Quando acordei, o quarto estava cheio de estranhos. Um grupo de jovens médicos de jaleco branco estava ao redor da minha cama, sussurrando entre si.
"Quem... quem são vocês?", perguntei, minha voz rouca.
Um deles, um jovem de óculos, deu um passo à frente. "Somos residentes, Sra. Mendes. O Dr. Montenegro é nosso mentor. Ele disse que poderíamos observar seu caso."
Antes que ele pudesse continuar, uma voz feminina e afiada o interrompeu. "Observar o quê? Como se aproveitar de uma família rica?"
Virei a cabeça. A pessoa que falava era uma garota com um sorriso de desdém no rosto. Ao lado dela, parecendo tímida e inocente, estava Laís Ferraz.
"É você que tem segurado o Dr. Montenegro, não é?", a garota continuou, sua voz pingando desprezo. "Agarrada a ele por causa de algum favor antigo de família. Você está apenas usando a culpa deles para prendê-lo."
Suas palavras eram feias, mas eram verdadeiras. Uma onda de vergonha me invadiu. Por anos, eu aceitei o cuidado da família Montenegro, acreditando que era meu direito. Eu me deixei ser presa por essa "dívida de gratidão".
"Se não fosse por você, o Dr. Montenegro estaria livre para ficar com a pessoa que ele realmente ama", disse ela, olhando de forma pontual para Laís. "Alguém que o mereça. Não uma sanguessuga."
Laís olhou para baixo, um leve rubor em suas bochechas, a imagem perfeita de uma alma injustiçada, mas gentil. A visão fez meu estômago revirar.
Outro residente interveio: "Aposto que foi ideia da sua mãe. Ela provavelmente te empurrou para a família Montenegro no momento em que seu pai morreu, esperando garantir um genro rico."
"É, que interesseira."
Eles zombavam e fofocavam, suas palavras distorcendo a memória da minha mãe, uma mulher que só queria que eu fosse feliz.
Essa era a única coisa que eu não podia suportar.
"Parem com isso", eu grasnei, me erguendo. "Não se atrevam a falar da minha mãe."
A raiva me deu uma explosão de força. Eu balancei minha mão, com a intenção de dar um tapa na garota que insultou minha mãe.
Mas em um piscar de olhos, Laís se moveu, colocando-se diretamente no meu caminho.
Minha mão conectou com sua bochecha. Não foi um tapa forte, mas o som ecoou na sala silenciosa.
Laís tropeçou para trás, uma mão voando para o rosto, seus olhos arregalados em choque fingido.
"Elara! O que diabos você está fazendo?"
A voz furiosa de Arthur ecoou da porta. Ele tinha acabado de entrar. Ele viu Laís segurando a bochecha e eu com a mão ainda levantada.
Ele não hesitou. Marchou até mim, me empurrou de volta para a cama com tanta força que minha cabeça bateu na cabeceira, e puxou Laís para trás dele, protegendo-a.
"Você está louca?", ele rosnou para mim. A pura força de sua raiva era algo que eu nunca tinha visto.
Eu o encarei, meu coração doendo com uma nova onda de dor. Ele nunca, nunca tinha falado comigo daquele jeito.
Ele se virou para Laís, sua voz suavizando instantaneamente. "Você está bem? Ela te machucou?" Ele gentilmente tocou sua bochecha, seu toque cheio de uma ternura que ele não me mostrava mais. Ele a levou para fora do quarto, prometendo pegar um pouco de gelo para ela.
Os outros residentes me lançaram olhares de nojo antes de segui-los.
Alguns minutos depois, Arthur voltou, seu rosto uma máscara fria e dura.
"Peça desculpas a ela", ele ordenou.
Eu o encarei, silenciosa e desafiadora. Eu não pediria desculpas por uma armadilha que ela mesma armou.
"Você me ouviu?" Sua voz estava perigosamente baixa. "Você foi mimada pela minha família por tempo demais, Elara. Você acha que pode simplesmente bater nas pessoas quando quiser?"
"Eles estavam insultando minha mãe", eu disse, minha voz tremendo. "Laís se colocou na frente dela de propósito. Eu não queria bater nela."
A expressão de Arthur não suavizou. Ficou mais fria. "E você acha que eles estavam errados? Você acha que não está me segurando?"
O mundo parou. Minha respiração ficou presa na garganta. Ele estava concordando com eles. Ele acreditava que eu era a vilã nesta história. Ele me via como um fardo.
Um sorriso amargo e autodepreciativo tocou meus lábios. "Tudo bem", eu sussurrei. "Eu vou me desculpar."
Arrastando meu corpo dolorido para fora da cama, caminhei lentamente em direção ao seu escritório. O corredor parecia impossivelmente longo.
Laís estava sozinha em seu escritório, sentada em sua cadeira. Ela olhou para cima quando entrei, um brilho de triunfo em seus olhos antes de ser substituído por um olhar de preocupação gentil.
Lembrei-me de todas as vezes que Arthur me disse que seu escritório era proibido. "Trabalho é trabalho, Elara", ele dizia. "Sem distrações."
Aparentemente, seus princípios só se aplicavam a pessoas com quem ele não se importava.
A dor no meu peito era tão aguda que era difícil respirar.
Engoli meu orgulho, minha dignidade, meu amor. "Laís", eu disse, minha voz plana. "Me desculpe."
Ela se levantou, fingindo surpresa. "Oh, Sra. Mendes, por favor, não diga isso. Você é a noiva do Dr. Montenegro. Você é a esposa do meu mentor. Eu deveria ser a única a me desculpar."
"Não a chame assim", disse Arthur da porta. Ele tinha me seguido. Sua testa estava franzida em aborrecimento. Ele não queria que a mulher que ele amava me chamasse de sua esposa, nem mesmo de mentira.
O último pedaço do meu coração partido se desfez em pó.
"Desculpe, Dr. Montenegro", disse Laís, olhando para baixo humildemente. "Serei mais cuidadosa." Ela se virou para mim. "Sra. Mendes, eu te perdoo. Foi apenas um mal-entendido."
Sua magnanimidade era mais insultante do que qualquer tapa.
"Você pode ir agora", Arthur disse para mim, seu tom desdenhoso.
Eu me virei, minhas unhas cravando em minhas palmas, e saí.
Não cheguei longe. Ao passar pela porta, alguém correndo pelo corredor esbarrou em mim. Perdi o equilíbrio e caí no chão, meu corpo gritando em protesto.
De dentro do escritório, ouvi a voz preocupada de Arthur. "Laís, você está bem? Isso te assustou?"
Eu estava deitada no chão frio e duro, completamente ignorada.
A represa finalmente se rompeu. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Cobri minha boca para abafar os soluços que sacudiam meu corpo.
Alguns minutos depois, Arthur e Laís saíram do escritório. Ele disse que a levaria para um almoço especial para "desestressar". Eles passaram por mim como se eu fosse invisível.
Durante o resto da minha estadia no hospital, fui forçada a ouvir as enfermeiras e residentes elogiarem o quão dedicado o Dr. Montenegro era à sua promissora aluna, Laís. Eles foram a congressos acadêmicos juntos. Ele a guiou pessoalmente em procedimentos complexos. Ele comprava o almoço para ela todos os dias.
Cada história era uma nova ferida. Ele sempre esteve "ocupado demais" para essas coisas comigo.
Meu coração parecia estar sendo metodicamente rasgado em pedaços. Parei de falar, parei de reagir.
Uma noite, olhando pela janela para as luzes da cidade, uma sensação de calma me invadiu. Era a calma da finalidade absoluta.
Eu tinha acabado.
Eu o libertaria. E eu me libertaria.
No dia em que recebi alta, não fui para casa. Peguei um táxi direto para a mansão da família Montenegro.
Encontrei o Sr. Montenegro em seu escritório, uma sala grandiosa cheia de livros com capa de couro e o leve cheiro de papel velho e culpa.
"Sr. Montenegro", eu disse, minha voz firme. "Eu quero terminar o noivado com o Arthur."
Ele ergueu os olhos de sua papelada, sua expressão de puro choque. "Elara? O que é isso? O Arthur fez algo para te chatear?"
Baixei os olhos para esconder a amargura que eu sabia que estava lá. "Não", menti. "Não é sobre ele. Minha mãe vai sair da prisão em breve. Eu quero levá-la e me mudar, começar uma nova vida em outro lugar."
Era a única desculpa que eu conseguia pensar que ele aceitaria sem questionar.
Ele estudou meu rosto por um longo momento, o seu próprio gravado com uma tristeza familiar. "Entendo", disse ele finalmente. "Se é isso que você realmente quer, não vou ficar no seu caminho. Vou pedir ao meu assistente para providenciar um fundo generoso para você e sua mãe. É o mínimo que podemos fazer."
"Obrigada", sussurrei, um alívio me invadindo.
Nesse momento, a porta do escritório se abriu. "Quem está indo embora?"
Era Arthur. Ele estava na porta, as chaves balançando em sua mão, um sorriso casual no rosto.
"Vim te buscar, Elara. Pensei que poderíamos ir para casa juntos", disse ele.
Antes que seu pai pudesse dizer qualquer coisa, eu respondi rapidamente: "Estávamos apenas falando sobre minha mãe. Ela vai sair da prisão em breve."
O sorriso de Arthur não vacilou. Ele estava completamente inconsciente de que seu mundo estava prestes a mudar.
"Pai, Elara e eu vamos ficar para o jantar", ele anunciou, colocando um braço em volta dos meus ombros. Eu me encolhi com seu toque.
O jantar foi uma tortura. Arthur, atuando como o noivo devotado, habitualmente colocava minhas comidas favoritas no meu prato. Cada gesto era um lembrete doloroso de um amor que eu agora sabia ser uma mentira. Eu costumava pensar que esses pequenos hábitos eram prova de seu afeto. Agora eu os via como os movimentos vazios de um homem cumprindo um dever.
"Tenho boas notícias", Arthur anunciou alegremente para seu pai. "O local do casamento foi remarcado. Podemos finalmente nos casar no próximo mês."
Eu congelei, meu garfo batendo contra o prato.
O Sr. Montenegro olhou de seu filho para mim, a testa franzida. "Arthur, isso pode ser um problema. Elara estava me dizendo que quer cancelar tudo."
O ar ficou pesado com a tensão.
Bem na hora, o telefone de Arthur tocou, quebrando o silêncio pesado.
Ele olhou para a tela. Era Laís.
Mesmo do outro lado da mesa, eu podia ouvir sua voz fraca e chorosa. Ela estava com febre, disse ela. Estava sozinha e com medo.
A mão de Arthur se apertou em seu telefone. "Onde você está? Estou indo aí agora mesmo", disse ele, a voz tensa de urgência.
Ele desligou e se levantou da cadeira, seu bom humor anterior desaparecido. "Por que você queria cancelar o casamento?", ele me perguntou, seu tom distraído e impaciente.
Antes que eu pudesse responder, ele balançou a cabeça. "Deixa pra lá. Conversamos depois. Tenho uma emergência."
Ele saiu correndo da sala de jantar, as pernas de sua cadeira arrastando ruidosamente contra o chão em sua pressa.
Observei suas costas se afastando, uma dor familiar se instalando em meu peito. Ele não me amava. Era tão dolorosamente óbvio.
Depois de uma despedida educada, mas breve, ao Sr. Montenegro, saí da mansão e fui direto para a prisão.
Minha mãe parecia mais velha, mais frágil do que eu me lembrava. Seu cabelo tinha mais grisalhos, e seus olhos, que costumavam ser tão brilhantes, estavam nublados de preocupação.
"Elara, minha querida", disse ela, a voz rouca através do telefone do visitante. "Como você está? Os Montenegro estão te tratando bem?"
Instintivamente, puxei minha manga para cobrir os hematomas frescos no meu braço. "Eles são muito bons para mim, mãe", eu disse, forçando um sorriso brilhante. "Está tudo bem."
"E o casamento?", ela perguntou, um sorriso triste no rosto. "Sinto muito por não estar lá para te ver entrar na igreja."
O nó na minha garganta parecia enorme. "Na verdade, mãe... eu não vou me casar."
Seu sorriso desapareceu. "O quê? Por quê?"
"Eu vou te tirar daqui", eu disse, minha voz embargada por lágrimas não derramadas. "Nós vamos para algum lugar novo, só nós duas. Vamos recomeçar."
Ela olhou para mim, seus olhos cheios de uma dor profunda e comovente. Ela sabia, sem que eu dissesse uma palavra, que eu estava sofrendo.
"Tudo bem, meu bem", ela sussurrou, uma lágrima rolando por sua bochecha. "O que você quiser. A mamãe vai com você."
Voltei para a casa que Arthur e eu compartilhávamos. Parecia fria e vazia, um museu de uma vida que nunca foi real.
Comecei a fazer as malas, organizando metodicamente meus pertences. Levei apenas o que era verdadeiramente meu. As roupas, as joias, o carro — qualquer coisa que a família Montenegro me deu, eu deixei para trás.
Arthur não voltou para casa naquela noite.
Ele não voltou para casa até o final da tarde seguinte.