Capítulo 2

Alina Garcia era uma musicista de um bairro operário na Zona Leste de São Paulo. Caio Alcântara era um bilionário do Vale do Silício que apareceu em sua vida como um príncipe de conto de fadas.

Ele não apenas a amava; ele havia salvado sua família. Quando a fibrose cística de seu irmão Ernesto piorou, Caio pagou pelos melhores médicos, pelos tratamentos experimentais mais caros, uma fortuna gasta sem pensar duas vezes. Ele alugou uma casa grande e ensolarada para seus pais e irmão, um mundo de distância de seu apartamento apertado.

Para Alina, ele construiu um estúdio de gravação de última geração em sua luxuosa mansão no Morumbi, um palácio de vidro e aço com vista para a cidade. Ele acreditava ferozmente em seu talento, dizendo a quem quisesse ouvir que sua música mudaria o mundo.

Ela se preocupava com o vasto abismo entre suas vidas. "Eu sou apenas uma garota do bairro, Caio", ela lhe disse uma vez. "Você é... você."

Ele a silenciou com um beijo. "Você é tudo", ele disse. "E eu não sou nada sem você."

Ele havia provado isso, ou assim ela pensava. Quando o conselho de administração de sua família tentou forçá-lo a um casamento arranjado com outra herdeira da tecnologia, ameaçando expulsá-lo de sua própria empresa, Caio lutou contra eles. Ele arriscou todo o seu império, a empresa que construiu do zero, apenas para ficar com ela.

"Eu escolho você, Alina", ele declarou, parado no meio de seu pequeno estúdio, seus olhos ardendo com uma intensidade que lhe tirou o fôlego. "Eu sempre vou escolher você."

E por dois anos, ele o fez. A vida deles era um turbilhão de paixão e música. Então veio o acidente de carro. Um motorista bêbado bateu em seu carro, deixando-a com uma perna quebrada e uma recuperação longa e dolorosa. Caio insistiu que ela fosse para uma clínica especializada na Suíça, a melhor do mundo.

Enquanto ela estava fora, algo nele quebrou. Ou talvez, as partes quebradas que ele mantinha escondidas finalmente vieram à tona. Ele ficou obcecado por Isabela Bastos, uma musicista com uma fração do talento de Alina, mas uma semelhança impressionante com ela.

Quando Alina finalmente retornou, meses depois, planejando surpreendê-lo, ela entrou em seu próprio estúdio para encontrá-lo com Isabela. Caio segurava o rosto da outra mulher em suas mãos, sua expressão de adoração desesperada.

A visão estilhaçou o mundo de Alina. Ela se virou e fugiu, um grito silencioso preso na garganta.

Caio correu atrás dela, seu rosto pálido, suas mãos tremendo. Ele a alcançou no portão, puxando-a para um abraço frenético.

"Não é o que você pensa", ele implorou, sua voz rouca. "Ela é... ela é uma substituta terapêutica. Meus médicos recomendaram. Para o meu transtorno de personalidade. Eu preciso dela para funcionar, Alina. Mas é você que eu amo. Apenas você."

Era uma mentira, uma racionalização distorcida para sua infidelidade, mas ele a proferiu com tanta convicção, tanta dor em seus olhos, que ela quase acreditou. Quando ela tentou se afastar, ele esmurrou o pilar de pedra do portão, de novo e de novo, até que seus nós dos dedos eram uma polpa sangrenta.

"Não me deixe", ele chorou. "Se você me deixar, eu me mato."

Ela não suportava vê-lo daquele jeito. Ela era uma musicista, uma curadora de almas, não uma destruidora. Então ela ficou. Ela escolheu acreditar nele, confiar que isso era uma doença que ele poderia superar.

Mas só piorou. Ele continuou a ver Isabela, cobrindo-a de presentes, levando-a aos mesmos restaurantes que havia levado Alina. Ele até a trouxe para a casa deles, a mansão que deveria ser seu santuário. Ele mudou Isabela para uma suíte de hóspedes, no mesmo corredor do quarto deles.

"Me desculpe, meu amor", ele sussurrava à noite, segurando Alina com força. "Apenas seja paciente. Estou melhorando. Vou mandá-la embora em breve."

Alina suportou, agarrando-se à esperança de que o homem que ela amava voltaria para ela.

Então, em uma tarde chuvosa, ela recebeu uma ligação de sua mãe. Seu irmão, Ernesto, estava morto. Ele havia sido encontrado em seu quarto, o frasco de remédios vazio ao seu lado. Um aparente suicídio.

O mundo de Alina desabou. Ela esperava que Caio fosse sua rocha, que a segurasse enquanto ela sofria. Em vez disso, ele estava distante, sua mente claramente em outro lugar.

Uma semente de suspeita criou raízes em seu coração. Ela dirigiu até a casa de seu irmão, sua mente girando. E então ela viu. Um detalhe no relatório da polícia, um recibo de uma farmácia perto do antigo apartamento de Isabela, com data e hora do dia anterior à morte de Ernesto. Para um medicamento que, quando misturado com sua medicação regular, era fatal.

Foi então que Alina entendeu. Isso não foi uma tragédia aleatória. Foi assassinato.

Ela correu para dentro da casa, para o quarto de seu irmão, seu coração batendo com uma certeza terrível e final.

Mas o corpo na cama não era de seu irmão. Era um manequim em tamanho real, vestido com as roupas de Ernesto.

Ela encarou, sua mente lutando para compreender a cena. Uma pegadinha cruel e elaborada.

O alívio foi tão imenso, tão avassalador, que suas pernas cederam. Ela caiu no chão, soluçando, rindo, uma bagunça histérica de emoções.

Caio apareceu na porta. Ele caminhou até ela, puxando-a para seus pés.

"Eu te amo, Alina", ele disse, sua voz suave. "Eu tinha que ter certeza de que você me amava também. Que você não me deixaria, não importa o que acontecesse."

Ele a segurou perto, acariciando seu cabelo. "Mas Isabela é frágil. Ela fica com medo quando você está chateada. Você precisa ser forte por ela."

Alina o encarou, seu rosto em branco. O amor que ela sentia por ele se foi, substituído por um vazio frio e oco.

Ela se afastou e caminhou até a janela, observando-o sair. Ela não sentiu nada.

Mais tarde naquela noite, Ernesto a encontrou em seu quarto. Ele a abraçou com força, uma presença pequena e quente na casa fria e vazia.

"Ele é um homem mau, Alina", Ernesto sussurrou, sua voz tremendo. "Eu tenho medo dele."

Alina o segurou, acariciando seu cabelo. Ela não disse uma palavra.

"Eu vou te proteger", disse Ernesto, sua pequena voz cheia de uma determinação feroz que partiu seu coração. "Eu prometo."

No dia seguinte, ela o levou ao hospital para um check-up completo, apenas para ter certeza. Enquanto o médico analisava os resultados, uma decisão se formou em sua mente, dura e clara como um diamante.

Ela se lembrou das velhas promessas de Caio, seus votos de amor eterno. Eram apenas mentiras agora. Este relacionamento, esta vida, acabou. Ela iria acabar com isso. Ela iria apagar Alina Garcia da face da terra.

Capítulo 3

O cirurgião plástico, um homem com olhos gentis e mãos delicadas, traçou as linhas do rosto de Alina com uma caneta. "Uma reconstrução completa é um procedimento importante, Sra. Garcia. Traz riscos. A recuperação será longa."

Ele agendou a cirurgia para um mês depois, dando-lhe tempo para reconsiderar.

Alina não hesitou. Ela assinou os formulários de consentimento, sua mão firme. O nome 'Alina Garcia' no papel já parecia pertencer a outra pessoa.

Ela pensou no homem que uma vez arriscou seu império por ela, que jurou que preferia morrer a perdê-la. Aquele homem se foi, substituído por um monstro. Toda essa sórdida história tinha que acabar.

Ela mandou Ernesto de volta para seu internato especializado, um lugar seguro longe do alcance de Caio. Então ela voltou para a mansão sozinha.

Ela entrou e os encontrou na sala de estar. Caio estava no sofá, Isabela montada em seu colo, suas bocas travadas. Roupas estavam espalhadas pelo chão.

Isabela a viu primeiro, afastando-se com um suspiro. "Alina!"

Caio nem se virou. Ele puxou Isabela de volta para ele, sua mão deslizando sob a camisa dela. Ele estava marcando seu território, humilhando deliberadamente Alina.

Isabela riu, depois olhou para Alina com um sorriso triunfante. "Ah, a propósito", ela disse, sua voz pingando falsa doçura. "Estou grávida."

As palavras deveriam ser um golpe mortal. Mas Alina não sentiu nada. Uma calma serena e arrepiante se instalou sobre ela. Ela já era um fantasma nesta casa.

Ela se virou sem uma palavra e foi para seu estúdio, seu santuário. Este era o único lugar que Isabela estava proibida de entrar. Caio o construiu para ela, um testamento de seu amor. Agora, era apenas uma jaula.

Ela começou a destruir metodicamente tudo. Ela arrancou suas fotos das paredes, rasgando-as em pedacinhos. Ela quebrou o violão personalizado que Caio lhe dera em seu primeiro aniversário. Ela juntou cada presente, cada carta, cada lembrança de sua vida juntos.

Ela levou tudo para a lareira e acendeu um fósforo. As chamas saltaram, consumindo o passado, transformando dois anos de amor em fumaça e cinzas.

Quando tudo se foi, ela voltou para a sala de estar.

Isabela estava esperando por ela. No momento em que Alina entrou, Isabela soltou um grito agudo e se lançou sobre ela.

"Sua monstra!", Isabela gritou, suas unhas arranhando o rosto de Alina. "Você tentou matar meu bebê!"

Alina ficou paralisada, atordoada demais para reagir.

"Do que você está falando?", ela perguntou, empurrando Isabela para longe.

Caio entrou correndo, seu rosto uma máscara trovejante de fúria. Ele imediatamente foi até Isabela, embalando-a em seus braços.

"Ela colocou algo no meu chá!", Isabela soluçou, apontando um dedo trêmulo para Alina. "Ela tentou me fazer abortar!"

"Eu vou cuidar disso", Caio rosnou, seus olhos fixos em Alina. "Vou fazê-la pagar."

Ele gesticulou para uma mesa próxima. Uma xícara de chá estava de lado, um líquido escuro manchando o mármore branco. Um pequeno pacote vazio estava ao lado. Era um poderoso abortivo, Alina o reconheceu de um jornal médico que lera.

Uma estranha sensação de pena a invadiu. Pena pela criança não nascida e pela mulher tão desesperada por uma vida que não era sua.

"Eu não fiz isso, Caio", ela disse, sua voz plana. "Eu estava no estúdio o tempo todo. Você pode checar as câmeras de segurança."

Isabela soltou outro soluço de cortar o coração. "Ela está mentindo! Ela sempre teve ciúmes de mim, do bebê!"

Caio segurou Isabela com mais força, sussurrando palavras calmantes em seu ouvido. Ele olhou para Alina com ódio puro e não adulterado.

Dois de seus guardas apareceram, agarrando Alina pelos braços. Eles a arrastaram para fora da sala, para o porão frio e escuro que se tornara sua prisão.

Eles a acorrentaram à parede, o metal frio mordendo seus pulsos.

Ela fechou os olhos, a escuridão um alívio bem-vindo. Ela estava cansada de lutar, cansada da dor. O amor que sentira por Caio era uma memória distante, um eco fraco em um coração oco. Tudo o que restava era a certeza fria e dura de sua fuga.

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