Capítulo 2

Sentei-me no calçadão e respirei a brisa do mar. Era primavera; o sol aquecia o coração e as flores floresciam nos canteiros. O prédio, no qual eu morava, tinha três andares e seis apartamentos. Ninguém tinha conhecimento, mas eu era a proprietária de tudo aquilo. Os aluguéis dos apartamentos proporcionavam-me uma renda extra. Apesar de ser uma cirurgiã reconhecida na cidade, meu salário não seria suficiente para adquirir um prédio no valor de milhões de euros. Sendo assim, este era um dos meus segredos, bem guardado. 

Cansada da maresia e com a escuridão já se intensificando, dirigi-me para casa, que estava a apenas cem metros dali. 

****

Sem compreender minha própria reação, entrei no apartamento e fui direto para a televisão. Algo me atraía de volta à cerimônia de premiação do famoso festival. Maldita hora em que Candance e todas as enfermeiras daquele setor decidiram assistir à chegada das celebridades. Por que justo naquele momento tive que o ver, após quinze anos passados? 

Sentei-me com uma taça de vinho na mão e aguardei o anúncio da categoria de melhor ator. Jack era o favorito. Apesar de não acompanhar sua carreira, enquanto estive no calçadão, li a respeito. Quando ele subiu ao palco como o grande vencedor da noite e agradeceu ao público, percebi que nunca o havia esquecido, nem por um momento. Deixá-lo foi a decisão mais difícil da minha vida. 

Não me arrependi da escolha. Na época, forcei-me a acreditar que ele não me amava o suficiente para notar o que acontecia nos bastidores e debaixo do próprio nariz dele. Tentei relaxar tomando a garrafa de vinho e deitei-me logo após a saída de Jack do palco. Deitei-me exausta, mas lembranças do passado surgiam e desapareciam. Fragmentos de um passado distante. Lembro que, após vislumbrar seu rosto na minha memória, as últimas palavras que sussurrei antes de adormecer foram:“Hoje sou Lily, médica, cirurgiã neurológica.”

*****

Acordei com Candance fazendo barulho na cozinha. Ela alugava o apartamento número dois e dividia com outras duas enfermeiras. Desde que nos conhecemos, ela nunca mais tomou café da manhã no próprio apartamento. A loira branquela, de nacionalidade francesa, estava preparando panquecas.

— Bom dia, Miss Sunshine — era o modo carinhoso como ela me chamava. Ela dizia que, no primeiro ano da residência, quando entrei no hospital, todos os olhares se voltaram para mim. Minha amiga afirma até hoje que eu brilhava. — Parece que fez uma festa particular aqui. — Falou, levantando a garrafa de vinho vazia, me sentei no sofá, ainda com sono.

— O dia ontem foi tenso, ajudou a relaxar. Por isso dormi tão bem.

— Não é o que suas olheiras dizem. Lily, você sempre está tensa. Preciso repetir isso todos os dias para você, quem sabe você acredita e tenta mudar.

Me levantei e dei-lhe um beijo estalado na bochecha, era sempre assim que eu a fazia calar a boca. Segui para o quarto, entrei no banheiro e fiz a minha higiene matinal. Após estar com a roupa apropriada para a minha corrida, voltei para a cozinha, sentei-me para tomar café. 

— Como foi o plantão? — Perguntei, enquanto ela estava mexendo em seu celular, sentada à mesa.

— Tranquilo. Alguns bêbados pós-festa do festival. Outros malucos machucados, quando se acotovelavam para ver os artistas. Mas, no geral, até consegui dormir um pouco. E você está de folga hoje?

— Sim, vou correr na praia. Ficar em casa, dar uma faxina.

— Só não me acorde, preciso dormir um pouco mais.

— Sim, comandante — falei rindo — mesmo você não morando na minha casa, tentarei não acordá-la.

Tomei uma xícara de café e me levantei, já caminhando para a porta.

— Não vai comer a panqueca? Fiz com tanto carinho. — Ela me disse, fazendo uma carinha de tristeza.

— Quando eu voltar. Com o estômago cheio, não conseguirei cumprir a meta do dia.

— Vou deixar no microondas.

— Obrigada. — Falei, jogando um beijo no ar, saindo do apartamento.

Corri pelo calçadão, dois quilômetros, e parei assustada. Uma multidão estava aglomerada no calçadão em frente ao Ritz Hotel. Cheguei a pensar que fosse algum acidente e estava pronta para ajudar, mas não era isso. Mulheres ensandecidas se acotovelavam para ver alguém que estava na janela. Gritavam, choravam, quase arrancavam os cabelos.

Memórias de um passado, vivido nessas mesmas condições por mim, vieram à tona, mas logo se dissiparam quando levei um esbarrão e acabei no chão. A jovem ficou sem graça e ajudou-me a levantar.

— Desculpe, não queria derrubar você. — Falou a adolescente, com no máximo quinze anos.

— O que está acontecendo aqui? Vocês parecem loucas. — Falei, me levantando irritada.

— O ator Jack Alton está no hotel e irá sair para passear. É a chance de vê-lo mais de perto. Desculpe mais uma vez. — Pediu a garota.

— Tudo bem, sem problema. Só te dou um conselho, pare de viver essa ilusão. — Disse já atravessando a rua para subir pela rota alternativa, rua lateral à direita do hotel, onde não havia ninguém. Tive uma vontade louca de falar sobre as táticas que os atores usavam para enganar as fãs, do tipo daquela que me empurrou. Só não o fiz, pois eu já dera o recado, não a queria deixar mais decepcionada com a realidade por detrás dos bastidores.

Subi pela lateral do Ritz. A intenção era contornar o hotel e voltar para a praia, pela outra rua lateral, onde talvez não houvesse mais aglomeração. Logo que passei pela garagem, um carro em alta velocidade saiu e virou no sentido contrário ao meu. O que me chamou a atenção foi a freada brusca que o motorista deu logo após virar à direita. Aproveitei, até por curiosidade, para ver se algo acontecera, para amarrar os cadarços e me abaixei.

Parei, olhei para trás, mas os vidros pretos me impediam de ver qualquer pessoa no interior do veículo. Depois de arrumar o calçado, o que demorei um pouco mais do que o normal, segui o caminho. Ainda faltavam 4 km para completar o percurso. Falei para Candance: “que era só dois”, mas senti a necessidade de correr muito mais do que isso. A adrenalina estava nas alturas, além de uma suspeita estranha em relação ao automóvel que ficou ali parado por breves segundos. A sensação foi ruim e, ao mesmo tempo, de uma saudade estranha. 

"O que poderia ser?" Foi a pergunta que fiz, durante todo o percurso.

Capítulo 3

Acordei sem ânimo no dia da viagem para Cannes, na França. Pietra, a mais nova namorada e atriz também, sem projeção ainda, estava apenas como acompanhante e, para se mostrar ao mundo, ao meu lado, queria aproveitar para fazer um tour pela Europa. 

Eu estava com o coração apertado, embora não conseguisse explicar o porquê. Tinha sido indicado ao prêmio de melhor ator no festival pelo meu último filme. Isso poderia me consagrar ainda mais, apesar de já ter uma carreira consolidada e dinheiro para várias gerações. Mas, desde o dia em que saiu a lista com os indicados, mesmo que a felicidade inicial tenha surgido, o coração também se apertou. 

Lembro que estava em casa sozinho. Deu uma vontade louca de beber um whisky, vício que adquiri, depois de algumas decepções, mas que com a correria de gravações e algumas críticas ruins, fizeram eu minimizar. Fui até o bar, peguei a garrafa mais cara e abri. Por sorte, Pietra estava arrumando os últimos detalhes para a viagem, e eu também não a deixava dormir em casa todas as noites, não queria compromisso sério. Dei a primeira golada e a imagem de Sara me veio à mente. Ao mesmo tempo que eu a odiava, a amava e a lembrança me corroía por dentro.

Por isso, quanto aos amores, só amei uma única mulher, que partiu sem deixar rastro. A partir desse dia, quinze anos atrás, fechei meu coração, sem chance para qualquer abertura. A imagem dela ainda vinha na cabeça, enquanto o avião voava através do oceano Atlântico.

— Jack, está sonhando acordado? — Perguntou Pietra, entregando-me um copo de uísque.

— Não quero beber, Pietra. Bebi muito ontem. Quero silêncio. Consegue me dar isso por um tempo? — Perguntei, abaixando o encosto do assento de couro do jato particular que nos levava para o sul da França.

— Que bicho te mordeu? Desde ontem de manhã, está de mau-humor. Estamos indo para a Europa, baby. Anime-se.

Não respondi. Coloquei os fones de ouvido, fechei os olhos e adormeci ao som de Vivaldi. Acordei com a comissária trazendo o almoço. Fiquei irritado, mas a coitada não tinha culpa do meu aborrecimento. Outro aperto repentino no peito estava causando isso.

Tive que me segurar ainda mais quando Pietra veio mostrar-me uma série de roteiros de viagem. A única saída era fingir que estava ouvindo e rezar para as horas passarem bem rápido. Por sorte, um tempo depois, Johny, o assessor e amigo, trouxe a agenda para repassar os compromissos do dia seguinte e pouco tempo depois pousamos em Cannes. Quando pisei em solo, a sensação no peito, pela terceira vez, voltou ainda mais forte. Entrei no carro com semblante sério e fechei os olhos. Só voltei à realidade dentro da garagem do hotel. À noite, a tormenta foi pior; tive que fingir que estava dormindo quando Pietra se deitou ao meu lado.

Os compromissos de trabalho começaram cedo: entrevistas, encontros com fãs e almoço com o patrocinador do próximo filme, que já estava com contrato assinado para início das gravações em agosto. Depois de tudo isso, sem nem poder parar para apreciar o mar azul do Mediterrâneo, cheguei ao quarto e Pietra já estava pronta e empolgada para o tapete vermelho. O Jack ator entrou em ação novamente e interpretei que estava ótimo. Ela não merecia pagar porque eu não a amava, nem pelas angústias que estava sentindo. De smoking, desci da limusine e, apesar de gostar de atuar, o som da loucura por um astro era estridente demais. Ficar sorrindo falsamente era ainda pior, mas foi a vida que escolhi. A noite foi minha; ganhei o prêmio, o que já era esperado, mas continuava infeliz. Por isso, não fui a nenhuma festa após o evento.

O difícil foi convencer Pietra. Só consegui quando prometi que no dia seguinte sairíamos apenas nós dois. Nosso relacionamento era morno da minha parte. O sexo era bom e ela era uma boa companhia, mas faltava a cereja, ou a pimenta.

— Jack, aonde vamos amanhã? Estou curiosa. Esse lugar é lindo, tem tanto glamour. — Falou a atriz empolgada, enquanto arrumava uma sacola pequena no quarto.

— Não sei, Pietra. Coloque o que precisar na sacola. Vou decidir na hora. O carro já está na garagem, sairemos pela rua dos fundos do hotel. Agora, será que podemos ir dormir?

— Vá você, meu amor. A mochila de uma mulher precisa de vários acessórios. — Ela falou, beijando-me nos lábios.

Antes que ela quisesse mais alguma coisa, pulei na cama e virei de lado. Demorei para dormir e sonhei com Sara, algo que não acontecia há tempos. O cenário era o nosso antigo quarto; ela estava em frente ao espelho do closet, vestindo-se para a cerimônia do Oscar. Trocamos um último beijo antes que ela evaporasse na realidade do sonho e desaparecesse completamente do meu mundo, na vida real, deixando em mim um vazio no coração, junto com uma explicação chocante em uma carta.

“Preciso fugir desse mundo de falsidade e podridão.”

*****

Acordei assustado e suado. Além disso, perdi o sono. Fui para a sala da suíte master e só consegui dormir uma hora depois, com o som da televisão. Pela manhã, Pietra estava elétrica de empolgação enquanto tomava café. Eu, depois da noite mal dormida, já estava no limite da paciência, mas não terminaria o relacionamento em Cannes; deixaria isso para um tempo após voltarmos para Los Angeles. Planejava dar a ela um tour pela Europa e depois retomar a rotina da vida que havia criado.

Essa era a programação, mas nunca estamos preparados para o que virá. Johny alugou um carro esportivo preto para evitar chamar a atenção. Dispensei os seguranças. Vestindo calça jeans, camiseta e um boné vermelho, e Pietra com trajes rosa, parecendo quase a Penélope Charmosa, descemos para a garagem. Os vidros escurecidos do veículo impediriam que nos vissem.

O assessor mostrou-me a saída dos fundos. Naquele horário, a saída estava aberta apenas para mim. Eram seis da manhã. A rua parecia deserta; pelo menos, não havia carros. Virei à direita, seguindo o comando do GPS, e avistei uma corredora passando. Pietra até falou, gesticulando.

— Acelera, amor, deve ser uma fã desvairada.

— Pietra, ela é uma corredora e está do outro lado da rua. Nem está olhando para o carro. — Falei, ultrapassando a mulher e freando bruscamente logo à frente.

Minha mão suava no volante, e minhas pernas tremiam. Era ela, eu tinha certeza. Sara corria daquele jeito. Era ela.

— Jack, o que aconteceu? Você está tremendo.

Precisava me acalmar e dar partida no carro. Olhei pelo retrovisor mais uma vez e vi que a moça estava amarrando o tênis, olhando na direção do carro. De perfil, não se parecia com minha ex-companheira. Ela sempre gostou de cabelos curtos. Era apenas a ilusão da saudade que corroía.

Segui pela estrada, em direção ao nosso destino.

— Onde estamos indo, amor? — Perguntou Pietra, agora animada novamente. Minhas mãos haviam parado de tremer um pouco.

— Ao Principado de Mônaco.

— Hum, deve ser lindo! Sempre penso na princesa, que um dia foi atriz.

— Que bom que gostou, tente se divertir bastante. — Falei já pensando no término, mas em especial na mulher parecida com Sara. 

Fiz um comando para o cérebro, o avisando para acelerar. Não estava me aguentando de ansiedade. Quem era aquela mulher, que se parecia tanto com Sara?

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