Alice Barros POV:
"É seu?" Minha voz era quase um sussurro, mas cortou o silêncio da sala. "Essa criança, dentro dela, é sua?"
Davi se encolheu, um tremor visível percorrendo seu corpo. Ele deu outro passo hesitante, buscando minha mão. "Alice, por favor, não vamos tomar decisões precipitadas. Podemos conversar sobre isso. Podemos consertar isso."
Puxei minha mão, uma onda visceral de repulsa me invadindo. "Consertar isso?" Minha voz falhou, as lágrimas finalmente brotando em meus olhos. "Não há nada para consertar, Davi. Está quebrado. Irreparavelmente. Eu quero o divórcio."
Meu corpo inteiro tremia, um calafrio violento que não tinha nada a ver com o frio. Era o choque, a traição, a magnitude pura de seu engano. Seis anos. Seis anos da minha vida, minhas esperanças, minha dignidade, tudo transformado em uma piada cruel. Bruna. Claro. Não foi um caso qualquer. Davi e Bruna tiveram algo na faculdade, um romance apaixonado e volátil que todos pensavam ter acabado em chamas. Mas incêndios, eu percebi agora, podiam reacender.
"Você voltou para ela", engasguei, as palavras presas na garganta. "Você voltou para sua namoradinha da faculdade e fez um bebê com ela enquanto eu estava derramando meu coração e alma tentando conceber nosso filho. Enquanto eu estava tomando aquelas pílulas, suportando aquelas injeções, deixando os médicos me cutucarem e me examinarem, acreditando em nós."
"Não, Alice, não foi assim!" A voz de Davi estava rouca. Ele caiu de joelhos, um baque nauseante contra o chão de mármore polido. Sua mão voou para cima, atingindo sua própria bochecha, um som agudo e seco. "Por favor, Alice, me perdoe! Foi um erro! Um erro terrível e imperdoável, eu sei, mas eu juro... eu te amo! Você é minha esposa! Aquele bebê... não significa nada! Eu posso fazer ela se livrar dele, Alice, eu juro! Apenas, por favor, não me deixe!" Ele se bateu de novo, mais forte desta vez, seus olhos suplicantes.
Meu estômago se revirou. A visão dele, se humilhando, se autoflagelando, era grotesca. "Se livrar dele?", zombei, um som amargo e oco. "Então, você sacrificaria seu próprio filho apenas para manter essa farsa? Apenas para evitar enfrentar as consequências de suas ações?" A ironia era profunda. Ele podia descartar uma vida tão facilmente, uma vida que ele criou, quando se tornou inconveniente. No entanto, por seis anos, ele me viu sofrer, ansiando por um filho que ele secretamente sabia que já estava criando com outra pessoa.
Ele olhou para mim, seus olhos avermelhados e injetados. "Foi... foi porque você não podia me dar um filho, Alice. Minha mãe, a família... a pressão era imensa. Eu precisava de um herdeiro. E a Bruna... ela estava lá. Foi um momento de fraqueza, eu juro."
A amargura se transformou em um ácido escaldante na minha garganta. Ele me culpou? Minha infertilidade, minha luta, era a justificativa para sua traição? A ideia de que ele poderia usar minha dor mais profunda como desculpa para suas ações abomináveis era uma ferida nova e mais profunda. Minha mente correu, juntando momentos, percebendo a linha do tempo. Bruna começou como minha coach há pouco mais de três meses. Quando o "momento de fraqueza" aconteceu? Enquanto ela me treinava? Enquanto eu estava vulnerável, esperançosa, confiante?
"Eu não posso acreditar nisso", sussurrei, as palavras quase inaudíveis. "Você quer um herdeiro, Davi? Então você tem um. Com a Bruna. Considere seu desejo realizado. Estou indo embora. Você pode ter seu herdeiro e sua 'coach de bem-estar'. Estou fora." Minha voz era plana, oca, desprovida de qualquer sentimento além de um profundo cansaço.
Os olhos de Davi se arregalaram novamente, cheios de uma nova onda de terror. "Não! Alice, não, você não pode!" Ele se levantou de um salto, correndo em direção a um abridor de cartas decorativo em sua mesa. Antes que eu pudesse reagir, ele cravou a lâmina afiada e ornamentada em seu antebraço, arrancando um suspiro de mim enquanto o sangue imediatamente florescia em sua camisa branca impecável. "Olha! Olha o que você está me fazendo fazer, Alice! Eu não posso viver sem você! Eu vou morrer se você me deixar!"
Um grito estridente cortou o ar. "Davi! O que você está fazendo?!"
Bruna.
Ela invadiu a sala, o rosto pálido, a mão voando para a boca. Seus olhos, arregalados de horror, saltaram do braço sangrando de Davi para o meu rosto atordoado. "Sua monstra! O que você fez com ele?!", ela gritou, sua voz inesperadamente forte apesar de sua aparente angústia.
Antes que eu pudesse processar suas palavras, ela estava em cima de mim. Suas mãos, surpreendentemente poderosas, me empurraram com força no peito. Cambaleei para trás, minha cabeça batendo na quina afiada de um pesado aparador antigo. Uma dor lancinante explodiu atrás dos meus olhos, e senti um líquido quente e pegajoso escorrendo pelo meu pescoço. Minhas pernas cederam, e eu desabei no chão, vagamente ciente do barulho do abridor de cartas caindo da mão de Davi.
Minha visão embaçou, a sala girando. Eu podia ouvir a voz frenética de Davi, mas não era dirigida a mim. "Bruna! Você está bem? Você se machucou?" O chão parecia frio sob mim, e o mundo começou a desaparecer.
Alice Barros POV:
Minha cabeça latejava, uma dor surda e insistente que rapidamente se transformou em uma dor ofuscante. Enquanto minha visão tremeluzia, vi Bruna agarrando o estômago, um suspiro teatral escapando de seus lábios. Estava claro que ela estava se fazendo de vítima, exagerando qualquer desconforto menor que sentiu com o impacto da minha queda, se é que sentiu algum. Davi, alheio ao sangue que escorria da minha própria cabeça, correu para o lado dela, seu rosto uma máscara de preocupação frenética.
"Bruna, querida, você está bem? O bebê? Meu filho?", ele gaguejou, suas mãos pairando ao redor dela, sem ousar tocar. O medo em sua voz era palpável, um contraste gritante com o olhar distante, quase indiferente, que ele me dera momentos antes.
Ele a pegou no colo, seus movimentos surpreendentemente rápidos, e foi em direção à porta. Ao passar por mim, deitada no chão de mármore frio, ele parou por uma fração de segundo. "Alice, eu... eu vou mandar alguém voltar para te buscar. Precisamos levar a Bruna para o hospital." Ele não olhou para mim, seu olhar fixo no rosto pálido e triunfante de Bruna. Suas palavras eram ocas, a preocupação um verniz fino sobre sua necessidade desesperada de proteger sua nova família. Então ele se foi, seus passos ecoando pelo corredor e para fora de casa.
Deixada sozinha, o silêncio na sala era ensurdecedor, pontuado apenas pela pulsação rítmica na minha cabeça e pelo som da minha própria respiração irregular. Minha mão, quando a levantei cautelosamente, voltou coberta de sangue. Um corte grande, percebi, provavelmente estava aberto na parte de trás do meu crânio. A dor irradiava por todo o meu corpo, fazendo cada músculo gritar em protesto enquanto eu tentava me levantar. Era inútil. Minha visão turvou, e uma onda de náusea me invadiu.
Um pensamento desesperado e irracional arranhou minha mente. E se eu não a tivesse empurrado? E se ele realmente tivesse me escolhido? E se ele tivesse sacrificado o bebê por mim? Era uma esperança tola e fugaz, nascida de anos de amá-lo. Mas então eu vi seu rosto, o medo cru por ela e pelo bebê deles, a maneira como ele a embalou, como ele rapidamente se esqueceu de mim. Ele nem sequer olhou para mim de verdade. Minha esperança, frágil como era, murchou e morreu.
Uma única lágrima, fria e cortante, traçou um caminho através do sangue e da sujeira em minha bochecha. Tinha acabado. Realmente acabado.
Alguns minutos depois, que pareceram uma eternidade, os sons abafados da equipe da casa ficaram mais altos. A Sra. Joana, nossa governanta de longa data, entrou, seu rosto empalidecendo para um branco fantasmagórico quando me viu. "Sra. Barros! Meu Deus! O que aconteceu?" Sua voz estava carregada de alarme genuíno, um contraste gritante com a dispensa apressada de Davi.
As horas seguintes foram um borrão de luzes piscando, vozes urgentes e mais dor lancinante. Lembro-me de ser cuidadosamente levantada em uma maca, os solavancos enviando novas ondas de agonia pela minha cabeça. A viagem de ambulância foi uma cacofonia de sirenes e a conversa silenciosa e eficiente dos paramédicos.
"Davi Medeiros, certo?", ouvi um deles dizer, um murmúrio baixo perto da minha cabeça. "O bilionário. Ouvi dizer que a ex-namorada dele, Bruna Rocha, está grávida do filho dele. Grande escândalo."
"É, o boato é que a esposa, Alice, era infértil. Deve ser por isso que ele voltou para a antiga paixão."
Suas palavras, casuais e insensíveis, martelaram em minha mente já fraturada. Então, a história já havia se espalhado. A narrativa já estava formada. Eu era a esposa estéril, facilmente substituível. A dor na minha cabeça não era nada comparada à agonia fresca que essas palavras infligiram ao meu coração.
Na sala de cirurgia, as luzes brilhantes acima pareciam queimar minhas retinas, mesmo através das minhas pálpebras fechadas. Cada ponto, cada limpeza antisséptica, parecia uma nova traição. Meu corpo estava dormente, mas minha mente era um campo de batalha de sonhos desfeitos e raiva ardente.
Justo quando a anestesia começou a me puxar para um esquecimento nebuloso, ouvi vozes familiares do lado de fora da sala de recuperação. Uma cacofonia de sussurros abafados e tons agudos. Quando finalmente recuperei totalmente a consciência, grogue e desorientada, o primeiro rosto que vi foi o de Gisele Medeiros, seus lábios finos em uma linha severa.
"Alice, sério", ela começou, sua voz fria como gelo, desprovida de qualquer preocupação genuína com meu bem-estar. "Você precisa mesmo ser tão dramática? Causando uma cena dessas, se machucando no processo. E a Bruna, coitada, está em estado de choque. Carregando o filho de Davi, nosso herdeiro, e você a faz passar por isso." Ela nem sequer reconheceu as bandagens em volta da minha cabeça. Seus olhos, em vez disso, estavam fixos em algum ponto além de mim, como se eu fosse apenas um obstáculo incômodo. "Você sabia o que se esperava de você quando se casou com esta família. Uma linhagem forte, um legado. Você falhou em fornecer isso. Você realmente achou que Davi não procuraria em outro lugar?"
Minha própria mãe, de pé ao lado de Gisele, torcia as mãos. "Alice, querida", disse ela, sua voz pingando falsa simpatia. "Seu pai e eu entendemos que isso é difícil, mas a Sra. Medeiros está certa. Você precisa pensar na família, no pobre Davi. Ele está tão angustiado. E o seu irmão, Marcos? As despesas médicas dele... os Medeiros têm sido tão generosos." Seus olhos suplicavam, um olhar desesperado que gritava sobre a alavancagem financeira que os Medeiros tinham sobre minha família. Eles precisavam do dinheiro para o tratamento especializado de Marcos, e eu era o peão deles.
Meu padrasto interveio: "Sim, Alice. Não seja egoísta. Você se casou com uma família poderosa. Essas coisas acontecem. Davi é um bom homem. Você precisa fazer as pazes com isso."
Meu pai, geralmente quieto, acrescentou seu próprio suspiro de decepção. "Nós sempre te ensinamos a ser sensata, Alice. Não jogue tudo fora por... por uma explosão emocional."
Um após o outro, eles se amontoaram, suas palavras como pedras atiradas em meu espírito já quebrado. Nenhum deles perguntou sobre meu ferimento. Nenhum deles mostrou um pingo de preocupação genuína por mim. Era tudo sobre Davi, Bruna, o bebê, o legado da família, o dinheiro, o inconveniente que eu havia causado. Eu não era nada além de um recipiente, um quebrado, e agora eu era um problema.
Lágrimas quentes escorreram por minhas têmporas, ardendo na ferida da minha cabeça. Eu estava completamente sozinha.
Então, uma voz, crua e embargada de emoção, cortou o barulho. "Parem! Todos vocês, apenas parem!" Era Davi. Ele estava na porta, o rosto pálido, os olhos injetados, o braço ainda enfaixado. "A culpa é minha. De tudo. Deixem a Alice em paz."