Capítulo 2

Alícia não conseguia afastar a imagem dos olhos dele. Mesmo horas depois, enquanto digitava relatórios e respondia e-mails automáticos, sentia a mesma sensação gelada na nuca. Aquela descarga de memória involuntária, como um sonho que invade o dia - ou um pesadelo que se recusa a morrer.

Ela tentava se convencer de que estava imaginando. De que era apenas a semelhança entre os olhos de Adrian e os olhos que a perseguiram desde os quinze anos. Mas seu corpo não mentia. A reação visceral, a paralisia súbita, o nó na garganta. Não era invenção.

Ao sair da sala de reuniões mais tarde, cruzou com Clara no corredor.

- Ei, você está bem? - perguntou a amiga, franzindo a testa.

- Estou. Só... um pouco tensa. Novo executivo. Nova rotina. Você sabe.

Clara sorriu de lado.

- Se o motivo do nervosismo for o novo executivo, eu te entendo. Ele é bonito de um jeito que irrita. Mas tem aquele ar de quem esconde alguma coisa, não acha?

Alícia não respondeu. Seu silêncio foi o bastante para Clara mudar de assunto.

- Vai passar na minha casa hoje? Fiz bolo de chocolate. Daquele que você gosta.

Ela hesitou por um segundo, mas assentiu.

- Preciso de um pouco de normalidade.

Naquela noite, sentada no sofá da amiga, com uma xícara de chá nas mãos e Lulu, o gato laranja de Clara, enroscado ao seu lado, Alícia tentou explicar.

- Eu acho que conheço ele de algum lugar, Clara.

- O Adrian? De onde?

- Eu... não sei. É só uma sensação estranha. Como se eu já o tivesse visto. Como se algo nele me lembrasse de... coisas que preferia esquecer.

Clara franziu o cenho, preocupada.

- Alícia, você está falando do que aconteceu com seu pai?

Ela assentiu, devagar.

- Eu me lembro dos olhos dele. Os olhos do homem que estava lá. E hoje, por um instante, quando Adrian me olhou... era como se fosse o mesmo olhar.

Clara não soube o que dizer.

Lulu se esticou, ronronando alto, como se tentasse aliviar a tensão que tomava conta do ar.

- Talvez... talvez seja só um trauma antigo confundindo você. Já faz tanto tempo...

- Eu pensei nisso também. Mas não é só isso. Foi como um gatilho. Uma lembrança vindo com força. Não posso ignorar.

Clara segurou sua mão.

- Então prometa que vai tomar cuidado. Que vai observar. Que vai manter a cabeça fria.

Alícia apertou os lábios, o olhar fixo em algum ponto distante da parede.

- Prometo.

Mas no fundo, ela já sabia que estava envolvida demais.

Mais tarde, deitada na própria cama, o sono demorou a chegar. As imagens voltavam em flashes: o escritório do pai, a discussão abafada, o som seco de um disparo. E os olhos. Sempre os olhos.

Quando finalmente adormeceu, sonhou com eles.

E acordou ofegante, como se estivesse sendo observada.

Capítulo 3

O dia seguinte amanheceu chuvoso, como se o tempo refletisse o turbilhão que Alícia sentia por dentro. Ainda era cedo quando chegou à Archer Group. O silêncio dos corredores a confortava mais do que o habitual - era como se o prédio também segurasse a respiração.

Ela não esperava cruzar com Adrian tão cedo. Mas, ao virar o corredor do café, lá estava ele.

- Alícia - disse ele, com um aceno leve e um sorriso que parecia sincero demais para a hora da manhã.

Ela respirou fundo.

- Bom dia, Adrian.

- Dormiu bem?

Ela hesitou.

- Mais ou menos.

- Estou me acostumando com isso também - respondeu ele, apoiando-se casualmente no balcão. - Nova cidade. Nova rotina. Me faz questionar se a insônia é pelo fuso horário... ou por coisas não resolvidas daqui.

Ela sorriu, sem mostrar os dentes.

- E você tem muitas pendências por aqui?

- Não sei - disse, olhando para a xícara de café. - Às vezes acho que sim, mesmo que eu não saiba quais são.

Alícia observava cada gesto. A calma estudada. A forma como ele dizia tudo com uma tranquilidade desconcertante.

Se era mesmo quem ela pensava... era um ator muito convincente.

- E você? - ele devolveu. - Está tudo certo por aqui?

Ela se recompôs.

- Costumava estar. Mas ultimamente... algumas coisas têm mexido comigo. Nada sério. Só memórias.

Adrian assentiu, como quem compreendia mais do que dizia.

- Algumas memórias não ficam no passado, não é?

Ela apenas o encarou.

Aqueles olhos.

Algo neles a desconcertava. Pareciam honestos, e ainda assim, continham a mesma intensidade congelada que a marcara anos atrás.

- Bom, nos vemos mais tarde. Temos uma reunião no fim da manhã - ele disse, afastando-se com um último olhar. - E se precisar conversar, fora dos relatórios e apresentações... eu sou um bom ouvinte.

Ela não respondeu. Só ficou ali, observando-o se afastar.

De volta à sua mesa, Alícia tentava se concentrar, mas as palavras dançavam na tela. Não conseguia parar de pensar no que ele dissera.

"Algumas memórias não ficam no passado."

Ele a estava testando? Ou apenas dizendo uma verdade que, coincidentemente, tocava o que ela mais temia?

Naquela noite, ao chegar em casa, Alícia afundou no sofá com Milo sobre o colo. O gato ronronava alto, quase como um sussurro reconfortante. Acariciá-lo lhe trazia uma serenidade necessária após um dia tão intenso emocionalmente.

Clara ligou pouco depois, como fazia quase todas as noites.

- E aí? Como foi hoje com o misterioso Adrian Archer?

- Nada demais. Mas... eu sinto como se cada conversa com ele fosse um jogo.

- Um jogo?

- Um tabuleiro disfarçado. Como se estivéssemos andando em círculos tentando descobrir quem é quem, sem mover uma única peça.

Clara ficou em silêncio por um instante.

- E você sabe exatamente o que está procurando?

Alícia olhou para o teto, como se a resposta pudesse surgir lá.

- Ainda não. Mas vou descobrir.

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