lo, de garantir que não machuque Jeb de novo."
Danielle concordou com o rosto grave. "É verdade. Só o peso do nome Pittman garante a segurança de Jeb. Nossas famílias respeitam esse poder. Se uma de nós virar esposa dele, podemos intervir, proteger Jeb de Donavan e até da pressão das nossas famílias."
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Donavan.
A verdade crua, sem qualquer máscara, o atingiu como um soco — não se tratava de usar sua influência como escudo, mas de transformá-la em proteção contra ele mesmo, e no enredo distorcido delas, ele era o perigo, a ameaça.
Quando elas se casaram com ele, na outra vida, o casamento havia sido como uma prisão arquitetada para contê-lo.
A lembrança da confissão de Jinnie em seu leito de morte voltou à tona: "Usamos o nome Pittman... para proteger Jeb..."
Donavan nunca imaginara que a ameaça que queriam conter era ele, pois acreditara que se tratava do mundo externo. Um riso abafado escapou, mas soou como soluço quebrado, nascido de uma dor sufocante.
Ele tapou a boca com a mão boa, tentando abafar o som, mas o celular escorregou de seus dedos e caiu com estrondo no chão de linóleo.
O barulho reverberou pelo corredor silencioso.
As três se viraram ao mesmo tempo, arregalando os olhos ao vê-lo parado na penumbra, com as lágrimas marcando o rosto dele, a queimadura crua no braço e o desespero transbordando no olhar.
"Donavan?", chamou Kortney, insegura. "O que você está fazendo aqui?" "Seu braço...", Danielle começou, com o olhar cheio de culpa. "Foi por causa do café?"
Ele permanecia calado — apenas encarava as três arquitetas do plano que causara sua dor.
"A gente... a gente só estava preocupada", gaguejou Jinnie, tentando se aproximar. "Estávamos de cabeça quente. Pedimos desculpa pelo que falamos. Você sabe que é o mais importante para nós, Donny."
A mentira, tão ensaiada e descarada, chegava a ser quase fascinante.
"Você ainda vai se casar com uma de nós, não vai?", Kortney insistiu, recuperando o tom exigente. "As famílias estão esperando sua decisão."
Donavan fitava cada uma delas, cujos rostos lindos estavam cheios de falsidade, e seu peito doía num ritmo constante de dor com a qual começava a se acostumar.
"Minha decisão...", ele começou com a voz rouca.
Ele estava se preparando para falar, para bani-las de vez da sua vida, mas o destino interrompeu — o alarme estridente do quarto de Jeb explodiu no ar.
O monitor cardíaco disparava: BIP. BIP. BIP. BIP.
O som foi como chamado irresistível.
Em um piscar de olhos, Donavan deixou de existir para elas, que, tomadas pelo pânico, giraram e o empurraram sem pensar, correndo de volta para o quarto.
"Jeb! O que está acontecendo?!"
"Doutor! Enfermeira! Corram!"
Médicos e enfermeiras surgiram empurrando o carrinho de emergência, invadindo o quarto e gritando termos técnicos. "Pressão despencando! Estabilizem! Possível hemorragia interna do trauma craniano!"
As três mergulharam em desespero.
"Façam alguma coisa!", Kortney disparou contra uma enfermeira. "Ele não pode morrer!"
"Vou ligar para o meu pai", Danielle já digitava rápido. "Ele vai mandar o melhor neurocirurgião do país num jato agora!"
Jinnie falava baixo ao celular com o administrador do hospital, a voz dura e ameaçadora: "Se algo acontecer com ele, eu mesma fecho esse hospital."
Ali estavam elas, fúrias divinas, movendo céu e terra por Jeb Clayton.
O médico mais velho saiu, por fim, com o rosto pesado. "O trauma trouxe uma complicação inesperada. Ele entrou em falência renal aguda e precisa de transplante imediatamente."
Sem titubear, Kortney deu um passo à frente. "Façam exame em mim. Eu vou doar o rim."
As palavras pairaram no ar como sentença, pois estava ali a confirmação final do que Donavan já sabia — ela entregaria até um pedaço de si mesma por Jeb.
O médico se surpreendeu, mas assentiu. "Precisaremos também de sangue. O tipo dele é raro."
"Temos o mesmo tipo", Danielle e Jinnie responderam juntas. "Podem pegar o quanto quiserem."
Elas estavam prontas para sangrar por ele, para abrir o próprio corpo em sacrifício.
Donavan assistiu em silêncio, um fantasma esquecido no corredor, e ali morreram os últimos resquícios do amor que carregara por elas em sua primeira vida.
Não havia batalha possível, porque nunca tinha sido sequer um jogador — ele era apenas um escudo, usado para proteger o verdadeiro rei.
Ele se virou e partiu, deixando para trás o som frenético de um amor sacrificial que não lhe pertencia, e não se permitiu olhar para trás, pois já não restava nada para ver.