Capítulo 2

No dia seguinte, fiz o pedido de desculpas público. As palavras pareciam veneno na minha língua, cada sílaba uma rendição.

Fiquei diante de uma parede de câmeras e repórteres, meu rosto uma máscara de remorso ensaiado, e me humilhei publicamente por salvar uma criança moribunda.

Ariana sentou-se na primeira fila, enxugando os olhos secos, a imagem da inocência injustiçada. Ricardo ficou ao meu lado, a mão nas minhas costas em uma demonstração de apoio que parecia uma jaula.

No momento em que acabou, senti uma calma estranha. O pior havia acontecido. A ilusão estava despedaçada. Não havia mais nada a perder.

Naquela tarde, enquanto Ricardo estava em reuniões, saí da cobertura e fui ver um advogado de divórcio, um homem chamado Dr. Matias Torres, conhecido por sua discrição e tenacidade.

Sentei-me em seu escritório silencioso, forrado de livros, e contei tudo, minha voz baixa e firme. Eu queria o divórcio. Eu queria ser livre.

Matias ouviu pacientemente, seus dedos entrelaçados escondendo sua expressão. Quando terminei, ele ficou em silêncio por um longo momento.

"Sra. Montenegro," ele finalmente disse, sua voz gentil. "Há uma complicação."

Ele virou o monitor em minha direção. Mostrava um documento legal. "Esta é uma cópia do seu... acordo conjugal."

"Nosso acordo pré-nupcial," corrigi.

"Não exatamente," ele disse. Ele apontou para uma cláusula enterrada nas letras miúdas. Eu apertei os olhos para ler o jargão técnico.

"O que isso significa?" perguntei, um nó de pavor se apertando em meu estômago.

"Significa que você nunca foi legalmente casada com Ricardo Montenegro," disse Matias, sua voz plana. "Este documento, que você assinou há dez anos, estabeleceu não um casamento, mas um contrato de parceria de dez anos. Ele expirou na semana passada, no seu 'aniversário'."

O mundo girou. Os livros nas prateleiras pareciam nadar diante dos meus olhos. "Não. Isso é impossível. Nós tivemos um casamento. Uma cerimônia. Centenas de convidados."

"Uma cerimônia linda e muito pública," concordou Matias. "Mas vocês nunca registraram uma certidão de casamento no cartório. O que você assinou foi isto. Um contrato. Um que dava a Ricardo controle sobre certos bens compartilhados e delineava os termos da sua separação. Ele também contém um formidável acordo de confidencialidade."

Minha mente voltou. Dez anos atrás, uma semana antes do casamento. Ricardo veio até mim com uma pilha grossa de papéis. "Apenas algumas coisas financeiras, querida," ele disse, beijando minha testa. "Para o nosso futuro. Para que possamos construir nosso império juntos." Eu era uma socorrista; eu entendia de medicina, não de direito corporativo. Eu confiei nele. Eu o amava. Assinei onde ele me disse para assinar, sem pensar duas vezes.

"Dez anos," sussurrei, as palavras presas na minha garganta. Minha vida adulta inteira. Meu amor, minha devoção, meus sacrifícios... tudo por um contrato de negócios.

"Sinto muito, Aline," disse Matias suavemente.

Saí cambaleando de seu escritório, atordoada, as ruas da cidade um borrão de ruído e cor. Andei por horas, sem rumo, minha mente uma concha vazia. Acabei de volta na cobertura, a chave parecendo estranha na minha mão.

O apartamento estava escuro. Movi-me por ele como um fantasma, meus pés silenciosos no chão de mármore. Eu estava indo para o meu quarto quando ouvi vozes vindas do escritório de Ricardo. A dele e a de seu pai.

Eu congelei, me escondendo nas sombras do corredor.

"O contrato com a Aline expirou," seu pai, um homem que eu sempre achei frio e calculista, estava dizendo. "A fusão com os Sampaio pode prosseguir. Você e a Ariana precisam marcar uma data."

"Eu sei," a voz de Ricardo estava cansada. "Ariana já está planejando."

"Este sempre foi o acordo, Ricardo. Você teve sua década de diversão com a socorrista, e agora vai cumprir seu dever com esta família e com os Sampaio. A fusão da Montenegro Tech com as Indústrias Sampaio depende desta união. Este tem sido o plano desde que você e a Ariana estavam no colégio."

"Eu sei o plano," Ricardo retrucou, uma rara demonstração de frustração.

"Então qual é o problema?" seu pai pressionou. "Ariana está ficando impaciente. O pequeno... episódio dela no hospital na semana passada foi uma mensagem. Ela cortou o pulso, pelo amor de Deus. Apenas um arranhão, mas um sinal claro. Ela não será mais adiada."

"Foi só um truque para fazer a Aline doar sangue," Ricardo disse com desdém. "Ela sabia que isso me forçaria a agir."

"Um truque inteligente," seu pai concedeu. "Ela joga bem o jogo. Você cumpriu sua promessa a ela. Você deu a ela o casamento. Agora é hora de tornar público e finalizar o acordo."

Uma onda de náusea tão profunda que quase me fez dobrar os joelhos me atingiu. A tentativa de suicídio de Ariana... uma farsa. Uma jogada cruel e manipuladora para me machucar. E Ricardo sabia. Ele sabia o tempo todo.

As peças se encaixaram na minha mente, um mosaico de horror. Minha história de amor de dez anos era um tapa-buraco. Uma "década de diversão" antes do casamento real, do acordo real. Eu era uma diversão temporária, um peão em um jogo corporativo tão vasto que eu nem conseguia compreender.

Meu coração, que eu pensei já ter sido quebrado, parecia estar se transformando em gelo. O amor que eu sentia por ele morreu naquele momento, substituído por uma clareza fria e silenciosa.

Um pequeno som, um suspiro, escapou dos meus lábios.

As vozes no escritório pararam.

"Quem está aí?" Ricardo chamou.

Passos se aproximaram da porta. Eu não tinha para onde correr. A porta se abriu, e Ricardo estava lá, seu rosto nublado de aborrecimento, que rapidamente se transformou em um sorriso forçado quando me viu.

"Aline, querida. Você está em casa. Não ouvi você entrar."

Seu pai apareceu atrás dele, seus olhos como lascas de gelo.

"Eu... acabei de voltar," gaguejei, minha mente correndo para encontrar uma razão plausível para estar à espreita no corredor escuro.

"Você ainda está chateada com o pedido de desculpas?" Ricardo perguntou, sua voz pingando falsa simpatia. "Eu sei que foi difícil, mas foi um movimento de negócios necessário. Protege a empresa de responsabilidade. Protege nosso futuro."

Ele estendeu a mão para tocar meu braço, e senti uma onda violenta de repulsa.

"Não," eu disse, minha voz mal um sussurro.

Ele franziu a testa, interpretando mal minha reação. "Aline, não seja infantil."

Ele tentou me puxar para um abraço, sussurrando suas falsas palavras de carinho, seu hálito quente no meu pescoço. "Eu te amo. Você sabe disso, certo? Tudo que eu faço é por nós."

Senti a bile subir na minha garganta. O cheiro de seu perfume caro, um cheiro que eu antes associava à segurança e ao amor, agora cheirava a engano e podridão.

Eu o empurrei, com mais força do que pretendia.

Ele pareceu surpreso, depois irritado. "O que deu em você?"

Antes que ele pudesse dizer mais, seu telefone vibrou. Ele olhou para a tela. O nome 'Ariana' brilhava, acompanhado por um emoji de coração.

Ele atendeu, sua voz instantaneamente se suavizando em um murmúrio terno. "Oi, meu bem... Sim, o acordo está de pé... Te vejo amanhã... Claro, também estou com saudades."

Ele estava falando com ela sobre o casamento deles. O casamento real deles. Enquanto eu estava ali, a mentira de dez anos desmoronando ao meu redor.

Eu não conseguia respirar. Não suportava ficar no mesmo quarto que ele por mais um segundo.

Sem uma palavra, virei-me e caminhei em direção ao meu quarto, meus movimentos rígidos e robóticos. Eu tinha que sair. Não amanhã, não na próxima semana. Agora.

Capítulo 3

Comecei a fazer as malas. Não com a energia frenética da fuga, mas com uma precisão fria e metódica. Joguei roupas em uma mala, meus movimentos bruscos e mecânicos. Cada item — um vestido que ele me comprou, um suéter que usei em nossa primeira viagem — era um fantasma de uma vida que nunca tinha sido real.

Ricardo me seguiu até o quarto, encostado no batente da porta, um olhar de diversão preguiçosa no rosto.

"O que você está fazendo, Aline?"

"Limpando," eu disse, minha voz plana. "Me livrando de coisas que não preciso mais."

"Isso ainda é sobre o pedido de desculpas?" ele suspirou, passando a mão por seu cabelo perfeitamente penteado. "Querida, é nosso aniversário amanhã. Não vamos brigar."

Nosso aniversário. O dia em que nosso contrato expirou. A ironia era tão amarga que quase me fez rir.

"Você está certo," eu disse, forçando um sorriso que parecia vidro quebrado. "Não deveríamos brigar."

Ele caminhou em minha direção, sua confiança restaurada. Ele pensou que me tinha, que eu estava apenas tendo um acesso de raiva momentâneo que ele poderia acalmar. Ele envolveu meus braços em volta da minha cintura por trás, descansando o queixo no meu ombro.

"Essa é a minha garota," ele murmurou, seus lábios roçando minha orelha.

Fiquei rígida, minha pele se arrepiando com seu toque. Eu queria gritar, arranhá-lo, explodir com a década de mentiras. Mas eu me contive. Eu precisava ser inteligente. Eu precisava pegar o Léo e sair.

"Estou cansada," eu disse, empurrando-o gentilmente. "Só quero dormir."

Ele pareceu desapontado, mas me deixou ir. "Tudo bem. Mas amanhã, vamos comemorar. Só nós dois."

Naquela noite, deitei em nossa cama, um abismo de silêncio gelado entre nós. Ele dormia profundamente, um braço jogado possessivamente sobre minha cintura. Fiquei olhando para o teto, meus olhos ardendo com lágrimas não derramadas. Notei pela primeira vez que ele não estava usando sua aliança de casamento. Ele deve tê-la tirado depois que o contrato expirou. Minha própria aliança parecia uma marca na minha pele. Não preguei o olho a noite toda.

Na manhã seguinte, ele estava de pé antes do sol, assobiando enquanto escolhia um terno. Ele se movia pelo quarto com uma furtividade silenciosa, claramente pensando que eu ainda estava dormindo, não querendo me acordar. Ele ia se encontrar com ela. O pensamento era uma certeza fria.

Ele se inclinou e beijou minha testa. "Feliz aniversário, meu amor," ele sussurrou para minha forma imóvel, antes de sair silenciosamente.

No momento em que a porta da frente se fechou, eu estava fora da cama. Peguei meu telefone. Minhas mãos tremiam enquanto eu abria meu aplicativo de mídia social. Não precisei esperar muito.

Ariana Sampaio tinha acabado de postar uma nova foto.

Era uma foto de uma mesa de café da manhã, carregada de champanhe e morangos. Ao fundo, as costas de um homem eram visíveis, olhando pela janela para o nascer do sol. Ele estava usando o mesmo terno Tom Ford feito sob medida que Ricardo acabara de vestir.

A legenda era enjoativamente doce: *Algumas manhãs são simplesmente mais perfeitas que outras. Um brinde a novos começos!*

Os comentários já estavam inundando. Nossos amigos em comum, a elite da cidade, estavam todos se derretendo. "Meu Deus, tão feliz por vocês dois!" "Finalmente!" "Parabéns, Ariana! Você merece toda a felicidade!"

Todos eles sabiam. Eu era a única que estava vivendo no escuro. A tola.

Meus dedos voaram pela tela. Comentei em sua postagem, uma única e simples frase.

*Que terno lindo. O Ricardo tem um igualzinho.*

Observei a tela, meu coração batendo forte. Alguns segundos depois, a postagem desapareceu. Ela a havia deletado.

Meu telefone tocou quase imediatamente. Era o Ricardo. Deixei tocar. Depois, uma ligação de um número desconhecido. Eu atendi.

Era Ariana, sua voz embargada por lágrimas falsas. "Aline, eu sinto muito, muito mesmo. Você entendeu errado. Ricardo e eu estávamos apenas... estávamos em uma reunião de café da manhã com um cliente."

"Um cliente?" eu disse, minha voz desprovida de emoção.

"Sim! E eu postei aquilo sem pensar. Sinto muito se te chateou. Por favor, não fique brava com o Ricardo." Ela estava soluçando agora, uma aula magistral de manipulação.

Então a voz de Ricardo entrou na linha, afiada e zangada. "Aline, qual é a porra do seu problema? Ariana está arrasada por sua causa." Ele então suavizou o tom, o mentiroso treinado. "Olha, querida, foi um erro. Estávamos escolhendo seu presente de aniversário juntos. Eu queria te surpreender. Por favor, não estrague nossa noite. Reservei nosso restaurante favorito. Oito horas."

Ele estava com ela, confortando-a, enquanto mentia para mim.

"Um presente?" perguntei, minha voz perigosamente calma. "Que tipo de presente?"

"É uma surpresa," ele disse, um pingo de alívio em sua voz. Ele pensou que sua mentira tinha funcionado. "Te vejo às oito. Eu te amo."

Ele desligou.

Afundei na beirada da cama, o telefone escorregando de meus dedos dormentes. Ele era tão bom nisso. As mentiras casuais e fáceis. Ele teve dez anos de prática.

Coloquei o vestido que ele gostava, fiz minha maquiagem e encarei a mulher no espelho. Ela parecia calma, equilibrada, pronta para um jantar romântico. Mas por dentro, ela era uma estranha, uma mulher esvaziada pela traição, alimentada por uma raiva fria e ardente.

Eu ia para aquele jantar. Eu ia ver até onde ele iria. Eu ia assistir a toda a sua performance patética e, então, eu ia acabar com tudo.

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