Dora POV:
A água escaldante eventualmente esfriou, espelhando o vazio em meu peito. Sequei-me com a toalha, meus movimentos rígidos e robóticos. Meu reflexo me encarava de volta, uma estranha com olhos assombrados. Este corpo, este rosto, haviam sido dele para moldar, para usar. O pensamento fez minha pele arrepiar. A exaustão, um cansaço profundo, me puxava para baixo. Desabei nos lençóis frios da cama, a cama que compartilhamos por três anos, e caí em um sono agitado e sem sonhos.
Um peso pesado deslocou o colchão. Um cheiro familiar, uma mistura de colônia cara e álcool, encheu minhas narinas. Heitor. Ele estava de volta. Fiquei tensa, meus olhos fechados com força, fingindo dormir. Sua mão, quente e possessiva, deslizou para minha cintura, me puxando para mais perto. Seus lábios roçaram meu pescoço, enviando não arrepios de prazer, mas de repulsa através de mim.
"Mm, passarinho", ele murmurou, sua voz grossa de bebida. "Não pensei que você já estaria dormindo."
Ele tentou me virar, aprofundar o abraço. Resisti sutilmente, instintivamente. Meu corpo, que antes ansiava por seu toque, agora recuava.
"O que há de errado, Dora?" Sua voz continha uma pitada de irritação, uma leve aspereza que eu não tinha ouvido antes, ou talvez tivesse escolhido ignorar. "Não me diga que você está se fazendo de difícil esta noite."
Forcei uma tosse fraca. "Eu... eu não estou me sentindo bem, Heitor. Minha cabeça dói." Não era uma mentira completa. Minha cabeça latejava com uma dor muito mais profunda do que qualquer mal físico.
Ele suspirou, uma lufada de ar frustrada contra minha orelha. "Uma dor de cabeça? De novo? Você tem estado... distante ultimamente, não é?" Ele se moveu, apoiando-se em um cotovelo, sua sombra caindo sobre mim. "Você está se cansando de mim, passarinho?" Havia um rosnado possessivo em sua voz, mas também uma estranha corrente de vulnerabilidade que quase, quase, me fez vacilar.
Mas então me lembrei de Arlete, da "receita", dos 10.000 encontros. A vulnerabilidade era outro truque, outra faceta de sua manipulação.
"Não, Heitor", sussurrei, minha voz soando oca até para meus próprios ouvidos. "Nunca. Só, de verdade, não estou me sentindo bem."
Ele riu, um som seco e sem humor. "Ah, Dora. Sempre a delicada. Você sabe que eu adoro quando você se faz de tímida." Ele se inclinou, seu corpo pesado pressionando o meu. "Mas não hoje. Hoje eu preciso de você."
Uma onda de náusea me invadiu. "Heitor, por favor", implorei, minha voz mal audível. "Eu não posso."
Ele se afastou abruptamente, um olhar surpreso em seu rosto. "Não pode? O que você quer dizer com não pode? Você nunca disse 'não posso' antes." Seus olhos se estreitaram. "Você está realmente me recusando?"
Meu coração martelava. A Dora ingênua e dependente teria desmoronado, cedido pedindo desculpas. Mas aquela Dora se foi, estilhaçada em pó. "Eu... eu só preciso descansar, Heitor. De verdade."
Ele me encarou por um longo momento, seu olhar penetrante. Eu podia sentir sua raiva crescendo, fervendo sob a superfície de seu charme praticado.
"Sabe, a Arlete nunca me dá esse tipo de problema", ele murmurou, quase para si mesmo, mas alto o suficiente para eu ouvir. O nome, como um veneno, infiltrou-se em minhas veias.
Minha respiração falhou. "Arlete?" perguntei, minha voz perigosamente suave. "É disso que se trata, Heitor? Isso faz parte da sua 'cura' para a Arlete?"
Seus olhos se arregalaram, um lampejo de choque genuíno em seu rosto. Ele rapidamente se recompôs, uma máscara fria substituindo a surpresa. "Do que você está falando, Dora? Você está alucinando? Você tem amnésia, lembra? Você não sabe de nada. Eu te encontrei, eu te salvei, eu te dei uma vida. Como você pôde pensar que eu não te amo depois de tudo que fiz por você?" Ele gesticulou ao redor do quarto luxuoso. "Olhe para isso! Tudo é seu! Tudo que eu te dei!"
"Eu não sou uma posse, Heitor." Minha voz era um sussurro trêmulo. "Eu não sou uma ferramenta para sua terapia. E eu não faço parte do seu jogo doentio para ser 'puro' para a Arlete!"
Ele se encolheu com o nome de Arlete novamente, mas rapidamente recuperou a compostura. Ele estendeu a mão, tentando segurar meu rosto. "Querida, você está exagerando. Você está chateada. Podemos conversar sobre isso de manhã. Prometo que tudo ficará claro então." Suas palavras eram suaves, praticadas, projetadas para apaziguar.
Nesse momento, seu telefone vibrou na mesa de cabeceira. A tela se iluminou, exibindo um nome que fez meu estômago se contrair: "Arlete".
Os olhos de Heitor correram para o telefone, depois de volta para mim, uma hesitação quase imperceptível. Mas estava lá. A hierarquia era clara. Ele pegou o telefone, seu sorriso praticado retornando instantaneamente, uma alegria forçada em sua voz. "Arlete? Querida, está tudo bem?"
Seu tom mudou, tornando-se cheio de uma ternura, uma preocupação urgente que ele nunca, nem uma vez, demonstrou por mim. Ele se sentou completamente, de costas para mim, totalmente absorto na ligação. "O quê? Não, não, não se preocupe, estou indo agora mesmo. Fique calma. Estou a caminho."
Ele balançou as pernas para fora da cama, pegando suas roupas. Ele não me lançou um olhar, não ofereceu uma palavra de conforto, nem mesmo um pedido de desculpas fugaz por sair. A angústia de Arlete, fosse o que fosse, eclipsou completamente minha dor, minhas lágrimas, meu mundo estilhaçado. Ele saiu correndo do quarto, a porta clicando atrás dele, me deixando sozinha na vasta e silenciosa escuridão.
Eu me encolhi em uma bola, agarrando os lençóis, sentindo-me totalmente exposta e oca. A cama, antes um santuário, era agora uma tumba fria e vazia. A superlua de sangue azul, uma testemunha silenciosa, lançava sua luz prateada pela janela, iluminando as partículas de poeira dançando no ar. O sussurro fraco e antigo do meu passado me chamava, mais alto agora, um apelo desesperado por fuga. Ele pode ter sido meu mundo inteiro, mas ele traiu esse mundo. Não havia mais nada aqui para mim. Nada além da dor roendo de um coração partido e da certeza fria e dura de que eu tinha que ir embora.
E eu iria. Em breve.
Na manhã seguinte, Heitor voltou, agindo como se nada tivesse acontecido. Ele entrou no quarto, um assobio alegre nos lábios. "Bom dia, dorminhoca", disse ele, abrindo as cortinas, deixando a luz forte do sol inundar o quarto. "Arlete teve um pequeno contratempo ontem à noite, desajeitada como sempre. Precisou que eu bancasse o cavaleiro de armadura brilhante." Ele piscou, como se isso fosse uma anedota charmosa, não outra estaca no meu coração. "Mas tudo bem quando acaba bem. Ela está bem agora, só um tornozelo torcido."
Eu o encarei, meu rosto sem emoção. Ele não percebeu, ou fingiu não perceber.
"Escute", ele continuou, alheio ao abismo entre nós. "Arlete quer te encontrar. Disse que está preocupada com você, depois que minha mãe mencionou sua pequena 'depressão' nos últimos dias." Ele sorriu, um gesto perfeitamente esculpido e vazio. "Você sabe como ela é, sempre tão carinhosa. Ela insistiu que almoçássemos hoje. Por minha conta, é claro."
Meu estômago revirou. Encontrar Arlete? A mulher para quem ele estava sendo "puro", a mulher que era a razão da minha tortura emocional de três anos? "Eu... eu não acho que posso, Heitor", eu disse, minha voz plana. "Ainda não estou me sentindo bem."
Seu sorriso vacilou. "Dora, não seja difícil. Arlete está ansiosa por isso. É só um almoço. Além disso, você sabe como é importante para você causar uma boa impressão nela. Ela é da família, de certa forma." Seu tom endureceu sutilmente. "Você não gostaria de desagradá-la, gostaria? Ou a mim?"
Ele não estava mais pedindo; estava comandando. A Dora dependente poderia ter obedecido, mas esta Dora quebrada e recém-desperta sentiu uma onda de desafio. "Eu disse que não posso", repeti, mais firme desta vez.
Seus olhos brilharam de irritação. Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Chega dessa bobagem, Dora. Você vai. Você me deve pelo menos isso." Ele me puxou da cama, seus olhos ardendo. "Vista-se. Agora."
Eu tropecei, meu corpo uma marionete em suas cordas. Não havia como escapar dele. Ainda não. Eu seguiria o jogo, por enquanto. Mas minha mente já estava a quilômetros de distância, planejando minha fuga.
Uma hora depois, eu estava sentada em frente a Arlete Sampaio em um restaurante chique e ensolarado. Ela estava impecável em um terno de seda creme, seu cabelo prateado perfeitamente penteado. Ela exalava uma aura de elegância refinada que me fez sentir ainda mais agudamente consciente da minha própria estranheza, das minhas próprias arestas.
"Dora, querida", Arlete ronronou, seu sorriso caloroso, mas seus olhos continham um brilho inquietante que eu não tinha notado antes. "Heitor me disse que você não tem se sentido bem. Coitadinha. Mas você está absolutamente radiante hoje, apesar de tudo."
Seu elogio pareceu um insulto mal disfarçado. Olhei para Heitor ao meu lado. Ele sorria para Arlete, um olhar de adoração total em seu rosto, um olhar que eu antes acreditava ser para mim. Era um contraste gritante e brutal com o olhar frio e distante que ele me dera mais cedo. A percepção se solidificou em meu estômago: eu não era radiante para ele. Eu era meramente um adereço, um acessório temporário em sua vida, e ele estava garantindo que eu soubesse disso.
Dora POV:
O almoço foi uma tortura. Heitor, meu suposto amante, mal reconheceu minha presença. Toda a sua atenção estava fixada em Arlete. Ele encheu o copo de água dela antes que estivesse pela metade, cortou seu bife em pedaços pequenos e se inclinou atentamente toda vez que ela falava, seu olhar nunca deixando o rosto dela. Ele se agarrava a cada palavra dela. Era uma devoção tão absoluta, tão profunda, que fez meu estômago revirar com uma mistura amarga de ciúme e devastação total.
"Heitor, querido", Arlete cantou, estendendo a mão sobre a mesa para dar um tapinha gentil na mão dele. Seu toque demorou, abertamente afetuoso. "Você está me mimando."
Querido. A palavra, íntima e possessiva, me cortou. Lembrei-me de como uma vez tentei chamá-lo de "meu querido" em um momento de vulnerabilidade terna. Ele se afastou gentilmente, quase imperceptivelmente, sua expressão indecifrável. "Apenas Heitor, passarinho", ele disse, uma leve carranca vincando sua testa. "Combina mais comigo." A memória daquela pequena rejeição agora parecia uma ferida aberta.
Arlete então começou a recontar nostalgicamente a infância de Heitor, uma série de anedotas sobre suas travessuras e palhaçadas adoráveis quando menino. "Ah, Heitor, lembra daquela vez que você tentou fazer um bolo para a mamãe e colocou sal em vez de açúcar? Você era um terrorzinho!" Ela riu, um som tilintante que encheu o restaurante elegante.
Heitor riu calorosamente, seus olhos se enrugando nos cantos. Ele ouvia, totalmente cativado, um sorriso suave e afetuoso no rosto, como se estivesse revivendo as memórias queridas. Esse era o sorriso que eu sempre desejei, o calor genuíno que estava tão conspicuamente ausente quando ele olhava para mim. Ele estava completamente à vontade com ela, completamente ele mesmo.
Meu coração doeu, uma dor física e aguda. Ele nunca havia falado de sua infância comigo. Nunca. Cada pergunta que eu fazia, gentil e hesitante, era recebida com um encolher de ombros vago ou uma rápida mudança de assunto. Ele não queria passado comigo, porque em sua mente, eu não tinha futuro com ele.
De repente, Arlete ofegou, sua mão voando para o dedo. "Oh, que desajeitada!" ela exclamou, uma pequena gota de vermelho florescendo em sua unha perfeitamente manicure. Ela havia se cortado na borda do garfo.
Antes que alguém pudesse reagir, Heitor estava de pé, correndo para o lado dela. Ele pegou a mão dela, examinou o corte minúsculo, seu rosto contorcido de alarme genuíno. Então, com uma ternura que me tirou o fôlego, ele levou o dedo dela aos lábios, beijando suavemente a pequena ferida. "Dói, meu amor?" ele murmurou, sua voz cheia de uma preocupação tão profunda, uma devoção tão crua, que doía fisicamente testemunhar.
Minha mente girou. Ele nunca me mostrou tal afeto desenfreado, tal pânico desprotegido. Nem mesmo quando eu acidentalmente me cortei feio na cozinha, cortando meu dedo até o osso. Ele apenas me entregou um curativo e me disse para ser mais cuidadosa.
Então, para meu horror, eu vi. Um aperto sutil, mas inegável, nas calças de Heitor. Seu corpo estava reagindo a Arlete, não apenas com preocupação, mas com desejo cru e primitivo. O sangue sumiu do meu rosto. Eu era apenas uma receita. Arlete, sua 'deusa', era a coisa real. A verdade, naquele momento, foi uma humilhação tão profunda que ameaçou me consumir. Mordi o lábio até sentir o gosto de sangue, tentando manter a compostura, para parar o tremor em minhas mãos.
Depois que Heitor se preocupou adequadamente com o pequeno corte de Arlete, ele a presenteou com uma pequena caixa de veludo. "Feliz aniversário adiantado, querida", disse ele, seus olhos brilhando de adoração. Dentro havia um colar de diamantes, brilhando sob as luzes do restaurante. Era de uma beleza estonteante e inegavelmente caro.
Arlete ofegou de prazer, seus olhos brilhando. "Oh, Heitor, você não devia! É requintado!" Ela se inclinou e beijou sua bochecha, um gesto demorado e íntimo. "Você sempre sabe do que eu gosto."
Heitor a observava, seu olhar inabalável, cheio de um amor tão potente que era quase tangível. Era um olhar que eu sempre desejei, mas nunca recebi.
Enquanto Arlete prendia o colar em seu pescoço esguio, seus olhos pousaram no meu pulso. "Oh, Dora", disse ela, sua voz pingando uma bondade cuidadosa. "Que lindo medalhão você tem. É uma antiguidade?"
Minha mão instintivamente foi para o medalhão de prata no meu pulso. Era uma herança de família, passada por gerações de mulheres da minha família. O único elo tangível com meu passado, a única coisa com que acordei neste mundo moderno. Era simples, sem adornos, mas infinitamente precioso para mim. "Sim", respondi, minha voz mal um sussurro. "Pertenceu à minha mãe."
Heitor, que estava se aquecendo no brilho de Arlete, virou-se para mim, sua expressão subitamente severa. "É muito bonito, não é?" ele disse a Arlete, ignorando minha explicação. "Dora, por que você não deixa a Arlete experimentar? Tenho certeza de que ficaria ainda mais deslumbrante nela."
Meu coração despencou no estômago. Dar o medalhão da minha mãe para Arlete? O símbolo da minha família perdida, a única peça da minha verdadeira identidade? "Eu... eu não posso, Heitor", gaguejei, minha voz mal audível. "É muito antigo e muito especial para mim. É... uma herança de família."
A mandíbula de Heitor se contraiu. Seus olhos, geralmente tão charmosos, tornaram-se frios e duros. "Não seja boba, Dora. É apenas uma bugiganga. Arlete admira. Seria rude recusar." Ele estendeu a mão para o meu pulso, seus dedos se fechando ao redor do medalhão. "Vamos, seja uma boa menina."
Puxei minha mão, meu coração martelando. "Não, Heitor. Por favor. É realmente importante para mim." Minha voz era firme, uma lasca de desafio cortando meu medo.
Seu rosto escureceu instantaneamente. "Dora", ele rosnou, sua voz baixa e perigosa. "Não faça uma cena. Arlete quer. Dê a ela."
Arlete, sempre a diplomata, colocou uma mão gentil no braço de Heitor. "Oh, Heitor, não fique bravo com ela. Está tudo bem. Eu não sonharia em tirar algo tão sentimental da Dora. Talvez ela possa me emprestar por um tempinho, só para admirá-lo direito?" Suas palavras eram melosas, mas seus olhos, quando encontraram os meus, continham um brilho agudo e triunfante. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Heitor, ainda furioso, assentiu secamente. "Viu, Dora? Arlete está sendo graciosa. Apenas por empréstimo." Ele me lançou um olhar que prometia repercussões severas se eu continuasse a resistir.
Engoli em seco, minha garganta apertada. O medalhão parecia pesado, queimando contra minha pele. O descarte casual de seu valor, a exigência descarada de entregar meu único elo com meu passado, foi uma nova ferida. Eu soube então, com uma clareza arrepiante, que eu não significava nada para ele. Absolutamente nada.
O resto da refeição foi um borrão. Sentei-me em silêncio entorpecido, a cordialidade forçada ao meu redor uma zombaria insuportável. Meu apetite se foi. Meu amor por Heitor, antes um fogo crepitante, havia diminuído para algumas brasas moribundas, agora completamente extintas.
Quando estávamos saindo do restaurante, uma chuva torrencial repentina começou. Gotas de chuva gordas martelavam o pavimento, transformando rapidamente a rua em uma bagunça caótica. Heitor correu para abrir a porta para Arlete, protegendo-a com seu guarda-chuva caro. "Cuidado, querida", ele murmurou, sua voz cheia de preocupação.
Ele então se virou para mim, seu rosto ainda marcado pela raiva residual do incidente do medalhão. "Entre no carro, Dora", ele ordenou, sua voz afiada.
Movi-me para abrir a porta de trás, mas ele a bateu a um centímetro dos meus dedos. "Nunca mais me desafie", ele sibilou, seus olhos ardendo de fúria. Com um clique aterrorizante, ele trancou as portas por dentro.
"Heitor, espere!" Arlete gritou, sua voz com o que parecia ser preocupação genuína. "O que você está fazendo? Ela vai ficar encharcada!"
Heitor se virou para ela, um sorriso arrepiante no rosto. "Ela precisa de uma lição de obediência, Arlete. Às vezes, um pouco de desconforto ensina muito." Ele então entrou no banco do motorista.
Arlete me observou com um lampejo de algo indecifrável em seus olhos, uma mistura de pena e satisfação presunçosa. Ela deu um pequeno encolher de ombros impotente, depois se virou.
Heitor ligou o motor, um rugido que abafou a chuva forte. Ele me olhou pelo espelho retrovisor, seus olhos frios e implacáveis. Ele então acelerou, enviando uma onda de água suja da chuva espirrando sobre mim enquanto o carro desaparecia na tempestade.
Fiquei ali, encharcada, tremendo e totalmente sozinha, a chuva gelada imitando as lágrimas que escorriam pelo meu rosto. Minha mente voltou a uma memória, uma falsa promessa que ele me fizera uma vez. "Eu nunca vou te deixar no frio, passarinho", ele sussurrou, me abraçando forte. "Nunca."
A mentira ecoou no vazio da rua, um testemunho cruel de seu engano.