Capítulo 2

Ponto de Vista: Aurora Mendes

Eu não chorei. Não gritei. Não esmurrei a pesada porta de carvalho exigindo uma explicação. Apenas fiquei ali, no corredor silencioso e acarpetado do lado de fora do escritório de Heitor, o latão frio da maçaneta um contraste gritante com o calor que subia pela minha pele. As palavras dele, e as de Felipe, ecoavam no vazio repentino.

*Ela fará isso por mim.*

Minha mão se afastou da porta. Meus nós dos dedos estavam brancos de tão forte que eu a segurava. Por um momento, apenas encarei a madeira polida, vendo o reflexo de uma garota que eu mal reconhecia – um fantasma, como Felipe havia dito. Um fantasma que assombrava as bordas de sua própria vida por oito anos, esperando por um convite para entrar na luz.

Com uma calma estranha e oca, me virei e fui embora. Meus passos não faziam barulho no tapete felpudo. Desci pelo elevador, atravessei o lobby brilhante e estéril do Grupo Azevedo e saí para o vento cortante da rua. Não olhei para trás.

Na noite da festa, meu celular vibrava incessantemente na bancada de laminado gasta do meu pequeno apartamento. Eu o ignorei. A grande gala, a extravagância do vigésimo primeiro aniversário de Evelyn, estava a todo vapor do outro lado da cidade. Eu podia imaginar perfeitamente: os lustres cintilantes, o rio de champanhe, Evelyn em um vestido que custava mais que o meu carro, e Heitor, meu irmão, sorrindo radiante ao lado dela.

Meu próprio vestido de "Boas-Vindas", um seda azul-marinho simples, mas elegante, que economizei por meses para comprar, estava pendurado no meu armário, ainda envolto em plástico.

Quando o nome de Heitor finalmente piscou na tela pela décima vez, uma onda de exaustão me atingiu. Deixei tocar até o fim, depois observei o ícone de sua mensagem de voz desesperada aparecer. Alguns minutos depois, uma mensagem de texto.

Heitor: *Onde você está? Todo mundo está esperando. O buffet preparou seus canapés favoritos.*

Meus favoritos. Mini quiches. Algo que ele se lembrava de um jantar que tivemos há cinco anos. Um detalhe pequeno e calculado para me fazer sentir vista, mesmo enquanto ele me apagava.

Outra mensagem.

Heitor: *Aurora, por favor. Me liga. Estou mandando um carro.*

Olhei ao redor do meu apartamento pequeno e esparso. Não era muito, mas era meu. Cada móvel era de segunda mão, cada livro na prateleira lido até a lombada quebrar. Era uma vida que eu construí sozinha, tijolo por tijolo solitário.

Finalmente, a ligação dele veio de novo. Desta vez, atendi, a estranha calma ainda instalada no fundo dos meus ossos.

"Aurora? Graças a Deus", ele suspirou, sua voz uma corrida frenética contra um fundo de música e risadas. "Onde você está? Você está bem? O motorista disse que você não estava aí."

Olhei pela minha janela, para a rua lá embaixo, onde uma S10 antiga e familiar estava parando no meio-fio. A porta do motorista se abriu e Caio Santos saltou para fora, suas botas de trabalho gastas batendo no asfalto. Ele olhou para a minha janela e sorriu, um sorriso real e fácil que alcançou seus olhos gentis.

"Aurora? Você está me ouvindo? Mandei preparar uma mesa especial para você, bem ao lado da minha. Seu lugar está aqui. Estamos todos esperando para te dar as boas-vindas."

Casa. A palavra era uma pílula amarga na minha língua.

"Eu já estou em casa, Heitor", eu disse, minha voz baixa, mas clara.

Caio estava encostado em sua caminhonete agora, braços cruzados, esperando pacientemente. Ele não era meu sangue, mas era a coisa mais próxima de família que eu já conheci. Crescemos no mesmo abrigo, duas crianças perdidas que encontraram uma âncora um no outro. Foi ele quem me ensinou a trocar um pneu, quem ficou comigo no pronto-socorro depois que um cachorro de rua que eu estava tentando ajudar se assustou, quem nunca, nem uma vez, me fez sentir como um fantasma.

"Do que você está falando?" A voz de Heitor era afiada com confusão e irritação crescente. "Sua casa é aqui, comigo. Conosco."

A memória de sua promessa, aquela que me manteve à tona por anos, veio à superfície. Não foi feita em uma sala de reuniões ou durante um jantar chique. Foi feita na sala de recuperação estéril e com cheiro de antisséptico de um hospital.

Eu tinha acabado de lhe dar meu rim. Meu corpo era uma paisagem de dor, cada respiração uma luta. Ele estava a horas da falência total de órgãos, seu império bilionário inútil contra um corpo que o estava traindo.

Ele segurou minha mão, a sua tremendo, lágrimas traçando caminhos por suas bochechas pálidas. "Eu nunca vou esquecer isso, Aurora", ele sussurrou, a voz rouca. "Eu juro a você. Assim que eu melhorar, tudo vai mudar. Chega de apartamento minúsculo, chega de viver à margem. Vou te levar para casa. Uma casa de verdade. Faremos uma festa, a maior festa que esta cidade já viu, e eu vou subir em um palco e dizer ao mundo inteiro que você é minha irmã, Aurora Azevedo, minha heroína."

Essa promessa tinha sido minha tábua de salvação. Eu me agarrei a ela através de anos de feriados solitários, de vê-lo construir uma família perfeita com Evelyn enquanto eu permanecia do lado de fora, olhando para dentro.

"Aurora, o que está acontecendo?" Sua voz era exigente agora, o verniz de preocupação se quebrando. "Pare de joguinhos e entre no carro que mandei para você."

"Não tem carro nenhum aqui, Heitor", eu disse, observando Caio se afastar de sua caminhonete e começar a andar em direção à entrada do meu prédio. "E eu não estou fazendo joguinhos."

A linha ficou em silêncio por um instante. Eu quase podia ouvir as engrenagens girando em sua cabeça, o pânico começando a se instalar enquanto ele percebia que estava perdendo o controle.

"Estou com o Caio agora", eu disse suavemente, as palavras parecendo mais verdadeiras do que qualquer coisa que eu disse em anos. "Esta é a minha casa."

Antes que ele pudesse responder, antes que pudesse liberar a raiva ou as falsas promessas que eu sabia que estavam vindo, eu encerrei a chamada. Desliguei meu celular e o coloquei na bancada, um retângulo preto e silencioso rompendo uma mentira de oito anos.

Uma batida soou na minha porta. Abri e encontrei Caio ali, a testa franzida com uma preocupação gentil. "Pronta pra ir?"

Eu assenti, pegando a única mala de viagem que havia feito. Ele não fez perguntas. Apenas pegou a mala da minha mão, seus dedos calejados roçando nos meus.

"A Dona Elza fez aquela carne de panela dela", ele disse enquanto descíamos as escadas. "Ela disse que sabia que você viria."

Lágrimas, quentes e repentinas, arderam nos meus olhos. Não era uma grande festa ou uma declaração pública. Era carne de panela em uma cozinha quente, feita por uma mulher que nos acolheu quando éramos crianças e nunca parou de nos tratar como seus próprios filhos. Era um lugar à mesa que estava sempre posto para mim, não importava o quê.

Era o meu lar.

"Sim", sussurrei, um sorriso de verdade finalmente rompendo a dormência. "Estou pronta."

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Capítulo 3

Ponto de Vista: Heitor Azevedo

"Ela desligou na minha cara."

As palavras soaram estranhas na minha boca. Eu estava em um nicho dourado perto do salão de festas principal, meu celular ainda pressionado contra a orelha, ouvindo o silêncio. A batida forte da música parecia zombar do martelar frenético no meu peito.

Felipe apareceu ao meu lado, um copo de uísque na mão. Ele olhou para o meu rosto e sua expressão endureceu. "Não me diga. Ela não vem."

"Ela disse que 'já estava em casa'", eu disse, a frase me irritando profundamente. "Ela estava com aquele mecânico. O Caio."

"Bom pra ela", disse Felipe, tomando um gole de sua bebida. Ele nem tentava esconder sua satisfação.

"Isso não é 'bom pra ela'!", eu explodi, virando-me para ele. "Ela deveria estar aqui! A Evelyn está prestes a cortar o bolo. Os fotógrafos estão esperando. O que eu vou dizer às pessoas?"

"A verdade?", Felipe sugeriu suavemente. "Que você tem uma irmã que manteve escondida por oito anos e que hoje, na noite em que deveria finalmente reconhecê-la, você deu a festa dela para outra pessoa? Tenho certeza que isso vai pegar super bem com o conselho."

"Isso não está ajudando", eu disse entredentes, passando a mão pelo cabelo.

"Você queria minha ajuda uma hora atrás, quando estava me dizendo como a Aurora ia baixar a cabeça e aceitar isso", ele me lembrou. "Você estava tão confiante. Tão certo de que ela aceitaria qualquer migalha que você oferecesse."

Um flash da conversa que tive com o advogado dos meus pais, o Dr. Medeiros, passou pela minha mente. Ele me ligou na semana passada, sua voz carregada de desaprovação.

"Heitor, você tem certeza sobre essa mudança de planos?", ele perguntou. "Aurora esperou muito tempo por este reconhecimento. Tê-lo publicamente entregue a Evelyn... pode ser visto como uma humilhação profunda."

"A Aurora é forte", eu disse a ele, a mesma mentira que contei a Felipe, a mesma mentira que contei a mim mesmo. "Ela entende a dinâmica da família."

"Ela é filha do seu pai, Heitor", ele disse, seu tom se tornando afiado. "Ela é a herdeira legítima de metade de tudo. Evelyn é... uma garota adorável. Mas ela não é uma Azevedo de sangue. Não se esqueça disso."

Mas eu tinha esquecido. Ou melhor, eu tinha escolhido ignorar. Era mais fácil satisfazer o ego frágil de Evelyn do que lidar com a realidade bagunçada e complicada de Aurora. Evelyn chorava se sua grife favorita estivesse sem estoque. Aurora doou um órgão vital e não pediu nada em troca. Era um cálculo simples e perverso: dê para quem exige e tire de quem dá.

"Isso tudo é só birra", eu disse, tentando recuperar o controle. "Ela está tentando provar um ponto. Ela vai se acalmar e me ligar amanhã."

"E se ela não ligar?"

"Ela vai", insisti. "Ela sabe que é uma Azevedo. Esse nome significa alguma coisa. Ela não vai jogar tudo fora por causa de uma festa."

Nesse momento, Evelyn apareceu, uma visão em ouro rosa cintilante. "Heitor! Aí está você! Todo mundo está perguntando por você. Você viu o colar de diamantes que o papai Medeiros mandou? Ele disse que era originalmente para... bem, você sabe. Mas ele disse que eu merecia mais."

Ela se exibiu, tocando a cascata de diamantes em sua garganta. Meu estômago se revirou. Era o colar que eu havia encomendado para Aurora. Uma peça personalizada com uma única e perfeita safira estrelada – a pedra favorita da nossa mãe – no centro. Era para ser o presente de "Boas-Vindas" dela.

"Ficou bom?", Evelyn perguntou, alheia à tempestade que se formava dentro de mim. Ela fez um biquinho. "Eu me sinto um pouco culpada. Você acha que a Aurora vai ficar chateada?"

"A Aurora vai ficar bem", eu disse automaticamente, as palavras com gosto de veneno. "O que importa é que você esteja feliz."

"Ah, eu estou!", ela chilreou, seu humor melhorando instantaneamente. "Agora, vamos! É hora do meu discurso. Quero você bem ao meu lado quando eu agradecer a todos por me celebrarem."

Ela pegou minha mão, seus dedos frios contra minha pele úmida. Ela me puxou de volta para o salão, de volta para os flashes das câmeras e o mar de rostos expectantes. Enquanto eu andava, me senti como um homem sendo levado para sua própria execução. Coloquei um sorriso no rosto, o mesmo sorriso polido e vazio que eu usava para capas de revistas e reuniões de acionistas.

Do palco, eu podia ver o lugar vazio na minha mesa, o serviço de mesa impecável uma acusação gritante. Eu disse a mim mesmo que manter Aurora à distância era para o bem dela, uma forma de protegê-la da pressão e dos holofotes. Outra mentira.

Eu a mantive escondida porque eu era um covarde. Eu a mantive afastada para proteger a posição de Evelyn, para proteger a narrativa familiar perfeita e descomplicada que eu havia construído com tanto cuidado. Aurora, com sua resiliência silenciosa e sua reivindicação inegável ao nosso nome, ameaçava derrubar tudo.

Evelyn se aproximou do microfone, sua voz borbulhando de excitação. "Eu só quero agradecer ao meu irmão incrível, Heitor!", ela cantou, sorrindo para mim. "Ele sempre sabe como me fazer sentir a garota mais especial do mundo."

A multidão aplaudiu. Eu sorri, os músculos do meu rosto doendo com o esforço. Felipe encontrou meu olhar do outro lado da sala e, lentamente, deliberadamente, balançou a cabeça em negação.

Naquele momento, sob o brilho quente dos holofotes, um pavor gelado começou a se infiltrar nos meus ossos, muito mais frio que o vento de julho lá fora. Isso não era uma birra. Era algo diferente.

Isso era um fim. E eu não tinha ninguém para culpar além de mim mesmo.

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