Ele estava ali, uma silhueta perfeitamente alinhada contra as luzes fluorescentes e duras do corredor da clínica. O Bernardo Lacerda na minha frente era um estranho. O relógio caro em seu pulso, o cálculo frio em seus olhos, a aura de poder — não havia nada do homem gentil e trabalhador com quem eu pensei ter me casado.
"Tudo bem", ouvi a mim mesma dizer, minha voz pequena. Eu era apenas uma terapeuta de origem modesta. Que escolha eu tinha?
Ele me levou para fora, até um carro preto e elegante que provavelmente custava mais que todo o meu prédio. Um motorista abriu a porta para mim.
O interior cheirava a couro caro e a um perfume que não era o meu. Uma almofada rosa e fofa com as iniciais 'E.B.' bordadas em dourado estava no assento. Evelyn Bittencourt. Claro.
Senti uma onda de algo — não exatamente raiva, mais como uma dor surda e latejante. Peguei a almofada e a coloquei no tapete do carro, um pequeno e patético ato de desafio.
Meu Bento — o homem que eu conhecia — dirigia uma caminhonete velha que sempre cheirava a serragem e café. Ele economizou por um ano para trocar os pneus gastos. Este carro, esta vida, era de outro universo.
A viagem foi silenciosa. A tensão no pequeno espaço era sufocante. Olhei pela janela para as luzes da cidade se transformando em borrões, sentindo como se estivesse em um filme, não na minha própria vida.
Ele me levou ao Fasano, o restaurante mais exclusivo da cidade. O tipo de lugar com uma lista de espera de seis meses.
Meu coração se apertou. Bento e eu tínhamos passado por este lugar uma vez. Eu tinha pressionado o rosto contra o vidro como uma criança, admirando os lustres de cristal e os clientes elegantemente vestidos.
"Um dia, Lice", ele prometeu, envolvendo meu ombro com o braço. "Quando meu grande projeto der certo, eu te trago aqui. Vamos pedir tudo do cardápio."
Agora, aqui estava eu. Mas o sonho havia se transformado em um pesadelo.
Eu me senti deslocada em meu vestido de trabalho simples em meio ao mar de seda e joias. Bernardo, no entanto, se encaixava perfeitamente. O maître o cumprimentou pelo nome, curvando-se ligeiramente.
Fomos levados a uma mesa reservada com vista para toda a cidade. Bernardo pediu para nós dois em francês fluente, sem nem se dar ao trabalho de perguntar o que eu queria.
Ele esperou até que o garçom tivesse servido o vinho e se retirado para finalmente falar. Sua voz era tão fria quanto o gelo nos copos de água.
"Quando você descobriu?"
Eu o encarei, minha taça de vinho tremendo na minha mão. "Hoje", sussurrei. "Na clínica. Quando ela me mostrou sua foto."
Ele assentiu lentamente, sua expressão indecifrável. "Entendo." Ele empurrou uma taça de vinho em minha direção. "Beba."
Não era uma sugestão. Era uma ordem.
"Preciso que você seja inteligente sobre isso, Alice", disse ele, sua voz baixa e perigosa. "Evelyn e eu vamos nos casar. Nossas famílias planejam isso há anos. Você foi... uma complicação imprevista."
Minha respiração falhou. "Uma complicação?"
Ele se inclinou para frente, seus olhos fixos nos meus. "O que estou propondo é que você continue a ser minha esposa. Em segredo, é claro. Você pode ficar com o apartamento. Eu lhe darei uma generosa mesada. Tudo o que você precisa fazer é ficar quieta. Se comportar."
A audácia daquilo me tirou o fôlego. "Você quer que eu seja sua amante?", perguntei, as palavras com gosto de veneno. "Sua esposa secreta, escondida enquanto você vive sua vida real com ela?"
Um sorriso cruel tocou seus lábios. Não alcançou seus olhos. "Não se iluda, Alice. Isso não é sobre amor ou desejo. Eu não sinto nada por você. Meu corpo não sente nada por você. Pense nisso como um... pacote de demissão. Um pagamento por serviços prestados."
Serviços prestados. Ele estava falando dos dois anos em que eu o amei, cuidei dele, construí uma vida com ele.
"Você me salvou", ele continuou, seu tom transacional. "Sou grato. Então, vou pagar essa dívida. Diga o seu preço. Um cheque. Uma casa. O que você quiser. Então você desaparece."
A dor era tão intensa que parecia física, como um punho apertando meu coração. Mas meu treinamento entrou em ação. Mantive meu rosto uma máscara em branco. Eu não o deixaria me ver quebrar.
"E a nossa certidão de casamento?", perguntei, minha voz tremendo um pouco. "Isso não significa nada?"
Ele zombou, um som curto e agudo de desprezo. "Aquele pedaço de papel? Não tem valor. Eu o assinei quando não tinha memória de quem eu era. Foi um erro. Um produto das circunstâncias."
"Os sentimentos eram reais, Bento", eu implorei, o nome escapando antes que eu pudesse evitar.
Seu rosto endureceu. "Meu nome é Bernardo. E o 'Bento' pode ter sentido algo por você. Mas eu não sou o Bento. Nossos mundos são diferentes demais. Nós nunca fomos feitos para ficar juntos."
Ele tomou um gole de seu vinho, seu olhar inabalável. "Eu não vou magoar a Evelyn. Ela está me esperando há dois anos. Ela não merece ser magoada."
E eu? O que eu merecia?
Lágrimas ardiam atrás dos meus olhos, mas eu as engoli. Eu não choraria na frente dele. Levantei o queixo.
"Tudo bem", eu disse, minha voz fria. "Eu aceito o dinheiro."
Se ele ia reduzir nosso amor a uma transação, então eu pegaria o que me era devido. Ele me devia pelos dois anos da minha vida que eu lhe dei, pelas dívidas que contraí para pagar suas contas médicas quando o encontrei.
Um olhar de alívio passou por seu rosto. "Ótimo. Meu advogado vai redigir um contrato."
"E o restaurante?", perguntei, um gosto amargo na boca. "Você me trouxe aqui. O lugar que eu sempre quis vir."
Por um momento fugaz, algo piscou em seus olhos. Um fantasma do homem que eu conhecia. "Eu me lembrei que você queria vir aqui", disse ele, quase suavemente.
Meu coração deu um estúpido e pequeno pulo.
Então seu telefone tocou.
O toque era a voz de uma mulher, doce e risonha. "Bernardo, meu amor, atende!" Era Evelyn.
O lampejo de calor em seus olhos desapareceu, substituído por uma preocupação instantânea. Ele atendeu imediatamente.
"Evelyn? O que foi?" Sua voz estava cheia de uma ansiedade terna que ele nunca havia me mostrado, nem uma vez desde que "voltou".
Eu não conseguia ouvir o lado dela da conversa, mas seu rosto ficava cada vez mais tenso.
"Ok. Não se mexa. Estou a caminho", disse ele, desligando.
Ele se levantou abruptamente, agarrando meu braço. "Vamos. Temos que ir."
"Ir para onde? O que aconteceu?"
"Evelyn teve um pesadelo. Ela está com medo", disse ele, me puxando para fora do restaurante tão rápido que quase tropecei.
Um pesadelo. Ele estava me arrastando para fora do nosso "jantar de negócios" porque sua noiva teve um sonho ruim. O absurdo daquilo era impressionante.
Chegamos a uma enorme propriedade que mais parecia um castelo em uma colina. Ele não diminuiu a velocidade, apenas me puxou pela grande entrada e subiu uma escadaria imponente.
"Ela precisa de uma terapeuta", disse ele, a voz tensa. "Essa é você. Vá acalmá-la."
Ele me empurrou em direção a um par de portas duplas ornamentadas. Ele estava me usando. Eu não era sua esposa, nem mesmo uma memória. Eu era uma ferramenta para acalmar sua preciosa noiva.
Ele abriu as portas. Evelyn, vestindo um robe de seda, estava sentada em uma cama gigantesca. No momento em que viu Bernardo, ela saiu da cama e se jogou em seus braços, ignorando completamente minha presença.
"Bernardo! Eu tive o sonho mais horrível!", ela lamentou. "Sonhei que você me deixava!"
"Nunca", ele murmurou, acariciando seu cabelo. Ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou profundamente. "Eu te amo. Eu sempre vou te amar."
Ele se afastou e desabotoou o topo de sua camisa, revelando seu peito. Ali, sobre seu coração, havia uma tatuagem. Um desenho delicado e intrincado de uma única rosa desabrochando com a letra 'E' entrelaçada no caule.
"Está vendo isso?", ele disse a ela, sua voz um zumbido baixo de devoção. "Eu fiz isso para você, meu amor. Um símbolo do meu coração, que pertence apenas a você."
Eu olhei para a tatuagem, e o último resquício de ar deixou meus pulmões.
Um ano atrás, Bento tinha chegado em casa com aquela mesma tatuagem. Ele me disse que era uma rosa para mim, porque disse que meu amor o permitiu florescer novamente. Ele disse que a inicial significava 'Eternidade'. Ele mentiu. Significava Evelyn.
Sempre foi para Evelyn.
Virei-me para sair. Não conseguia respirar naquele quarto por mais um segundo.
"Onde você pensa que vai?", a voz de Bernardo era afiada, cortando minha névoa de dor.
"Meu trabalho está feito", eu disse sem me virar. "Ela parece bem agora. Não tenho obrigação de ficar."
"Você tem, se quiser isso de volta", disse ele friamente.
Eu me virei. Ele estava segurando algo. Uma pequena caixa de madeira.
Meu coração despencou. Era a caixinha de música do meu pai. A única coisa que me restava dele. Eu pensei que a tinha vendido um ano e meio atrás para uma loja de penhores para cobrir o resto das contas médicas de Bento. Aquilo partiu meu coração, mas eu teria feito qualquer coisa por ele.
E ele a tinha. Ele a teve o tempo todo.
"Fique", ele ordenou, seus olhos como lascas de gelo. "Ou você nunca mais a verá."
Dei um passo em direção à cama, meus olhos fixos na caixinha de música na mão de Bernardo. Aquela pequena caixa de madeira continha a última peça tangível da memória do meu pai.
Quando me aproximei, um travesseiro voou pelo ar e me atingiu em cheio no rosto.
"Tire ela daqui!", Evelyn gritou, seu rosto contorcido de ciúme e fúria. "Não quero vê-la! Bernardo, você trouxe outra mulher para o meu quarto!"
"Amor, acalme-se", disse Bernardo, sua voz um murmúrio suave destinado apenas a ela. "Ela é só uma terapeuta. Eu a chamei para você."
"Eu não a quero! Quero que ela suma! Fora! Fora!", Evelyn gritou, apontando um dedo trêmulo para mim. Ela era como uma criança mimada fazendo birra.
Bernardo me lançou um olhar de puro gelo. "Você a ouviu", ele me disse, sua voz seca. Ele então se virou para os dois seguranças enormes parados perto da porta. "Tirem-na da minha casa."
Não tive tempo de reagir antes que os guardas agarrassem meus braços. Eles foram rudes, seus dedos cravando na minha pele enquanto me arrastavam para fora do quarto, pela grande escadaria e para fora da porta da frente.
Eles me empurraram para a entrada de cascalho e bateram a porta atrás de mim.
O ar frio da noite me atingiu como um tapa. Eu estava em uma colina remota, a quilômetros da cidade, sem carro e sem sinal de celular. O vento açoitava meu vestido fino, e comecei a tremer.
Não havia nada a fazer a não ser andar.
Comecei a descer a longa e sinuosa estrada, meus sapatos de festa apertando meus pés. Cada passo era uma nova onda de agonia, tanto física quanto emocional.
Uma memória surgiu, sem ser convidada. Um ano atrás, Bento e eu tínhamos feito uma trilha não muito longe daqui. Eu tropecei e torci o tornozelo. Sem uma palavra, ele se agachou, insistindo em me carregar de volta até a caminhonete. Suas costas eram quentes e fortes.
"Eu sempre estarei aqui para te segurar, Lice", ele sussurrou, seu hálito quente contra minha orelha. "Sempre."
Tropecei em uma pedra solta, meus joelhos batendo com força no asfalto. A dor aguda me trouxe de volta ao presente.
Aquele homem, Bento, se foi. Talvez ele nunca tenha realmente existido. O amor que ele me mostrou, as promessas que fez — pertenciam a um fantasma, um homem sem memória. Bernardo Lacerda se lembrava de tudo, e ele escolheu me esquecer.
A percepção foi uma pedra fria e dura no meu estômago. Acabou. Completa e totalmente acabado.
Levantei-me, minhas mãos arranhadas e sangrando, e continuei minha longa e solitária caminhada montanha abaixo. Lágrimas escorriam pelo meu rosto, congelando no ar frio.
Quando cheguei à estrada principal e consegui parar um táxi, o sol estava começando a nascer.
Entrei no meu apartamento, o lugar que tinha sido nosso lar, e parecia uma tumba.
A primeira coisa que fiz foi ligar meu notebook. Preenchi os formulários de imigração para a Europa, meus dedos voando pelo teclado. Eu precisava sair. Precisava escapar desta cidade, desta vida, desta dor.
Então liguei para minha clínica e pedi demissão, com efeito imediato. Disse a eles que era uma emergência familiar.
Meu telefone tocou enquanto eu fazia uma mala. Era um número desconhecido. Quase ignorei, mas algo me fez atender.
"Alice."
A voz de Bernardo. Fria e imperiosa.
"Preciso que você vá ao Hotel Palácio Tangará. Pegue um vestido para a Evelyn. É para a gala da família Lacerda hoje à noite."
Não era um pedido. Era uma ordem. Ele estava me tratando como uma garota de recados.
"Bernardo", eu disse, minha voz perigosamente baixa. "Você e eu acabamos. O contrato está sendo redigido. Não tenho nenhuma obrigação com você ou sua noiva."
Ele riu, um som baixo e ameaçador. "Você se esqueceu da caixinha de música do seu pai? É uma coisinha frágil. Seria uma pena se algo... acontecesse com ela."
A ameaça pairava no ar, densa e sufocante.
"E já que está nisso", ele acrescentou, "você vai pedir desculpas à Evelyn por tê-la aborrecido ontem à noite."
Meu sangue gelou. "Pedir desculpas? Pelo quê?"
"Por existir", disse ele, sua voz pingando desprezo. "Esteja lá em uma hora." Ele desligou antes que eu pudesse dizer outra palavra.
Fiquei ali, tremendo com uma raiva tão profunda que me deixou sem fôlego. Mas a ideia da caixinha de música do meu pai, a última peça dele, sendo destruída por este monstro... eu não podia suportar.
Vesti um casaco e fui para o hotel.
A suíte ficava no último andar. A porta estava entreaberta. Empurrei-a e entrei, minha mão agarrando a alça da minha bolsa.
E então ouvi suas vozes do quarto.
Congelei, escondendo-me atrás de uma grande planta decorativa na entrada.
"Foi apenas um acidente, meu amor", Bernardo dizia, sua voz tingida de uma doçura melosa que me enjoava. "Meus dois anos de amnésia... encontrá-la, casar com ela... foi tudo um erro. Um desvio infeliz no meu caminho de volta para você."
"Mas você esteve com ela!", a voz de Evelyn era um gemido agudo. "Você a tocou!"
"Apenas uma vez, depois que minha memória voltou", ele disse rapidamente. "E eu juro, pensei que era você. Fui drogado em uma reunião de negócios, estava desorientado. Quando acordei ao lado dela, saí imediatamente. Ela não significa nada para mim, Evelyn. Absolutamente nada. Já a paguei para desaparecer. Você nunca mais terá que vê-la, eu prometo."
Uma mentira. Uma mentira cruel e calculada para se proteger. Naquela noite, ele tinha voltado para casa e feito amor comigo com uma paixão desesperada que eu confundi com amor.
"Sério?", Evelyn perguntou, sua voz suavizando.
"Sério", ele confirmou. "Agora, venha aqui. Senti tanto a sua falta."
Ouvi o farfalhar de lençóis, um gemido suave de Evelyn.
"Bernardo, pare... a prova do vestido...", ela riu.
"A prova pode esperar", ele murmurou, sua voz grossa de desejo. "Eu quero você. Agora."
"Você é tão mau", ela ronronou. "O que você vai fazer com aquela mulher? Aquela que você chamou? Como devemos puni-la?"
Houve uma pausa, então a voz de Bernardo, sombria e indulgente. "O que você quiser, meu amor. O que te fizer feliz."