Capítulo 2

Na cozinha, executei os movimentos para fazer o chá. Minhas mãos estavam firmes enquanto eu cortava o limão e media o mel, mas meu coração batia um ritmo frenético contra minhas costelas.

Meu celular, guardado no bolso, vibrou silenciosamente. Olhei de volta para a sala de estar. Eles estavam conversando, suas vozes um murmúrio baixo. Tirei o celular e vi a mensagem de um número desconhecido.

O plano está em andamento. Sete dias. Um carro estará esperando.

Era do assistente de Heitor. A esperança, feroz e brilhante, surgiu dentro de mim. Sete dias. Eu só precisava sobreviver por mais sete dias.

Deletei rapidamente a mensagem e guardei o celular de volta no bolso, bem no momento em que Ricardo entrou na cozinha.

— Quem era? — ele perguntou, a voz casual, mas seus olhos eram afiados, desconfiados.

Eu enrijeci, de costas para ele. Minha mente correu, procurando uma mentira plausível.

— Era o buffet da festa de noivado — eu disse, virando-me para encará-lo com uma expressão plácida. — Confirmando as mudanças no cardápio.

Seus ombros relaxaram. A desconfiança em seus olhos desapareceu, substituída por um olhar suave e possessivo que antes me fazia sentir querida e agora só me dava arrepios.

— Ótimo — disse ele, aproximando-se e envolvendo meus braços em volta da minha cintura por trás. Ele apoiou o queixo no meu ombro, sua respiração quente contra meu pescoço. — Não quero que nada dê errado. Tem que ser perfeito.

Ele pressionou um beijo na minha têmpora.

— Fiquei preocupado por um segundo — ele murmurou. — Pensei que... não sei. Não suporto a ideia de você me deixar, Helena. Você sabe disso. Eu desmoronaria.

Tive que lutar contra o impulso de me afastar de seu toque. Olhei para nosso reflexo no aço polido da geladeira. Ele parecia um amante devotado abraçando sua noiva. Era uma bela mentira.

Ele era tão arrogante, tão certo do meu amor e lealdade. Ele usou esse amor para me acorrentar a ele, para desculpar sua crueldade, para me tornar cúmplice do meu próprio sofrimento.

Não mais. Desta vez, eu sabia a verdade. O "amor" dele era uma doença, uma necessidade egoísta de possuir, e eu não seria mais a sua cura.

— Devo levar isso para a Cristina — eu disse, minha voz cuidadosamente neutra enquanto me livrava gentilmente de seu aperto. Foi um pequeno ato de desafio, uma representação física da distância que eu estava colocando entre nós.

Ele me soltou, uma carranca tocando brevemente seus lábios antes que ele sorrisse novamente.

— Claro. Não a deixe esperando.

Levei a bandeja para a sala de estar. Cristina estava esparramada no sofá, parecendo perfeitamente à vontade. Ela me observou aproximar com uma expressão indecifrável.

Coloquei a xícara de chá na mesinha de centro à sua frente.

— Seu chá, Dra. Ferraz.

Ela pegou, tomou um gole delicado e depois fez uma careta.

— Está um pouco doce demais, Helena. Poderia adicionar mais limão?

Seu tom era paternalista, como se falasse com uma criança ou uma empregada. Era uma provocação deliberada, um teste.

Na minha primeira vida, era aqui que a briga teria começado. Mas agora, eu apenas assenti em silêncio.

— Minhas desculpas.

Levei a xícara de volta para a cozinha, espremi mais suco de limão e voltei. Coloquei-a de volta na frente dela sem uma palavra.

Ela tomou outro gole.

— Agora está azedo demais. — Ela suspirou dramaticamente, colocando a xícara na mesa com um baque. — Minha garganta é muito sensível. Suponho que seja pedir demais uma simples xícara de chá.

Eu podia sentir os olhos de Ricardo em mim, esperando minha reação. Podia sentir a raiva, quente e familiar, subindo no meu peito. Eu queria jogar o chá escaldante em seu rosto presunçoso.

Em vez disso, respirei fundo. Peguei o açucareiro na bandeja, peguei uma colher limpa e uma pequena quantidade de açúcar. Ofereci a ela.

— Você pode adicionar o quanto quiser, Dra. Ferraz — eu disse, minha voz neutra. — Assim, ficará perfeito para você.

Foi um pequeno ato passivo-agressivo, mas foi o suficiente.

Os olhos de Cristina se arregalaram, primeiro de surpresa, depois de fúria. Ela se virou para Ricardo, seu rosto instantaneamente se contorcendo em uma máscara de mágoa e traição.

— Ricardo! — ela gritou, a voz trêmula. — Você viu isso? Ela está sendo grosseira comigo. Depois de tudo que eu fiz por você!

Ela se levantou, as mãos cerradas em punhos.

— Não posso ficar aqui! Eu me esforço tanto para te ajudar, para controlar sua condição, e sua noiva me trata assim! Se ela vai ficar aqui, então eu vou embora! Você pode encontrar outra terapeuta!

Eu quase ri. Era sua jogada favorita. A ameaça de ir embora. Sempre funcionava. Ricardo tinha pavor de ser abandonado, pavor de sua própria mente sem ela para "gerenciá-la".

Abri a boca para me defender, para apontar o absurdo de sua queixa.

— Ricardo, foi ela quem...

— Já chega, Helena! — A voz de Ricardo foi afiada, me cortando.

Ele se colocou entre nós, de costas para mim, de frente para Cristina. Toda a sua postura era protetora.

Ele virou a cabeça, seu olhar frio e duro.

— Peça desculpas para a Cristina.

As palavras me atingiram como um golpe físico. Eu o encarei, incrédula. Ele não podia estar falando sério. Ele tinha visto tudo. Ele sabia que ela estava mentindo, me provocando.

— O quê? — sussurrei.

— Eu preciso dela, Helena — ele disse, sua voz baixando, assumindo um tom suplicante que ele usava quando queria me manipular. — Você sabe que preciso. Minha recuperação depende dela. Apenas... por mim. Por favor. Peça desculpas e podemos superar isso.

Ele estava me pedindo para engolir meu orgulho, para validar uma mentirosa, tudo por suas próprias necessidades egoístas. Era sempre sobre as necessidades dele.

Lembrei-me de uma vez, anos atrás, antes do acidente. Alguém em uma festa fez um comentário grosseiro sobre meu vestido. Ricardo ouviu. Ele calmamente se aproximou, repreendeu o homem com algumas palavras quietas e cortantes, e depois me levou embora, seu braço um círculo quente e protetor ao meu redor. Ele tinha sido meu cavaleiro de armadura brilhante.

Agora, aquele cavaleiro exigia que eu me curvasse ao dragão.

O que restava do amor que eu sentia pelo homem que ele foi um dia... se desfez em cinzas naquele exato momento. Desmoronou e foi levado pelo vento, não deixando nada além de uma determinação fria e dura.

Ele não me amava. Ele nem mesmo me respeitava. Eu era apenas uma posse, um conforto familiar que ele estava disposto a sacrificar por um novo, mais útil.

Tudo bem. Eu interpretaria o papel. Por mais sete dias.

— Você está certo — eu disse, minha voz desprovida de emoção. Olhei por cima dele, para o rosto triunfante de Cristina. — Me desculpe, Dra. Ferraz. Foi um erro meu.

As palavras pareciam veneno na minha boca.

Eu não aguentava mais ficar naquela sala por nem mais um segundo.

— Estou me sentindo cansada — eu disse, virando-me. — Vou me deitar.

Saí da sala, sem esperar por uma resposta, e fugi escada acima, o som da voz suave e apaziguadora de Ricardo acalmando sua preciosa terapeuta me seguindo por todo o caminho.

Capítulo 3

De volta ao meu quarto — nosso quarto —, comecei a tirar minhas roupas do armário. Dobrei-as cuidadosamente e as coloquei em uma mala que havia escondido debaixo da cama. Fotos da nossa vida juntos estavam na mesa de cabeceira. Peguei o porta-retrato de prata e encarei os rostos sorridentes de duas pessoas que não existiam mais. Com um movimento do pulso, coloquei-o virado para baixo.

Ricardo me encontrou assim, cercada por pilhas de roupas e memórias. Ele veio por trás de mim e envolveu seus braços em minha cintura, me puxando contra seu peito.

— Ainda está brava comigo, querida? — ele murmurou em meu cabelo, seu tom suave e persuasivo. Ele achava que isso era um simples chilique.

Ele achava que algumas palavras doces e uma consciência culpada poderiam consertar qualquer coisa.

Eu queria empurrá-lo para longe, gritar para ele nunca mais me tocar. Mas eu não podia. Ainda não. Inclinei-me para trás contra ele, uma submissão silenciosa e odiosa.

— Não — eu disse, minha voz neutra. — Não estou brava.

Ele claramente não acreditou em mim. Ele suspirou, um som de quem sofre há muito tempo. — Eu sei que hoje foi difícil. A Cristina pode ser... intensa. Mas ela é essencial para a minha saúde. Deixe-me compensar você.

Ele me virou para encará-lo. — Há um leilão de caridade hoje à noite no Fasano. Vista-se. Vamos comprar algo bonito para você. O que você quiser.

Ele achava que podia comprar meu perdão. Ele sempre achava.

— Eu não quero ir — eu disse, minha voz firme.

Seu aperto em meus braços se intensificou, seu sorriso se transformando em uma linha fina e dura. — Nós vamos, Helena. Não é um pedido.

Ele sustentou meu olhar, seus olhos escuros com um aviso. Ele estava me desafiando a desafiá-lo. Desviei o olhar primeiro. Não adiantava lutar essa batalha. Eu perderia, e isso só o deixaria mais desconfiado.

— Tudo bem — eu disse, a palavra seca.

Ele me tirou de casa à força e me colocou em seu carro. No leilão, ele fez um show de me mimar, comprando um colar de diamantes por um preço que fez a multidão suspirar.

— Ricardo Bastos é um marido tão dedicado! — uma mulher sussurrou atrás de nós. — Ele a mima demais.

Eu a ouvi e senti uma risada amarga borbulhar em minha garganta. Me mimar? Ele me cobria de joias e roupas de grife em público, uma fachada brilhante para esconder a verdade feia do que ele fazia comigo em particular. Ele me comprou um celular novo depois de espatifar o antigo contra a parede. Ele me comprou um carro novo depois de amassar a porta do motorista com o punho.

Este colar era apenas mais um dinheiro para me calar.

Eu conhecia essa dança. Após a demonstração pública de afeto, ele voltaria sua atenção para Cristina, e eu seria esquecida. Na minha vida passada, ele acabaria me empurrando na frente de um carro por ela. Essa memória era uma pedra fria no meu estômago.

Eu não aguentava. — Preciso de um pouco de ar — murmurei e escapei para o banheiro.

Quando voltei, ele havia sumido. Uma comoção do outro lado do salão chamou minha atenção. Abri caminho pela multidão, uma sensação de pavor se enrolando no meu estômago.

E lá estava ele. Ricardo tinha um homem prensado contra a parede, seu rosto contorcido em uma máscara de fúria.

— Nunca mais toque nela — Ricardo rosnou.

O homem no chão balbuciava: — Me desculpe, Sr. Bastos, eu só esbarrei nela, eu juro!

Cristina estava por perto, seu vestido ligeiramente desalinhado, uma mão pressionada no peito como se estivesse aterrorizada. Seus olhos, no entanto, eram frios e calculistas.

As pessoas estavam sussurrando. Alguém perto de mim explicou a cena. O homem, um executivo bêbado, havia tropeçado em Cristina. Ricardo viu e perdeu a cabeça, acusando o homem de agredi-la. Ele estava bancando o herói.

Era o mesmo jeito que ele costumava me proteger. O pensamento foi como um soco no estômago.

— Ela é minha terapeuta, está sob minha proteção! — Ricardo rugiu, sua voz ecoando na sala subitamente silenciosa. Ele estava estabelecendo sua posse. — Quem a desrespeita, me desrespeita.

Ele envolveu um braço protetor nos ombros de Cristina e começou a levá-la embora.

Então, tudo aconteceu de uma vez.

O executivo no chão, humilhado e enfurecido, levantou-se cambaleando. Ele tirou um objeto pequeno e brilhante do bolso. Uma faca.

— Ricardo, cuidado! — gritei, minha voz rouca de instinto.

Ricardo me ouviu. Ele se virou. Mas em vez de tirar Cristina do caminho, ele reagiu com um pragmatismo frio e brutal. Ele puxou meu braço com força, me jogando diretamente na frente dele, usando meu corpo como um escudo para proteger a si mesmo e a Cristina.

Uma dor excruciante, branca e quente, explodiu na minha lateral.

Olhei para baixo. O cabo da faca estava saindo do meu abdômen. O rosto do homem era uma máscara de choque.

O mundo girou. Minha visão se afunilou.

A última coisa que vi foi o rosto de Ricardo, pálido com um lampejo de algo que poderia ter sido pânico, enquanto ele chutava o agressor para longe e seus braços me envolviam.

— Helena! — ele gritou, sua voz tensa de alarme. — Meu Deus, Helena!

Ele era um "marido amoroso" novamente. A ironia era tão espessa que eu podia senti-la, metálica e amarga, como o sangue subindo na minha garganta.

Então tudo ficou preto.

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